O namorado da minha melhor amiga.
8 Mais que amigas, irmãs!
Quase quinze dias que não nos falamos e fico pensando até quando isso vai durar. As vezes pego a Bruna olhando para mim de um jeito triste, será que ela sente a minha falta como eu sinto a falta dela? Sinto falta das nossas conversas, das vezes que ela aparecia em casa com um pote de sorvete que a gente comia inteiro enquanto assistia filme, sinto falta até das suas neuroses. Não sou uma pessoa muito organizada e quando a Bruna entrava no meu quarto a primeira coisa que fazia era colocar tudo em seu lugar, isso já foi motivo de muitas discussões, nada que eu falasse a impedia de arrumar o que visse pela frente.
Hoje cheguei em casa chorando, peguei meu note book e fiquei um bom tempo olhando nossas fotos. Parece até o término de um namoro, talvez seja ainda mais doloroso. A Bruna se tornou para mim mais que uma amiga, eu a considerava como irmã e ela insinuar que eu estava dando mole para o namorado dela na frente de todo mundo foi a pior coisa que ela poderia fazer comigo.
Tento distrair a minha mente com outras coisas; faço um bolo, as unhas, hidrato o cabelo, organizo meus livros e limpo os sapatos. Minha mãe chega e pede minha ajuda para subir algumas coisas, desço correndo para ajuda-la.
— Oi mãe – Ela está no estacionamento do prédio, o porta malas do carro está cheio de sacolas – o que é isso tudo?
— Oi filha. São doações para o orfanato, vou dar uma olhada e depois entregar lá.
Desde que eu me conheço por gente a minha mãe ajuda este orfanato. Ajudo ela retirar as sacolas do carro. Escuto alguém se aproximar, mas não me viro para ver quem é.
— Oi dona Suzana – É Miguel, e agora está parado a traz de mim.
Me viro, ele sorri para minha mãe que não retribui o sorriso. Miguel está todo arrumado, veste uma camisa polo azul, uma calça jeans rasgada e tênis. Ele continua sorrindo e olha para mim.
— Oi – digo desanimada.
Não fico feliz por vê-lo. Sinto um enorme vazio com a sua presença ali, quando olho para ele só consigo pensar em Bruna. Meu coração acelera um pouco, mas depois meus batimentos voltam ao normal me lembrando que ele é só um garoto.
Minha mãe cumprimenta Miguel sem muito entusiasmo, mas ela se esforça para ser simpática com ele.
— Como estão seus pais? – Ela pergunta enquanto tiramos as sacolas do carro.
— Muito bem. Posso ajudar com as sacolas?
— Não precisa se incomodar – minha mãe responde.
Miguel pega algumas sacolas perto dos meus pés, ele nos acompanha até nosso apartamento. Com a sua ajuda uma viajem é suficiente para subir tudo.
— Quer beber alguma coisa? – Minha mãe oferece quando ele coloca as sacolas em cima do sofá.
— Não, obrigado.
— Nós agradecemos pela ajuda.
Minha mãe vai para cozinha e nos deixa na sala.
— Queria falar com você – Miguel diz e anda em direção a porta de entrada.
Eu não quero falar com ele. Imagina se a Bruna descobre que ele está em casa de novo e quer conversar comigo. Vou a traz dele decidida a pedir que ele se afaste de mim.
Miguel para quando estamos fora do apartamento, ele olha para mim de um jeito estranho, parece apreensivo.
— A Bruna não explicou o que aconteceu, mas disse que vocês duas não estão se falando.
— Ela que não está falando comigo.
— Aquele dia você foi embora do aniversário de repente. Todo mundo ficou te -procurando e ninguém entendeu muito bem o que aconteceu.
— Se ela não te explicou eu não vou falar nada a respeito.
Cruzo os braços.
— Eu só queria saber se você está bem.
— Eu estou ótima.
Miguel fica me olhando. O que ele realmente quer com essa conversa?
— A Bruna não está muito bem, ela anda muito distante. Talvez seja porque vocês duas estão brigadas, mas você acha que ela pode ter conhecido outra pessoa?
Ah não, não acredito que estou ouvindo isso.
— Acho que você não entendeu muito bem que não estamos conversando. A Bruna me excluiu do seu ciclo de amizade, acho que você deveria perguntar isso para ela.
— É que você deve conhece-la melhor que ninguém.
— Porque você acha que tem outra pessoa?
— Sei lá, parece que ela está escondendo alguma coisa de mim.
Ela deve estar estranha com ele por minha causa. Tudo que eu queria era evitar ficar entre os dois.
— Deve ser porque não estamos bem. Demonstra que você se importa com ela, logo isso vai passar. Vou tentar falar com ela de novo.
— Obrigada. Você é uma ótima amiga.
Não sei se ele diz isso por causa da Bruna ou por causa dele mesmo.
—Obrigada por ajudar com as sacolas. Vou entrar – aponto para a porta e me viro para entrar.
— Aline – Miguel me chama e olho para ele – se souber de alguma me conta.
Eu não falo nada e ele se vai. Será que ele pediu para espionar minha amiga por ele? Se eu souber de que coisa? Não consigo entender muito bem o que ele quis dizer.
Quando entro em casa e fecho a porta minha mãe aparece preocupada pergunta se eu estou bem, se quero conversar ou se preciso de uma xicara de café.
Eu não estou mal, nem preciso conversar, mas o café eu aceito. De repente surgiu uma pulga a traz da minha orelha. Será que a Bruna acha que não deve ficar com Miguel por minha causa? Ou ela conheceu alguém e desencanou dele? Talvez esteja realmente chateada pela nossa amizade. Preciso conversar com ela, saber se ela está bem, deixar bem claro que ela não tem que terminar com Miguel por minha causa. Tudo que eu mais quero é nossa amizade de volta.
...
Na escola a Bruna está sempre rodeada por outras garotas, isso torna muito difícil a minha tentativa de reaproximação, principalmente porque essas garotas agora me odeiam. Eu queria jogar uma bomba e explodir todas elas de uma vez só. Queria ser rica como elas só por um dia, na verdade eu queria ser mais rica que elas só para me vingar. Não gosto de pensar assim, isso só me tornaria igual ou pior que essas meninas mimadas, mas confesso que não acharia ruim vê-las sofrer um pouquinho.
No intervalo não encontro Bruna em lugar nenhum. Pode ser que ela foi embora. Sento afastada dos demais alunos e continuo o livro que estou lendo. Não fico pensando nas pessoas que estão ao meu redor, me concentro na história e esqueço da realidade por alguns minutos até que escuto algumas risadinhas. Tento ignorar, mas as risadas continuam e vão aumentando gradativamente. Olho para ver o que está acontecendo, os alunos estão rindo de mim. Reviro os olhos, será que não posso ficar em paz nem por um minuto? Sei que se eu gritar, ficar nervosa e brigar com todos os imbecis é muito pior.
Um garoto que está sério passa do meu lado e aponta para minha blusa.
— Está suja de tinta – ele diz para mim e passa no meio dos alunos que não param de rir.
Me levanto como se nada tivesse acontecido. Meu pai sempre dizia que nós somos quem pensamos ser. Penso que sou bem melhor que essas pessoas que se matam de rir por uma coisa tão insignificante. Quem se sente bem em humilhar os outros? Graças ao bom Deus eu não sou assim.
Vou para o banheiro no andar de cima. Esta hora não deve ter ninguém lá, então posso limpar a minha blusa em paz. Entro no banheiro e tiro a blusa de frio, jogaram uma tinta verde em mim, pelo cheiro é tinta guache. Tento limpar a blusa com o um papel húmido, não tem nenhum pano no banheiro e o papel esfarela todinho, eu consigo tirar só o excesso da tinta. Molho mais o papel, é obvio que eu não vou conseguir limpar a blusa desse jeito, tudo que eu consigo é pedaços de papel grudado na tinta verde. Esfrego a blusa com raiva e tenho vontade de gritar, tenho raiva desses malditos alunos que se acham no direito de tratar os outros como bem entendem. Controlo minha respiração e digo a mim mesma que está tudo bem, com uma lavagem a blusa estará novinha em folha.
Enquanto tento me acalmar eu escuto alguém fungar. Não estou sozinha no banheiro e pelo jeito a pessoa está chorando.
— Oi – eu digo – está tudo bem? Quer que eu chame ajuda?
Pode ser que a pessoa está passando mal no banheiro. Fico esperando por uma resposta, não tenho nenhuma. Desisto de esperar, pego a blusa que está em cima da pia e caminho em direção a porta. Antes de sair escuto alguns passos e me viro para ver quem é e perguntar se posso ajudar. Quando vejo que é a Bruna que está ali eu fico sem voz. Não consigo dizer nada e nem me mexer, sua maquiagem está toda borrada, os olhos vermelhos e inchados.
Penso que ela vai me ignorar mais uma vez, mas ela anda até mim e quando está perto o bastante ela me abraça. Eu retribuo o abraço, ela chora e eu também choro. Não tenho motivos para chorar, mas sinto que ela tenha e acho que não seja por causa da nossa briga. Acho que se um dia eu pudesse abraçar meu pai de novo seria assim. A Bruna acabou se tornando parte da minha família e eu a amo dessa forma, como se ela fosse sangue do meu sangue. Acaricio seus cabelos e não digo nada, ela vai se acalmando e então se afasta para olhar no meu rosto. O rosto dela está todo sujo de maquiagem e melado pelas lágrimas, o cabelo castanho gruda no rosto, ela está horrível e eu só consigo rir. Seus olhos ficam mais suaves e ela também ri e de repente nós duas estamos rindo uma da outra como duas idiotas.
— Vem cá – digo puxando ela e a abraçando forte – O que aconteceu com você? – pergunto apontando para seus olhos todo borrado.
— Também gostaria de saber – ela vai até a pia e começa a lavar o rosto.
— Se quiser conversar.
— Me desculpa – ela olha para mim – por ter sido a pior amiga de todos os tempos, eu me sinto uma idiota.
— Você é uma idiota.
— Eu sei. Me sinto um lixo. Quando eu soube sobre o Miguel eu fiquei contra você, tratei você da pior forma quando eu deveria terminar com Miguel.
— Você não deveria terminar com ele – eu digo.
— Deveria sim Aline, é isso que as amigas fazem.
— Não Bruna – coloco o cabelo dela a traz da orelha – Amigas são amigas independente de qualquer coisa. Mesmo que um dia você se casasse com um ex-namorado meu, nossa amizade tem que estar a cima desses encontros e desencontros amorosos. Você pode ter vários namorados e pode até casar quantas vezes quiser, assim como eu, mas a nossa amizade é única, entende?
— E eu coloquei meu relacionamento acima da nossa amizade.
— Olha, você me magoou muito com as suas atitudes e não por se apaixonar pelo primeiro garoto que eu amei. Confesso que quando eu soube foi muito confuso para mim, mas isso não significa que você não deve ficar com ele. Você tem que seguir seu coração. Se realmente gosta dele não tem que terminar por minha causa. Se fosse para a gente ficar junto isso já teria acontecido e não aconteceu.
— Você é maravilhosa sabia?
Jogo o cabelo para traz e faço uma cara esnobe.
— Eu sei – Ela ri de mim.
Ajudo ela a limpar aquela maquiagem borrada. A cada minuto ela me pede desculpas e quando conto para ela que jogaram tinta em mim ela se sente mais culpada ainda, acha que é responsável pelo modo que alguns alunos começaram a me tratar depois que a gente se distanciou. Tento deixar bem claro que está tudo bem. Nós duas fizemos as pazes e isso que realmente importa para mim.
Vamos para a sala juntas, e quando algumas garotas nos veem conversando arregalam os olhos.
Alan, o engraçadinho da turma fala bem alto:
— Que calor – Ele aponta para minha blusinha de alcinha.
Quase todos riem da sua piada. Está frio, mas não tem como colocar a blusa, além de estar suja de tinta e com papel grudado agora também está húmida.
Me sento e Felipe me cutuca. Viro para olhar para ele.
— O que aconteceu com a sua blusa? – Ele pergunta olhando para os meus braços que estão arrepiados por causa do frio.
— Jogaram tinta em mim.
Seu rosto se fecha, percebo que ele fica irritado. Felipe se vira e tira da mochila uma blusa de frio azul.
— Sorte sua que eu deixei essa blusa na mochila.
Ele entrega a blusa para mim.
— Não precisa. Nem está tão frio assim.
— Aline, veste logo a blusa.
— Eu não quero.
— Vai dar uma de teimosa agora?
— É sério – ele pega a blusa e enfia na minha cabeça. Eu dou risada.
— Pronto, agora é só enfiar os braços.
— Tá bom – termino de vestir a blusa. É bem quentinha e fofinha.
Percebo que as pessoas estão nos observando. As felipeca’ts – apelido que dei para as garotas que vivem correndo a traz de Felipe – me fuzilam com os olhos. Dou um sorriso bem debochado para elas. Viro para frente e me concentro em fazer minha lição. É estranho vestir a roupa de outra pessoa, ainda mais de um garoto. A blusa tem seu cheiro misturado com o perfume que ele usa que é meio amadeirado, o cheiro é tão bom que eu penso se vou devolver a blusa, talvez ele nem perceba que eu não devolvi.
No final da última aula quando vou tirar a blusa e ele fala para devolver no dia seguinte. Eu não recuso, estou tão confortável e não quero passar frio até chegar em casa. Como pegamos o mesmo ônibus, saímos juntos da escola. Conto para ele que eu e Bruna voltamos a nos falar e antes mesmo de terminar a frase eu vejo Miguel com buque de flores nas mãos. Bruna passa por nós correndo e pula no pescoço de Miguel, ela fica toda empolgada com o buquê. Fico algum tempo observando os dois, até me esqueço que Felipe está do meu lado
— Que brega – ele diz.
Continuamos a andar em direção ao ponto de ônibus.
— Você acha brega dar flores? – pergunto.
— Sim.
— É romântico.
— O que você faz com as flores? Coloca em um vazo e as vê morrer aos poucos. Para mim é deprimente.
Dou risada. Pode ser inútil um buque de flores mas para mim continua sendo muito romântico.
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