O nó sinoatrial

12 Vá agora, Emma Swan


Emma partiria naquele dia. No fim da tarde, iria dirigir até a cidade vizinha, onde devolveria o SUV alugado e iria direto para o aeroporto. Nos últimos dois dias, a médica e suas duas amigas não tinham conseguido se encontrar, graças aos compromissos que cada uma tinha. Por essa razão, ela tentava agora arrumar suas malas com as mulheres ao redor dela, pavoneando sobre toda a situação com Regina.

— Sério, Elsa – Ruby suspirou, de forma dramática – Eu peguei a chave, emprestei para elas, desmarquei meu encontro da noite, para não correr o risco de entrarmos e interrompermos alguma coisa em andamento... E elas não fizeram nada. NADA.

Elsa, que lixava as unhas, levantou os olhos e encarou Emma. Um sorriso brincava em seus lábios.

— Ora, mas é claro que elas não fariam nada. Você mandou a Emma para uma clínica com um monte de equipamentos médicos.

— Mas eu esperava que ela fosse brincar de médico... No sentido bom da coisa e não... Aff.

— A gente se beijou – Emma soltou a informação enquanto lutava para fechar o zíper da mala, mal-humorada.

— Como é que é? – As duas perguntaram juntas.

— Na verdade ela me beijou, por causa de uma brincadeira – A médica suspirou, desistindo do zíper e narrando a suposta dívida de beijo – E foi isso, gente.

— E foi isso, gente – Elsa a imitou, desdenhando – Ela fala como se não tivesse acabado de pegar a viúva misteriosa de Storybrooke. Regina mal fala com as pessoas, mas você ela beijou.

Emma levantou as sobrancelhas.

A viúva Mills era um mistério. Quando chegou na cidade, logo ficou claro para todos que Kristin era a extrovertida do casal. Ela conversava com todos, fazia amizades e embora Regina não fosse antipática ou deselegante, mantinha-se quieta.

Após o falecimento de Kristin, ela pareceu afastar-se ainda mais das pessoas. Comprava nas lojas da cidade, frequentava o diner e cumprimentava aqueles que encontrava; ainda assim, não era aberta para conversas aleatórias e parecia sempre focada nos negócios.

— Ai, Emma, sério... Dá para usar uma faca e cortar a tensão sexual entre vocês – Ruby revirou os olhos – Não sei por que não fazem nada sobre isso. Chegaram a se falar depois?

— Sim... Ela agiu como se nada tivesse acontecido – A médica respondeu, claramente derrotada.

Nenhuma delas soube o que falar depois disso. Emma voltou a lutar contra o zíper da mala e embora Ruby estivesse pronta para tecer novos comentários, Elsa sinalizou para que deixasse de lado.

As amigas de Emma foram embora apenas após ela prometer várias vezes que, dessa vez, não perderiam contato e que ela traria presentes em seu retorno. Deixaram combinado que elas manteriam um olho em David, avisando-a se percebessem qualquer coisa fora do normal.

Por impulso, pegou o celular – onde Regina agora era um contato devidamente salvo – e digitou uma mensagem para a morena.

“Estou voltando para L.A em algumas horas. Tudo bem se eu passar aí para me despedir?”

A resposta veio logo depois.

“Sim.”

Emma decidiu que o Haras Mills seria o último lugar por onde passaria, antes de partir para a cidade vizinha. Abriu uma cerveja, sentando-se na cadeira da cozinha e fazendo uma nota mental da diferença de como o cômodo estava em sua chegada e agora. Havia tirado o dia anterior para fazer uma faxina de despedida na casa e embora o pai não tivesse chegado assim tão bêbado, ela duvidava que ele tivesse prestado a atenção.

Desde que anunciara sua partida, David se mantinha distante, indiferente. Toda a cumplicidade que vinham partilhando nas últimas semanas desaparecera por completo. Isso incomodava Emma, mas ainda não era uma sensação tão forte quanto a impressão de que não estava realmente partindo. De fato, nem todos os seus pertences estavam voltando nas malas. Acabara optando por deixar várias peças de roupa para trás, algumas joias e calçados, com o pensamento de que não precisaria trazer tantas coisas quando voltasse.

Porque voltar não era mais um pressentimento e sim uma certeza.

David chegou quando Emma estava para terminar sua cerveja. O semblante sério demais denunciava que algo estava errado e ele olhou para a filha da mesma forma como fazia antes, como se ela fosse uma linha tênue entre uma pessoa desconhecida e o fantasma de um velho amor.

— Então você vai ir embora mesmo? – Questionou, cruzando os braços e encostando-se no batente da porta.

— Sim, minha licença acaba depois de amanhã e eu preciso me organizar antes de voltar para o hospital – Emma respondeu com tranquilidade, lutando para amenizar o clima pesado enquanto jogava a garrafa vazia no lixo – Quer que eu traga alguma coisa, quando voltar?

David riu, sem humor.

— Você odeia tanto esse lugar que não é capaz de pensar por um segundo em ficar? – A pergunta veio bruta e a médica parou o que fazia para se virar para ele.

— Eu não odeio Storybrooke – Emma se defendeu – Quando era jovem, sim, talvez... Agora não. Mas eu construí uma vida em Los Angeles. Não pode esperar que eu simplesmente abandone, de uma hora para a outra, meu trabalho, meu apartamento... Tudo o que eu batalhei para conseguir.

— Isso não vale nada, Emma – David quase gritou, irado – O que mais você tem em Los Angeles, além do seu apartamentinho de luxo? Quem você tem em Los Angeles? – Ele riu então, enquanto a filha o encarava, sem saber o que dizer – Exatamente o que eu pensei, ninguém. Você pode ter construído uma vida luxuosa, mas continua tão sozinha como sempre.

— Pai... O que... – Emma sentiu quando a lágrima solitária avançou por seu rosto, mas não fez nada para contê-la.

— Vocês, malditos médicos de cidade grande... São todos iguais – Ele desdenhou – Querem dinheiro, fama, aparecer em capas de revistas. Prestam um juramento para salvar vidas, mas não dão a mínima para as vidas de pessoas como nós – Descruzando os braços, ele se virou de costas – É melhor nem se preocupar em voltar para cá.

David não esperou por uma resposta. Saindo, bateu a porta e logo Emma escutou a caminhonete saindo.

Emma tentou expurgar o assunto de sua mente. Dedicou suas últimas horas no rancho a Apolo e Diana. Escovou-os com calma, ofereceu petiscos aos dois e descobriu entre lágrimas que cavalos eram os melhores ouvintes que poderia ter. Falou sobre o pai, sobre como estar no hospital, cercada de pessoas e fazendo o que amava, contrastava com a solidão de sua própria casa.

Não que não gostasse do silêncio ou de estar só. Mas tampouco era de ferro, e foram vários os dias nos quais desejou ter alguém ao seu lado. De alguma maneira, David conseguira ler aquilo nas entrelinhas de sua alma e usara como a arma perfeita contra ela.

As horas compartilhadas com Apolo e Diana foram importantes. Não só porque falar em voz alta trazia uma nova luz sobre as coisas, mas também porque considerava importante se despedir dos animais e garantir a eles que voltaria.

Storybrooke estava fazendo de Emma Swan uma sentimental, e ela não gostava disso.

O entardecer jogava uma cor de ouro sobre os campos do haras. Emma dirigiu sem muita convicção e parou carro diante da casa principal. Podia ouvir os funcionários cuidando dos cavalos nos celeiros, mas a porta aberta indicava que Regina estava no escritório.

A morena estava absorta nas páginas de um livro, Emma acabou sorrindo. Sempre que a encontrava, a via concentrada em alguma coisa, sua atenção totalmente focada no que quer que estivesse lendo. Lembrou-se de ouvi-la dizer que gostava de romances e se perguntou se aquele livro seria um deles.

— Regina? – Chamou-a, observando quando a outra levantou os olhos das páginas.

— Swan... Entre e feche a porta – Ela falou, se levantando.

Para alguém acostumada a latir ordens em sua sala de cirurgia, a médica estava percebendo ser ótima em apenas obedecer ao que Regina dizia. O pensamento a fez sorrir.

— E então? – Regina cobrou – Como está sendo o grande retorno?

— Complicado – Emma balançou a cabeça – Não acho que seja o melhor momento para ir, mas não posso estender minha licença por mais tempo – A morena assentiu – Vou fazer o depósito da parcela até dia dez. É provável que eu consiga adiantar algumas. Há meses nos quais consigo fazer mais consultas particulares do que em outros.

— Entendido, Swan – Ela assentiu outra vez – Se em algum momento decidir vender o rancho, sabe onde me encontrar.

— Vou manter isso em mente, Mills. Mas não acho que vá acontecer – Ela suspirou. Ainda nem havia começado a viagem e já estava cansada.

Regina estava silenciosa demais e Emma percebeu que não gostava daquilo. Queria as velhas provocações, os flertes nas entrelinhas. Mas também queria mais. E esse “mais” fez a médica mover-se e dar a volta na mesa. A morena não se mexeu, continuou com as mãos apoiadas sobre o tampo de madeira, mas inclinou o corpo levemente contra o dela quando foi abraçada por trás.

Quando Regina se virou, foi Emma quem tomou a iniciativa de beijá-la. Ao contrário do primeiro, aquele beijo não estava carregado de tensão sexual. Foi lento, tranquilo e o suficiente para calar as vozes tumultuadas que habitavam o interior das duas mulheres.

Emma se afastou para olhar Regina, que usou as pontas dos dedos para traçar o contorno do maxilar da médica.

— Vá agora, Emma Swan – Seus lábios se elevaram em um sorriso mínimo, felino – Volte para sua vida de cidade grande.