O nó sinoatrial
20 Um anel, Swan?
Antes das dez da manhã, Emma percebeu que precisaria de uma recepcionista.
No exato momento em que abriu as portas da clínica, às oito horas, as pessoas começaram a entrar como se, de repente, o diner da Granny tivesse sido substituído em seu papel de coração da cidade. Eram receitas, acompanhamentos, remédios para pressão e até anticoncepcional para uma adolescente ansiosa acompanhada por uma mãe envergonhada.
Storybrooke passara anos demais sem um médico e todos tinham pressa para colocar seus assuntos em ordem com Emma. Queriam atualizar prontuários, garantir que poderiam ser acompanhados ali mesmo e, finalmente, esquecer as viagens mensais para a cidade vizinha.
Isso tudo fez com que Emma se sentisse bem, oficialmente de volta à ativa e, no entanto, a deixou completamente sobrecarregada. Quando Ruby chegou com o almoço, perto do meio-dia, encontrou-a bufando, apoiada no balcão da recepção diante de uma montanha de fichas de papel.
— Emma? Você está bem? — Ruby perguntou, deixando a marmita cheirosa sobre o balcão.
— Exausta, mas contente — a médica sorriu, aceitando a comida como se fosse um milagre. — Só não achei que fosse precisar de ajuda tão cedo. Mas, pelo jeito, se eu não encontrar alguém para cuidar dessa recepção e organizar essa papelada até amanhã, eu vou enlouquecer.
— Ih, o povo daqui quando resolve se consultar, não dá trégua — Ruby riu, dando de ombros. — Escreve um bilhete e cola aí na porta de vidro. Alguém sempre aparece precisando de trabalho.
Emma concordou com a cabeça. Assim que terminou de almoçar, pegou uma folha de papel em branco, escreveu "PROCURA-SE RECEPCIONISTA" em letras garrafais e colou na entrada da clínica, torcendo para que o santo padroeiro dos burocratas enviasse uma alma caridosa o mais rápido possível.
O que ela não esperava era o tipo de alma que atenderia ao chamado.
Já passava do meio da tarde quando Emma finalizou uma consulta rápida com Neal. Ao sair do consultório acompanhando Belle e o bebê, deparou-se com uma mulher, de aparência, no mínimo, peculiar, que já empilhava as fichas espalhadas sobre o balcão da recepção com uma agilidade impressionante.
— Com licença? — A médica chamou, e a mulher se virou para ela.
— Você não precisa de uma recepcionista — Falou a desconhecida, amassando a folha do anúncio com uma mão só e jogando-a no lixo. — Você precisa de uma enfermeira que também trabalhe na recepção. Me chamo Cruella, aqui está meu currículo.
Ela praticamente empurrou a folha digitada contra o peito de Emma.
— E, ao que parece, agora eu trabalho aqui.
— Trabalha? — Emma questionou, ainda sem reação. O fato de Belle estar prestes a gargalhar logo atrás dela não ajudava em nada.
— Honestamente, doutora, eu não vejo mais ninguém esperando por uma entrevista.
Emma, então, abaixou os olhos para o papel que segurava e leu rapidamente. As referências da mulher eram surpreendentes, e a loira estaria mentindo se dissesse que não precisava do trabalho e da experiência de Cruella. Quem se importava que sua recepcionista tivesse o cabelo de duas cores? Se fosse, talvez, metade rosa e metade azul, ela teria problemas. Mas o preto e o branco era uma combinação aceitável.
— Tudo bem — Emma cedeu, deixando um sorriso escapar — Bem-vinda... Ah... Precisa de alguma ajuda com as fichas?
— Não, obrigada — Cruella devolveu um sorriso pragmático — Agora volte para seu consultório que, em breve, mandarei o próximo paciente.
Quando a médica se virou para retornar à sua sala, pôde jurar que Belle finalmente gargalhou de verdade.
E, nas três horas que se seguiram, Emma soube que Cruella seria um dos pilares para que sua clínica fosse adiante. Ela se despedia dos pacientes ainda na porta do consultório e, quando havia alguma orientação de pós-atendimento, bastava falar para que a mulher mais velha seguisse com o procedimento de forma impecável, antes de enviar o próximo paciente para dentro.
Entre uma consulta e outra, a médica releu o currículo da outra com calma e só então percebeu que não tinha pensado sobre o que faria quando uma verdadeira emergência surgisse. Antes de Cruella, estaria completamente sozinha para lidar com todos os tipos de situações e sabia, por experiência, que em alguns casos isso não seria possível. "Graças ao Universo pelas pequenas misericórdias", pensou, enquanto se levantava para receber a última paciente do dia.
Cruella não era uma pessoa desagradável, Emma logo percebeu. Embora a mulher não tivesse o costume de filtrar seus pensamentos antes de expô-los em voz alta, todos na cidade pareciam conhecer e respeitar suas peculiaridades, sem levar para o lado pessoal o que ouviam da recepção.
Conforme os dias passavam, a clínica entrou em uma rotina mais tranquila. O aparente desespero dos moradores por um médico estava desaparecendo; tendo eles a certeza de que Emma iria permanecer, já não tinham tanta pressa em atualizar os próprios formulários de acompanhamento.
A única coisa que incomodava a médica, naquele momento, era o fato de Regina não estar na cidade. Ao que parecia, um leilão de cavalos no Texas pedia pela presença indispensável da morena, que partira no dia anterior.
As horas passadas no rancho eram tranquilas. Emma estava, vagarosamente, reformando o jardim e o espaço ao redor da casa. Também passava o tempo com Apolo e Diana, penteando as crinas em crescimento dos animais. Em breve, o ataque não passaria de uma memória ruim.
Naquela semana, pela primeira vez desde que colocara os pés em Storybrooke, Emma visitou o túmulo da mãe.
No alto da colina, um pequeno cemitério era dedicado à família Swan. Seus avós paternos e alguns tios estavam enterrados lá. Sua tia Ginny também, embora não fosse oficialmente uma Swan ao falecer. Mesmo que a médica tivesse estado naquele lugar por várias vezes antes de deixar a cidade, nunca havia prestado muita atenção no túmulo de Ginny.
— Ginny e Robin, amada noiva e querido filho — Ela leu, pela primeira vez entendendo o real significado daquelas palavras gravadas na pedra.
Era seu irmão. Seu meio-irmão.
Quão diferente teria sido sua vida se aquele irmão existisse? Ela mesma existiria?
Subitamente, viu-se falando em voz alta com a mãe — um hábito que costumava ter na juventude e que agora retornava como se nunca tivesse ido embora. Contou-lhe sobre o pai e como estava tendo dificuldades em perdoá-lo. Falou sobre o rancho, a clínica e sobre Regina. Nessa última parte, um sorriso inevitável surgiu em seus lábios.
Emma nunca tinha estado, oficialmente, em um relacionamento. Tivera namoradas que, embora as chamasse assim, nunca haviam passado por um pedido oficial ou declarações de qualquer tipo. As coisas simplesmente aconteciam: uma escova de dentes deixada para trás, uma muda de roupas que logo se transformava em uma gaveta cheia delas. Mas era fácil recolher tudo isso quando o período terminava.
E geralmente terminava porque algo oficial era o próximo passo esperado, e Emma se via, outra vez, acuada diante da exigência de uma aliança, de um título. As mulheres que passavam por sua vida sempre se cansavam de não serem apresentadas adequadamente pelo que significavam; quando as discussões se tornavam frequentes, era fácil para a médica afundar a mente no trabalho, buscando isolamento no hospital até que suas coisas fossem devolvidas em uma caixa.
Não, ela já tinha visto o suficiente de como funcionava um casamento através dos pais. Não precisava viver a experiência por si mesma para saber como terminava.
E ainda assim, na semana anterior, passara diante da joalheria e seus olhos foram imediatamente capturados por um anel que podia jurar que fora feito para Regina. Aquilo não estava certo e a fez franzir o cenho; não podia se deixar levar após tantos anos se mantendo à margem daquele tipo de relação. Mas com a morena tudo era diferente, desde o início.
Regina tinha sua própria vida, carregada de responsabilidades e preocupações, e não agia como uma adolescente irritadiça sempre que os encargos de uma das duas as impediam que se vissem por alguns dias. Ao contrário, ela compreendia. E Emma se via confortável na rotina que estavam mantendo, confortável o suficiente para nunca corrigir as amigas quando citavam Regina como sua namorada.
Como se fosse atraída por um mero pensamento, o celular de Emma avisou a chegada de uma nova mensagem. Na tela, uma imagem enviada por Regina: apareciam apenas as pernas da morena, uma taça de vinho bem segura entre as coxas e a mão pousada suavemente sobre a pele, segurando um colar dourado. No pingente, um coração cravejado de rubis contornava dois cavalos que tinham os focinhos encostados um no outro.
“Comprei para você.”
A loira sorriu largo, enquanto se levantava da grama e caminhava de volta para o carro. Pelo visto, ela acabaria indo buscar aquele anel na joalheria, no fim das contas.
Emma acabou cedendo ao impulso. No caminho de volta para o rancho, tomou a direção contrária e estacionou o carro duas quadras antes da joalheria, quase como se tentasse esconder de si mesma o que estava prestes a fazer.
Quando finalmente teve a caixinha de veludo em mãos, dentro do carro, não resistiu e abriu a tampa para encarar a própria audácia. O anel era de um ouro envelhecido, com um aro delicado que imitava o formato de ramos de oliveira entrelaçados, culminando em uma esmeralda solitária, lapidada em formato de gota. Tinha a elegância clássica, a força e a conexão com a terra que eram a cara de Regina. A joia parecia carregar uma promessa silenciosa, e só de imaginar aquela pedra verde contrastando com a pele morena da namorada, os dedos de Emma fraquejaram.
Fechou a caixinha com um estalo seco. O veludo azul que agora descansava no banco do passageiro parecia pesar uma tonelada, mas toda vez que o frio na barriga ameaçava virar pânico, ela lembrava da foto no celular e o medo se transformava em uma expectativa boba.
Os três dias seguintes passaram em um borrão de rotina na clínica. Cruella continuava a governar a recepção com punho de ferro e um sarcasmo refinado que, surpreendentemente, fazia os pacientes andarem na linha. Para Emma, o trabalho foi uma distração abençoada para aplacar a ansiedade da ausência de Regina.
Até a tarde de sexta-feira, quando o barulho familiar do motor da caminhonete ecoou pela entrada do rancho, levantando poeira e fazendo o coração de Emma errar uma batida.
Sentiu-se uma adolescente ao sair para a varanda e apertar firme a garrafa de cerveja entre os dedos, observando enquanto Regina desembarcava. Ela caminhou devagar; o vestido preto, que pouco combinava com o frio de Storybrooke, deixava claro que a morena viera direto do aeroporto. Quando ela finalmente estava perto o suficiente, Emma puxou-a para si pela cintura.
— Swan... Assim fica parecendo que você sentiu saudades — Regina riu, as palavras contrastando com o tom de voz doce e com os braços que se enrolavam ao redor do pescoço da médica.
— Talvez eu tenha sentido, mas só um pouco — Emma sorriu, antes de beijá-la de verdade — Vamos entrar, a casa está quente.
A lareira acesa aquecia o ambiente, e foi com um suspiro aliviado que Regina se aproximou do fogo, enquanto Emma servia uma taça de vinho para ela.
— Eu realmente preciso de um banho — Comentou a morena, aceitando a taça com um aceno de agradecimento.
Emma observou o movimento, percebendo que seu armário, antes estritamente pessoal, agora comportava várias peças de roupa de Regina. Por qualquer que fosse a razão, aquele espaço compartilhado não parecia incomodá-la nem um pouco.
— Comprou algum? — Emma perguntou, juntando-se a ela diante da lareira.
— Três — Regina sorriu de canto — São lindos, Emma. Você precisa ir ao haras para cavalgar.
— Cavalgar? — A médica arregalou os olhos. — Eu não...
— Não se atreva a me dizer que não sabe cavalgar, Swan — Regina a encarou, genuinamente surpresa — Pelo visto, eu vou ter que ser sua professora.
— Talvez você pudesse esquecer o cavalo... — Emma começou, fazendo os olhos da morena se estreitarem em pura diversão. — ...e cavalgar a médica?
Quando Regina gargalhou alto, Emma pôde jurar que aquele era o melhor som do mundo.
O fogo ainda crepitava, horas depois, como uma testemunha silenciosa das duas mulheres enroscadas no sofá. O banho acabara sendo compartilhado e elas agora relaxavam, falando sobre os dias que haviam passado afastadas.
Em meio à conversa, Emma se esticou e buscou no bolso da jaqueta pela pequena caixa de veludo.
— Eu também comprei uma coisa para você.
Regina recebeu o presente com um sorriso curioso. Emma tinha percebido que ela ainda usava ambas as alianças dadas por Kristin: uma prateada na mão esquerda e a dourada na direita.
— Eu a comprei um pouco maior do que o seu tamanho — Continuou a loira, fazendo com que Regina a olhasse nos olhos — Aí você pode usar no outro dedo, ou por baixo da aliança.
Regina deslizou o anel pelo dedo, e a esmeralda em formato de gota pareceu ganhar vida contra a sua pele. Ela olhou para a mão, depois para a caixinha de veludo, e um sorriso ladino e emocionado surgiu em seus lábios.
— Um anel, Swan? — Provocou com a voz macia, embora seus olhos estivessem brilhando à luz do fogo — Para quem passava o hospital inteiro na frente do nome só para não ganhar uma aliança, isso aqui parece quase um pedido sério.
Emma sentiu as bochechas esquentarem de leve, mas não desviou o olhar.
— E se for? — Rebateu a médica, a voz firme apesar do frio na barriga.
Regina piscou, pega de surpresa pela audácia da loira, mas o sorriso que se expandiu por seus lábios foi de puro deleite. Ela não disse nada; em vez disso, esticou-se até a mesa de centro, pegou a própria bolsa e tirou de lá uma caixinha menor.
— Se for um pedido sério... — Regina murmurou, aproximando-se até que suas testas se encostassem, deixando o colar de rubis com os dois cavalos pender entre os dedos — Acho bom você se acostumar com a ideia de que eu também não pretendo ir a lugar nenhum, Swan.
O colar encontrou o pescoço de Emma, e o anel de esmeralda encontrou o seu lugar definitivo na mão de Regina. Ali, sob o calor da lareira e o som do vento cortando o rancho, as amarras do passado finalmente pareceram pequenas demais para o tamanho do que estavam construindo.
A manhã de sábado nasceu preguiçosa. Emma levantou primeiro, tomando cuidado para não acordar a morena que ainda dormia. Seus anos passados compartilhando salas de descanso com outros médicos serviram para que aprendesse a se movimentar em completo silêncio.
Logo o cheiro do café recém-passado tomou conta do ambiente. O tempo começava a se preparar para a neve que não demoraria a cair, e Emma fez uma nota mental de aumentar o feno nas baias dos cavalos e garantir que estariam cobertos com as capas.
Estava na varanda quando percebeu o carro de Cricket se aproximando. O carteiro era um homem de cabelos bagunçados e sorriso fácil, que parecia ter encontrado seu objetivo de vida dirigindo pelas estradas e entregando encomendas.
— Lindo dia hoje, Dra. Swan — Ele comentou, desembarcando do carro — Logo o campo vai estar branco de neve.
— Pelo jeito não vai demorar muito — Ela sorriu também — Alguma coisa especial para hoje?
— Na verdade, sim. — Ele puxou uma caixa do banco do carona — Uma encomenda de Los Angeles. Assine aqui para mim, por favor.
Emma assinou, seus olhos correndo pelo remetente da clínica onde o pai estava internado. Ela mal prestou atenção quando Cricket se despediu, tagarelando sobre o quão ansioso estava para dirigir pela neve. Assim que o homem foi embora, Emma entrou e rasgou o pacote. A caixa estava pesada, mas um envelope fora colado na abertura, de modo que ficava claro que deveria ser lido primeiro. A letra de Killian era reconhecível, e o fato de ele ter escrito “leia-me” diretamente no papel trouxe à tona uma piada compartilhada entre os dois na época da faculdade.
“Emma,
Você sabe que prezamos pela distração e pela construção de habilidades com nossos pacientes. Também prezamos pelo respeito aos noventa dias sem contato externo, e é por isso que eu estou escrevendo, e não seu pai.
David está progredindo bem. Ele não é um homem que se abre fácil nas sessões de terapia em grupo ou individual, mas é muito participativo nas atividades que envolvem trabalho manual e insistiu para que eu enviasse o presente que fez para você.”
Só então Emma abriu a caixa. Ela retirou a pesada placa de carvalho do embrulho e precisou se sentar, o impacto da surpresa tirando o peso de suas pernas. A peça era rústica, mas feita com um esmero impressionante: as bordas da madeira haviam sido lixadas até ficarem suaves, mantendo as ondulações naturais do tronco. O pai havia entalhado cada letra profundamente na fibra do carvalho, usando fogo para pirogravar os sulcos. O contraste do tom mel da madeira com o negro do carvão dava uma legibilidade perfeita ao nome, e o cheiro sutil de verniz fresco trouxe uma onda repentina de nostalgia. A peça já tinha as correntes de ferro prontas; tudo o que ela precisaria fazer era pendurá-la acima da porta da clínica.
Ela sorriu, sentindo os olhos marejarem ao ler o entalhe:
“Dra. Emma Swan”
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