O nó sinoatrial

23 Eu não quero te amar


Nenhuma delas contou o tempo que passou enquanto se encaravam. Emma tinha os lábios entreabertos, mas nenhuma palavra passava por eles, enquanto tentava absorver o que Regina havia dito. A morena, por sua vez, agarrava a taça com força, os nós dos dedos já brancos e o olhar implacável.

— Regina... — Emma deu um passo na direção dela, mas Regina levantou a mão.

— Vá dormir, Swan — ordenou — Você precisa descansar.

— Regina, vamos...

— Não hoje, não agora — Regina suspirou, indo até Emma e retirando o copo ainda pela metade das mãos dela — Você precisa descansar.

E, prática como era, Regina Mills entregou dois comprimidos para dor e um relaxante muscular nas mãos de Emma, esperou até que ela os engolisse e então aplicou uma nova camada do creme para queimaduras nas costas da loira.

Emma poderia culpar a dor da queimadura ou a tontura por tudo o que acontecera naquela noite. Mas enquanto deixava-se levar para o próprio quarto, só conseguia pensar nas palavras de Regina, que haviam amortecido seus próprios sentidos o suficiente para tirá-la de seu curso de ação, para colocá-la naquele estado de inércia.

A médica permitiu que Regina a colocasse na cama, sentiu o efeito dos remédios misturados ao álcool e a brisa fresca em suas costas nuas, conforme a morena se movia ao redor da cama, garantindo que travesseiros e almofadas estivessem bem posicionados, para que ela não pudesse se virar durante a noite e machucar ainda mais as costas.

Regina passou o resto da noite no sofá, virando-se de um lado para o outro e desejando ser fumante, para ter uma boa desculpa para sair da casa e respirar o ar do amanhecer.

Emma acordou devagar, absolutamente tudo doía. Suas costas queimadas, os músculos, os nervos, o corpo por não ter mudado de posição por horas, a cabeça pelo maldito whisky. Quando finalmente se sentou na cama, foi agraciada pela visão de uma garrafa de água e dois comprimidos. Um para a dor e o outro um verdadeiro milagre contra a ressaca.

E então, ela se lembrou.

E se estapeou mentalmente, resistindo à tentação de espelhar o ato em um tapa físico também.

De volta à blusa frente única, ela desceu as escadas devagar. O cheiro do café, já fraco, indicava que havia sido feito há algumas horas. Pela porta de vidro, viu Regina sentada na cadeira estofada da varanda, com os olhos perdidos na direção do celeiro. Ou onde ele costumava existir.

O velho celeiro Swan era agora nada além de uma mancha preta no chão, um amontoado de cinzas e algumas vigas que resistiram por tempo o bastante até que as chamas fossem apagadas. O odor da madeira queimada ainda impregnava o ar ao redor da casa e Emma não estava minimamente pronta para começar a pensar na reconstrução do lugar.

Quando ela saiu para a varanda, Regina se virou para olhá-la, analisando sua aparência.

— Como se sente?

— Uma porcaria, mas vou sobreviver.

— Ótimo.

O golpe foi quase físico e Emma recuou. Regina havia erguido uma barreira ao redor de si que a médica não sabia como ultrapassar.

E essa era uma das razões pelas quais não se envolvia em relacionamentos.

— Olha, Regina... Eu não vou me desculpar por ter salvo meus cavalos do fogo, está bem? – Falou de repente, e isso lhe rendeu a atenção completa da morena, que se virou para ela de corpo inteiro, franzindo o cenho e a acompanhando com o olhar, conforme ela se sentava na cadeira ao lado.

— Eu não lembro de ter pedido ou desejado qualquer pedido de desculpas nesse sentido, Swan – Respondeu, levantando o queixo – Muito pelo contrário, eu admiro a coragem de quem se arrisca para salvar os animais, como você fez ontem.

— Talvez você pudesse ter começado com essa parte e deixado o gelo para depois. Não sei o que você espera que eu faça ou que eu diga, quando não me explica por qual razão está agindo assim.

— Eu lhe disse, Swan... Eu... – Regina fechou os olhos e massageou as têmporas.

— Sim, mas você não precisa estar de luto, Regina – Emma balançou a cabeça – Os cavalos estão bem, eu estou bem e todos estamos aqui. Talvez fosse um momento mais propício para abraços do que para... Isso?

— Sim, talvez fosse — Finalmente a morena a encarou outra vez, seus olhos tempestuosos causando em Emma uma sensação estranha — Mas eu não consigo abraçar você agora, não consigo sequer pensar que eu estava abraçando você ontem pela manhã e de noite você... — Ela parou, engolindo seco — De noite você estava quase sendo morta por um maldito celeiro em chamas.

— Mas...

— Porque eu não consigo, Emma Swan — A morena se levantou — Não consigo fazer isso de novo. Não sou capaz de pensar que em um momento eu vou estar te abraçando e no outro, perdendo você também.

Emma a observou caminhar até o limite da varanda e respirar fundo várias vezes.

Era psicologia básica; pelo amor de Deus, ela deveria saber dessas coisas. Deveria saber que aquela autodefesa exagerada de Regina era nada além do puro medo de passar pelo processo de luto outra vez, a negação.

Era sobre Kristin ter morrido em seus braços, numa tarde de um sábado qualquer.

E era sobre Emma entrando em um celeiro em chamas, ao anoitecer de um dia qualquer.

— Regina... Eu... — Emma pensou, procurando pelas palavras certas enquanto se levantava e ia até a morena — Eu sinto muito. Não pensei sobre isso.

— Claro que não pensou e nem deveria. Não são seus fantasmas — Regina virou-se para ela — Eu é que devo me desculpar, por agir assim quando... como você disse, deveria ser um momento para abraços. Talvez eu não esteja pronta como pensei que estava... Não que eu tenha pensado, de qualquer forma. Você simplesmente apareceu... Insolente, irritante, disposta a me tirar do sério de todas as maneiras possíveis.

Regina parou de falar, balançando a cabeça. Emma a encarava, em parte surpresa demais para responder qualquer coisa.

— Mas ontem... — A morena continuou, após alguns instantes — Eu cheguei aqui a tempo de ver você entrando no celeiro e, quando a coisa toda começou a cair e você não saía... Emma, eu vivi tudo de novo em poucos segundos e não consigo fazer isso.

Emma a olhava, incerta do que dizer. Obviamente entendia que Regina tinha um passado e que todas as delícias e dores que nele habitavam tinham o seu peso; já haviam esclarecido que Kristin sempre teria um lugar no coração da morena. Mas isso não era tudo. Não podiam basear o presente nas coisas que já haviam passado.

— Regina... Eu não sou ela — Disse, sorrindo com tristeza — Eu não sou a Kristin. Você sabe que eu respeito a pessoa que ela foi e tudo o que vocês viveram, mas eu não sou ela e você não pode ficar me comparando ao seu passado sempre que algo acontecer. Somos pessoas diferentes, vidas diferentes e eu estou bem aqui.

Uma lágrima solitária desceu pela bochecha da morena e Emma a retirou com a ponta do dedo.

— Eu amo você, Emma Swan – Regina devolveu o sorriso triste – E eu não quero te amar.

E dizendo isso, Regina deu um beijo casto nos lábios da médica, antes de tirar o anel que ganhara de presente e entregá-lo nas mãos dela.

Emma observou enquanto ela se afastava, apertando o anel entre os dedos até a pele doer.

— Mas eu também amo você, Regina – Falou, alto o bastante para que a morena parasse de andar.

Regina permaneceu estática por alguns segundos, sem se virar.

E então ela continuou andando até a caminhonete e deu a partida, deixando Emma parada na varanda fria.