O nó sinoatrial

9 É uma promessa, Mills?


Emma não tardou para descobrir que, em Storybrooke, a moeda de troca principal não eram os dólares.

Começou devagar, uma passada rápida pelo diner acabou demorando mais do que o planejado, quando a avó de Ruby pediu que Emma medisse sua pressão e, em seguida, não a deixou pagar pelos dois cafés consumidos. Anna puxou-a de lado com questões ginecológicas e, por isso, lhe deu de presente um pão doce. Belle enviou, pelas mãos de Gold, um livro de contos, agradecendo pela consulta e garantindo que o exame de imagem não mostrara nada de errado.

A bolsa de necessidades se tornou uma companheira constante no banco de trás do SUV. Suas idas até a cidade já não eram tão rápidas quanto costumavam ser. E era comum que David voltasse para casa carregando uma caçarola que alguém havia feito em agradecimento a uma consulta rápida. Ele, orgulhoso, andava pelas ruas mais do que contente em ver Emma se tornando Dra. Swan para aquelas pessoas.

A médica sequer percebeu quando a rotina de Storybrooke e do rancho do pai começaram a se infiltrar em seus dias. Aprendeu que nas quartas, David gostava de comer hambúrguer com batatas fritas e passou a preparar o prato em casa, o que resultou no homem chegando mais cedo e em um tempo agradável passado entre os dois. Caminhava com ele até o celeiro, pela manhã, onde ajudava a tratar os cavalos e levá-los para o pasto. Sabia que nas quintas, Elsa recebia frutas frescas.

Quando Regina apareceu, encontrou-a tentando dar banho em Apolo, um dos cavalos idosos que permaneciam no rancho.

— Swan... Você sabe que, supostamente, quando decide dar banho em um cavalo... Quem toma banho é o cavalo, certo? – Regina zombou, fazendo com que Emma se assustasse. Estivera distraída o bastante para não perceber a chegada da outra.

— Engraçadinha, Mills – A morena olhou entre Emma e a mangueira que começava a virar em sua direção.

— Não, nem pense nisso – Ela deu vários passos para trás, seu sorriso se desfazendo com rapidez enquanto balançava alguns papéis que tinha em mãos – Eu vim tratar de negócios.

Emma apenas assentiu, desistiu da tentativa de dar banho em Apolo e o soltou para o campo outra vez, observando enquanto o cavalo rolava no pasto. Regina riu de sua expressão decepcionada e ela percebeu que era a primeira vez que a ouvia rir. Mais do que isso, percebeu que gostava daquele som.

— Eu vou tomar uma ducha rápida – Emma comentou, quando as duas entraram na casa – Pode pegar algo para beber, se quiser. E caso esteja com fome, por favor, me ajude a terminar com aquelas caçarolas.

— Ora Swan, está me oferecendo seu salário? – Regina provocou, com um sorriso – Sim, todos sabem que você está atuando como a médica de Storybrooke e sendo paga com caçarolas e tortas.

— Não se esqueça do pão doce – Emma devolveu.

— De Anna? Por favor, me diga que ainda tem – A morena olhou na direção da cozinha.

— Sinto muito, esse é sempre o primeiro a acabar.

O banho de Emma acabou demorando um pouco mais do que o esperado, já que seu cabelo úmido deixava claro que caso não fosse lavado, continuaria a cheirar a cavalo. Ao sair, encontrou Regina na varanda, ela tinha uma cerveja aberta ao lado da cadeira e lia, com atenção, os papéis que havia levado.

Ela era bonita, melhor, era linda. Isso a médica tinha percebido na primeira vez que colocara os olhos sobre a morena. Agora, conhecendo-a um pouco mais, essa beleza definitivamente crescia diante de sua vista.

“Você e ela são as únicas duas lésbicas de Storybrooke, então meio que faz sentido.”

A fala de Ruby ecoou em sua mente e Emma balançou a cabeça, se afastando daqueles pensamentos ridículos e buscando uma cerveja para si mesma, antes de sair para a varanda.

— Bom, estou pronta para falar de negócios, Mills – Sentou-se e Regina levantou os olhos, sorrindo brevemente.

— Você tem um cheiro agradável, Swan... Quando não está cheirando a cavalo molhado.

— Fico contente que tenha gostado – Emma provocou – Vou tentar não cheirar a cavalo molhado quando estiver perto de você.

Regina corou e, por um momento, Emma pensou que ela fosse dizer algo afiado, mas pareceu mudar de ideia e apenas colocou os papéis sobre o colo, encarando-a.

— O dia do leilão se aproxima – Comentou – Não sei se você chegou a ler algum daqueles papéis...

— Sim, eu li – Emma suspirou e passou as mãos pelos cabelos, ainda úmidos – As coisas estão indo de mal a pior para David.

— Imaginei. Por isso vim até aqui, para conversar com você sobre o assunto – A morena pensou por um momento – Eu sei que nós duas começamos com o pé esquerdo. Não tenho certeza se ainda pensa daquela maneira, mas precisa saber que em nenhum momento eu quis o David fora daqui, pelo contrário.

— Não, eu não tenho mais aquelas ideias – Emma fechou os olhos, sorrindo sem humor perante a própria estupidez – Não acho que eu tenha pensado isso de verdade, em algum momento. Eu só estava me sentindo acuada de uma maneira que não sou acostumada e precisava... Não sei o que eu precisava.

— Eu entendo, honestamente. Você foi atirada no meio de uma bola de neve crescente – Regina balançou a cabeça – Emma, a verdade é que seu pai esteve presente para mim durante um momento muito difícil. Quando Kristin morreu, eu senti como se minha vida tivesse acabado, era como se eu fosse incapaz de realizar a mais simples das tarefas – Ela falava olhando nos olhos de Emma, que não conseguiria desviar da íris castanha mesmo se quisesse – Mas David estava lá. Me ouvindo falar sobre ela por horas a fio e cuidando do Haras, sim, foi ele quem manteve tudo funcionando, quando eu não consegui.

Emma estava surpresa, para dizer o mínimo. Saber que o mesmo homem que se arrastava bêbado para a cama todas as noites e tinha dívidas se enrolando ao redor dos tornozelos, havia levado adiante um negócio que tinha três vezes o tamanho do rancho – em sua melhor época – e mantido Regina amparada, quando ela precisava.

Regina não era sua inimiga. Ela já imaginava isso após a conversa com Ruby e Elsa, ainda assim, ouvir da própria mulher era como tirar um peso do coração.

— Eu não fazia ideia disso, Regina. Sinto muito por tudo o que você passou, perder quem amamos nunca é fácil – Emma pigarreou, tentando organizar os pensamentos e olhou para os papéis, no colo da outra – Eu estive pensando muito sobre isso, tentando chegar a uma solução. Você foi honesta comigo, farei o mesmo... Quero salvar esse lugar, quero que meu pai tenha uma casa para onde voltar, a casa que construiu para... Para a família. Mas eu estive olhando todos aqueles números e a verdade é que eu não tenho capital para quitar todas as dívidas de uma só vez. Ou eu quito os números pendentes com o condado, para barrar o leilão. Ou eu quito o que ele deve a você.

A morena assentiu, pensativa.

— Quitar o condado é a prioridade absoluta, Swan. Se você usar suas economias para liquidar os impostos atrasados, o leilão cai imediatamente e o rancho fica a salvo de ir a público. O teto do seu pai estará garantido.

— E quanto ao que ele deve a você? — Emma perguntou, segurando a própria cerveja com um pouco mais de força.

— Quanto à minha parte... Nós podemos fazer um acordo extrajudicial. Eu financio o valor restante diretamente com você. Você assina como fiadora do David e me paga em parcelas mensais que não sufoquem o seu orçamento. — Regina deu um sorriso sutil, de canto de boca. — Digamos que é um voto de confiança. O que me diz, doutora?

O peso que saiu dos ombros de Emma era quase físico. Sentiu seus pulmões se libertarem em uma respiração que sequer percebera estar segurando. Deu um gole demorado na cerveja antes de sorrir.

— Eu poderia beijá-la agora, Mills – Sorriu, quando as bochechas da morena ficaram em um tom adorável de vermelho – Vou conversar com David hoje a noite sobre o assunto. Se vamos fazer isso, ele precisa parar com... Seja lá o que está fazendo.

Regina pigarreou, ajeitando a postura na cadeira antes de fixar os olhos castanhos na loira com um sorrisinho de canto.

— Contenha seus impulsos, Swan. Beijos são comemorações feitas depois de todos os papéis assinados.

— É uma promessa, Mills?

Os olhos de Regina se alargaram brevemente, mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, o som de pneus se aproximando fez com que as duas olhassem naquela direção, a tempo de ver David Swan parando a caminhonete diante da casa.

— Meu Deus, em que tipo de problemas eu me meti agora? – Ele brincou, descendo do carro e balançando a cabeça, ao ver as duas mulheres conversando.

Ele as cumprimentou, guardando para si mesmo os pensamentos ao perceber as bochechas de Regina coradas. Sinalizou para que esperassem enquanto buscava por uma cerveja e, ao voltar, se sentou, olhando para os papéis que Regina tinha em mãos.

— Ok, vamos lá – Ele endireitou a coluna – Podem falar.

Emma então passou a próxima meia hora explicando tudo o que ela e Regina tinham conversado. Em algum momento, buscou pela pasta com os documentos e os mostrou ao pai, que olhava para aquilo tudo com olhos sérios e um semblante de desespero.

— Eu... Eu sinto muito, Emma – David suspirou, após elas terem explicado a situação – Eu não sabia que as coisas estavam assim tão feias... Desculpa, Regina.

— Não se desculpe, David – Regina sorriu, segurando no braço do homem para tranquilizá-lo – Emma e eu vamos encontrar uma boa solução e tudo ficará bem.

— Pai... Você precisa de ajuda – Emma falou – Eu estou aqui para ajuda-lo no que puder, mas... Talvez precisemos de ajuda especializada. Podemos resolver isso, mas não vai ser fácil.

Regina assentiu, enquanto David suspirou e deixou que seus olhos se perdessem em algum ponto.

— Eu sei que estraguei tudo. Vi as coisas ficando ruins, sabia que não estava indo bem, só não pensei que estivesse indo assim tão mal. Amanhã podemos pensar nisso, está bem? – Desviou do tema – Regina, fica para o jantar?

E elas sabiam que qualquer insistência, levaria a um estresse que não gostariam de ter naquele instante. Então apenas concordaram e o seguiram para dentro, a fim de descobrir quais caçarolas jantariam naquele anoitecer.

O clima tenso parecia ter sido deixado na varanda. O jantar transcorreu bem, os três conversaram apenas amenidades e trocaram piadas na mesa. Ao fim da refeição, David se prontificou a lavar a louça, o que rendeu um olhar desconfiado por parte de Emma, que não tinha visto o pai fazer isso desde que ela havia chegado, mas ele apenas enxotou-as da cozinha, sem dar espaço para perguntas.

— Acho que é melhor eu voltar para casa – Regina comentou, enquanto as duas deixavam David lidando com os pratos – Fico contente que tenhamos chegado a um acordo, Emma. Espero realmente que David aceite ajuda.

— Você sabe onde ele está... Perdendo tanto?

— É um lugar na cidade vizinha. Não sei ao certo, mas lembro que Kristin o acompanhou algumas vezes – Ela franziu o cenho – Eles têm todos os tipos de jogos, é um mar de tubarões.

Elas saíram para a noite estrelada, caminhando devagar na direção do carro de Regina.

— Regina... Se você não se importa que eu pergunte... O que aconteceu com Kristin?

A morena ficou pensativa. Emma achou que talvez fosse muito cedo para ter feito aquela pergunta e estava prestes a se desculpar, quando a outra começou a falar.

— Eles disseram que foi um aneurisma cerebral – Regina olhou para o céu, encarando as estrelas – A gente estava em casa, era só mais um sábado à noite. Tínhamos trabalhado o dia inteiro com os cavalos, o haras estava com poucos funcionários na época. Kristin estava rindo de alguma coisa, mas eu não consigo me lembrar do que... – Ela pigarreou – De repente ela deixou o copo cair e disse que era a pior dor que tinha sentido na vida. Em menos de um minuto, ela estava desmaiada no meu colo. No hospital, os médicos me disseram que foi um aneurisma, que foi tão violento que ela não sofreu. Eu perdi o chão, passei os meses seguintes me perguntando o que eu poderia ter feito naquele dia, para mudar o que aconteceu.

— Nada – A resposta de Emma veio tão baixa, que a morena desviou o olhar das estrelas para encará-la – Não tinha nada que você pudesse ter feito. O aneurisma é como... Como um segredo oculto do corpo humano. Ele não dá sinais, não aparece em exames de rotina... Ele só está lá – Emma a olhou – Não deixe que sua mente fique presa no “e se”, porque não havia nada que você ou qualquer médico do mundo pudesse ter feito, que mudaria o que aconteceu. E pelo que os médicos disseram, ela realmente não sofreu.

Uma única lágrima desceu pela bochecha direita de Regina e a médica, num gesto mais automático do que calculado, usou o polegar para secá-la.

— Vocês tiveram um dia produtivo juntas, estavam juntas... Você estava lá, provavelmente a sua presença foi o que a fez fechar os olhos acreditando que de uma forma ou de outra, tudo ficaria bem.

Como se só então percebesse o que fazia, Emma recolheu a mão. Regina, que ainda tinha lágrimas nos olhos, suspirou longamente, como se estivesse contendo aquela respiração profunda por tempo demais.

— Obrigada, Emma – Ela sorriu brevemente – É melhor eu ir agora... Amanhã me ligue ou mande uma mensagem, para marcarmos o dia e assinarmos os papéis.

— Tudo bem... Boa noite, Regina.

Assentindo, com um sorriso, a morena entrou no próprio carro e deu a partida.

Mesmo que ainda sentisse o peito pesado pela história de Regina, a médica simplesmente não conseguia deixar de pensar na suavidade da pele dela sob sua mão.