O mundo secreto de Velsea
1 O portal misterioso
Notas iniciais
Naquela manha acordei um tanto indisposta, tinha passado a noite anterior em uma festa ao lado de meu namorado, Theodor era uma excelente companhia, fosse para festas ou para ficar em casa vendo algum filme aleatório na televisão, mas ele tinha um tremendo defeito, fazia-me beber demais o que sempre me rendia várias broncas de minha mãe e alguns enjoos que só passavam quando eu finalmente vomitava meus bofes para fora. —Kelly, quantas vezes já falei para pegar leve com a bebida? Você tem apenas dezoito anos. – Escutei minha mãe reclamar ao abrir a porta do meu quarto e me encontrar deitada. Sentia como se tivesse levado um soco no estômago após ter me empanturrado de comida, o que não era nada legal.
—Vai deixar sua própria filha morrer agonizando? – Perguntei enquanto reprimia a vontade de vomitar. Sabia que ela continuaria o discurso mais tarde quando eu estivesse melhor, mas preferia pensar que agora estava pálida demais para receber qualquer tipo de bronca. —Você tem sorte mocinha, se eu tivesse ido a feira essa manha você estaria sozinha. – Segurei o copo de água estendido por ela e tomei o comprimido de dramin. Eu me sentiria melhor depois de algum tempo, sabia disso, mas enquanto a sensação não ia embora, eu simplesmente não conseguia relaxar. —Mãe, pode por favor pedir ao Theodor para vir aqui? É meu último dia antes de ir para o exército. – Suspirei, ainda não entendia de onde tinha tirado a coragem de servir as forças armadas e largar tudo para trás. Theodor tinha prometido me esperar, mas sabia que aquilo não duraria mais do que algumas semanas.
Theodor de fato era um ótimo namorado, parecia estar sempre presente em minha vida, tínhamos passado toda a infância juntas e agora passávamos juntos da adolescência para a fase adulta. Era difícil imaginar como as coisas seriam sem tê-lo por perto, ele fazia de meus dias mais alegres, mesmo quando a programação não passava de um filme ruim na televisão. Quando escutei minha mãe gritar do primeiro andar que ele logo chegaria tratei de me levantar, apesar do enjoou e de toda a dor que sentia, achei que não seria nada legal ser vista de uma forma tão deplorável por meu namorado, principalmente por ser a última vez que nos veríamos até meu treinamento estar concluído o que poderia acarretar em um ou dois anos longe de casa.
Caminhei a passos curtos e pesados em direção ao espelho do banheiro, podia ver a palidez nada natural em minha face, causadas pelo consumo excessivo de álcool. Meus olhos verdes eram tão escuros que até mesmo agora podiam ser facilmente confundidos com castanho, causando um sentimento de frustração dentro de mim. De que adiantava ter olhos claros se só era possível perceber isso olhando de perto? Revirei os olhos, aquilo era um mero detalhe comparado ao meu cabelo, ele era um pouco enrolado e ao mesmo tempo bagunçado, descia de forma irregular até a cintura e possuía o tão famoso tom de cobre, muitas vezes chamado por seu nome popular, ruivo.
Penteei da melhor forma que pude cada fio de meu cabelo até que o desalinhamento habitual ficasse ligeiramente imperceptível. Fiz ao máximo para tapar todas as marcas da noite anterior com a base líquida que tinha comprado a pouco tempo e prometia deixar a pele impecável. Infelizmente, propaganda enganosa era o que mais existia no mundo. Escovei os dentes pensando na melhor forma de não parecer tão enjoada como realmente me sentia, mas nada parecia ser bom o suficiente.
Ao voltar para a cama, notei com pesar que não só Theodor já se encontrava ali parado com uma expressão tão triste no rosto que pensei que ele choraria ao me ver, como também que eu continuava de pijama. Dei-lhes um beijo demorado pouco antes de deitar-me na cama, eu tinha certeza que ele já sabia sobre como eu tinha acordado alguns minutos atrás, afinal, sua cara preocupada não me enganava nenhum segundo sequer. —Eu já estou melhor, eu juro. – Resmunguei enquanto segurava a gola de sua camisa e a puxava em direção ao meu corpo para que ele deitasse também. —Minha mãe é muito exagerada. – Revirei os olhos e levei o corpo mais para trás para que coubesse Theodor. —Kelly, pelo que sua mãe me falou, a dramática foi você. – Senti seus lábios no meu por alguns segundos. Odiava parecer dramática perto dele quando o assunto era doença ou me sentir mal, ele sempre parecia ficar extremamente preocupado. Encostei meu corpo no dele abraçando-o com um de meus braços e o prendendo com minha perna. —Eu só quero ficar com você. – Falei baixinho tentando não demonstrar toda a emoção que sentia por ter que me despedir dele.
—Eu sei como se sente, acredite, eu sinto o mesmo, vai ser terrível viver sem você. – Dessa vez seus lábios tocaram minha testa por um breve segundo até que ele finalmente me olhou. Podia ver o quão sincero ele era ao falar aquilo, ele realmente estava sentido, não só por ficar longe de mim mas também por eu ter feito a escolha de deixá-lo, aquilo parecia arrasá-lo. —Vou sempre estar com você. – Fechei os olhos tornando a encostar meus lábios nos dele o envolvendo em um beijo lento e romântico. Ele não vacilou um segundo sequer retribuindo meu beijo com tamanha intensidade que me fez segurar um suspiro. Minhas mãos caminhavam lentamente por suas costas enquanto o sentia afagar meus cabelos, conseguia sentir meu desejo por ele subir gradativamente enquanto suas mãos desciam para minha coxa.
A porta se abriu com um baque, nós dóis nos afastamos tão rápido que consegui ver minha mãe vermelha como um pimentão. —Mãe, fala sério. – Resmunguei sem graça escondendo meu rosto no travesseiro. —Kelly, Theodor, desculpem, eu não imaginei que fossem estar… bem, como você já me parece melhor e até mais corada, preciso que me faça um favor. – Bufei ao ver que teria que sair de casa em um sábado preguiçoso como aquele. —Preciso que vá no mercado comprar leite, eu estava indo fazer um pudim, mas percebi que não tinha mais leite. – Ela estendeu uma nota para Theodor que a pegou sem pestanejar. Ele sempre era prestativo com minha mãe, era por esse motivo que ela o adorava tanto e sempre tentou me convencer a largar meu ex namorado por ele. “Missão cumprida mãe, missão cumprida.”
Levantar da cama foi sim a parte mais chata, ficar deitada parecia ser bem mais legal do que caminhar até o mercado local, inclusive, era bem menos perigoso, se é que se pode dizer isso. Segurei com firmeza a mão de Theodor enquanto caminhávamos até a porta com minha mãe passando as recomendações para não errarmos na marca e no tipo de leite que ela queria. —Ta bom mãe, pode deixar, não vou esquecer. – Sorri para ela e acenei com a mão livre. Foi quando tudo aconteceu. Escutei a vizinha gritar e olhei para frente novamente, um pequeno portal começava a surgir causando pânico em todas as pessoas. Com enorme pesar, podia sentir o vento gelado exalado por ele, podia sentir meu corpo ser puxado em direção a ele lentamente.
Escutei minha mãe gritar quando finalmente entendeu o que estava acontecendo e senti Theodor tentar me segurar com ainda mais força. Eu seria levada, aquele seria meu fim. Meu coração estava descompassado, como se estivesse sapateando em um ritmo frenético. —Eu te amo, cuida da minha mãe. – Senti meu corpo ser puxado pela última vez. —Kelly! —Foram as últimas palavras que consegui escutar vindo de minha mãe e namorado. A expressão de terror em seus rostos foi simplesmente inacreditável, e por milésimos de segundos desejei que pudessem seguir suas vidas sem mim. Tudo ficou escuro e eu simplesmente apaguei.
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