££ D.A.T

Essa é a data. Pelo menos no meu mundo. Eu tinha necessidade de contar. Toda vez, numa folha. Sem falta. Hara tem um contador. É uma caixa em que você pode colocar pedras em várias caixinhas menores unidas por colunas. Mas uma hora ele ficaria cheio e eu teria que arranjar outro, e não temos essa opção.
A falta de recursos é um problema. Temos que viajar durante algum tempo para encontrar água. Foi-se a época em que as pequenas cidades forneciam moradia, abastecimento e sexo. Agora, estão soterradas em um monte de areia. Antes eram algo, mas agora não eram nada. Como este mundo.
—Talvez aqui -Disse Hara com a clavícula a mostra. -Onde você acha que eu devo fazer minha tatuagem?
—Aqui -E apontei para o meu pulso, mas ela estava olhando para o próprio reflexo no espelho. -No pulso esquerdo. Ou direito. Você que escolhe.
Puxou o lábio para baixo. Percebi que não gostou.
O véu que ia do ombro até os joelhos balançava com o vento. Hara queria puxa-lo, mas não poderia faze-lo até que Troya verificasse todos os cômodos e pudesse afirmar que não havia um dono ali.
A vestimenta dela era exatamente como a minha, exceto pelos pequenos grãos de areia que caiam no chão que rangia. Estávamos utilizando o véu rosa, o que simbolizava que o dono poderia nos usar se quisesse. Mas nada além de um ragnat que deixava um rastro de gosma e exibia sua carapaça habitava ali. Uma pena.
—Hey, Hara -Disse rindo e apontando para o bichinho. Mostrou os dentes e continuou seu trabalho em fazer tranças. Algumas eram de sua mãe, outras de suas tias, primas e avós. Pegamos uma parte do cabelo de cada uma das pessoas com quem temos afeto, mas só é permitido se esta pessoa tiver os mesmos órgãos genitais e se ela já estiver adormecida.
Peguei o cabelo do meu pai quando este adormeceu depois de ser mordido em uma caçada. Nunca encontramos o corpo de meu avô. Estava soterrado na areia igual muitos outros seres.
Troya não tinha cabelos, o que significava desonra. Deveria vestir o véu preto e não ter direito aos prazeres da carne, o que inclui beber, se alimentar e transar. Apenas quando encontrasse um vestígio do cabelo dos seus antepassados resolveria a situação. Não nos importavamos tanto assim com regras, e não havia nenhum mestre para nos julgar, e Troya havia perdido o cabelo do seu pai e de seu tio durante um incêndio. Não havia mais como recuperar.
O véu rosa deixava algumas partes a mostra para que o dono pudesse olha-las e decidir se as usaria ou não. Troya passou a existir na sala. Seu alongamento estava um pouco para fora do véu.
—Você acabou de se tocar?
—Sim -Respondeu. Sua expressão era de total desinteresse com o assunto. -Não há ninguém aqui. Nem mesmo tem alimentos. Ou bebidas. Vamos.
A cara de Hara quando olhava para ele era diferente. Gostava da tatuagem preto e branca estampada em seu rosto, e eu também, mas escondia isso.
Vamos até os fundos onde o veículo estava estacionado. Tiramos o véu e entramos nele. Troya puxa as cordas e as engrenagens começam a funcionar.
—Por que não vamos a pé?
—É perigoso. Eu já disse -Pronunciou Hara automaticamente. E depois mudou de assunto -Você já ouviu falar da estória dos mestres?
—Não.
—Existiam cinco mestres. Eles achavam que o mundo era deles, e que assim poderiam fazer o que quisesse com ele. Os seres superiores davam as ordens, mas os homens faziam suas próprias regras. Sempre foi assim. Julgavam os outros da forma que desejavam. Então, um dia, a praga invadiu o mundo que pertencia a eles. Foram obrigados a correr para a areia e o sol. Foi então que este queimou todos os seus pertences e os reduziu ao que realmente eram. Você vê o quanto é perigoso andar sobre o sol?
—E por que eu não iria querer descobrir quem realmente sou?
—Existem véus espirituais que nos escondem do que pode nos machucar. Se retiramos eles ficamos vulneráveis. De noite as pessoas podem se esconder na escuridão, mas de dia precisam se refugiar dentro de suas moradias.
—Entendo -Digo olhando para o sol. Admirava aquilo mais que tudo. Deixaria que me consumisse até que o eu fosse apenas uma lembrança antiga. Talvez eu me transformasse em um bicho com uma carapaça, ou fosse a areia que cobria os adormecidos e soterrava impérios.
—Certa vez eu encontrei um rio -Disse. -Tão extenso que poderia engolir toda uma cidade. Só não vencia da areia. Foi a primeira vez que encontrei a outra parte de mim. No reflexo. Meu pai disse que era para consumi-lo para ganhar vitalidade. Falei para ele que não queria beber, que aquilo era uma parte de mim. Ele riu e respondeu que era eu que era uma parte dele, já que vim de sua descendência. Mas eu sempre achei que não. Eu era outro ser. Não era dono de ninguém. Era apenas companheiro. O reflexo vivia em outro mundo e tinha vida própria. Apenas compartilhavamos nosso corpo, mas nada pertencia a ninguém.
—Nós não deveríamos pensar estas coisas -Falou Hara. -É contra o que nossos antepassados nos ensinaram.
—É isso importa? -Indaguei entre lágrimas. -Todos obedeceram as regras que eram impostas. Mestres, reis, andantes. Nenhum foi poupado. Nada lhes sobrou. Nem o véu. Nem a moradia. Nem a chance de acordar. Os que viviam conosco já estão adormecidos. Todos. Só sobrou nós. E até agora não encontramos ninguém. Então o que realmente importa?
Hara ficou calada e Troya permaneceu em silêncio até que disse:
—Chegamos.
Vestimos nossos véus. Eu e Troya decidimos entrar pela porta da frente.
—Vocês são loucos. Primeiro você, Troya. Agora você. Desobedecendo as regras. Vão ser punidos
—Eu cansei. Vou esperar você.
Ela se cobriu com o véu e entrou o mais rápido possível pela porta dos fundos.
—Eu concordo com você. Caminhamos cegamente em direção a uma trilha de regras. Não nos deixamos fluir e apenas ser nós mesmos. Existem os mestres, os reis e os andantes. Por que não podemos ser tudo e não sermos classificados em nada ao mesmo tempo? -Troya explicou.
—Concordo -Disse e puxei meu cabelo. Usávamos um líquido grudento para colar as partes de nossos entes queridos as nossas. Puxei até que ficasse careca como Troya, com couro cabeludo sangrando, mas feliz. Joguei os pedaços em direção a areia, onde um dia retornariam aos restos da minha linhagem.
—Você enlouqueceu como eu-Disse ele sorrindo. -Como eu. Ou ficou mais normal. Depende do ponto de vista.
—Temos três pessoas neste mundo. Duas estão carecas. Acho que a anormal agora é a Hara.
Troya riu comigo. Escutamos passos no fundo da sala e entramos no lugar. Era exatamente como Hara havia descrito quando contava da última vez que viu Wira. Vários pequenos buracos estavam espalhados. De cada um deles saia um raio de luz que atingia um ponto específico.
Troya segue Hara para alguma sala aos fundos. Segurava uma bolsa de folhas que estava no veículo.
Espero por eles por algum tempo. Troya perfurava a clavícula de Hara com uma agulha com tinta. Ela segurava o grito de dor e os últimos detalhes eram finalizados.
Eis a história: Wira e Hara eram grandes amigas. Ambas desejavam ser andantes. Caminhar pelo mundo e descobrir novas coisas. Mesmo com medo, fugiram de sua comunidade. No meio do caminho acharam um diamante quase enterrado pela areia. Provavelmente pertencente a algum império. Muito difícil de ser achado. O último relato foi por volta de ££ D.A.
Pegaram o diamante e continuaram sua caminhada. Acharam essa moradia e concluíram que era conveniente entrar. Quem sabe não achassem algo ou alguém interessante.
O objeto estava atado sobre uma corda no pescoço de Wira, já que esta era mais cuidadosa. Percebeu que as luzes eram atraídas para o centro do cômodo. Se posicionou no local na esperança de ver algo diferente. De repente, todas elas apontaram para o diamante que começou a refletir e brilhar. Wira gritou e colocou o braço na frente do rosto antes que uma explosão de luz viesse e a levasse embora. Hara correu para o centro chorado. Queria ser levada também. Foi então que nos encontramos pela estrada.
Talvez agora pudesse realizar seu desejo. Correu para o centro e esperou que as luzes refletissem o diamante recém-desenhado em sua clavícula, com uma corda ilustrada em volta dele.
Hara esperou e nada aconteceu. Começou a gritar e puxou sua trança até que se tornasse uma pessoa careca e com o couro cabeludo sangrando. O cabelo caiu no chão como se não fosse mais nada. Como se nunca tivesse significado algo.
—Vamos -E saiu pela porta da frente pisando no chão com força. O piso quase quebrou de tanto ranger.
O veículo anda espalhando areia pelos cantos. De todos os mundos, este não deu certo. Por algum motivo alguém resolveu eliminar nossa população. Talvez decidiram que não éramos bons os suficientes em seguir regras ou que não éramos dignos de existir. Mas enquanto der, nós continuamos a caminhar até nós tornamos parte da areia. Parte do que já foi algo algum dia. E pode ser que algum dia alguém de outro mundo ache meu relato e traduza para sua língua. Pode não ser o achado mais importante, mas é a minha história. Não minha, mas de quem encontra-la e achar que ela seja merecedora de alguma atenção.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.