O mundo em preto e branco
1 Cotidiano
Notas iniciais
Não tá nada pesado, nem tão leve. Ou pelo menos é isso que eu acho, quis fazer algo equilibrado.
When the days are cold Quando os dias são frios
And the cards all fold E as cartas são dadas
And the saints we see E os santos que vemos
Are all made of gold São feitos de ouro
Seus olhos vagavam pelos corredores, todavia sem se prender a nada em especifico. Seus passos calmos e desleixados ainda mantinham certa contraditória sofisticação que se refletia em seus olhos cinzentos. Alunos abriam o corredor ao vê-lo passar e sussurravam seu nome com desgosto, alguns com admiração, mas sua maioria com a voz tão baixa que pareciam afogar-se no medo.
Ouvia esses tipos de comentários desagradáveis através das leves vozes que o vento carregava. Internamente rodava os olhos e seguia seu imutável caminhar até a sala vazia em que passava suas tardes após as aulas.
Se haviam outros membros no clube? Sim, obviamente, porém nenhum destemido o bastante para se aventurar lá em certas horas. A presença maçante daquele moreno desgraçado parecia deslizar por seus pescoços e enforca-los como uma cobra que apenas mataria suas vitimas por prazer.
Sempre mantinha seu ritual de, nas tardes de quarta e sexta, adentrar à sala do clube de artes e sentar-se em sua cadeira de frente para a janela da extremidade esquerda da sala. Possivelmente aqueles seus hábitos já programados eram um dos motivos para muitos o considerarem um psicopata... Deu de ombros internamente e acomodou-se em seu lugar de preferencia. Se alguns filhos da puta se incomodavam com sua presença, problema deles.
When your dreams all fail Quando todos seus sonhos fracassam
And the ones we hail E todos os que clamamos
Are the worst of all São os piores de todos
And the blood's run stale E o sangue corre envelhecido
Tirou o colete preto que vestia e abriu os botões da camisa de mesma cor, arregaçando as mangas em seguida. Alongou os braços levemente e sentiu o vento frio fazer o vidro da janela tremer e entrar na sala, criando o contraste com a temperatura controlada do colégio. O vendo empurrava e batia nos objetos a sua frente, todavia pareciam dançar ao redor de Robert que parecia confortável com o novo ambiente.
As portas fechadas e as luzes apagadas, juntos ao barulho dos vidros faziam os que, em dias normais, passariam por aquele corredor simplesmente desviarem suas rotas. Melhor assim, a presença de pessoas em muitos momentos lhe dava nojo... Sentia uma incrível repulsa por vários tipos de contato humano e realmente não se importava em demonstrar esse desgosto.
Apenas com a singela luz que recebia dos fracos raios de sol daquela tarde de inverno, começou a deslizar o pincel no branco imaculado da tela. Aparentes traços imprecisos que se transformavam em firmes pinceladas suaves de tons fortes de um cenário tenebroso, eram rabiscos desconexos que formavam um algo indefinido. Criava à sua vontade aquele mundo sombrio em que apenas havia luz para obter o contraste peculiar entre ambos, todavia o predomínio do obscuro prevalecia.
Seu universo era deprimente e depreciava a existência do próprio sol, até o branco parecia chorar ao escorrer em um cinza melancólico, mas ainda assim, não havia uma tristeza exaltante, nem desespero. Aquele mundo não representava os horrores do inferno e nem a oposição ao paraíso, apenas um mergulho no vazio.
I want to hide the truth Eu quero esconder a verdade
I want to shelter you Eu quero proteger você
But with the beast inside Mas com a besta dentro
There's nowhere we can hide Não há onde nos esconder
Olhou o pequeno relógio que repousava ao seu lado, perto dos vários potes de tinta sobre a mesa. Haviam se passado varias horas, todavia finalmente conseguia terminar aquele quadro que pintava a semanas. Ergueu o olhar para a obra de impressionismo que pintara e fechou-os em seguida. Havia odiado.
Levantou-se e chutou a cadeira para longe. Passava nervosamente a mão pelos cabelos, murmurando xingamentos em uma voz consideravelmente alta, porem ininteligível. Odiava aquilo. Odiava com uma intensidade descontrolável, detestava sua própria arte na mesma intensidade que amava seu pincel.
Pisoteava a cadeira e mantinha-se de costas para o quadro. Seus braços e mãos sujas de tinta refletiam sua dedicação apaixonada pelo seu trabalho enquanto seus olhos e boca anunciavam ao mundo sua revolta.
— Rob...? – Ouviu a voz grave chamar suave.
O moreno de olhos cinzentos não se virou e nem parou de mexer freneticamente suas mãos. Seu peito subia e descia rapidamente, coberto por uma camada de suor estranha para o clima frio do inverno. Seus lábios ainda emitiam palavras entrecortadas e seu cabelo era bagunçado pela violência do vento.
No matter what we breed Não importa o que criamos
We still are made of greed Ainda somos feitos de cobiça
This is my kingdom come Esse é meu reinado vindo
This is my kingdom come Esse é meu reinado vindo
O britânico adentrou mais o quarto escuro e fechou a porta atrás de si suavemente, adentrando o quarto escuro com passos firmes e calmos, anunciando sua aproximação ao outro.
— Rob... – Chamou novamente, pensou em dizer algo mais, todavia desistiu. Suas sobrancelhas se juntaram e crispou os lábios em preocupação.
Aproximou-se de Robert com passos mais rápidos ao ver leves tremores acompanhados de sua respiração pesada. Quando esteve perto o bastante pousou sua mão entre o ombro e o pescoço do pintor, deslizando-o vagarosamente até seu braço, numa tentativa de chamar sua atenção e acalma-lo.
Merle permaneceu com a mão em seu braço fazendo uma leve pressão; Imitou o modo como o moreno respirava, o som agoniante do ar que deixava seus pulmões soava pelo cômodo. Pressionava o braço do moreno enquanto acompanhava o ritmo frenético de sua respiração com o próprio pulmão.
O ar que antes dançava ao seu redor agora arranhava sua garganta seca. O garoto de olhos azuis continuava encarando o perfil do outro a sua frente e aos poucos foi parando de imitar sua respiração, indo daquela frenética busca por oxigênio até algo mais sonoro e lento. Tentava acalma-lo com aquela vagarosa transição entre os ritmos, como se desse o exemplo de maneira sugestiva, suave.
When you feel my heat Quando sentir meu calor
Look into my eyes Olhe nos meus olhos
It's where my demons hide É onde meus demônios se escondem
It's where my demons hide É onde meus demônios se escondem
Don't get too close Não se aproxime tanto
It's dark inside É escuro aqui dentro
It's where my demons hide É onde meus demônios se escondem
It's where my demons hide É onde meus demônios se escondem
Os olhos azuis estavam fixos no moreno que aos poucos parou de tremer, mesmo que o vai e vem de seu peito continuasse num ritmo consideravelmente preocupante. Sua mão voltou a deslizar pelo braço esquerdo do outro, sentindo fina camada de suor que ainda persistia em seu corpo.
Merle deu um passo a frente, aproximando-se mais de Robert e, com a mesma mão que passeava pelo braço, tocou com cuidado sua nuca, afastando os fios úmidos que grudavam em sua pele. Acariciou de leve aquele cabelo mais desarrumado que o usual e arrumou-os com suavidade.
Robert fechou os olhos acinzentados e franziu o cenho, ainda tentando controlar a entrada de ar em seus pulmões. Sentia aquele toque tão delicado que parecia uma brisa de verão que brincava com os fios castanhos desalinhados. Os dedos lentamente voltaram à nuca, afastando novamente o cabelo da pele.
—... Melhor? – Perguntou baixo, mesmo que na verdade não esperasse resposta, apenas necessitava falar algo.
Franziu mais o cenho e emitiu um som grave, algo entre um rugido e um ronronar. O britânico conteve o impulso de rir e voltou a mexer os dedos, massageando a nuca do outro e percorrer o caminho até certo ponto em seu pescoço, parando lá e pressionando com cuidado.
— Pare com isso. – Murmurou irritado, sua voz baixa pela sua garganta seca.
When the curtain's call Quando as cortinas se fecharem
Is the last of all Vai ser pela ultima vez
When the lights fade out Quando as luzes se apagarem
All the sinners crawl Todos os pecadores rastejarão
Merle deu de ombros e um singelo sorriso nasceu no canto de seus lábios. Os olhos cinzas de Robert se abriram, todavia as sobrancelhas permaneciam juntas, odiava esse hábito do europeu. Ouviu um barulho baixo que não conseguiu distinguir direito, algo entre uma risada tranquila e um suspiro feliz.
— Seus batimentos estão mais calmos. – Constatou, a alegria evidente em seu timbre.
Empurrou a mão de si e virou a cabeça para encarar os olhos azuis. A ferocidade do cinza contra a paz do azul... Xingou baixo, todavia alto o bastante para qualquer um da sala poder entender.
— Não faça isso. – Falou pausadamente, sua voz rouca dando um toque mais ameaçador.
Encaravam-se sem desviar o olhar, os olhos que normalmente brilhariam de raiva estavam em um tom opaco de irritação, refletindo-se nos olhos de Merle tornando-os ligeiramente mais azuis. Aquela indiferença quente que costumava brilhar naquelas íris cinzas estavam apagadas por algo que preferia não pensar muito por enquanto.
So they dug your grave Então eles cavaram sua sepultura
And the masquerade E o baile de mascaras
Will come calling out Chegará anunciando
At the mess you made A bagunça que você fez
Ficaram mais alguns segundos naquela troca de olhares. A quanto tempo estavam nessa situação de descontrole? Talvez minutos, talvez horas... Merle voltou a sorrir de canto, embora seus olhos permanecessem com aquele mesmo tom mais escuro que irritava ainda mais o moreno.
Empurrou o outro pelos ombros com tranquilidade, conduzindo-o até sentar-se em uma das cadeiras que não foram chutadas.
— Vamos sentar e descansar um pouco. – Sugeriu em tom monótono.
Ainda com raiva, aceitou mesmo assim e jogou-se na cadeira, cruzando os braços confortavelmente e apoiando as penas em uma pequena mesa que havia derrubado momentos atrás.
Don't want to let you down Não quero te deprimir
But I am hell bound Mas sou destinado ao inferno
Though this is all for you Embora seja tudo para você
Don't wanna hide the truth Não quero esconder a verdade
Suspirou discretamente e apoiou-se na mesa encostada na parede em que Robert sempre deixava seus pinceis e tintas, quase se sentando sobre ela. Fitou o americano de ascendência báltica passar a mão bruscamente pelos cabelos e ainda chutar levemente a mesa, mesmo que não forte o bastante para afasta-la.
— Cale a boca. – Reclamou obrigando a voz a soar alta mesmo estando rouca e sentiu a garganta arranhando.
Arqueou a sobrancelha e encarou-o serio, porem manteve silencio. Algo o impedia de desviar o olhar, então fechou os olhos azuis, pois era apenas assim que tinha certeza que não iria continuar encarando. Continuou ouvindo as palavras desconexas e o barulho de objetos se chocando misturando-se com a violência do vento batendo nas janelas.
— Merda... – Robert murmurava baixo.
No matter what we breed Não importa o que criamos
We still are made of greed Ainda somos feitos de ganancia
This is my kingdom come Este é o meu reinado vindo
This is my kingdom come Este é o meu reinado vindo
O europeu apertou os olhos ainda fechados e suspirou pesadamente até finalmente voltar a encarar o outro. Passava novamente a mão pelos cabelos de forma compulsiva e olhava para os lados como se não soubesse exatamente onde olhar.
— Rob... – Voltou a chamar, sua voz se impondo sobre os murmúrios do americano.
Escutou outro barulho e viu a pequena mesa afasta-se apenas alguns centímetros. O moreno suspirou alto, algo que raramente fazia e apoiou os braços na cadeira, levando a mão esquerda, fechada, até próximo do rosto em uma pose pensativa. Mexia os dedos de forma estranha, todavia menos agitado que antes... Parecia perdido entre seus pensamentos.
When you feel my heat Quando sentir meu calor
Look into my eyes Olhe nos meus olhos
It's where my demons hide É onde meus demônios se escondem
It's where my demons hide É onde meus demônios se escondem
Don't get too close Não se aproxime tanto
It's dark inside É escuro aqui dentro
It's where my demons hide É onde meus demônios se escondem
It's where my demons hide É onde meus demônios se escondem
Merle cruzou os braços e permaneceu imóvel, apenas esperando, sem saber exatamente o que. Controlava sua respiração quase como se temesse fazer algum barulho que despertasse precocemente o outro de seu transe. Sua expressão era seria e paciente, apenas esperava.
Não sabia dizer ao certo quanto tempo havia se passado e realmente não se importava muito com o horário, afinal não poderia ser assim tão tarde... Talvez fossem 17h, no máximo 18h, todavia o modo apagada como o céu estava do lado de fora não lhe ajudava muito.
— ... Merle. – Chamou por fim. – Vamos?
They say it's what you make Dizem que é o que você faz
I say it's up to fate Eu digo que depende do destino
It's woven in my soul Está envolto em minha alma
I need to let you go Eu preciso deixar você ir
Your eyes, they shine so bright Seus olhos brilham tanto
I want to save their light Quero guarder a luz deles
I can't escape this now Não posso fugir agora
Unless you show me how A menos que você me mostre como
Inclinou a cabeça para o lado, analisando o garoto ainda sentado em sua frente, de costas para si. Suspirou com algo semelhante ao alivio ao notar aquela pose prepotente com a cabeça erguida, finalmente descruzou os braços e desencostou da mesa ao escutar aquele característico grunhido de desagrado que seu moreno sempre fazia.
— Vamos. – Respondeu mais por educação do que por necessidade.
When you feel my heat Quando sentir meu calor
Look into my eyes Olhe nos meus olhos
It's where my demons hide É onde meus demônios se escondem
It's where my demons hide É onde meus demônios se escondem
Don't get too close Não se aproxime tanto
It's dark inside É escuro aqui dentro
It's where my demons hide É onde meus demônios se escondem
It's where my demons hide É onde meus demônios se escondem
Robert deu um ultimo chute na mesa, mais por preguiça de afasta-la com cuidado do que por raiva. Merle suspirou e deu de ombros, enquanto o de olhos cinzas levantava-se rapidamente. Grunhiu de novo com raiva e caminhou com passos pesados até o quadro, jogando um pano preto por cima deste, cobrindo-o.
Observou a ação sem questionar e simplesmente estendeu o colete que foi vestido de qualquer jeito sobre as roupas. Deixou a sala com passos lentos, tentando levantar com os próprios pés uma ou outra cadeira caída enquanto o britânico encarregava-se de arrumar alguns potes de tinta e pinceis. Andaram em silencio pelos corredores já um pouco vazios e o de olhos azuis encostou-se despreocupadamente na parede, com os braços cruzados, esperando Robert comprar alguma bebida na maquina.
— Deveria fecha-lo. – Comentou reparando nos músculos a mostra da camisa ainda aberta por baixo do colete também aberto. – Estamos no inverno.
Riu divertido ao escutar outro grunhido como resposta e começou a cantarolar uma musica qualquer que seu amigo Devon estava ouvindo algumas horas atrás. Estava de bom humor, no final das contas.
Notas finais
Enfim, falem o que acharam~
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