O mundo em cartas
1 Capítulo 1
Wes vivia escondido planejando suas técnicas de combate, ele era um player em treinamento, e estava perdendo todas as suas cartas, uma por uma, ele precisava de ajuda mas era muito orgulhoso para admitir. Quando estava sozinho em sua casa, Wes tinha desenvolvido um novo hobby que era cuidar de plantas. As plantas estavam inquietas, elas tinham sido regadas mas ainda estavam estranhas, era dito que sentiam presenças estranhas.
— Às vezes eu me pergunto porque escolhi esse hobby. Acalme-se flora, estarei aqui para acalmá-la sempre que puder. Essas plantas sabem mais sobre mim do que qualquer pessoa, eu posso até ouvir elas falarem que eu sou mimado, egoísta e um pouco narcisista. São por coisas assim que eu vivo escondido, eu sei que sou esforçado, mas continuo perdendo as minhas cartas. Eu não posso desistir das minhas cartas, e eu odeio perdê-las.
O relógio também estava inquieto, parecia gritar por Wes, ele não parava de tocar, o seu barulho se expandia por todo o jardim.
— É a hora do piano, preciso me apressar.
Ouvia-se o som do piano, era um som confortável. A música fazia todas as pessoas se sentirem felizes, se sentirem em casa, mas não era isso o que o pianista sentia, a música para ele estava misturada com os seus pensamentos e a sua mente o torturava.
"Eu sou um player. Preciso jogar, preciso aprender a retomar um jogo, preciso que alguém me ensine" esses eram os pensamentos de Wes Field, ele gostaria de ser um player melhor. A única coisa que Wes não sabia era que ele nasceu para ser um dos melhores players e nada mudaria isso, o seu destino estava selado pelas cartas. Além dos gritos que ecoavam na sua mente confusa e da bela melodia que se escutava, existia um pequeno barulho na sua porta, alguém o chamava, mas Wes não se deu conta disso porque os seus dedos e ouvidos estavam ocupados.
— O meu toctoc não chamou a sua atenção, Wes? É a terceira vez que eu bato nessa porta, cresça, criança.
Essas palavras deram fim ao ritmo e a melodia, ele ficou surpreso, poucos sabiam onde Wes vivia, Wes estava pronto para atirar garfos e facas para cima do estranho.
— O que? O que você faz aqui? Como me encontrou? Esse lugar estava escondido, eu exijo que me conte a verdade Sam Parker, faz tanto tempo desde que eu te vi.
Quem o chamava, quem fazia as onomatopeias, era um homem chamado Sam Parker, ele era um collector. Conhecia Wes por causa de uma viagem que fez em Belga, eles se conheciam pouco, mas naquele momento Sam precisava de ajuda, ele clamava por ajuda.
— Entenda que eu preciso da sua ajuda. Players são fáceis de encontrar nos dias de hoje e a sua melodia caminha em todos os lugares. Eu não conheço mais ninguém que possa me auxiliar.
— Como você não conhece? É um collector famoso, certo? Existem muitas pessoas que podem ajudá-lo, eu não posso. A única coisa que eu sou é um mero player que nem está vencendo os seus jogos, estou perdendo as minhas cartas, uma a uma, não tenho tempo para isso.
— Eu perdi as minhas cartas, não sou mais um collector renomado. Não fique surpreso, isso acontece, não com collectors como eu, mas acontece. Não posso deixar as pessoas saberem disso, eu estou confiando a minha vida e minha reputação a um estranho. Preciso da sua ajuda para achar as minhas cartas, você quer vencer os jogos, certo? Eu tenho dinheiro e talento, irei recompensá-lo da melhor maneira possível.
— Eu não preciso de dinheiro, players não vencem com dinheiro, eles vencem com táticas e estratégias. Os sentimentos se tornam mais importantes do que uma mera quantia de dinheiro que você tem em mãos.
— Certo, encaminharei o trem e sairemos amanhã.
— O que? Eu não vou a lugar algum, eu não posso sair daqui, não posso deixar as minhas plantas, preciso pensar e repensar nas minhas estratégias de combate, não posso deixar minhas cartas sumirem.
— Encaminharei o trem, partiremos amanhã.
— Eu não vou partir.
— Você irá quando sonhar, você irá.
Sam partiu ao anoitecer, Wes estava confuso, mas naquele momento ele já não ligava mais para esses pensamentos. Todos eram estranhos, todos. Ele adormeceu naquela tarde pois estava cansado e as suas preocupações não iam embora, isso o frustava.

Quando anoiteceu Wes já estava a bordo do trem, Sam estava ao seu lado o olhando enquanto ele dormia. Ele sabia que Wes sofreria amnésia porque tinha sido dopado e que teria que explicar as classes novamente, Sam estava preparado.
— A-AAhn? Onde estou?
— TREEEEEEM, ELE ACORDOU. REPITO, ELE ACORDOU.
Um som gritante se ouviu, parecia uma buzina desenfreada, Wes não sabia o que era, mas o que quer que tenha sido obedecia os comandos de Sam.
— O QUE É ISSO? UMA BOMBINA? UM ALFAIATE?
— As coisas estão piores do que eu imaginei, acalme-se garoto. O seu nome é Wes e você foi escolhido para me ajudar, eu te droguei e o trouxe para o meu trem, suponho que esteja com um pouco de amnésia, vou explicar o sistema de classes e acredito que irá se lembrar de todos os fatos depois.
— VOCÊ ME DROGOU? DROGOU? EU? POR QUE? SE VOCÊ ME DROGOU, EU VOU TE DROGAR TAMBÉM.
— Deveria ter escolhido um player melhor, minhas escolhas para cartas costumam ser incríveis, mas para as pessoas reais eu sou péssimo.
— VOCÊ ESTÁ FALANDO QUE EU SOU PÉSS-
— Muitíssimo bem, é a hora da fita, escute as minhas palavras quieto, explicarei quem eu sou e o que são as classes.
Sam amarrou as mãos de Wes e colocou uma fita na sua boca, agora ele tinha que explicar as classes, quando alguém sofria amnésia não conseguia se recordar das classes e isso era perigoso.
— As classes que eu conheço se chamam Player, Collector, Judge, Faker, Stagnant, Unique, Traveler, Pagan, End. Podem existir mais classes, mas eu desconheço as outras, não gosto de passar muito tempo estudando elas, gosto de surpresas, mistérios. Agora irei definir cada uma, preste atenção, isso é muito importante, Wes.
The player
São criaturas competitivas, costumam ser inseguras ou indecisas, estão sempre tentando descobrir o lado bom e ruim, analisando os seus sentimentos, cada player possui muitas experiências de vida, e estão em busca de conhecimento. A maior parte dos players estão sempre jogando e montando estratégias de combate, eles podem ser convocados a qualquer hora para um confronto, suas cartas e sentimentos permanecem no jogo. Players precisam saber posicionar, pensar, confirmar e sentir as suas próprias emoções para realizar as próximas jogadas. É um fato que cada player pode ter apenas um "deck" de cartas ou ter vários. Cada um sendo utilizável em determinado jogo.
The collector
São observadores e procuram não participar de relações pessoais, eles só se preocupam em cuidar, guardar e enfeitar suas cartas. Existem collectors que passam anos observando as suas cartas e admirando-as, outros que a levam em viagens para conhecer o mundo todo. Similar a Unique, é uma classe que se dispõe a sacrificar qualquer coisa para manter suas cartas intactas. Costumam ser quietos e orgulhosos, não costumam pedir ajuda, o seu modo de pensar é baseado em suas cartas.
The judge
São julgadores, a maioria só se importa consigo mesmo, definem o que seria bom para si mesmo, não participam de relações sociais, não colecionam as cartas, tendo os seus próprios motivos para isso. Similar ao collector, mas só observa, idealiza, não possui cartas.
The faker
São falsários que podem trocar cartas facilmente por outras, conseguem criar cartas falsas para enganar os outros, colocá-las em jogo com a finalidade de obter algo que ele deseja mais que possui. Seja manipulando ou interagindo com os outros, eles estão sempre cansados das suas cartas e almejam alcançar as cartas de maior valor.
The stagnant
São aqueles que possuem poucas cartas e não dão muita atenção para elas, se satisfazendo com elas, ou não, vivendo, tentando virar a cara para outras coisas e achando objetivos rápido para satisfazer a sua vontade e voltar a aceitação. O estagnado sempre deixa teias de aranhas em suas cartas, eles são responsáveis, mas nem sempre estão ativos para realizar as suas tarefas.
The unique
Existe um tipo raro que possui apenas uma carta, porém dá toda a atenção possível a ela, faz de tudo para mantê-la brilhante, perfeita. Eles dariam a sua vida por essa única carta, são confiáveis e amáveis.
The traveler
Alguém que vaga entre todos, sentindo e passando por todas as visões, dependendo da emoção e experiência para se manter em um certo período e transitar por outros em outros períodos. Ninguém sabe muito sobre as pessoas que possuem essa classe.
The pagan
São similares ao Unique, possui várias cartas especiais, mas muda quando necessário, não os trata de maneira superficial, mas dependendo da realidade em que vive, ele busca refugio em outras cartas. São normalmente representado por pessoas que são ultra-mega-super fãs de artistas, são instáveis nos seus ídolos.
The end
Detentor de todas as classes, as pessoas que possuíram essa classe não existem mais. Salomão era a única pessoa conhecida que dominava totalmente essa classe, felizmente ou infelizmente, ele está morto. Essa classe está quase extinta, mas Salomão ainda reside na mente das pessoas, ainda reside.
Naquele momento, Sam já estava retirando a fita da boca de Wes e desamarrando as suas mãos, enquanto Sam se desculpava por ter feito aquilo ele pareceu ter recobrado uma parte da sua memória.
— Obrigado pela explicação, sinto lhe informar que minha memória retornou e eu não vou te ajudar. Nem sei quem você é, por favor, não me obrigue, eu sou uma bomba relógio e te explodirei se continuar com isso.
— Eu lhe oferecerei métodos de batalha e o pagarei em dinheiro, não se esqueça que eu sou um collector e faço qualquer coisa para recuperar minhas cartas.
— Se for assim eu aceito, mas como um collector perdeu as suas cartas? E por que veio procurar a minha ajuda?
— Um faker me enganou, ele conseguiu roubar todas as minhas cartas, falsificando-as por outras. Eu preciso da ajuda de um player novato que o derrote e trague as cartas para mim. Eu preciso da sua ajuda Wes, por favor.
— Acho que não tenho outra escolha, mas quem é você? E por que precisa de um player novato?
— Eu preciso de um player novato que não conheça muito sobre mim e que não espalhe que estou sem cartas, players novato costumam ser idiotas e não conhecem nem um pouco sobre o mundo onde vivem. E sobre mim, eu sou um velho cara que o conheceu em Belga e que perdeu suas cartas, costumo ser educado, mas gosto de brincar com os menores, só isso já consegue me definir por completo, esqueci de dizer que também sou confiável.
Wes possuía três cartas, uma carta que foi rasgada mas que estava costurada por um cordão vermelho, outra que estava um pouco velha e mais três cartas que estavam numa só.
— A primeira carta é interessante, foi um amor não correspondido, não? E ele está preso nos cordões vermelhos por causa do seu amor ou algo assim? Já ouvi histórias assim antes, esses tipos de cartas são bem frequentes nos dias de hoje. Tch, você é gay.
— Eu não sou gay, não fale asneiras. Ele é só uma pessoa especial, isso não tem nada haver com amor, só estou com algumas relações sociais complicadas, e as minhas cartas não estão úteis para me ajudar com isso.
— Bom, sendo gay ou não, eu estou disponív-
Wes conseguiu bater em Sam, o fazendo desistir de brincar com a sua cara.
— Você é um collector, não? Eles são calmos e educados, certo? Então assuma o seu papel e pare de brincadeiras comigo.
— Eu não sou um collector sem as minhas coleções, posso fazer quantas brincadeiras quiser contigo, só retornarei ao meu papel quando obter as minhas cartas. Voltando ao assunto, você possui uma carta de uma garota, ex-namorada provavelmente, isso prova que eu vou ter que te ensinar a desapegar das pessoas, trabalharemos sua estratégia e a sua personalidade.
— Esse assunto é complicado também.. Só a deixe aí, p-por favor.
— E a última carta é um combo de três cartas, como conseguiu isso? Só uniques conseguem por três cartas em uma desse jeito, é alguma herança de família? O mundo das cartas é mesmo fascinante.
— É um segredo de família e essa é a minha carta mais forte, procuro não usar muito ela. É uma herança do meu avô que costumava ser um dos uniques mais fortes em seu tempo, ele conseguiu passar ela pra mim, as pessoas nessa carta foram trocadas, mas os sentimentos do meu avô ainda permanecem nela mesmo depois de morto.
— Oh, e então você só fica com a carta do seu namoradinho, uma carta velha e um combo de três cartas que nem parecem ser suas? Temos que resolver isso, faça uma carta para mim.
— Eu nem te conheço muito bem, não posso, e pare de fazer brinc-
— Faça uma carta para mim. Agora.
Wes não sabia como fugir e acabou fazendo a carta de uma maneira um pouco forçada. Sam teve uma borda de prata, ela era um pouco enferrujada, era esperado que aquela seria a borda.
— Você é ótimo para criar cartas, só precisa conhecer pessoas novas. Eu te auxiliarei com tudo isso e só o que você precisa fazer é recuperar as minhas cartas, está bem? Eu preciso das minhas cartas de volta.
— Entendo, irei fazer isso, mas gostaria de um sorvete. O trem já vai partir, faça isso por mim, estou com fome e sem dinheiro.
— Tudo bem, capitão. Pegaremos o seu sorvete e lembre-se que eu estou disfarçado, você precisa me chamar de Sem.
— Qual a diferença de Sam para Sem? É a mesma coisa, nã-
— Só faça o que eu peço e ficaremos bem.
Os dois desceram do trem, eles já estão prontos para seguir a sua jornada. Wes precisa vencer os seus jogos, montar suas estratégias, conhecer e controlar os seus sentimentos, Sam precisa recuperar as suas cartas roubadas e auxiliar o seu pupilo. Os dois precisam aprender a conviver juntos, eles estão presos pelas cartas e pelos fios do destino. Eles conseguirão realizar os seus objetivos? Eu não sei, mas essas é umas das coisas que eu realmente quero acreditar.
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