O mundo contra nós.

1 O início de um dia quase normal.


Notas iniciais
Aposto que tem erros ortográficos, ignorem.

Nasci e cresci na cidade grande, nunca gostei muito mas não tinha nada do que reclamar, afinal como todos dizem “cidades são o centro de tudo” e era verdade mesmo.

Meu caminho pela cidade era o mesmo quase todo o dia: saindo de casa ia de ônibus até a livraria do shopping onde eu trabalhava e de vez em quando de carona com meu pai, em seguida ia para o colégio de ônibus que sempre estava cheio, terminando as aulas pegava um metro e voltava para casa andando no resto do caminho, afinal, dias normais para pessoas comuns, sempre a mesma coisa quase todo santo dia.

Minha família era a seguinte: eu Anabel, minha irmãzinha Emmy, meu pai Eduardo que após sair do exército começou a trabalhar como carteiro depois de tudo, e minha tia Nicole que era bombeira.

Meu pai, cabelo escuro cacheado, olhos verdes, usava barba e sempre com seu relógio para nunca se atrasar. Ele trabalhou no exército brasileiro logo após fazer 18 anos, aqui no Brasil é obrigatório, por conta disso que ele entrou, mas no final ele acabou gostando. Ele participava em correntes que o Brasil fazia em outros países, ele nunca entrou em nenhum tipo de guerra, mas começou a ser importante logo depois que foi enviado ao Haiti e alguns países em crise, para ser especifica ele se tornou capitão, salvou varias pessoas, mas ficou com alguns problemas de saúde logo depois que chegou nessa insígnia. Um dia quando ele foi fazer uma vistoria em um prédio que tinha sido demolido ele tinha que pular de um prédio a outro, meu pai tentou correr, mas não conseguiu pular e acabou caindo, quebrou duas costelas, a perna esquerda e descobriu que estava com Pneumonia. Ele saiu do exercito já minha mãe tinha acabado de me dar á luz, sua saúde nunca foi das melhores depois disso, e sua perna não foi mais a mesma.

Minha mãe ficou internada em um hospício no interior de São Paulo, pois queria de qualquer jeito abortar minha irmãzinha, dizia ela que estava possuída, algo ligado com o trabalho do meu pai no exercito, não tivemos outra escolha. Eu me lembro de que ela era bêbada bem antes de Emmy nascer, mas apesar de tudo era muito gentil comigo, ela perdeu o juízo de uma hora para outra quando meu pai decidiu terminar com ela, então ela começou a querer fugir comigo e ainda gravida de Emmy para um lugar que ela nunca falou. Eu estava muito assustada naquela época, eu só queria minha mãe de volta, tinha só oito anos na época, tudo aquilo era difícil para uma criança, então meu pai me levou para Bahia, era um lugarzinho no interior bem bonito, meus avós e minha tia Nicole moravam lá, e admito, nem sentia falta da minha mãe, então depois de duas semanas eu e minha tia voltamos para São Paulo, meu pai havia comprado uma nova casa na capital e Nicole começou a morar conosco.

Nicole, irmã mais velha do meu pai, cabelo escuro e olhos azuis. Fez metade de uma faculdade de enfermagem, mas não teve dinheiro para pagar o resto dela, não tinha boas oportunidades quando morava na Bahia então decidiu ir morar em São Paulo com meu pai, e com ajuda dele também, começou a trabalhar no Corpo de Bombeiro. Meu pai também morava na Bahia antes de virar militar, decidiu antes disso se mudar para São Paulo e tentar fazer alguns concursos e vestibulares, foi ai que conheceu minha mãe.

Morávamos na frente de uma grande avenida bem movimentada, da varanda dava pra ver as pessoas indo para o trabalho, eu gostava de ver elas quando não tinha nada para fazer. Meu pai era uma dessas pessoas, ele ia um pouco antes de eu ir trabalhar, ás vezes íamos juntos, mas na maioria eu ficava pra assistir meu programa favorito, uma série de investigação chamada Two Windows To The Beyond, era uma das minhas coisas favoritas do mundo, afinal, quem não gosta de um de drama e suspense logo de manhã? Eu tinha 16 anos quando esse lindo e maravilhoso desastre aconteceu. Meu nome é Anabel e essa é minha história.

Era uma quarta como outra qualquer, estava dormindo quando minha irmãzinha me acorda batendo Jack, o gato-pirata-caolho de pelúcia que ela tinha na minha cabeça com a maior delicadeza do mundo.

–ACORDA ANA! TIA NICOLE ESTÁ TE CHAMANDO!

–Credo criatura! Precisa fazer isso? Sai daqui agora! – disse eu pegando Jack o gato e jogando para o lado de fora pela porta. Emmy corre resmungando e sai gritando.

– TIA, A ANA JOGOU O JACK PELA PORTA!

E assim foi meu inicio de terça, achei até engraçado e já fui logo levantando, me espreguicei, bocejei e me olhei para o espelho que ficava no meu quarto e pensei “deixe-me ver o que ela quer, depois eu vou tomar um banho”.

Coloquei ainda de pijama minhas meias com aquelas borrachinhas em baixo só para ninguém falar que eu estava descalça e fui à cozinha morrendo de sono ainda, olhei para o painel da televisão pra ver as horas e me virei para minha tia que estava preparando o café da manhã dela.

– Que você quer tia?

– Bom dia pra você também!

– Bom dia... O que você quer?- Respondi.

–Nossa, que mau humor é esse logo de manhã? Credo – Disse ela.

–Também , você manda a Emmy me acordar e ela simplesmente joga o Jack na minha cara quando eu estou dormindo, tenha compaixão...

–Eu faço o seu café da manhã, eu já falo com você – Respondeu pegando seu celular e discando para algum número, sem me dar muita atenção.

Eu então voltei para a sala, Emmy estava assistindo TV e brincando com Jack. Eu estava a caminho do banheiro quando avisei pela janela carros de policia passando em seguida e em conjunto pela avenida, achei aquilo meio estranho mais nada fora do normal, só pensei que era algum assalto e continuei meu caminho para o banheiro pensando sobre aquilo, ouvi minha irmã fazendo o barulho da sirene, continuei andando; Chegando a porta do banheiro abri normalmente e fui tirando a roupa, dobrei e coloquei em cima da pia, liguei o chuveiro e notei que veio pouca água, fechei e abri de novo esperando que viesse mais, mas não veio, abri no máximo e então veio uma rajada forte de água fria que depois parou rapidamente, eu fiquei com muita raiva: ‘puta que pariu, como que eu vou trabalhar nessa merda agora?’ disse para mim mesma ‘não vou desistir agora que já entrei no chuveiro’ e fui tomar banho com a pouca água que estava saindo do chuveiro. Demorou bastante, mas já estava me ensaboando quando a água parou e no exato momento meu pai bate na porta.

– Que você está fazendo aí?

– O que você acha que eu estou fazendo? – Respondi com raiva por causa da água.

– Você está tomando banho? — Disse ele rindo.

– O quê? Eu estou aqui faz tipo, meia hora e... – Ele continuava rindo — Pai! Que foi?

– Sai logo daí. –Disse ele se afastando da porta.

Eu nem tinha lavado o cabelo, mas ele estava todo úmido, eu não coloquei a cabeça direto, pois eu tinha em mente que tinha grandes chances de que eu não conseguiria lavar mesmo, então eu me sequei e com a toalha em volta de mim fui até meu quarto me trocar, eu estava sentindo meu cabelo coçar, estava um nojo! Vesti minha roupa para o trabalho e coloquei minha mochila com o uniforme da escola e meu material, coloquei meu celular no bolso da calça e minha carteira no outro, afinal, o de sempre para o dia de sempre. Com o cabelo úmido e todo sujo, o máximo que eu podia fazer era amarra-lo, então peguei uma piranha e fiz um coque mal feito, mas pra falar a verdade ficava bem em mim.

Fui para a sala a procura de respostas sobre o chuveiro, não deveria ser nada importante claro, sabia que a água estava em falta, vi meu pai no sofá assistindo ao jornal, olhei para ele com uma cara de nervosa mas ele nem notou, estava ocupado de mais com o que estava passando na TV, sentei ao lado dele e comecei a assistir:

–Hoje, América, Europa e Oceania perderam contato com o resto da África sobre as ocorrências e pedidos sobre as mortes de prováveis doenças estão decorrendo por todo continente, suposto vírus Ebola ou outras doenças mataram várias pessoas, as privações de meios de saúde obviamente pioraram a situação, agora países encontrados nesse continente estão em alerta, proibido agora viagens internacionais para países desse continente, várias manifestações se encontram, o Brasil era um dos participantes que estava ajudando esses países, levando soldados, médicos, voluntários e água para ajuda-los. Voltando sobre caso da água aqui em São Paulo, se nota que em alguns lugares ainda existe água circulando, e na maioria que ainda possui é da caixa d’agua, mas não se recomenda beber, por ter ficado pouco movimentada pode não estar em boas condições, a SABESP informa que foi um problema grande, mas já esta sendo concertado e...

Fui correndo para a cozinha para ver o que minha tia tinha a dizer a respeito de tudo isso, com um drama bem planejado.

–Então Ana, era exatamente disso que eu queria te falar...

– E tipo, meu Deus tia, não dava pra simplesmente falar ANA, A ÁGUA ACABOU?!

– Ana, a água não acabou, esses caras do jornal são uns exagerados.

– Você acha que eu não sei que eles exageram? Mas você acha que o que? Que o pessoal do resto do planeta está comendo bolo e festejando? Todo mundo está ficando doente faz um bom tempo. Tudo bem que a água acabou HOJE, mas faz muito tempo que o preço da água aumentou e ninguém fala a respeito disso, todo mundo está ficando louco aqui!

– Ana, você é a única louca aqui, você está muito nervosa, relaxa... Olha o que eu vi na internet – disse ela pegando seu celular.

Era uma enquete sobre a SABESP, falava que esse problema ocorreu á quase uma semana atrás, e outra sobre os lugares que estavam sem água aqui no Brasil. Ela clicou na segunda enquete e eu a li.

–Não é o mundo todo nem o Brasil todo que está sem água, são só poucos, praticamente só os estados de grande população, claro que deve ser alguma falha ou eles estão doando, limpando ou sei lá – disse minha tia.

– Aposto que aconteceu algo com os canos, mas o que me deixa assustado é que ninguém quer dizer o porquê – Disse meu pai entrando na conversa. — Espero que o pessoal da SABESP resolva logo isso, porque amanhã vai ter um evento de doação de brinquedos com o pessoal no trabalho o dia todo, vai ter um monte de crianças correndo pra lá e pra cá, o que elas vão beber? Cerveja?

– Eduardo você é um idiota ou o que? – disse minha tia tentando segurar a risada, eu achei a piada muito tosca.

–O que? O mundo vai acabar?- Entrou Emmy na conversa meio assustada.

–Não Emmy, a tia Nicole te fala depois, eu tenho que ir trabalhar com um rato na cabeça, pai, posso ir de carro com você? Da última vez cheguei atrasada.

–Rato? Que rato? –Perguntou Emmy sem ninguém se importar.

–Hoje você vai ter que levar a Emmy na escola de novo, eu tenho que ir mais cedo ao Corpo de Bombeiros. – Disse tia Nicole mexendo no celular como sempre.

–Até quando eu vou ter que levar ela?

Esperei alguns segundos até ela terminar de escrever no celular.

–Até esse problema da água acabar provavelmente, sinto muito Ana. – Dessa vez olhando para mim.

Fazia uma semana que eu estava a levando para a escolinha, no dia anterior estava tanto trânsito que tive que a deixar literalmente correndo.

Suspirei e ficamos alguns segundos sem falar, Nicole voltou ao seu celular.

–Ei, cadê meu café da manhã?- Perguntei.

–Ah, pode comer qualquer coisa hoje, tem uma fatia de pizza que guardei na geladeira antes de ontem.

–Tá, mas o que a Emmy vai comer?

–Ana eu tenho que ir agora, você consegue se virar hoje, não é tão difícil. – Respondeu ela com um tom de voz diferente.

–Lógico que é, nem sei cuidar de mim mesma, imagina de uma criança?!

–Pare de exagerar filha – Disse meu pai. – Olha, vou te dar hmm... 50 reais, assim você pode se virar o dia todo, pedir comida por telefone ou algo assim.

–Apesar de que nem é preciso, tem bastante besteira aqui em casa. –Disse minha tia.

–Vamos pedir comida japonesa? –Perguntou Emmy em pé em cima da cadeira.

–Veremos. –Respondi.

–Ok, agora é pra valer, eu vou lá pegar minha mochila, e Emmy desce logo daí! –Disse minha tia.

Emmy desceu rapidamente, correu para a sala jogando Jack no sofá, pegando o controle e colocando no seu canal de desenhos.

–Deixa que eu pego, eu te dou uma carona, já vou cedo para o trabalho também, da pra ver daqui que está muito trânsito hoje, deve estar tendo algum tipo de protesto, esse pessoal só que ferrar com a gente. –Disse meu pai comendo um pão com manteiga.

–Eduardo não fala isso, essas pessoas só querem melhorar as coisas.

–Hum, sei. –Disse meu pai indo até o quarto da minha tia, que aliás, também é o da Emmy.

Nicole voltou para seu celular, agora sentando na cadeira, apoiando seu celular na mesa e digitando como sempre. Eu fui então abrir a geladeira, peguei a pizza de mozarela que estava em um prato e já fui colocando no micro-ondas, selecionei 1minuto e fui pegando meu copo do My Little Pony , em seguida peguei uma garrafa de Coca-Cola que estava do lado da pia e despejei até a boca do copo, fui bebendo e caminhando até a sala, derrubei algumas gotas no chão sem me importar, minha tia já estava do lado de fora, esperando meu pai, que apareceu assim que eu cheguei.

–Ok Ana, até mais tarde. –Disse minha tia se despedindo.

–Faça bom proveito dos 50 reais, pode ficar com o troco se sobrar. –Disse meu pai.

–OK, eu me viro, pode deixar.

–Vou passar no supermercado se conseguir para comprar água, dai eu te ligo qualquer coisa.

–Tchau pai! Tchau tia! –Disse Emmy.

Se despedindo foram enfim descendo até a garagem, Emmy foi correndo para a janela para vê-los saindo com o carro, olhei para o painel da televisão novamente, eram lá pelas 7:30, então dava tempo de pedir alguma comida antes da minha série, que começava ás 8:20 em ponto. Emmy voltou a assistir seu desenho e eu voltei para a cozinha, peguei a pizza, um potinho de catchup e um guardanapo, voltei e coloquei tudo isso na mesa, fui até a sala e peguei o telefone sem fio. Vi Emmy correndo para seu quarto, não era novidade então voltei para o telefone e ao mesmo tempo comendo minha pizza com a outra mão. O telefone lá de casa tinha uma lista telefônica digital inclusa nele, também não era novidade eu ficar sozinha com Emmy, então de vez em quando (ou quando minha tia não estava querendo fazer comida) era só ligar para algum fastfood. Liguei uma vez e deu ocupado, “ótimo” pensei. Minhas mãos estavam gordurosas, então esqueci o telefone e resolvi comer de uma vez a pizza, fui caminhando segurando ela em uma mão e meu copo em outra, segui o corredor até o quarto de Emmy.

E ela estava olhando pela janela.