– Tome, isso é pra você. – Claire disse, entregando uma arma para Lis.

– Oh, obrigada! – Lis disse, pegando a arma rapidamente e treinando a mira descuidadamente.

– Deixe de ser tonta, não é pra brincar com isso! – Claire brigou.

Olhei para Oliver e ele segurava uma espécie de espingarda, mas era um pouco mais sofisticada que isso. Não entendo muito de armas, então para mim todas elas pareciam iguais. Apesar de já ter visto e até tocado em outras armas antes.

– Já demos uma olhada por aqui e apesar de ter muitas pessoas pobres, não parece um lugar tão perigoso. Podemos seguir para o apartamento tranquilamente. – Oliver falou.

– Aonde exatamente vamos morar? – Hector perguntou.

– Vocês vão morar num apartamento bem simples aqui perto. Não é nada perto de algo luxuoso, mas pra quem morava num hospital psiquiátrico não vai fazer muita diferença, né? – Claire respondeu dando um sorriso sarcástico.

Apesar de tudo, Hector não respondeu. Ele havia se desligado, seus olhos estavam totalmente frios. Se fosse realmente se importar, iria ficar estressado ao ver sua irmã o tratando daquele jeito. Claire estava sendo precipitada em agir desse jeito com Hector... Ou será que faz parte de seu “plano”? Se é que ela tem um.

Fomos para o apartamento. Durante o percurso, Lis e Oliver estiveram em nossa lateral observando o lugar. Era realmente muito pobre, parecia uma favela. Havia algumas pessoas ali, mas estavam em um estado realmente decadente. Elas nos encaravam como se fossemos extraterrestres.

Suas roupas estavam sujas e rasgadas, seus corpos pareciam sofrer com a falta de higiene e alimentação correta. O cheiro daquele lugar estava quase insuportável e me fazia ter náuseas, me perguntei como alguém podia viver ali. Claire começou a resmungar sobre o cheiro e colocou um lenço sobre seu nariz.

– Não olhe demais para isso. – Hector segurou minha mão.

– Eu quero. Essa é a realidade, eu não quero a evitar.

– Eu sei, mas... Você é muito sensível.

– Eu consigo lidar com isso. – o encarei. – Pare de se preocupar a toa.

Depois disso andamos em silêncio pelas ruas quase desertas daquele lugar. Mesmo que não houvesse muitas pessoas, eu senti como se vários olhos me encarassem. E senti muita culpa e impotência por não poder trocar a minha vida com as delas. De alguma forma eu pensei que algumas pessoas lá talvez fizessem melhor uso da minha vida.

Paramos na frente de um apartamento com uma aparência muito velha e suja. Provavelmente já havia sido branco, mas sua cor atual era algo meio amarelado. Não era muito alto, mas era bem largo e parecia que muita gente morava ali.

– Vamos entrar. – Oliver falou. – É o quarto andar, então vamos precisar andar um pouco de escada.

Assim que entramos, notei que o interior era ainda pior que o exterior. Havia muita poeira e as paredes pareciam estar muito sujas. Claire novamente deu chilique, reclamando que aquela poeira iria estragar seus sapatos e que estava odiando tudo aquilo.

Subimos as escadas e elas pareciam que nunca iriam acabar. Estava ficando com a respiração pesada, porque não sou acostumada com exercícios e aquela poeira toda piorou a situação. Mas finalmente chegamos. Oliver pegou uma chave que estava em seu bolso e abriu o apartamento de número “409”.

– Olá! Vizinhos novos? – Uma pessoa falou quase que na mesma hora que abrimos a porta, nem ao menos tive tempo de olhar seu rosto.

– Ah, por favor, nos poupe disso. Não queremos falar com os pobres que moram aqui. – Claire fez cara de nojo.

– Nossa, que grosseria hein. – o garoto riu. – Não dá pra ser mais educado nesse mundo cruel.

De alguma forma, ele parecia não ser uma pessoa lá muito confiável. Deveria ser um pouco mais velho que eu alguns anos, mas era baixo e tinha quase minha altura. Seus cabelos negros tinham cachos bagunçados. Seus olhos eram um verde muito intenso e quando digo que se parecia com uma esmeralda, até mesmo o brilho da pedra aparecia com seus olhos.

Ignorando o fato de que ele conversava com nós, entrei no apartamento sozinha enquanto todos estavam distraídos com o garoto estranho. Confesso que fiquei bem surpresa ao ver que aquele lugar não era tão repudiante como o bairro onde ele ficava. Na verdade, parecia bem aconchegante.

Havia um carpete de cor creme pela sala de estar. O sofá parecia ser muito macio e tinha uma cor bem bonita, um azul pastel e que transpirava calma. O lugar era tão bom que a realidade que conseguíamos ver pela varanda parecia apenas um quadro mal pintado.

– O que achou? É bem bonito até, não é? – Lis se aproximou de mim.

– Sim, mais do que eu esperava.

– Esse apartamento era meu. – ela riu. – Eu usei por um tempo quando viajava pra cá. Pode usar meu quarto, eu e o Oliver vamos dormir na sala, esse sofá se abre todo, então é bem tranquilo.

– Vocês vão dormir no mesmo lugar?

– Ah, você é tão inocente, Karin.

A minha cara não deve ter sido uma das melhores, porque ela riu muito depois. Lis me mostrou o seu antigo quarto, que seria meu atual. Era um lugar com uma decoração muito esquisita e que parecia combinar bem com o estilo de Lis. Ou seja, cheia de coisas “steampunk”. Aquilo parecia mais um quarto que havia parado no tempo.

– Que quarto mais legal! – antes que conseguisse notar, o garoto de antes estava no quarto logo atrás de mim e da Lis.

– O que faz aqui?! – perguntei por impulso.

– A loirinha ali me deixou entrar e falou pra eu encher o saco de vocês. – ele riu. – Não se preocupe, eu só queria dar olá. Desde que me mudei, esse apartamento estava vazio.

– Apesar de esse apartamento ser meu, faz bastante tempo que não o uso. – Lis falou. – Não acho que tenha problema tentar fazer amizade com a gente, mas não quero que se intrometa demais. Espero que entenda que confiar nas pessoas daqui é algo muito arriscado.

– Está tudo bem, eu entendo. Só espero que vocês também entendam que não é mau negócio fazer amizade comigo. Por aqui, eu sou bastante influente. Cheguei faz só alguns anos e não há uma pessoa que não saiba meu nome.

– Ter fama num lugar assim... Não parece coisa de gente decente. – falei, de novo por impulso.

– Você está meio certa. –ele riu, me encarando. – Acho que gosto de vocês duas, são garotas espertas. Bem, se precisarem de ajuda com qualquer coisa, me chamem.

– Está certo. – Lis sorriu finalmente, ela parecia estar tensa com o garoto até aquele momento. – Meu nome é Elizabeth, pode me chamar de Lis. E essa é Karine.

– Eu sou Adam, é um prazer conhece-las.

– Uma dica, não se meta com Karin. Não é seguro, ela tem uma pessoa que não pode viver sem ela. E acho que isso é na forma mais literal possível.

– Não é bem assim. – Hector apareceu no quarto, sorrindo. Estava diferente de antes. – Não sou uma pessoa ciumenta, e eu e Karin não somos nada exatamente.

Certo, mesmo que eu soubesse que aquilo era um pouco de blefe, acabou me ofendendo um pouco. Nós realmente não éramos nada confirmados, mas ele fez muita coisa por mim... Não consegui entender bem aquela situação e nem entendi porquê estava com raiva dele ter falado aquilo.

– Olá! — Adam sorriu, acenando para Hector.

– Olá, eu sou Hector. É um prazer conhece-lo. Quer dizer, você é muito famoso. O melhor e mais jovem golpista do país... Não, acho que até do mundo.

– Hum? Você sabia sobre ele? – perguntei.

– Claro, Karin. É difícil alguém como eu não saber sobre ele.

– Ora, está exagerando. Não é tanta coisa. – Adam riu. – Não quero passar uma imagem ruim... É só que quando entramos no mundo do crime, ele é realmente incrível e tentador. Já deve ter passado por algo assim, não é, Karine? Bem, se está por aqui...

– Desculpe, mas eu não quero falar sobre isso. – falei rispidamente.

– Sinto muito, não queria...

– Está tudo bem, apenas vamos deixar isso de lado, ok? Eu ainda não entendi direito o que estou fazendo aqui. Acho que estou apenas seguindo.

– Se tiver dúvidas, pode me perguntar. – Adam sorriu, segurando minha mão cavalheiramente. – Eu posso conseguir o que você quiser aqui.

– Tá certo. – tirei minha mão bruscamente. Eu não gostava daquele jeito, era grudento.

Olhei para Hector, mas ele estava fazendo seu papel... Parecia totalmente concentrado em se aproveitar de Adam que não lembrava mais de mim. Eu nem sei por que ainda achava que Hector gostava de mim quando estava tão na cara que ele apenas me usava como apoio emocional. E de alguma forma, eu também me aproveitava dele. Que relação estúpida.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.