Notas iniciais
Muita coisa acontece nesse capítulo em pouco tempo. Mas é só nesse começo mesmo, porque agora nos próximos capítulos tudo ficará no tempo normal. Disse até na resposta de um comentário. Que esse começo é mais como uma narração da Karin, por isso ela se foca apenas nos principais pontos.

Por mais improvável que pareça, eu e Hector acabamos virando amigos inseparáveis. Não existia um dia em que ficávamos longe um do outro. Por alguma razão, eu sentia que Hector acabou desenvolvendo uma espécie de possessão por mim. Ficava emburrado sempre que outras pessoas se aproximavam de nós dois.

Foram assim nos outros dois anos. Apesar de estarmos em um lugar como aquele, conseguimos ser felizes. Bem... Não totalmente. Em um dia, acabei tendo uma de minhas crises. Sem motivo, comecei a sentir raiva de mim mesma. Não, não foi raiva. Era fúria.

Eu tentei me estrangular, mas não tive sucesso, apenas consegui uma marca roxa em meu pescoço que escondi com meu moletom. Cada dia que se passava, eu começava a sentir que perdia o controle sobre mim.

Se um dia eu inconscientemente me matasse? Como Hector reagiria com isso? E se ele enlouquecesse? Seria terrível, porque já fazia algum tempo que ele não tinha problemas e talvez até conseguisse alta brevemente. Eu fiquei com medo, porque Hector era alguém que eu realmente me importava.

– Hector... Você pensa em sair daqui? – perguntei.

– Não exatamente. Eu só sairia daqui se você também saísse. Você pensa em sair daqui?

– Sim, sim. – tentei não transparecer que em meu interior martelava: “Se eu não me matar antes”. – Por que não pede ajuda pra alguma enfermeira? Se elas falarem bem de você pra diretoria, eles te darão alta.

– E pra onde eu vou, Karin? Não tenho família. Não mais. Se eu sair daqui, talvez vá parar num orfanato ou na casa de um parente distante.

– Tudo bem, Hector. – sorri, tentando mostrar que estava calma. – Não importa pra onde você vá, porque nós nos encontraremos fora daqui. Primeiro tiramos você e depois eu falo com a diretoria para que me tirem daqui também. Esse lugar faz mal pra mim...

– Karin, por que não vai à frente então?

– Não posso. Se eu for à frente, minha família não deixará que eu me encontre com você novamente. Mas se você sair antes, eles não vão ter motivos para não me deixar encontrar com você. Porque você vai ter recebido alta e tudo mais. – essa foi a melhor desculpa que consegui inventar, mas Hector pareceu ter caído.

– Oh, isso faz sentido... – ele disse, pensando em algo. – Mas você promete que me encontrará lá fora, não é?

– Uhum. Eu prometo. – estava mentindo. Eu não fazia ideia se eu conseguiria sair dali, mas eu precisava que Hector se esquecesse de mim. Três ou quatro anos longe de mim seriam o suficiente para isso.

– Então, vamos falar com as enfermeiras. Eu vou tentar ser bonzinho nesse meio tempo. – ele sorriu.

Tudo aconteceu tranquilamente. As enfermeiras gostaram de nossa atitude e falaram com a diretoria, que acabou liberando Hector depois de algumas semanas. Observava seu quarto, que era exatamente igual ao meu, enquanto ele fazia suas malas.

– É uma promessa. – ele me encarou com seus olhos profundos.

– Eu sei.

– Não demore muito, sério mesmo. – Ele me abraçou enquanto tremia.

– Eu não vou demorar, sério. – eu estava me odiando naquele momento, ferindo a confiança de alguém que só confiava em mim.

Enquanto via ele se afastar com sua mala que era quase do meu tamanho, senti meu coração se despedaçar. Mas aquilo era necessário, eu sabia disso. Hector precisava viver a vida dele longe de mim, porque eu só servia para machucar as pessoas.

A cada dia que passava, eu mais castigava meu corpo. Cada vez mais o dia da minha saída daquele lugar, que virou um inferno para mim, estava longe. Cortes pelos meus braços e pernas, eu os escondia com roupas longas. Mas era inevitável, as enfermeiras sabiam o que se passava.

Passou dois, três, quatro anos. Não recebi notícias de Hector, tampouco ele veio me visitar. Eu senti que meu plano havia dado certo, mas não podia ficar exatamente feliz por causa disso. Só queria saber se ele estava vivendo uma vida boa longe de mim.

Infelizmente, as primeiras notícias que recebi dele não foram exatamente positivas. Enquanto pegava minhas roupas para levar até a lavanderia, acabei tropeçando num jornal. Em uma tentativa atrapalhada de recolher as roupas caídas no chão, dei de cara com a foto de Hector estampada na primeira folha.

Bem, haviam se passado quatro anos, mas aqueles olhos eram inigualáveis. Depois de encarar por um tempo aquela imagem, enquanto ainda estava ajoelhada no chão, levei meus olhos para as letras grandes. Se estava na capa, era sério.

“Garoto de 17 anos mata mais de cem pessoas em um metrô de Paris”. Minha respiração parou, sentia minha mente girar. Mesmo sentindo minha consciência desvanecer, não conseguia parar de encarar aquela foto, aquele título em letras garrafais. E principalmente, aquele sorriso em seu rosto.

– Não, não, não. – levantei, tombando na parede logo em seguida.

– Você está bem? – Marie, a enfermeira gentil que me ajudava perguntou.

– Olhe pra isso! – agarrei o jornal enquanto chorava desesperadamente.

– Oh... Eu soube disso... Sinto muito, eu não sabia como contar. Hector estará voltando para cá em breve.

– Pra cá? Como assim? – coloquei minha mão sobre minha boca em um ato quase automático.

– Foi alegado que Hector tem a saúde mental instável e será encaminhado para cá. Falaram que seria melhor para ele se ficasse em um local conhecido. Mas claro que não ficará junto com os outros garotos, Hector é um assassino extremamente perigoso.

– I-Isso tudo é culpa minha. – não conseguia parar minhas lágrimas. – Se eu não tivesse falado pra ele sair...

– Karine, pare com isso. Você teve a melhor das intenções. Não se culpe pelo que aconteceu, ok? – Marie me abraçou, aquilo lembrou o abraço de minha mãe. Era quente e confortável...

Limpei minhas lágrimas e saí dali sem falar nada. Será que Hector lembrava de mim? Ele me odiava? Eu estava confusa e com medo. Mas não deu tempo para as engrenagens da minha mente começar a girar, perto de onde estava houve um tumulto. Cambaleei para ver o que era.

Cercado por policiais estava Hector. Seu sorriso calmo não havia mudado, nem seu olhar. Usava uma roupa larga e tinha seus cabelos castanhos bagunçados. Assim que me viu, gentilmente disse:

– Olá Karin. Estou feliz em te ver. Finalmente, depois desses quatro torturantes anos, estamos juntos novamente.

Os policias não paravam de marchar e eu os segui. Não sabia o que dizer e talvez aquela fosse minha última chance de falar algo antes dele ser levado para um lugar isolado dos outros. Aproximando-me sorrateiramente, disse baixo para ele:

– Nos tire daqui, nem que seja a força.

Notas finais
Se gostaram, comentem, favoritem e acompanhem o/