Acordei no asfalto gelado com Hector, Lis, Oliver e Claire ao meu redor. Hector estava especialmente nervoso e gritava meu nome enquanto chorava. Olhei para meu corpo, havia sangue em minhas mãos e em minhas roupas, até mesmo em meu cabelo e no meu rosto. O cheiro fez com que eu quisesse vomitar.

Levantei-me ignorando toda aquela agitação e fiquei sentada no chão. Por trás dos rostos assustados e preocupados estavam alguns corpos caídos, eles estavam esfaqueados. E no chão havia ainda mais sangue. Assim que olhei novamente pra minha mão, lá estava um canivete ensanguentado e finalmente me recordei de tudo.

– Desculpem pelo incômodo. – falei. – Fiz muita bagunça.

– Do que está falando? Você está bem? Eles te machucaram? – Hector perguntou histericamente.

– Eu os machuquei bem mais que me machucaram. – eu ri, tentando parecer o mais fria possível. – Não se preocupe, nada desse sangue é meu.

– O que foi isso? Como matou todos esses garotos? E bem, você não parece estar se importando muito. – Claire falou com um misto de perplexidade e raiva.

Eu não queria me lembrar dos sentimentos ruins que eu já senti quando matei alguém. Eu não quero mais me importar com o fato de que retirei a vida de alguém. Não, eu não posso pensar nisso, eu não o fiz, eu não matei ninguém, foi apenas algo dentro de mim. A adrenalina que se apossou de meu corpo, apenas isso.

– Eu já disse que está tudo bem. Podemos ir logo para o helicóptero? – falei, levantando-me.

– Certo. Podemos sim. Mas você tem que se lavar e trocar de roupa antes, olhe isso. – Claire falou, apontando para meu corpo com a mão.

– Ah, claro... Eu só pensei que num bairro tão perigoso isso ia ser normal. – falei com um pouco de ironia.

– Vá logo trocar de roupa. Lis, dê uma roupa limpa pra ela, eu não tenho outras roupas comigo agora.

– Uhum, claro. – Lis falou prontamente, ainda atordoada com aquela situação.

A garota pegou algumas roupas para mim em sua mala e posso dizer que fiquei bastante surpresa em ver roupas completamente normais. Era apenas um vestido azul pastel com um lacinho cor de rosa em sua cintura e com algumas flores ao seu redor. Era bem bonito, apesar de não gostar muito de usar vestidos.

Claire brigou um pouco na recepção do hotel e por fim permitiram que eu usasse o banheiro para tomar banho. O que mais estranhei foi o fato de que ninguém do local realmente se importou com a morte daqueles garotos ou eu estar com roupas ensopadas de sangue. Era como se tudo aquilo fosse absolutamente normal.

Assim que entrei no luxuoso chuveiro do hotel senti como se minha alma inteira estivesse sendo lavada. Olhei para a água e vi o sangue sendo lavado de meu corpo. Era quase que como meus pecados houvessem sido perdoados, mas algo em mim sabia que isso era tudo mentira. Eu apenas não queria aceitar que eu tinha feito aquilo tudo.

Arrumei-me rapidamente e desci para o saguão onde todos me esperavam. Ninguém ousou dizer uma palavra quando cheguei e pareciam que estavam comentando sobre mim antes. Era uma reação normal e nem consegui me ofender com isso.

Seguimos até o barulhento helicóptero e assim como Claire havia dito, Lis realmente teve que tirar o arame de seu vestido para que todos coubessem. E apesar de ser a segunda vez que andava de helicóptero, não senti aquela mesma emoção. Talvez por que não conseguia parar de me incomodar com o que todos ali estavam pensando o que eu era.

Hector era o único que não se surpreendeu tanto com aquilo e realmente estava mais preocupado com meu bem estar. Mas Lis, Claire e Oliver estavam claramente com medo de mim. Não, não acho que seja medo, provavelmente seria apreensão. Eles não sabiam o que eu poderia fazer, porque de primeira vista eu era apenas uma garotinha.

– Não deveria ficar tão preocupada com isso. – Oliver falou para mim. Fiquei um pouco constrangida de conversar diretamente com ele. – Você só estava tentando se proteger.

Não sabia direito o que responder, então apenas concordei com a cabeça. Naquela hora consegui ver melhor Oliver e ele era realmente bonito, do tipo que poderia ser um modelo ou algo do tipo. Seu cabelo era ondulado e brilhante. Seus olhos eram castanhos, e apesar de sérios também pareciam muito bondosos. Sua pele tinha uma cor morena muito bonita e exótica. E era bem alto, assim como Lis. Os dois tinham quase o mesmo tamanho.

– O Oliver está certo! Eu fiquei apenas surpresa, mas isso não define ninguém. Eu não sou alguém ruim, mas já tive que fazer coisas ruins. Está tudo bem. – Lis falou com um grande sorriso em seu rosto.

– Desculpem... Mas não é tão simples assim. – Virei meu rosto para a janela do helicóptero.

– Você acha que é a única que sente dor, Karin? Você acha que é a única que esconde algo? – Claire falou. – Todos aqui estão escondendo algo, então não venha falar de coisas complicadas. Nada na vida é simples, as pessoas só fingem que são, então finja também.

– Isso não faz sentido, Claire. Eu não vou ficar fingindo nada, porque o que eu escondo está muito longe do meu controle e espero que todos saibam disso.

– Ah, entendi, você quer tirar sua responsabilidade? Você quer fingir que você não tem nada a ver com o que fez com aqueles garotos? Você quer brincar disso? Então vamos fingir que você realmente não os matou friamente! – Claire estava gritando.

Eu não consegui responder aquilo, apenas tentei não chorar. Mordi meu lábio inferior com toda força que eu tinha, tanto que minha boca começou a sangrar. De novo estava fazendo aquilo, me machucando. Mas tentei disfarçar para que ninguém visse.

Hector estava o meu lado e senti que ele queria dizer algo para Claire, talvez brigar com ela. Mas ele não podia se dar ao luxo de brigar com sua irmã, porque naquele momento estávamos dependendo dela para sobreviver.

– Claire... – Lis falou baixinho. – Você não deveria ter falado isso... Ninguém pode desprezar a desgraça de outra pessoa. Porque nunca poderemos sentir exatamente como ela sente.

– Lis, por favor, pare de me encher. O que eu menos quero agora é ouvir lição de moral. Será que todos podem ficar calados até essa maldita viagem acabar?

Como pedido, todos se mantiveram silenciosos. Acabei por adormecer depois de um tempo, com a cabeça encostada na janela. Não foi um sonho bom... Comecei a relembrar sobre coisas horríveis. Apesar de o sonho estar nublado, eu consegui ver meus pais gritando, vi sangue, vi meus irmãos chorando... Vi tudo que acontecera naquela noite.

– Chegamos. – Acordei com a voz de Lis muito próxima de mim. Assim que levantei minha cabeça vi que eu e Lis éramos as únicas no helicóptero. – Você estava dormindo e ninguém teve coragem de te acordar, por isso foram explorar um pouco e me deixaram com você.

– Ah sim, obrigada e desculpe pelo incômodo.

– Está tudo bem, eu realmente não tenho lembranças boas com esse lugar. Então acho que quando sugeri ficar aqui, foi meio pra adiar visitar o Bairro Proibido...

– Más lembranças?

– Sim. Eu nasci aqui e passei grande parte de minha infância aqui. Não é um lugar bom para uma criança viver. Mas eu fui forte, sei que fui. Passei por coisas ruins e vi de perto como a humanidade é terrível. Vi como é ser nada, ser invisível. Eu posso dizer que tive sorte, porque existem crianças que nasceram aqui e nunca receberam um nome. Morreram de fome sem nunca terem sido amadas. Viveram sem realmente viver. Meu destino seria como o delas, mas me tiraram daqui quando tinha uns dez anos. Um grupo de missionários me salvaram... Mas nós fomos atacados no meio do caminho por ladrões. Todos foram mortos cruelmente, mas me pouparam por eu ser criança. Então me venderam e fizeram com que eu trabalhasse no casino onde vocês me encontraram. Primeiramente fui treinada para ser uma segurança de lá. Foi por essa época que pintei meu cabelo. Porque eu não queria mais ser igual a todo mundo. Se eu fosse ser apenas mais uma infeliz, pelo menos eu seria uma infeliz de cabelo rosa. E por algum motivo, aquilo me deixou mais motivada. Eu tinha uns quinze anos quando encontrei Oliver. Ele era um jovem rico, bonito, cobiçado e respeitável que começou a frequentar o casino.

– Hum... Nessa época ele tinha cabelos vermelhos? É que eu não consigo imaginá-lo de outra forma.

– Seus cabelos eram negros, eu sempre gostei de cabelos negros. Porque me lembravam do céu noturno. Ele era o garoto que todos queriam e por isso eu disse pra mim mesma que não poderia gostar dele. Mas inconscientemente eu comecei a fazer coisas para me aproximar dele, como pedir para mudar minha função para o balcão. Logo descobri coisas sobre ele, como que sua família era da máfia e que ele era um lutador muito habilidoso. Um dia encontrei com ele nos fundos do casino. Ele estava chorando como um bebê e eu não soube o que fazer, só não podia deixar ele daquele jeito. Me aproximei e perguntei o que houve. Naquela hora ele me pareceu muito frágil e muito... Humano.

– Não consigo imaginar Oliver chorando. – eu ri.

– Realmente não é algo usual, por isso aquilo me pegou desprevenida. E ele me contou tudo. Me contou sobre como ele não queria ser herdeiro da máfia e como ele queria ser livre. Foi tão estranho, nos falamos como se nos conhecemos fazia anos, como amigos próximos. E naquela hora eu senti que realmente gostava dele e que nem me importaria se ele não gostasse de mim, era de verdade. Foi a primeira vez que me senti daquele jeito. Depois que nos aproximamos, começamos a nos encontrar muitas vezes atrás daquele casino. Com ajuda um do outro, começamos a crescer mais e mais. Inclusive ele pintou seu cabelo de vermelho depois de um tempo, porque disse que estava cansado da normalidade. E eu sempre senti que eu era a força e ele era a coragem. E juntos nós éramos invencíveis. – Lis não conseguia tirar um sorriso bobo de sua cara e sinceramente, com aquela história tão doce nem eu conseguia. – Oliver começou a trabalhar no casino e largou definitivamente a máfia. Não era exatamente o que nós queríamos, mas sempre estivemos felizes. Bem, eu sei que seremos felizes aqui também, porque vamos estar juntos. E acho que uma vida normal não combinaria muito com a gente... E sabe, mesmo as pessoas do casino temeram Claire e falaram para ela que poderiam me levar quando quisessem. Acredite, aquela mulher é bem mais influente do que pensa.

– “Aquela mulher”? É estranho... Achei que eram mais próximas.

– Você entende, não é? Eu tenho que fingir que sou um pouco estúpida perto de Claire. Ela nunca deixaria pessoas muito espertas ao seu redor. Estou apenas sendo totalmente honesta com você porque sinto que não é má pessoa. Mas Claire é diferente, ela é muito astuta e perigosa. Se ela quiser algo, ela vai ter aquilo, não importa o que tenha que fazer.

– Nunca imaginei que Claire fosse diferente, mas... Não sei, por algum motivo não consigo sentir que é alguém ruim. Ela me salvou afinal. Não pode ser alguém tão ruim assim.

– Será que Claire não tem nenhum motivo para te salvar, Karin? Eu me pergunto até que ponto a ganância de Claire pode chegar... Até o ponto de transformar seu próprio irmão em um sociopata ou até o ponto de fazer Oliver querer desistir de ser herdeiro da máfia? Não sei dizer...

– É impossível que ela seja tão manipuladora a ponto disso, certo? – Apesar de ter perguntado para Lis, a pergunta havia sido para mim mesma.

– Eu não sei, mas não precisa se preocupar. Vamos jogar um pouco do jogo dela. – Lis sorriu.

Notas finais
Se gostaram, comentem e favoritem o/