O milésimo episódio
1 O milésimo episódio
Não sei bem por onde começar, estou apenas triste. Ouço as músicas dela, leio suas histórias, seus rabiscos, e em cada pedaço da obra de uma vida inteira consigo absorver tantas dores, que sei que me faz mal, todavia amo conversar com ela, gosto das divergências, dos baques. Ela insiste em acelerar com um fusca para cima de um trem, e eu insisto em puxá-la, insisto protestar para que tente ser feliz e não se martirizar. Sou um mártir ensinando o padre a rezar a missa, ou talvez retirando um pé de cada vez da grande ponte.
Queria estar próximo, para abraçar, conversar, rir, apanhar. E entre todas as provações, essa é a mais dolorida, tentar ajudar desde o início, e não saber se houve êxito, suicídio ou prantos. Apaixonei-me, não pela pessoa em sua total completude que ainda não conheço, entretanto almejo conhecer, mas sim pelo seu amor, diferente de todos que já ouvi falar. Seu amor é tão singelo e motriz, instável, queria abraçar com todos os meus membros, chorar a despedida e me emocionar no retorno, em um círculo entorpecente de se apaixonar e se apaixonar.
Após conhecê-la, o mórbido e ultrajante para os outros indivíduos, tornou-se poético, a morte se tornou vida. Não a provocada, todavia a natural, sem buquês, sem flores mortas em um lindo arranjo.
Após varrer as minhas memórias tudo que a remete me proporciona uma melancolia clandestina... Que me força a escrever, e aquela donzela noir me põe diante a máquina de escrever. Ouvi Billie Holiday, Paulo Diniz e Radiohead.
Sou um artista da decadência, nas nossas conversas mais reflexivas ela acentuava sua pontuação quanto ao projeto decadência, escrevi tanto sobre ele, que Amália nem imagina, porém minha mente clamava por ascensão e trouxe isto para a Lua em meio ao Sol, em uma bandeja prateada refletindo a luz do outro do lado do país. Encontrei Acácia, Heliotrópio, e ao me confundir, finalmente me encontrava.
Agora ela me depõe, toma meu império e o controle que eu tinha sobre o meu pássaro azul, perde-se. Do mesmo modo que me acostumei com a hipergrafia, Yaz associou a sua vida a uma depressão inundada por seus sentimentos mais obscuros. Chamou-o de Limbo, não citei o verdadeiro nome para não causar desespero, acreditei estar fazendo um bom trabalho ao tentá-la retirar.
Não foi caridade. Longe disso. Desde quando a conheci em tempos de crise e terremotos, comecei a me preocupar com suas flagelações, martírios e dores, queria abraçá-la e dizer calmamente que tudo ficaria bem, afinal eu estaria ali para tudo que ela sentisse. Então ela poderia olhar nos meus olhos, agredir-me em sinal de agradecimento ou segurar minha mão com tamanha força, que ao fecharmos os olhos, alcançaríamos o éter.
Olha que irônico: uma garota depressiva encontra um garoto depressivo, e este, estipula uma meta para alcançar a felicidade, apenas em prol dela, pois acreditava ser digno daquela tristeza, no entanto tinha crença que ela não pertencia à aquela situação, desceu no submundo das obras mais sangrentas para buscar a essência da vida. Passar pela boca, pelos braços e por todo o seu afeto. E mesmo que significasse a morte, daria todo seu vigor remanescente para vê-la sorrir por uma última vez.
Soa estranho, esdrúxulo. Mas se pudesse conhecer a cada segundo um pouco mais da vida dela, faria do impossível só questão de opinião.
Sofro bastante neste momento, em contradição, amo isto. Estes episódios. Pois viajo, minha alma para alegrar meu corpo, busca nos locais mais lúgubres onde ela esteja, uma recordação. Ao rebobinar, tenho a capacidade de morrer pelo menos perto da paz.
FIM
24/01/2015
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