O menino e o coelho
1 O menino e o coelho
Todos os dias, Guto Cataguto passava seus dias solitários, sem ninguém e com ninguém. Guto Cataguto era um menino franzino de 12 anos e meio, porque de acordo com ele, logo faria 13. Não gostava das pessoas o rodeando e detestava multidão. Andava sempre só em sua imensa solidão. Andava pra cá e para lá sem se importar com os chamados da mãe.
-Ô menino levado, vem já ou vai apanhar!
Mas nada adiantava, pois logo ele voltava para aprontar. Subia nas árvores, pegava passarinho com vara passada de melado, sentava em um muro alto e esperava as pessoas passarem e, quando tinha oportunidade, tinta branca pingava em suas cabeças. Tanta era a danação que dona Flor ficava nervosa e corria ao marido lhe depositar sua aflição.
-Todos os dias, a vizinhança vem em nossa porta reclamar de Gutinho. Faça alguma coisa, Tom!
-Hum... – Sempre lhe respondia com um resmungo e um aceno de cabeça, dando as costas à sua mulher e ia falar com o filho que quase sempre lhe respondia:
-Mas é muito chato ficar em casa sem fazer nada.
-Por que não brinca com seus coleguinhas?
-Eu já disse que não tenho nenhum! – Cruzava os braços e lhe dava as costas, bufando.
-E o que acha de fazer amizade com os meninos da tua idade, nossos vizinhos?
-Pai, pela milionésima vez, para! Eu não quero ser amigo de ninguém! Não entende que eu gosto de ficar sozinho? – Ao dizer isso, Guto corria para longe do pai, tentando se ver livre daquela irritação diária, pois aquilo ocorria todos os dias na casa dos Cataguto.
Resignando-se à personalidade solitária de seu filho, Tomas Cataguto apenas resmungou, mirando as costas de seu filho até o ver sumir por detrás de um arbusto do seu imenso quintal, então, uma ideia surgiu na mente do homem cansado, fazendo-o sorrir.
Tom saiu de sua casa em direção ao grande comércio do centro, procurando sem cessar por algo que agradasse seu filho. Sempre fizera isso, mas de forma errônea. Sempre procurou por um brinquedo novo, um objeto, mesmo que fosse inútil, mas que fizesse seu filho feliz, então Tomas entrou na ala dos animais.
Pavão, pintinho, galinha, curica, periquito, curió, cachorro, gato, rato, faisão, peixe de todas as cores, porquinho da índia, jaboti, coelho. Eram tantos os tipos de animais que uma criança acharia estar em um pequeno zoológico. Vendiam-se todos os tipos de bichos, menos o bicho gente.
Ao passar tempo suficiente olhando as gaiolas, verdadeiras jaulas, o senhor Cataguto realmente desejou libertar todos os animaizinhos de sua prisão pequena e indesejada, mas nada podia fazer. Não era um homem pobre, mas também não era rico e cada animal tinha um preço maior que o outro. Com uma mão no bolso e a outra segurando a caixa de papelão, caminhou para sua casa, onde o estariam esperando para o jantar. Não era um dia festivo, mas ainda assim trouxera um presente para casa. O que poderia ser dentro daquela caixa e porque nela havia furinhos?
O pai de Guto era um homem de poucas palavras, embora gostasse de ter a companhia e o falatório de seus amigos, se divertia apenas de estar na presença deles e de escutá-los, totalmente contrário ao seu filho, que contorcia a face apenas de estar em um ambiente com mais de duas pessoas nele, contando consigo. Não que ele não gostasse de falar, pois vivia falando. Era um falador nato e o fazia com maestria, se deixando ouvir por quem queria, mas logo o estranhavam, pois com ninguém conversava além de si mesmo.
Depois do jantar, o pai apenas lhe entregou a caixa, sem nada dizer e esperou que a abrisse. Tendo-o feito, o menino em um pulo, quase deixa a caixa cair, se surpreendendo com o que via ali. Um filhote de coelho, tão pequeno que lhe cabia na mão. O pequenino nariz não parava de tremer e, por consequência, seus bigodes tão branquinhos quanto ele, tremiam também.
O menino ficou olhando o coelho por longos minutos sem nada dizer, segurando a caixa sem se mover, apenas apreciando a criatura se mover para um lado e para o outro, procurando um lugar para sair. Punha seu focinho delicado perto de um dos buracos e o roía, tentando aumentá-lo para sua fuga planejada. Aquilo o fez rir com a face serena, coisa que era raro de ser visto pelo pai e por qualquer outra pessoa.
Mais um longo minuto se passou no silêncio da observação que foi interrompido pelo pai de Guto que o avisou:
-O mercador disse que ele precisa comer constantemente ou os dentes irão crescer até fechar sua boca e isso tornará impossível de ele se alimentar e poderá morrer, portanto, aqui está a primeira alimentação dele. Bem, vou deixar vocês a sós. – Entregando uma enorme cenoura na outra mão do menino, Tomas saiu da sala, deixando uma criança preocupada com seu primeiro bichinho de estimação.
-Seu nome será Rosa. – Embora o coelho fosse macho, branco e de olhos vermelhos, o garoto pensava que seus olhos eram cor de rosa e por isso o nomeou assim. Aqueles que ouviam o nome do coelho riam e tentavam lhe explicar, mas pouco importava para Guto, pois ninguém precisava comentar sobre o nome de seu coelho, afinal de contas, ele era dele, não dos outros.
Dias se passaram e o coelho crescia e, não mais sozinho, o menino conversava, pois ele tinha Rosa para lhe contar todas as coisas que lhe passava pela mente. O que gostaria de fazer, o que havia feito, o que temia, o que ouvia os outros falarem, o que o desgostava, a escola, os vizinhos e tudo o mais. Não fazia travessuras como antes, pois logo pensava em voltar ao seu coelhinho e lhe acarinhar as longas orelhas macias.
Guto começou a sentir necessidade de ouvir respostas para quando fazia perguntas ao seu amiguinho, mas tudo o que o coelho fazia era mover seu narizinho sem cessar e o olhar com seus grandes olhos vermelhos, soltando uma bolinha de cocô aqui e ali.
Estava se tornando frustrante e o garoto se sentia incomodado com sua solidão. Precisava de respostas. Precisava ouvir uma voz que não fosse de sua mãe o chamando para o jantar ou de seu pai, dizendo que estava na hora de dormir. Precisava de uma voz que o compreendesse. Amava Rosa, mas precisava de mais.
Seu coelho já adulto, sentia necessidade de cavar e o quintal que, por ser imenso, lhe dava grandes opções de tocas. Debaixo da árvore, atrás da moita, num campo aberto ou rente à parede, ele podia cavar onde quisesse, pois o terreno era dele. Manso, o coelho se deixava ser carregado pelo menino que interrompia sua cavação para o levar no colo como sempre fazia e começava a lenga lenga do menino sobre seu pesar.
-Não entendo, Rosa. Por que me sentir sozinho se tornou algo tão ruim, quando antes eu preferia isso?
Então o menino pensou que talvez a culpa fosse do coelho, pois desde sua chegada havia mudado e sequer jogava insetos nas meninas de sua escola. Mas logo parou de andar para por o coelho no chão, pois a culpa não era do coelho, mas talvez de ter crescido um pouco mais. Logo faria aniversário.
Seu vizinho, o Neco, veio chama-lo para brincar e por um momento Guto relutou. Ele queria ir. Neco sempre vinha lhe convidar para as brincadeiras todos os dias durante anos, mas sempre negava dizendo que tinha coisas mais importantes a fazer, o que magoava o menino mais novo, mas ele não ligava. Neco ia embora pensando que iria ouvir o de sempre, quando Guto o seguiu, dizendo que iria com ele.
Os pais da criança se surpreenderam. Os vizinhos torceram a cara ao verem Guto Cataguto brincando com outras crianças e o próprio Guto se estranhou, mas estava feliz, pois não estava mais sozinho e aquilo apenas o fez se estranhar mais ainda.
Os dias se seguiram assim e em seu aniversário de 13 anos, pela primeira vez houve uma festa com o pequeno Guto, convidando todos os amigos.
Houve alegria, bolo e refrigerante e o aniversariante não se sentia mais incomodado com tantas pessoas a sua volta, mas sentia-se amado, o contrário de Rosa que fora esquecido.
Mas ó infelicidade, o portão havia sido deixado aberto para os convidados entrarem e Rosa escapou enquanto seu dono brincava de polícia e ladrão no quintal com os novos amigos.
Em meio a tanta alegria, ninguém percebeu seu sumiço, até que no dia seguinte, Guto sentiu a falta de algo, mas sequer lembrou do que seria até sua mãe, perguntar:
-Já alimentou o Rosa, meu anjo?
Todos os Cataguto saíram em procura do bichinho, mas já era tarde. Nesse momento, o coelhinho havia encontrado um novo lar e os braços de outra criança solitária.
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