Notas iniciais
Oi, pessoal! Isto é uma história resposta a uma que me foi dedicada. Quando o autor postar as dele por aqui colocarei o link. É basicamente o ponto feminino da situação enquanto que a dele era o lado masculino. ;)

Juro solenemente que, quando tivermos vinte-cinco anos iremos casar uma com a outra e adoptar uma criança, dar-lhe um nome “super cool” e sermos felizes para sempre – A minha melhor amiga vai casar-se, e não é comigo.

Todas as jovens sonham com o dia do seu casamento, não vou mentir e dizer que nunca o fiz, porque já o fiz. Não com o vestido da Cinderela, porque nunca gostei muito dessa princesa, mas com outro trapo qualquer que chamamos de vestido. Porém, não era com um homem que sonhava casar, mas sim com a minha melhor amiga. Não me interpretem mal. Não sou lésbica, nem nada assim, apenas acho que seria mais funcional um casamento aberto entre duas mulheres que se adoram, que com um homem que não sabe colocar a roupa suja no cesto da roupa suja.

Pois bem, agora vejo que não será bem assim. A minha melhor amiga encontrou um homem, bonito, charmoso e querido. Já jantamos algumas vezes na sua companhia. Já se ofereceu para me levar a casa quando me achou um pouco mais do que alegre com a bebida. Pois bem, não consigo apontar-lhe um defeito que o retire do altar, me devolva a noiva e uma vida ortodoxa. Talvez por eu viver longe do lar do bonito casal não seja capaz ou ter criatividade suficiente para encontrar a desculpa perfeita e raptá-la.

Está um dia bonito. Perfeito para um casamento, eu sempre gostei de dias de sol, e ela também. Ele não sei, e pela descrição que tenho do padrinho, ele vai odiar este dia.

Supostamente o meu companheiro é dono de uma gastrite permanente, qualquer doce se azeda na sua presença e os sorrisos são tão raros que há quem desconfie de caries. Trata-se portanto de uma descrição da minha melhor amiga, ela exagera em tudo.

Ora, portanto estou eu, num táxi. Metida num vestido formal, que me causa comichão nas costas. Com um pequeno ramo de violetas na mão. O cabelo parcialmente desarranjado porque adormeci no avião. Espero pelo menos ter a maquilhagem decente para não “arruinar” o dia da minha querida melhor amiga – Sim, ela é este tipo de dramática. – Possivelmente atrasada, segundo o relógio que se avariou, não sei há quantos minutos. E o trânsito infernal não ajuda em nada.

Chegamos então à Igreja. É bonita na sua forma de Igreja, um local onde nunca me pensei enfiar com um vestido daqueles e para celebrar um casamento de alguém que supostamente se iria casar comigo.

Vejo um jovem com uma mão no bolso das suas calças do smoking. Tem cabelo escuro, alto e levemente bronzeado. Pego na ponta do vestido para conseguir subir os degraus e num tom nada meu pergunto se ele é o amigo do noivo.

Ele vira-se, o rosto surpreso. Talvez, como eu, pensasse que eu fosse um ogre, um ser vindo de uma caverna profunda – devo parar de ver filmes durante a madrugada. – Não é feio, mas não é nenhum actor de Hollywood. Olhos escuros, cabelo curto, ombros largos e paro de o descrever. Será que este dia irá correr relativamente bem?

Entramos na Igreja numa marcha lenta, o meu braço enfiado entre o dele e o seu tronco. A flor que ele usava no bolso do casaco baloiçava ao ritmo e uma das minhas violetas agredia delicadamente a pele exposta do pulso dele enquanto avançamos pelo corredor decorado com mais flores, verduras e convidados de vestimentas pomposas e pessoalmente horrendas. Troquei algumas palavras com ele, perguntou-me pelo nome, idade, que gostava ou não. Ele gosta de futebol, jogos de computador, pizza e massa instantânea. Queria dizer-lhe que não era adepta de casamento muito formais, mas o barulho da gravação de órgão, violinos e flautas interrompeu-nos e separamos-nos ficando frente a frente. A minha amiga entrava com um sorriso espetado na cara. Os olhos brilhantes, iria chorar. Percebia-lhe a respiração agitada e descontrolada. Olhei para o noivo, estava extremamente feliz com aquele sorriso tolo que qualquer homem apaixonado tem. Ouvimos o sermão do padre. Olhei para o chão, troquei olhares com o meu companheiro, tímidas caretas com a minha melhor amiga e controlei-me o máximo para não gritar “EU!” quando o padre perguntou se havia alguma objecção.


A festa foi como todas as outras. Pessoas circulando, comida aparecendo magicamente à nossa frente. Perguntas e mais perguntas. A família dela perguntando quando era a minha vez e se já tinha conhecido alguém – roubaram-me a noiva! (queria poder dizer) – acabei por responder que não sabia e que não conhecera ninguém. Miúdos brincavam à apanhada gritando e um ou outro chocou com um empregado congelando a sala por meros segundos, voltando tudo rapidamente ao normal. Despedi-me de um tio velhinho que não ouvia muito o que dizia e por duas vezes disse-me que parecia a falecida mulher dele – nota: ele nunca casou.

Observei a sala novamente. A noiva dançava alegremente com o seu pai. O noivo com a sogra e o meu companheiro e padrinho do noivo estava sentado mais à parte. Tinha um copo vazio na mão e um prato sujo no colo. Olhava extremamente aborrecido para o ambiente, pessoas e até os doces pareciam deixá-lo mais carrancudo. Não pude evitar e sorri. Avancei por entre as mesas, cumprimentei indivíduos, e finalmente consegui alcançá-lo.

Sentei-me numa cadeira vaga ao seu lado e sem saber como ou porquê desatei numa conversa sobre cenouras. Ele olhou para mim surpreso. Contei-lhe que trabalhava com guiões de filmes e já vira muita coisa. Falou-me que gosta de cinema e que tem queda para filmes dramáticos e de acção. Gosta de comédias românticas, mas só quando está aborrecido.

– Então bilhetes grátis acontecem no teu emprego? – perguntou.

– Não com frequência. As vezes lá consegui algum tipo de desconto – respondi encolhendo os ombros e voltando-me para as pessoas que dançavam alegremente.

Abrimos uma garrafa de vinho e eles serviu-nos com destreza – vinho, álcool em geral também deviam ser um dos seus gostos favoritos – Perguntou-me se queria comer mais alguma sobremesa e anui. Levantamos-nos e circundamos a mesa de sobremesas comentado sobre o aspecto dos doces, os sabores que alguns deveriam ter.

– Aquilo tem ar de que vai doer na boca – apontou. Achou-se pateta pelo comentário e eu achei-o encantador. Nada a ver com a descrição da minha amiga. Sentamos-nos conversamos mais, sobre casamentos, o emprego dele. Que era solteiro devoto. Falei-lhe dos meus planos de casamento e, pela primeira vez na vida, alguém achou a ideia genial.

– Um pouco estranho, mas genial, tenho que confessar.

Senti-me orgulhosa e o meu orgulho inchou com o elogio.

E o momento pelo qual temia chegou: A Hora do apanha bouquet. A tradição que mostra o quão desesperada uma solteira tem que estar. Que casar é a verdade absoluta e que, só o conseguirás se apanhares o bouquet. Avancei desolada, sempre com um sorriso no rosto e uma dor no coração. O meu companheiro transmitiu-me os seus pêsames com o olhar e coloquei-me na fila de jovens casadouras histéricas para apanharem o bendito ramo. Contagem decrescente, todas a posto e o ramo voou. Caiu-me nas mãos sem algum esforço e, incrédula, pestanejei só para ter a certeza que aquilo estava realmente nas minhas mãos. Gritaram-me as felicidades, que agora só faltava o noivo. Fizeram piadinhas sobre o padrinho. Alguém chorou, alguém gritou e eu avancei com aquilo na mão voltando para o meu copo de vinho. Tentei esquecer a situação e com um sorriso no rosto voltei-me para ele.
– Olha só! Consegui – apontei para o ramo e sentei-me ao seu lado – Pode ser um bom sinal – forcei-me a dizer.

– Um bom sinal para quem? – perguntou divertido.

– Para mim e para o sortudo que se quiser casar comigo. – Modéstia? Onde te meteste?

– Certo.

E, sem pensar duas vezes no que iria responder, declarei a pergunta mais embaraçosa que alguma vez conseguiria fazer num casamento:

– Tens certeza que não te queres candidatar ao cargo? – ele olhou-me surpreso. Lembrei-me de quando a minha melhor amiga me anunciou o noivado. Há homens que simplesmente são o tal, os seus olhos e os seus gestos. Quando olhas verdadeiramente pela primeira vez para ele, saberás que não há outro para ti. E, pela primeira vez na vida, tive que lhe dar completa razão.

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