Poncho
2023
:- Eu só não consigo entender o por que é tão difícil. Não fiz da forma certa? Devia ter me ajoelhado, feito serenata, ou ter esperado um momento especial, não sei? – eu não controlei minha ironia e isso a irritava ainda mais.
Eu seguia ela no corredor.
:- Por que não Dulce? – perguntei vendo que ela me ignorava — Não estou te pedindo para se jogar de um abismo ou algo assim, apenas te pedi em casamento. Por que não aceitar? Acredite, estou passando por cima, das minhas convicções para isso.
:- A resposta é não, Poncho. Simples assim. – ela me olhou com uma expressão como se eu tivesse falado um absurdo e se fechou no seu pequeno estúdio que ela tinha montado em casa.
:- Certo, então hoje durma sozinha por que vou passar a noite fora. – eu falei com a porta, irritado por ela. E esperei pensando que surtiria efeito minha ameaça, e surtiu não o que eu esperava.
:- Ótimo eu tenho mais espaço na cama. – ela gritou de lá de dentro, e escutei o barulho de algo caindo, e ela xingando por ter quebrado.
Me apoiei na parede e abaixei a cabeça bufando, malditos os hormônios dela, tinha que me controlar, já que Dulce não fazia isso por ela mesma.
Quando sairia do corredor para cumprir minha ameaça, a vi parada no canto da parede encostada, me olhando estranha eu diria assustada também, estava começando a decifrar suas expressões ainda.
“Estão brigando?” Ela me perguntou me vendo aproximar. “Da para ouvir lá do meu quarto.”
Olhei para ela sorrindo pela brincadeira, sem graça, que me arrancou um riso mesmo estando com raiva pela minha discussão com Dulce.
“Não sabia que discussões causavam milagres assim.” Dei a língua para ela.
“Estava indo para a cozinha e vi vocês passarem bem expressivos, eu diria. Me assustei por que nunca vi man e você tão bravos...” Ela fez uma careta bem feia para nos imitar discutindo, ou tentava, por que de feia Dominique passava bem longe.
“Estou indo para a cozinha agora, me acompanha?” chamei ela enquanto descia as escadas e seguia para a cozinha, assim que chegamos ela se sentou na cadeira grande e ficou apoiada no balcão. “O que você vinha fazer aqui?” Lhe perguntei.
“Estava lendo antes de dormir, sabe que tomo chocolate quente, quando estou lendo, então vinha fazer.” Ela deu os ombros.
“Vou fazer dois, um para você e outro para mim.”
“Vai tomar chocolate, comigo?” Ela ergueu uma sobrancelha desconfiada.
“Vou, preciso de algo quente descendo pela minha garganta, como eu não posso beber qualquer coisa alcoólica, por que vou dirigir então me contento com chocolate.”
Eu tinha colocado o leite para ferver, e já peguei o chocolate, e quando a encarei, ela estava com seus óculos de leitura. E fingindo pegar algum tipo de bloco de papel e uma caneta, ela me olhou gestuando em seguida.
“Vai dormir na sua casa, ou seja, a briga foi feia. Conte mais sobre isso, caro senhor Herrera?” Ela bancava a psicóloga comigo.
“Sua mãe é louca, anota isso no seu caderno imaginário.” E ela riu fingindo anotar. “Eu a pedi em casamento e ela se recusou.”
“O que?” Ela tirou dos olhos os óculos, formal, mas de cor azul, para combinar com seus olhos.
“Pois é. Ela se transformou e começamos a discutir e jogar na cara, as coisas que no dia a dia, passam despercebidas nos olhos dos outro e que guardamos. Eu estou indo dormir em casa, para nós dois pensarmos.”
“Nossa, vovó está me devendo 100 pesos.” Ela me contou assim de repente.
“Por quê?”
“Por que apostamos se vocês se casariam, ou não. Eu apostei que sim e ela que não.”
“Nossa, por que será que ela apostou contra?” Eu ri tirando o leite do fogão e pegando as nossas xícaras.
“Algo como não vou entregar minha caçula tão fácil, implicarei até o último segundo. Mas, você sabe que ela gosta de você, não é?”
“Hoje eu sei, é só pose da matriarca da família, eu consegui reconquistar a filha, a sogra eu demorei um pouco.” Sorri para ela enquanto lhe entregava sua xícara.
“Saúde!”
Desejamos juntos um ao outro, e aconteceu o que eu queria, o líquido desceu queimando minha garganta. Olhei para Dominique e assim que abaixou a xícara tinha um bigode de chocolate abaixo do nariz, que logo foi lambido.
“Do jeito que eu gosto, obrigada Poncho.” Me agradeceu.
“Que bom que gostou, eu sei fazer chocolate quente estou pronto para casar?”
“Com certeza sim.” Ela tomou mais.
“Pena que sua mãe, não pensa assim.”
“Com o tempo você convence ela. Até por que você vive aqui, convivem como se fosse num casamento.”
“Não posso perder tempo, Nique, se não eu o perco.” Suspirei.
“Como assim?”
“Sabe que eu quero adotar, Juan, verdade?” Tomei mais do meu chocolate.
“Sim, o garoto de El Salvador que perdeu a família toda por assassinato?” Tinha uma expressão triste no rosto.
Tinha bem mais que isso Juan era uma criança que sofreu muito mais que um ser como ele poderia suportar que qualquer criança nem deveria passar por esse mal. Já não bastasse ter perdido a família, ele sofreu abuso, na primeira instituição que ele ficou.
Eu o conheci por acaso, fiz uma viagem para El Salvador para gravar as cenas do meu mais novo filme, ele apareceu no set de filmagem e assim que me viu perguntou se eu queria jogar bola com ele, eu lhe disse que não podia no momento, mas quando terminasse as gravações do dia eu jogaria com ele.
E sua atitude me surpreendeu, ele pegou a bola dele e sentado sobre ela ficou esperando pacientemente durante horas. Eu joguei com ele todos os dias em que estive ali assim que acabava a filmagem, e acabei me encantando pelo garoto e quando soube da sua história não só me comovi como queria ajudá-lo, no último dia que estive lá, perguntei depois de ele me vencer no jogo. Qual era o maior sonho dele.
“Ter uma família e ser amado.”
Ao escutar a frase, nasceu o desejo de ajuda-lo eu faria aquele garoto feliz, eu daria uma família para ele.
“Isso, eu quero adotá-lo, mas para isso eu preciso casar, burocracias do país de lá e do México. Mas sua mãe não me deu nem chance.”
“Poxa, seria legal ter um irmão, finalmente uma presença masculina nessa família Espinoza Saviñon.” Ela sorriu.
“Bem tenho que ir agora, estou indo para casa tenho que escrever para a série.” Terminei meu chocolate.
“Tem certeza que vai embora? Pode dormir na sala ou se quiser pode dormir no meu quarto tem espaço lá no chão, podemos colocar o colchão...”
“Não se preocupe, vou mesmo para a casa. Lá eu esfrio a cabeça, vai ser bom faz dias que eu não vou para lá. Agora, ande vá ler o seu livro e tenha bons sonhos depois.” Sorri para ela, dando um beijo em sua testa.
“Tchau, Poncho, cuidado ao dirigir.”
Eu passei a mão na sua cabeça bagunçando meu cabelo, antes de sair da cozinha, me lembrei que minhas coisas estava aqui. Derrotado subi novamente as escadas indo na direção do quarto de Dulce.
Suspirei vendo a desorganização de Dulce e minha também, que vivia ali tanto quanto ela, por que ela tinha que ser tão teimosa às vezes, qual é o problema de nos casar? Se praticamente vivíamos feito marido e mulher, certo que brigávamos e tudo mais, e assim como hoje, eu voltava para minha casa e ela ficava aqui, até que nós nos reconciliássemos. Porém, qual casamento não teria os altos e baixos?
Desistir de tentar entender, e peguei minha mochila para pegar alguns pertences para levar casa.
Coloquei tudo na mochila e peguei as chaves do meu carro, colocando no bolso antes que me esquecesse. E quando estava fechando minha mochila e colocando-a nas costas, eu a vi parada na porta olhando mais para a minha ação do que para mim. Se dando conta do que aquilo representava.
Ficamos nos encarando, talvez ela visse agora realmente que e eu cumpriria com o que falei, eu a via surpresa e por um momento pensei que ela tivesse arrependida ou algo assim, mas foi por um momento apenas por que vi a raiva por nossa discussão ainda nos seus olhos.
:- Ainda não foi? – ela perguntou rude, entrando no quarto indo para o seu closet pegar provavelmente algo para dormir ou para se agasalhar pela madrugada a dentro, por que ela provavelmente trabalharia assim como eu faria quando chegasse em casa.
Se fosse em outro momento nenhum dos dois trabalhariam, mesmo que tivessem com trabalho acumulado, e eu estaria tirando qualquer peça de roupa que estivesse no seu corpo. Talvez ela tenha pensando o mesmo que eu por que trocamos um rápido olhar, mas intenso.
:- Estou indo agora. – e ela começou a procurar algo, como se ignorasse minha presença ali no quarto. – Seus óculos estão na primeira gaveta da cômoda do seu lado da cama, como eu sempre guardo.
Foi à última coisa que disse antes de sair do quarto, desci a escada passando pela sala e dando uma olhada na cozinha, para ver se Dominique já tinha ido para o quarto ler.
Sai da casa de Dulce e peguei meu carro dirigindo rapidamente para minha e quando cheguei e de certa forma estranhei, estranhei minha própria casa. Balancei minha cabeça, eu devia ter passado muito tempo na casa de Dulce e estava assim estranhando a minha.
Fui logo para o meu quarto, deitei na minha cama e peguei um porta retrato eletrônico, onde se materializava uma foto minha de Dulce e Dominique no último aniversário de Henry, estávamos tão bem eu com o ele no colo e mãe e filha abraçadas para a foto, peguei uma foto feita em papel fotográfico mesmo que Juan me deu dele e cruzei as duas.
Imaginando como se fosse no futuro uma família. Eu tinha que encontrar alguma forma de convencer Dulce, eu tinha que realizar o sonho de Juan, e me lembrei que tinha que trabalhar, e me deu uma boa ideia para o próximo capítulo, da série que eu estava escrevendo com uma parceria com Luisillo, algo como casamento e família.
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