O medo de Willy Wonka.
10 Capítulo 9
Notas iniciais
Foi a primeira vez, em uma semana, que o sol raiou sem os floquinhos de neve caindo seduzentes pelo céu. As janelas da fábrica permitiram que os raios de sol espreguiçassem para dentro, aquecendo alguns pontos que não eram tão climatizados, já que não afetariam os doces que lá eram criados. Alguns Umpa Lumpas estavam estirados nos carpetes destas salinhas, aproveitando o sol que há muito não viam surgir pela fábrica.
Mas Willy só notou o sol quando foi acordado pelo raio que invadiu o quarto de seu pupilo e queimou-lhe as pálpebras pálidas. Ter adormecido no sofá não rendeu bons resultados, pois por mais que o cheiro de Charlie fosse reconfortante, as dores dos músculos que ficaram em posições estranhas era incomodo. Além disso, Willy precisava assumir que já não era tão novo ao ponto de fazer qualquer estripulia com seu corpo.
O chocolateiro viu a cama arrumada. Charlie devia ter ido tomar o café da manhã.
Puxando um pouco de ânimo, o Wonka levantou do sofá, dobrou a coberta que o pupilo jogou sobre o corpo mais velho e foi para seu quarto tomar um banho. Os músculos relaxaram um pouco durante o banho, mas ainda doíam enquanto Willy ia para a pequena casinha carcomida onde tomaria café junto com o mais novo. Seu estômago roncava de fome.
Ploft!
Um pequeno Umpa Lumpa caminhava rapidamente pelos corredores. As perninhas ansiosas, os olhos correndo do caminho para um pequeno envelope que seus dedinhos carregavam. Foi virar a esquina para ser chutado no estômago. A distração da pequena criaturinha e a fome de Willy Wonka – Que só conseguia pensar em comer uma bela panqueca de mirtilo — formaram a dupla perfeita para aquela tragédia.
— Criatura eterna, quer me matar?! — Willy exclamou assustado.
O envelope saiu disparado para o lado enquanto a criaturinha caía de costas e logo se encolhia de dor.
— Você está bem? — Willy Curvou-se sobre o pequeno, que ergueu o polegar. — Mas que diabos, o que você estava fazendo correndo distraído?
A criaturinha dolorida abriu os olhinhos e caçou o objeto que carregava. Willy acompanhou a caçada e puxou o papel pardo, grosso como a página de um livro best-seller.
— Ia me entregar isto?
O pequeno confirmou com o polegar.
— Consegue ir para a enfermaria sozinho?
Ainda jogado no chão, o pequeno Umpa Lumpa confirmou com a cabecinha. Ele conseguiria andar, ou se arrastar, mas precisaria de um tempinho para se recompor.
— Bom, tire o dia de folga, sim? — Willy fez uma careta. Não parecia que o pequeno conseguiria se virar sozinho. — Obrigado pela carta.
W.W.
Charlie tomava o café da manhã com paz e tranquilidade. Não quis acordar Willy, nem deixá-lo dormindo no sofá, mas o mais velho era bem pesado, apesar de seu corpo magro, então acabou só cobrindo-o com uma coberta.
— Bom dia estrelinha. — Willy raramente batia à porta antes de entrar.
O mais novo sorriu perante a cara animada do tutor. Acreditou que Willy acordaria irritado ou com a cara fechada, no mínimo.
— Bom dia. Está muito dolorido?
Willy sentou-se.
— Me lembre de comprar um sofá de verdade para seu quarto. Não temos panquecas? — Ele olhou triste para a mesa farta. — Aquela poltrona me destruiu o corpo. — Houve um suspiro. — Leia isto, sim.
O papel pardo foi arrastado pela mesa até que chegasse ao pupilo. Charlie abriu o envelope e retirou um papel creme, bordado com uma letra rebuscada, bela, quase como um desenho de um artista famoso.
“Caro Sr. Charlie B. Wonka;
No próximo dia 06 será comemorado o aniversário da Srta. Veruca Salt e seu sucesso no mundo da moda junto com o prêmio de sustentabilidade social que a empresa da aniversariante foi agraciada em receber.
O senhor encontra-se como convidado de honra acompanhado de aquele que alterou por completo a vida da futura aniversariante: Willy Wonka.
Ademais, gostaríamos de solicitar a regalia de que os doces servidos sejam manufaturados pela marca Wonka, estamos dispostos a pagar qualquer quantia para que tal ato se cumpra. Ainda que não seja possível devido à proximidade da comemoração, gostaríamos de uma negativa para que possamos seguir com a solicitação para outro.
Independente da possibilidade ou impossibilidade de termos vossos doces como regalia na comemoração, vossa presença ainda será uma honra.
Com zelo,
Ambeline Ghusk,
Secretária pessoal de Veruca Salt.”
Havia um convite formalizando a presença de Willy Wonka e Charlie B. Wonka no evento. Um para cada. Charlie ergueu os olhos para o tutor.
— Podemos fazer isto?
— Para a lesminha? — Willy fez uma carranca. — Se você quer Charlie, podemos fazer e levar no dia com nosso elevador.
— Eu quero sim, Willy. — Charlie sorriu. Um sorriso largo e bem aberto. — Obrigado.
Como negar um pedido para aquele garoto? Willy pensou. Ele daria uma festa de aniversário para Mike Tevee se Charlie fosse dar um daqueles sorrisos tão largos e gostosos de se ver.
Mas era estranho que o herdeiro estivesse tão empolgado para trabalhar na festa de aniversário de uma pessoa que tinha lhe feito mal no passado. Willy lembrava de como as outras crianças haviam tratado Charlie, lembrava da arrogância, menosprezo que sentiam por estarem compartilhando lugar com uma pessoa que só tivera sorte. Qual é o problema em se ter sorte?
O chocolateiro, servindo-se de tortilhas, já que não tinha panquecas, olhou para o herdeiro. Ele estava visivelmente empolgado, radiante, até.
— O que planeja fazer para a lesminha?
Charlie ergueu as sobrancelhas por sobre a caneca em que tomava chocolate quente. Ele ainda não tinha pensado em tudo, mas já começava a visualizar algumas coisas. Pensou em entregar os docinhos como pequenos manequins. A embalagem que os protegeria da mesa seria um pequeno pedestal de papel. O corpo seria redondo, com docinhos de diversos sabores, começando pelo clássico brigadeiro.
— A cabeça, braços e pernas serão chocolate achatado. — O herdeiro continuou explicando suas ideias. — E o cabelo será algo bem suave e encaracolado como o cabelo dela.
— Vamos colocar limão nos corpinhos. — Willy não conseguiu fugir da empolgação.
— E abacaxi.
Os dois pensavam iguais. Formas de tirar o enjoo dos doces.
— Alguns com cartola, para deixar claro que são masculinos. — Willy saltou da cadeira. — Podemos fazer o cabelo de algodão-doce colorido.
Charlie também saltou da cadeira.
— E aluns manequins grandes que ficarão espalhados pela festa. — Willy tinha os olhos semicerrados, maliciosos, captando a ideia do pequeno gênio que estava na sua frente. — Os doces formam os modelos mais famosos dela.
— E o bolo no formato do vestido dela.
Os dois estavam fervorosos, parecia até que era possível ver a chama vermelha queimando-os de tamanha empolgação. Os dois já não conseguiam falar, apenas trocar caras e bocas, conversando em silêncio, esquecendo do mundo, mergulhando em algo que apenas eles podiam ter. Era de se invejar.
Foi isto que o senhor Bucket encontrou ao entrar na casinha para tomar o café da manhã. Ele suspirou pesadamente antes de falar:
— Filho, vai se atrasar para a aula.
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