Willy tinha parado para beber um pouco de chocolate quente. A noite continuava avançando, derrubando um manto negro banhado por luzes pratas que a lua irradiavam por ali e acolá.
Quem os olhasse, veria adulto e uma criança conversando sobre um passado horrível, um adulto sentado em uma poltrona confortável e uma criança aninhada no tapete peludo mantido longe da lareira que ardia quente contra o inverno.

— Antes de continuar, posso te fazer uma pergunta? — O mais novo teve sua permissão com um leve movimento de cabeça. — Amanda te disse aquilo? Te disse que você era apenas uma pedra preciosa que ela tomou para ela?

— Algumas coisas, Charlie, não precisam dizer. Apenas compreendemos.

Charlie não comentou nada, apenas aguardou que o chocolateiro continuasse a história. Contudo, lá na cabeça sábia, o mais novo entendeu que Willy poderia estar bem errado. Que Willy poderia ter tomado um rumo errado para suas suposições, Amanda podia apenas ter dado a chance para um grande talento sem ter em mente a cobrança de algo ou a fama que poderia arrumar para si. Como quando nossos pais investem em nossas carreiras ou alguém nos dá a oportunidade apenas por saber como era não ter tido uma.

As vezes as pessoas podiam ser boas. Infelizmente Willy Wonka estava fechado demais para entender isto.

O jovem Willy Wonka esgueirou-se pela casa, pisando na ponta do pé e amaldiçoando os dedos que estralavam enquanto ele andava. Amanda Funk estava dormindo, provavelmente em um sono profundo e tranquilo, certa de que venceria a competição que os dois tinham se enfiado. O futuro chocolateiro abriu a porta da biblioteca da casa, foi até o canto em que estava escondido o livro de receitas de Amanda Funk e o abriu.

O fichário de duas argolas foi folheado até o meio. As folhas estavam rabiscadas com tinta vermelha sobre a receita escrita com tinta negra. A forma impecável de se preparar um chocolate sendo que ele será esfriado abruptamente. Cuidadosamente, Willy levou os dedos até as argolas e forçou-as a abrir. O gemido do metal ecoou pela sala e pelo corredor escuro, que a porta aberta anunciava. Quando se está aprontando, fica-se no receio de ser descoberto a qualquer momento. O coração batendo acelerado, os olhos arregalados, a respiração entrecortada e alta. Mas, depois de alguns minutos em puro pânico, a ausência de Amanda atuou como um relaxante muscular potentíssimo.

Wonka separou a folha sobre a mesa. Folheou um pouco mais o fichário, tomando cuidado para retirar as folhas de um par de meias argolas para o outro sem alterar o tamanho do buraco no papel, e retirou uma segunda receita. Os dedos magros de Willy se fizeram fortes, quando foi para fechar as argolas sem fazer um novo ruído. Elas rangeram abafadamente e ficaram lacradas com um mínimo click em resposta.

O chocolateiro arrumou as folhas, fechou o caderno e guardou-o no mesmo lugar sem errar um milímetro que fosse. Agora, só faltava transcrever as palavras para seu papel e devolver as folhas, um tanto amareladas, antes que a mulher desse falta.

Dia após dia ele precisava roubar uma receita até copiar todas elas. Tinha um prazo máximo, teria de fazer até perto deles terminarem a competição que começaria em poucos dias. Ele precisava esconder o conhecimento, deixando-a ganhar até o último segundo. Precisaria testar as receitas na hora, fingindo não ligar para o prêmio. Willy Wonka, que saía sorrateiramente da biblioteca, estava pronto para se vingar de Amanda Funk, ganhando a competição que ela tanto queria ganhar, usando as receitas dela sem que ela percebesse.

Dentro desta primeira aventura noturna, o chocolateiro só não percebeu que Amanda Funk o observou durante cada segundo em que ele estava perdido no roubo das duas folhas. Lá, sentada no chão, ao lado de uma poltrona no escuro, ela presenciou tudo.

Era manhã quando os dois estavam aterrizando no país onde haveria a competição que Willy Wonka ganharia. Amanda tinha colocado seu livro dentro da mala, lacrado e protegido da melhor forma que conseguiu. Para Willy, ela não tinha percebido nada, o mau humor dela deveria ser somente por conta da tensão do concurso.

Desde muito novo, o perfeccionismo nadava em Willy. Herdado do pai, o garoto conseguia recolocar qualquer coisa em seu lugar de forma tão impecável, que ninguém, nunca, seria capaz de perceber alguma diferença. Era impossível que Amanda Funk, por mais detalhista que fosse, vencesse tal habilidade do mais novo.

— Foi aí, Charlie, que tudo começou a mudar. — Willy soltou um suspiro cansado. — Eu me sentia usado, sabe, então roubei algumas receitas de Amanda. Antes de sairmos, antes mesmo dela ter comprado as passagens, eu comecei a acordar todas as noites e ir roubando as melhores receitas dela. Planejei ter o livro todo transcrito com minhas mãos.

A luz da lareira unida com a luz da lua criavam um degradê maravilhoso no rosto pálido do chocolateiro. Era um misto de prata com vermelho e laranja, que impossibilitava Charlie de ver o quão envergonhado o tutor estava. Para Willy, escancarar-se daquela forma era muito novo e medonho. Até mesmo doloroso.

Mas ele não pararia. Pela primeira vez na vida, ele queria dividir aquele peso e saber se realmente se sentiria mais leve, como diziam os mais velhos.

Quando Amanda Funk e o jovem Wonka chegaram no país da competição, os dois se tornaram inimigos. Cada um ficou em um quarto do hotel, no mesmo andar, mas em pontas diferentes do corredor. Havia uma cozinha em cada quarto, uma vasta quantidade de produtos para cozinharem e tantos armários com fechadura, que Willy começou a pensar que Amanda não só tinha desembolsado uma fortuna por quarto, mas também deve ter dito que os dois eram cientistas secretos da CIA.

Que os dois foram incríveis em cada dia da competição, não é preciso voltar a falar. Os jornais daquele ano se incumbiram de relembrar, de tentar fazer entrevistas com o vencedor, de descobrir tudo o que fosse possível.

— No penúltimo dia da competição, Amanda ficou dando entrevistas e eu voltei para o hotel. — Wonka tremia por inteiro. A garganta inflava na vã tentativa de calá-lo. — Eu passei em seu quarto, pois sabia que a camareira faria a limpeza básica naquele horário. A mulher passava aspirador no fundo do quarto, tinha deixado a porta apenas encostada. Eu entrei, peguei o livro de receitas que estava guardado dentro de uma case e fui para meu quarto.

O tutor bebeu um pouco de chocolate quente.

— Você roubou o livro, Willy? — Charlie fez uma pergunta neutra. Não era acusador em seu timbre e nem em pensamentos.

Só que é impossível limpar uma ferida grande, sem fazê-la arder.

— Pior, meu querido. — Era a primeira vez, que Willy se rendia. Deixava tudo o que estava sentindo, transparecer.

Charlie sentiu o corpo inteiro arrepiar e o ambiente esfriando como se algo muito ruim fosse acontecer.

Willy voltou ao quarto o mais silencioso que conseguiu. Passou pelo corredor dos elevadores e então se lacrou no quarto. Se ele tivesse prestado um pouco mais de atenção, pensado um pouco mais, então ele perceberia algo que Charlie só tinha ciência porque escutou a versão detalhista da história que Amanda Funk viveu.

“Eu vi, pequeno, meu pupilo roubando minhas receitas em casa e também o vi fugindo com meu livro. Eu só não imaginava que ele iria…”

Ali, no elevador travado, de portas semitransparentes, Amanda Funk viu o pupilo caminhando apressado para o quarto dela, depois voltando rapidamente para o dele. A próxima, e última, fase daquela competição, definiria Willy Wonka como o melhor chocolateiro do mundo, não por ele ter uma grande capacidade, mas por ele ser um verdadeiro trapaceiro.

Amanda Funk, irritada e magoada, sorriu para o reflexo no espelho do elevador. Estava acabado.

— Quando cheguei no meu quarto, eu olhei para lareira. — Willy falava lentamente. — Eu já tinha a cópia do livro feita por mim mesmo. Todas as receitas e anotações dela. Foi uma tentação, quando olhei o fogo queimando e apagando qualquer vestígio da lenha que consumia. Eu joguei o livro com a proteção e tudo, olhei o fogo queimando, o cheiro de papel, plástico e tecido queimando me abraçou por horas. E meu remorso só chegou agora, Charlie. Depois que ela entrou na minha fábrica.

O tutor olhou para a caneca vazia. Já não tinha mais tanta história para contar nem um ponto de fuga. Agora, no silêncio da noite¹ os dois ficariam presos em pensamentos e, segundo imaginava Willy, julgamentos que afastariam Charlie dele.

Charlie queria falar muitas coisas, ter dito o quão incrível era Willy ou o quão baixa é a autoestima dele, mas não podia soltar qualquer coisa. Muito pelo contrário, ele precisava medir e tirar a prova real de que suas palavras seriam perfeitas para a ocasião.

— Eu só ganhei a fábrica, Willy, porque peguei um dinheiro que achei preso na neve.

— Você está comparando a destruição da coisa mais importante da vida de um chocolateiro, com um punhado de sorte?

— Eu estou dizendo, que ninguém é verdadeiramente honesto. Eu só pensava em gastar aquele dinheiro com chocolates Wonka, em poder visitar a fábrica e matar minha vontade.

— É diferente Charlie!

— Não é não! — O pequeno fortaleceu a voz, mas não gritou.

Aquela era a benção de Charlie Bucket, a paciência, a capacidade de não alterar a voz até que fosse verdadeiramente necessário. Talvez apenas Charlie fosse capaz de prever os pensamentos de Willy, só ele fosse capaz de abrir a mente do chocolateiro maluco, fazer entender que:

— Eu podia ter deixado a nota lá, para que o dono voltasse e a achasse. Podia ter levado para a delegacia. Podia ter dado para meus pais comprarem comida. — O Willy escutava com surpresa. — Mas eu só pensava em mim. — Charlie mordeu os lábios. — Willy, você se enxerga como um monstro, mas só é um sonhador. Um sonhador que está com medo de sonhar e macular tudo o que já conquistou.

Os dedos enluvados de Willy apontaram para o herdeiro, que ajoelhou-se contra o tapete e se aproximou o máximo que pode do chocolateiro. Não. Amanda Funk não destruiria Willy Wonka!

— Tenho você, Charlie. — As sobrancelhas do mais velho denunciavam o temor dele. — Preciso pensar em você. Lembrar que não estou mais sozinho.

O herdeiro fincou os dedos contra os dedos do tutor. A luva emborrachada queimando sob a pele macia daquele que carregaria a fábrica nas costas. O polegar mais novo massageou a palma enluvada, tentando passar uma confiança unida de carinho e amor fraternal; os olhos de Charlie não desviaram dos de Willy que também não conseguiram fugir do olhar claro de Charlie.

— Vamos nos arriscar juntos, Willy. Esta é a única diferença em não se estar mais sozinho. A fábrica aguentou suas estripulias até agora, vai aguentar as nossas.

Um sonhador nunca julga o outro.

Somente um sonhador pode ser a ignição de outro, pois não há inveja e sim expectativa, uma vontade líquida e incalculável que corre por todo o corpo e implora para sair contando aos outros as artimanhas que poderão acontecer. Um sonhador entende o que é passar por cima de algumas coisas, se tornar um ser ilegal, imoral, para aplacar os anseios.

Um sonhador até se deixa perder, quando percebe que o outro tem mais vontade, capacidade e merecimento.

A sociedade, em geral, não sabe o que é ser um sonhador.

O corpo de Willy estava encolhido na poltrona, os dedos agarrando os dedos de Charlie, agarrando a esperança.

— Você me quebra inteiro, Charlie. — Os olhos castanhos brilhavam. — Nunca me deixe, por favor.

Pois se Willy Wonka perdesse Charlie Bucket, nada mais na vida inteira faria sentido.

Notas finais
¹Eu fico imaginando, nós dois... Eu fico ali sonando acordado... - Tá, parei.(N.E.)