O medo de Willy Wonka.
6 Capítulo 5
Notas iniciais
Eram duas horas da tarde quando Charlie conseguiu sair da casinha onde morava o senhor Wonka. Wilbur lhe obrigou a almoçar com ele, rendendo boas conversas sobre o passado de Willy, sobre o que poderia ter acontecido entre Amanda e o chocolateiro excêntrico; conversaram sobre a senhora Wonka, que conseguia encantar só por falarem dela. Fora um dia agradável.
Sob os braços do herdeiro, agora que ele caminhava até a fábrica, estava a pasta com algumas reportagens que envolviam Willy e Amanda Funk.
— Posso, mesmo, levar comigo? — O herdeiro questionou ao dentista. — Se Willy pegar…
— Fique à vontade, Charlie. Não vou te julgar caso perca estas velharias.
As pernas de Charlie estavam congeladas, os pés afundavam na neve ainda macia. O caminho que estava fazendo era regado pela ansiedade de tomar um banho quente, roupas secas e a reunião que tinha marcado com o tutor.
— Pequeno Charlie Bucket.
O chamado veio pela esquerda, tão suave quanto o sopro morno de uma caneca recheada de chocolate quente. O Bucket só tinha escutado aquela voz uma vez, mas sentia que nunca mais a esqueceria. Quando os olhos claros do Bucket correram para o chamado, encontraram as pérolas de Amanda Funk.
— Pequeno Bucket. — A mulher voltou a soltar.
Amanda Funk era suave, ornamentada pelos fios que dançavam com o vento gelado e por um sorriso quase malicioso. O casaco preto acentuava o tom pálido do rosto e as bochechas vermelhas de frio.
— Desculpe, mas eu preciso ir.
— Não lhe tomarei muito tempo, pequeno. Alguns minutos, apenas, para uma conversa, sim?
Os lábios do herdeiro se mexeram pensativamente, ponderando a necessidade de ir ou as palavras para se negar. Alguma coisa nela, em Amanda Funk, sussurrava que poderiam conversar sem problemas, que ela lhe contaria qualquer verdade que precisasse, mas também exalava um perigo estranho. Ainda que bela, educada e aparentemente inofensiva, havia uma comichão de incômodo que nascia no herdeiro quando os olhos caíam sobre ela.
— Vamos lá, se for conversar com Willy Wonka sobre mim, é bom conhecer um pouco do meu lado, não é? — Ela se aproximou alguns passos, parando um segundo para olhar aos lados e confirmar que ninguém era louco o bastante para sair de casa e, por um acaso, escutar a conversa.
— Desculpe, mas o que garante que eu já não conversei com ele?
— Não muda a importância de se conhecer os dois lados de uma moeda, não é? — Ela soltou um riso anasalado — Um juiz precisa conhecer a história em todos os âmbitos, antes de um veredito.
Os dois perderam alguns minutos se encarando. Ansiosos pelo que estava, ainda, por vir.
— Tem uma cafeteria aqui perto. – Ela continuou. — É uma das poucas lojas que estão abertas.
Ϣ.Ϣ.
Uma coisa chamada remorso estava corroendo Willy Wonka como uma traça se esbalda ao encontrar uma pilha de livros abandonados. Havia tantas coisas na cachola do chocolateiro que nenhuma coisa mirabolante que ele tinha gerado era plausível de ser comercializada, pois ou dava muito errado e não conseguia se sustentar ou era tão perigosa quanto uma bomba atômica pairando os países mais poderosos do mundo, pronta para destruir toda a economia mundiar e destruir a humanidade. Os olhos do chocolateiro ardiam, mas ele não tinha autoconhecimento o bastante para saber o motivo.
A fórmula que estava sob os olhos do chocolateiro explodiu, respingando alguns pontos de cor esquisita sobre as lentes de proteção que o chocolateiro usava. Uma gosma marrom saltou com a explosão, movimentou-se sobre a mesa por alguns minutos, teve uma crise de tremeliques que muito lembrava uma crise de espasmos musculares e ficou imóvel (aparentemente, morta).
Enquanto a criatura vivia seu curto ciclo, Wonka se via mergulhado em lembranças. Ele não sentia-se arrependido de ter roubado o livro de receitas, mas sabia que aquilo poderia lhe roubar a melhor pessoa que já tinha entrado em sua vida. Charlie deixaria de se admirar com ele? O abandonaria? Largaria a fábrica ou somente mudaria sua admiração de Willy Wonka para Amanda Funk?
É incrível, mas quando nos decepcionamos com nossas atitudes, deixamos de pensar que algo bom pode acontecer conosco.
As costas do chocolateiro estralaram quando ele as endireitou. Voltar para a realidade era algo que Willy Wonka odiava fazer, mas que era necessário, pois ainda sentia vontade de ir ao banheiro e de comer. Pelo chocolateiro, ele passaria o resto da vida criando e recriando doces, viveria preso naquele mundinho único que era a ala de criações e deixaria o resto para os Umpa Lumpas.
— Céus, estou velho. — Murmurou enquanto se espreguiçava.
Os óculos de proteção foram jogados na cesta de descarte, as luvas simples que usava para criar doces novos, foram trocadas pelas roxas que protegiam suas mãos e então ele tomou o relógio do bolso.
19:54.
— O quê? — Exclamou abismado.
Tinha passado quase dez horas criando e testando novos doces. Dez horas de criações fracassadas. Dez horas em que tinha esquecido algo muito importante.
Saiu da sala.
Ϣ.Ϣ.
Charlie estava mergulhado na banheira, os olhos fechados. A neve tinha aumentado ao ponto de fazer seus pés afundarem e o espiralar tranquilo ficou duas vezes mais forte quando ele regressou a casa. Sua mente estava relaxando, ruminando o que tinha aprendido e lhe deixando em uma sonolência adorável que antecedia o sono profundo. Ele já se imaginava no conforto da cama, abraçado pelos lençóis fofos e sob o sopro quente da lareira acesa.
— Céus, Charlie! Estou te esperando há quinze minutos, já não devia ter terminado este banho?
O corpo de Charlie afundou na banheira como se um espírito o tivesse puxado pela perna na tentativa de afogá-lo. O vento gelado bateu contra as coxas molhadas, acordando-o por inteiro, unindo o susto de ter seu banheiro invadido com o pânico de morrer afogado. O herdeiro estava meio desnorteado, os olhos ardendo, o corpo se debatendo na tentativa de sair da água, as mãos escorregando na porcelana, até que dedos fincaram em seu cabelo e o puxaram para cima.
— Oras, estrelinha, assim você vai morrer afogado e inundar a fábrica!
As tosses de Charlie foram acompanhadas pelos dedos de Willy, que removiam os fios grudados no rosto mais novo. O chocolateiro parecia incomodado, como um pai fica quando percebe que o filho está há uma hora sob a água de um chuveiro e que a conta virá explodindo, mas Charlie adoraria que ele estivesse arrependido de quase ter matado o herdeiro.
— Willy, bata na porta! — Chiou, entre as tosses, o mais novo. — E a puxada do cabelo doeu!
— Saiba, estrelinha, que a melhor forma de salvar uma pessoa que está se afogando é pelos cabelos. E não te ensinaram que tem que trancar a porta? O que faria se um maluco entrasse aqui? — Rebateu.
Charlie encarou o tutor com raiva, enquanto os olhos do mais velho estavam calmos, carinhosos e aguardando que a respiração do herdeiro se acalmasse. Quem entraria naquela fábrica? Quem conseguiria entrar naquele lugar sem ser visto? Willy Wonka sorriu. E foi a deixa para que Charlie começasse a rir. De maluco, naquela fábrica, já bastava Willy Wonka.
O herdeiro apoiou uma das mãos na borda da banheira. A respiração mais calma, a pele perdendo o tom avermelhado que a asfixia lhe causara.
— O que foi, Willy? — O que seria tão importante para que o chocolateiro invadisse o banho do herdeiro?
Wonka estava agachado em frente a banheira, a respiração tranquila batendo contra o rosto do pupilo que estava a altura do rosto do chocolateiro.
— Ah, eu adoro ver pessoas nuas, sabia?
Charlie Bucket convivia com Willy Wonka tempo o bastante para saber escapulir das brincadeiras que o mais velho gostava de soltar a qualquer momento e em qualquer situação, mas ele vivia tempo o bastante para que o chocolateiro adequasse as brincadeiras ao seu ponto fraco. O garoto com muito mais inocência do que era comum para a idade dele, tinha muita vergonha sobre o próprio corpo (e qualquer corpo alheio, na verdade).
— Hey! — Berrou Wily Wonka.
Lembrando-se de sua nudez, o herdeiro jogou o corpo para trás. As costas bateram contra a cerâmica da banheira que serviu como um par de mãos a empurrar para frente. A água esparramou-se para trás e para frente, jorrando contra Willy Wonka que tentou desviar, mas escorregou no chão molhado. Abraçado com a banheira, arfando pela dor, Charlie gemeu.
Caído, Willy fazia uma careta estranha, a calça escurecendo igual à manga do fraque que tinha mergulhado para salvar o herdeiro.
— A sensação de ter a bunda molhada é horrível. — Rosnou o chocolateiro.
— Não tinha algo pior para falar? — Charlie era um pimentão vermelho bem maduro. O corpo colado na cerâmica da banheira era uma tentativa de livrar-se da vergonha, de esconder o corpo junto as espumas densas que jaziam por ali.
— Ah, estrelinha, adoro sua vergonha. — o chocolateiro riu.
— Sem graça. Me passe a toalha.
O chocolateiro se levantou com a cara de repulsa aumentando seu amargor. O tecido da calça grudou-lhe nas cochas, pesou em direção ao chão e lhe passou a sensação de que era uma criança que tinha urinado na cama e agora arcava com as consequências. Com passos lentos, ele puxou a toalha do gancho e entregou-a ao herdeiro. A espuma de banho lhe ocultando a visão da intimidade que ele não se importava se estaria vendo ou não.
Charlie recebeu o tecido e aguardou que o tutor virasse de costas.
Os olhos de chocolate não desviaram do mais novo, que conseguia ficar mais vermelho a cada segundo.
…
…
…
…
— Poderia se virar para eu me cobrir? — Charlie estava estupidamente envergonhado.
Willy Wonka saiu do banheiro em uma mescla de riso e agonia. Ele prometeu ao pupilo que voltaria com calças secas e uma bela caneca de chocolate quente.
— Espero que consiga alguns sanduíches e alguns biscoitos de gengibre. Por que será que biscoito de gengibre é tão bom no frio?
A voz de Willy Wonka ia morrendo enquanto ele ia saindo do banheiro, meio mancando, meio pensativo, meio risonho. Charlie suspirou enquanto se enrolava na toalha.
— Ele reclama que não tranco a porta, mas nem fechar ele fecha. — O ar aquecido da lareira que queimava no quarto do herdeiro, entrava pela porta escancarada.
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