O medo de Willy Wonka.
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Estava perto de entrar na sala de criações, quando parou, virou-se para trás e soltou aquilo que tanto lhe causava mágoa:
— Marque a reunião para hoje as quatro. Até lá, não me interrompa. — As luvas roxas do chocolateiro tocaram a maçaneta da porta e rangeram diante o toque pesado.
Willy Wonka pareceu pensar um pouco, pareceu calcular as palavras que sairiam em seguida:
— Sabe, Charlie, algumas vezes nós queremos esquecer algumas coisas do passado. Queremos um ombro amigo para chorar, mas não queremos que ele pergunte o que machuca – Temos vergonha, pensou o chocolateiro. — Mas eu passei a me perguntar se isto é possível, sabe. Se é possível que alguém acalme ou tente acalmar nossos corações mesmo que não saiba o que nos machuca ou se é possível que eu, Willy Wonka, tenha um ombro amigo verdadeiro.
O relógio marcava nove e meia da manhã quando a porta da ala de criações bateu com um estrondo. O herdeiro sentia o coração disparado e maculado, mas sabia que o chocolateiro estava jogando um pouco de drama como tentativa de freá-lo. Charlie, no entanto, tinha tempo o bastante para enlouquecer de curiosidade, buscar algumas respostas ou desistir de vez daquela história.
O herdeiro largou a pasta que carregava na primeira mesa que encontrou, pegou um casaco em seu quarto e saiu da fábrica para encontrar-se com a neve que caía suavemente como no dia anterior, quando Amanda Funk surgiu e revirou a fábrica de cabeça para baixo.
Era cedo e frio o bastante para que ninguém caminhasse pelas ruas da cidade, então não demorou muito para que o herdeiro estivesse tocando a campainha do dentista mais famoso da cidade. Lá, em frente a porta do dentista que morava no monte mais alto da cidade, o herdeiro conseguia ver algumas torres da fábrica e um mar de casinhas que se estendia ao longe. As chaminés conversavam entre si, com as fumaças saindo amigavelmente enquanto a lenha aquecia o lar.
— Tem hora marcada? — A voz rouca escapou.
Charlie girou no eixo.
— Não. — A voz sempre rouca — Mas é uma emergência.
A casinha mantinha-se igual ao de antes, aconchegante, com um consultório reservado em um cômodo e os diversos jornais recortados e enquadrados na parede. O senhor Wilbur estava mais velho do que a primeira vez que Charlie o viu, mas ainda podia se ver muita garra e amor pelo que fazia. O Bucket, pela primeira vez, entendeu de onde tinha nascido a dedicação de Willy. Wilbur e Willy eram iguais em relação ao amor que sentiam pelo que faziam.
Logo que entraram na casinha, Charlie foi jogado contra a cadeira de dentista e teve a boca aberta pelo profissional.
— Então, qual a emergência?
— Reeeoos uu iía hã áica oem.
O espelhinho refletia os dentes do sócio de Willy, demonstravam cúspides bem cuidadas, que tinham encontros constantes com o fio dental e com um bom enxaguante bucal.
— Uma visita? — Estranhou o dentista.
— O eoo ê eeeu?
(O senhor me entendeu?)
— Depois de anos trabalhando como dentista. — Ele retirou os aparelhinhos de dentro da boca do pupilo. — Você ganha umas habilidades. É formidável como você cuida de seus dentes, pequeno Bucket. — Elogiou.
O dentista endireitou a cadeira, permitindo que o herdeiro ficasse confortável.
— Recebemos uma visita na fábrica, ontem pela manhã. — Repetiu o herdeiro, agora de uma forma que qualquer um entenderia. — Queria saber se o senhor sabe algo sobre Amanda Funk.
— Amanda Funk, hein? — Wilbur Wonka cruzou as pernas e se colocou a pensar um pouco.
Não era um homem que tinha a habilidade de lembrar de nomes ou de físico, era um homem que entendia de cúspides, dentes e fio dental. Sabia como tratar uma cárie, remover um dente, fazer clareamento. Contudo, aquele nome lhe era muito familiar e incômodo.
— Quando ela surgiu, Willy ficou bem abalado. — O herdeiro não despregou os olhos do dentista. Qualquer vestígio de que ele estivesse escondendo algo, não poderia passar despercebido. — Willy não conseguiu, ao menos, expulsá-la da fábrica.
— Era uma mulher loira? — Wilbur pareceu ter acordado de um pesadelo.
— Sim! De cabelos como macarrão espaguete.
Então, todo o corpo idoso pareceu murchar. Aquilo injetava tanta lembrança ruim no senhor de idade, que a amargura de um dia ter abandonado o filho voltava a assolar seu paladar.
— Ah, garoto. Há tanta coisa que envolve essa tal de Amanda Funk, que eu mal sei por onde começar.
— Ela fez algum mal para o Willy? — Charlie poderia aceitar qualquer coisa, menos que alguém fizesse mal para as pessoas que ele tanto amava.
— Pelo contrário, eu acho. — Wilbur Wonka levantou-se. — Vamos tomar um chá, enquanto te conto o que eu sei.
Abandonar o filho nunca está nos planos de um pai, entretanto Wilbur Wonka não podia permitir que seu amado filho viesse a se unir com o maior inimigo que o dentista tinha. Quando o pequeno William saiu com sua mochila e amor por doces, Wilbur juntou suas coisas, comprou uma casa que já namorava há um tempo e colocou a sua para vender.
Foi só depois de uma semana, que o dentista se viu arrependido, desesperado, quebrado. Seu orgulho, aprendeu ele, nunca seria mais importante que o coração. A profissão nunca seria mais confortante do que a vozinha do filho a contar o que tinha aprendido na escola. Um dente curado nunca o deixaria tão poderoso quanto a sensação de proteger o filho do mundo ou dos pesadelos que o cercava a noite.
O dentista se viu chorando dia após dia, pensando em como queria poder beijar a testa do filho que jazia adormecido e então desejar que tivesse bons sonhos. Chorou dia após dia sem saber onde e como estava seu pequeno Willy.
No entanto, as lágrimas se tornaram um suspiro de alívio quando, anos depois, o jovem Willian apareceu como o mais jovem a se formar em gastronomia. Logo depois o filho estava vencendo uma competição, abrindo a primeira lojinha, uma fábrica modesta e então se tornando aquele que o mundo admirava. Ai, depois de muito tempo, o orgulho se juntou a paternidade e a somatória resultou em um dentista mergulhado em sorrisos radiantes, por ser o pai daquele chocolateiro excêntrico.
O chá assoviava uma fumacinha esbranquiçada enquanto o mais velho contava seu passado ao herdeiro. Ao contrário do que o dentista imaginava, ele não sentia-se torturado por ter contado seus maiores medos, mas sim aliviado, como se tivessem lhe arrancado um caminhão das costas.
— E o senhor nunca teve coragem de falar com o filho? — Charlie perguntou.
A xícara, com uma pequena lasca na borda, tinha um chá avermelhado amargo que bastou o herdeiro dar apenas uma umedecida nos lábios para ele desistir de tomar. Wilbur Wonka não lhe ofereceu nada para adoçar aquela coisa.
— Eu tentei. Incontáveis noites eu perdi parado a porta da fábrica, olhando para as câmeras externas e para os portões. — O Wonka sempre achou que o filho também o observava.
— Willy nunca me falou que via o senhor indo para a fábrica.
— É de se esperar que meu filho não conte tudo o que sabe. Seja por medo ou por achar que aquilo não é importante.
Willy Wonka era o tipo de pessoa que não sabia viver na realidade. Dóris teve muito trabalho quando assumiu a administração da fábrica, pois o salvador sempre achava que poderia deixar aquilo para depois. Logo que o chocolateiro fechou a fábrica para sempre e antes dos Umpa Lumpas se mudarem para lá, a fábrica vivia com as contas atrasadas, a luz sendo cortada, os insumos acabando e o dinheiro sendo jogado em qualquer canto como algo que poderia ser guardado depois.
— É, ele é bem desligado com o mundo externo. — O herdeiro concordou.
— Sabe, — Wilbur já estava na segunda xícara daquele chá horrível. — eu sempre fui tímido o bastante para não conseguir arriscar uma conversa com um estranho. Willy sempre foi mais parecido com a mãe, mais ousado.
Quando Charlie escutou a palavra mãe, sentiu o coração se aquecer e a atenção se redobrar. A senhora Bucket, segundo seu pai, estava viajando para rever parte da família que, há muito, não via. Como ainda trabalhava, o senhor Bucket não pode ir com a esposa, mas garantiu que ela estava bem. O herdeiro sentia um misto de saudades da própria mãe, que nunca ligava para dar notícias, e curiosidade para saber sobre aquela que Willy nunca tinha contado nada.
— Minha esposa morreu quando Willy era muito novinho, mas parece ter ensinado-o que poderia fazer qualquer coisa. — Wilbur continuou sem se atentar a curiosidade do herdeiro. — Mesmo tímido, sabendo que poderia escutar piadinhas – e isto Willy escutou muito – meu garotinho ia até onde queria, perguntava o que tanto desejava e voltava satisfeito com a resposta.
Eram raras as pessoas que conseguiam esconder alguma coisa ou ignorar alguma pergunta de Willy Wonka e mais raras ainda as que conseguiam retirar qualquer informação do chocolateiro. Charlie Bucket Wonka não sabia, mas ele se encaixava no segundo grupo e só não rumava para o primeiro, porque não sentia necessidade de esconder algo de Willy.
— A mãe de Willy, como era? — O herdeiro perguntou quando o mais velho mergulhou numa nostalgia paralisante.
— A mulher mais bonita que eu já conheci. Era doce, sorridente e capaz de aquecer o coração mais congelado deste mundo. — Perfeita para quebrar qualquer barreira de Wilbur. — Quando ela veio falar comigo a primeira vez, eu quase tive um ataque cardíaco. Foi horrível, mas maravilhoso também.
O rosto do idoso estava avermelhado, sorridente, radiante. Charlie sorriu, puxou a xícara quase fria para si e bebeu um gole do chá. O rosto do herdeiro pareceu afundar para dentro da boca e a garganta expandir para que o líquido amargo não tocasse em nada. Ele tinha esquecido que aquela bebida era horrível.
— Todas as vezes que vejo meu filho, também vejo a mãe dele. Não sei se são os olhos, se é o sorriso. — Ele pareceu, então, acordar de um devaneio. — Em fim, vi Amanda Funk pela primeira vez, quando a competição foi televisionada.
— Que competição foi esta, senhor Wonka?
O dentista se levantou.
— Eu devo ter colocado por aqui, sim? — Os dedos dele mergulharam uma gaveta da velha estante jogada na sala de jantar minúscula e aconchegante. As horas já tinham corrido mais do que Charlie poderia imaginar e seu estômago estava começando a informar que a fome estava perto. — Aqui! Eu sabia que estava por aqui.
Uma pasta velha com plásticos amarelados estava recheada de jornais antigos. Todos catalogados em ordem cronológica.
— Eu demorei anos para achar meu filho, mas depois que o fiz, acompanhei tudo o que dava para acompanhar sem que ele soubesse.
Charlie pegou a pasta e a abriu. Ele finalmente saberia tudo o que precisava saber sobre aquela competição que, aparentemente quebrou a amizade de Willy Wonka e Amanda Funk, e a transformou em uma rixa.
Ϣ.Ϣ.
A mochila do pequeno Willian escorregou pelo ombro direito e caiu contra o chão. Em tão pouco tempo, a casinha tinha sido vendida e seu pai partido sem pensar no filho.
— Meu pequeno, se ficar mais um minuto parado assim, suas perninhas vão travar.
A criança olhou para o lado e assim a viu pela primeira vez. O sotaque forte, os cabelos escorridos solto ao vento e os olhos brilhando com a curiosidade. O pequeno sabia, agora, que as pessoas eram cruéis, sabia que deveria recuar para longe daquela desconhecida. Porem, seu coração pediu que ele ficasse, pois nada pior estava para acontecer — e o coração de Willy nunca errava.
— Você poderia falar algo, não é?
Então, conforme ela tinha pedido, ele permitiu-se falar a única coisa que conseguia pensar. A única coisa que ficaria em sua cabeça pelo resto da vida e lhe serviria como base para saber se deveria ou não prosseguir em uma conversa com alguém:
— O que a senhora pensa sobre chocolate?
— Penso – Ela respondeu assim que ele terminou de falar – que ele sujaria seu aparelho e você teria um trabalho magnífico para limpá-lo.
O garotinho puxou a mochila do chão.
— Isto é o que a senhora pensa do meu aparelho e não de chocolate. — Ele virou as costas, pronto para caminhar para o nada. — E saiba que também não gosto dele.
— Ah, e por que não o tira? — a mulher não se mexeu. Aumentou a voz para que ele escutasse. — Seus dentes são perfeitos, não precisa mais dele.
— Diga isto ao meu pai. — Murmurou o pequeno.
— Bom...
A mulher lhe surgiu pela esquerda, as pernas longas dançando em cada passo que dava, passando a leveza que ocultava o sussurrar dos passos dela. Rápida, leve, silenciosa. William ficou com medo e berrou quando percebeu que ela estava caminhando ao seu lado.
— Nossa, não precisa gritar, não sou tão feia assim. — Ela o olhou com uma careta. — Se não gosta dele, poderia ir retirar.
— Você sabe remover? — Perguntou o garoto. O coração batia acelerado pelo susto e pela expectativa.
— Tenho cara de dentista? — Ele negou. — Visite aquele dentista esquisito, Wilbur Wilbir.
— Wonka. — Corrigiu o pequeno. — Wilbur Wonka.
— Isto.- Ela estralou o dedo. — Dizem que é o melhor dentista da cidade. — O pequeno continuo caminhando e se deu ao luxo de não responder a mulher. — Ele não morava ali atrás? Será que se mudou?
— Ele me deixou. — Rosnou o pequenino. — Abandonou o filho porque achava que doce era uma perda de tempo.
O silêncio reinou por algum tempo. Os passos da mulher eram tão silenciosos, que o garoto conseguiu mergulhar em seus pensamentos e na ira que sentia por ter, realmente, sido abandonado.
— Chocolate é a coisa mais sem sentido que existe. E é maravilhoso, porque é doce.
O pequeno Willy Wonka parou de caminhar. A mochila voltou a escorregar do ombro e ele, enquanto hiperventilava, olhou para a companheira. Ela tinha o sorriso mais bonito que ele já tinha visto, era um tanto mais velha, bela como uma boa lembrança.
— O que disse?
— Eu amo chocolates. Doces, na verdade. — Ela estendeu a mão. — Posso te levar até um amigo meu. Ele deve saber remover este treco.
— Não tenho dinheiro. Meu pai dizia que tudo custa algo.
— Ele também te disse que nunca se abandona alguém?
Um buraco negro nasceu no estômago do pequenino. Sim, o senhor Wilbur Wonka já tinha comentado uma vez, quando soube de uma notícia que alguém tinha abandonado uma criança, sobre o erro que era abandonar uma criança.
— Os adultos, querido, são cheios de verdades e mentiras. O mundo é flexível demais para seguir os conhecimentos engessados deles. Venha, vou lhe apresentar um mundo novo.
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