O medo de Willy Wonka.
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Willy não conseguia mais ver a sua casa. Havia um buraco agora entre a casa de seus antigos vizinhos. Havia a insegurança de não se ter um plano para seguir. Seus olhos, por mais que estivessem em frente a casinha fina e idêntica a todas as outras, não eram mais capazes de enxergá-la ali. Estava, por fim, sozinho, sendo obrigado a deixar de ser criança.
“Eu não estarei aqui quando voltar”.
Uma criança nunca acredita que seus pais vão abandoná-los, pois é algo que os adultos lhe ensinam como errado. É errado abandonar o mais fraco, os filhotes, não é? Deixá-los ao relentos, com sonhos que poderão nunca ser concluídos, clamando por um chocolate quente (ou chá sem açúcar, como no caso do patriarca Wilbur Wonka que não suportava cáries e, consequentemente, doces), um abraço e o perdão concedido. Uma criança, por mais atentada que ela seja, nunca acredita que será abandonada.
Willy quis chorar ao perceber que sim, é possível que os pais abandonem os filhos, que eles cumpram suas promessas mesmo que venha a fazer mal para quem, um dia, eles juraram amar. É possível não perdoar quem se ama.
O garoto de aparelho ficou horas a fio olhando para a casa que seus olhos não conseguiam ver. A mochila, com algumas balas furtadas da base da lareira (que por um milagre não conseguira queimar todos os doces), algumas outras compradas em segredo e um punhado de roupa, pesava sem pesar; as perninhas finas reclamavam sem serem escutadas, o coração chorava o berro silencioso do abandono. Willy Wonka era apenas uma criança que amava chocolates e não tinha onde dormir, comer ou viver. Era uma criança que passou horas sentindo o que não conseguia, ao certo, sentir e muito menos explicar.
Ϣ.Ϣ.
Willy girou no eixo e fugiu pelo corredor que se estreitava, enquanto Charlie se certificava de que Amanda tinha passado pelos portões da fábrica. O chocolateiro passou pela portinhola do jardim comestível e ignorou os arrepios que surgiam quando Charlie o alcançou e passou a lhe chamar. Sim, ele estava envergonhado por fugir, mas também apavorado por ter revisto aquela mulher que tinha lhe ensinado tudo o que ele sabia sobre chocolates, apavorado por não ter algo para usar como uma desculpa que Charlie aceitaria. Amedrontado com a quantidade de pensamentos que lhe roubavam a sanidade aos poucos.
— Senhor Wonka, olhe para mim!
Aquilo não seria o bastante para freá-lo, pensou Willy enquanto prendia um sorriso e mergulhava no corredor que o levaria até seu quarto. Por mais que odiasse quando Charlie lhe chamava de “senhor”, seu anseio de não conversar era maior. Se chegasse lá, se alcançasse o quarto, estaria a salvo. O.K. Bater a porta na cara do pupilo não o calaria, mas abafaria o bastante para que Willy fingisse não escutar.
O corredor ainda cantarolava os passos de Charlie.
“Oh estrelinha insistente!” O chocolateiro rosnou em pensamento.
— Willian Wonka, pare aí mesmo! — Ele não parou. Não pararia por culpa de uma irritaçãozinha que sentia ao ser chamado pelo nome completo. — Vou ter que chamar seu pai?
Charlie sentiu prazer ao ver Willy tropicar para frente e depois mover o corpo até poder encará-lo. Finalmente tinha atingido o ponto fraco. Os olhos castanhos do mais velho estavam abismados, questionando se o herdeiro realmente queria colocar o senhor de idade, mais do que avançada, naquela situação.
— Ora, não ouse colocar ele neste assunto! — A voz de Willy estava mais aguda do que ele queria. — Eu já sou adulto o bastante para me livrar dos problemas que eu carrego. Sou adulto desde muito cedo!
— Então aja como um! — A voz rouca e tranquila de Charlie era quase uma afronta.
Tudo bem que o garoto estivesse quase da mesma altura que o chocolateiro, que o rosto já começava a mostrar os sinais de amadurecimento, mas o Bucket ainda era mais novo e seria, sim, tratado como tal. Willy Wonka tinha, em um dia, levado desaforos demais para um ano inteiro e, segundo ele imaginava, estava para levar mais e mais desaforos naquele ano, quiçá naquele mês.
— Você não tem deveres da faculdade para fazer? Não deveria estar na faculdade, aliás? — O chocolateiro apoiou-se sobre a bengala e colocou a mão livre na cintura. — O que você está fazendo aqui?
— E…
— Você me fez perder dias de paciência para poder fazer uma faculdade e agora me vem faltando? Oras bolas de chicletes que não perdem o sabor! Charlie, volte para sua aula!
Wonka desatou a reclamar e embutir assuntos que Charlie não fazia a menor ideia do que se tratava. Ele falava tão rápido e tão misturado, que além de não entender nada, o herdeiro também só conseguiu falar quando Willy terminou de tagarelar e gesticular furiosamente.
— Ainda me vem colocando aquele velho viciado em cúspides, que não reconhece o próprio filho se não abrir a boca dele, enfiar aquelas coisas esquisitas de dentistas e reconhecer as pontinhas de meu dente! — Willy Wonka quase arfava quando terminou de falar.
Charlie suspirou.
— Eu estava para lhe dizer que as aulas foram canceladas devido a neve. — O rosto de Charlie endureceu um pouco. — Mas ai encontrei aquela situação na recepção.
— Como assim, cancelaram? Que neve?
— Veja os jornais e eles lhe explicarão. — Não perderiam tempo, não é mesmo? — Agora me diga, o que estava acontecendo na recepção?
O chocolateiro não conseguiu falar. Queria mentir, dizer que não era da conta de Charlie, mas a voz morria no meio da garganta e ele só conseguia arrotar uns gemidos tolos. A mente pedia para que ele virasse as costas, jogasse uma ordem qualquer ao mais novo e então sumisse por algumas horas, mas o coração clamava para que ele abraçasse o herdeiro, confessasse seus pecados e chorasse o medo que o assolava.
— Tudo bem, Willy. — Charlie suspirou. — Durma um pouco e depois conversamos. Você vai pifar, se continuar com tantas caraminholas na cachola.
A gratidão de Wonka só seria maior, se o herdeiro o tivesse aninhado em um abraço e depois sussurrado aquilo contra seus ouvidos cobertos pelos cabelos lisos. Contudo, um momento de paz seria o bastante para que Willy se revigorasse e então pudesse planejar o que faria para fazer a estrelinha esquecer aquela história e Amanda Funk dar o fora de sua vida.
Charlie acompanhou Willy com os olhos até que o chocolateiro virasse a primeira esquina e não pudesse mais ser visto. O herdeiro estava curioso ao ponto de sentir um aliem raspando longas garras em seu estômago, mas era, também, sensível o bastante para lembrar-se de que se as vezes ele só queria ficar isolado do mundo para que os pensamentos pudessem explodir. Willy também deveria desejar aquilo.
Assim que o tutor sumiu, o herdeiro correu. A mente repetindo o nome “Amanda Funk” não reparou no botão vermelho piscante do elevador de vidro e o ombro direito chocou-se com o veículo. Massageou o braço gemeu:
— Minha santa noz! — exclamou quando a dor escalou o braço.
E continuou o caminho. Ele precisava descobrir tudo o que Willy sabia sobre Amanda Funk, qual o relacionamento dos dois e, acima de tudo, o que ela tinha ido fazer na fábrica.
Alguns passos a frente, Charlie derrapou, fez uma curva e entrou na biblioteca da fábrica.
Ele perdeu horas, quase um dia inteiro, até encontrar o primeiro rastro de Amanda Funk. Estava em uma estante porcamente cuidada, dentro de uma caixa emperrada que foi tacada no chão para que desemperrasse e abrisse. Ali tinha uns recortes de jornais e revistas, alguns papéis amarelado escritos com letras garranchosas que dificultava o interesse em ler e uma sujeirinha que o tempo tinha levado. Uma pequena aranha, que há anos fazia morada por ali, escalou a madeira e saltou da caixa quando Charlie começou a ler os recortes nas revistas.
"Na primeira fase da competição, Amanda Funk conseguiu se mostrar uma exímia criadora. Ela mostrou que dá para melhorar uma receita moldando apenas o tempo e a ordem de colocar os ingredientes…"
"Amanda Funk volta a vencer e se torna, sem dúvidas, a favorita da competição. Quantos truques mais ela carrega em suas mãos?” O restante do papel era completado por uma propaganda de uma batedeira que já estava ultrapassada.
“A competição ainda está esquentando, mas já sabemos quem será nosso vencedor…” Havia a foto de Amanda Funk, tão bela quanto quando apareceu na recepção da fábrica, mas um pouco mais jovem.
Charlie continuou lendo. Os recortes tinham letras falhadas que atrasavam um pouco a leitura, o relógio da biblioteca continuava seu TicTac tranquilo, como se cantarolasse para que o herdeiro tivesse uma leitura mais agradável. Vez ou outra a fábrica soltava um apito, um estralar ou suspiro, e isto não arrancava Charlie da tensão que era saber onde Willy entrava naqueles recortes e até que ponto Amanda Funk conseguia criar as coisas de sua cabeça.
"Os dois finalistas são incríveis, mas Funk sabe arrancar nossas atenções de qualquer pessoa ou coisa que não seja ela. Com muito esforço, aproveitamos que a final foi adiada para conhecer um pouco mais dos dois finalistas: a nossa amada Amanda e o esperançoso Willian Wonka.
Encontrarmos nossa amada Funk tomando uma xícara de café junto com seu concorrente no café Chez Prune, em Paris, cidade em que ocorrerá nossa final. Os dois pareciam conversar sobre culinária e se darem muito bem fora da competição, até pareciam tutor e pupilo…"
Charlie ergueu o pescoço. Willy tinha sido aprendiz de Amanda Funk?
— Você podia ter me pedido para ver a caixa, eu deixaria, sabe?
Charlie saltou do chão quando escutou a voz do tutor explodir a suas costas. Mergulhou tão fundo naqueles recortes, que esqueceu-se de ficar atento a aproximação de Wonka, que odiaria ter sua vida privada invadida sem aviso prévio.
— Está melhor, Willy?
O herdeiro o encarou. Não podia deixar claro que acreditava fazer algo errado, ou seria tratado como alguém que estava fazendo algo errado.
— Depois de algumas horas de sono, tudo melhora.
— Achei que era depois de uma caneca de chocolate quente Wonka.
O chocolateiro torceu os lábios.
— Bom, me dê a caixa. Não precisava ter quebrado ela, Charlie. — Willy analisou a peça de madeira. — ganhei esta belezinha há tanto tempo. Vou consertar ela e depois — tomou os papéis que o herdeiro juntava — se você me pedir, deixarei ler o que guardo aqui. Céus, quanto pó!
O chocolateiro aninhou a caixa sob o braço direito e saiu alisando-a como quem tira o pó. Charlie escutou o chocolateiro resmungando que precisava mandar limpar aquela estante.
Assim que saiu da biblioteca, Willy Wonka sentiu o peso do desespero. Ele entrou no elevador de vidro, apertou o botão que o levava até seu quarto e escondeu a caixa. Tinha guardado o passado ali para que ninguém conseguisse achá-lo, mas nunca imaginou que Charlie seria tão intuitivo ao ponto de encontrar o que procurava.
— Se eu soubesse que a caixa abria quando era jogada no chão, teria enterrado esta bagaça.
Enquanto resmungava, Wonka tentou engolir seu medo e pensar em uma forma de fazer Charlie abandonar seu interesse pelo passado do chocolateiro. Para isto, ele precisaria forjar uma história e adicionar pistas falsas.
Ah! Quanto trabalho teria pela frente?
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