O medo de Willy Wonka.
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Charlie espanou a neve que lhe caiu sobre a touca e o cachecol que usava. Um Umpa Lumpa voltava a trancar a porta da fábrica e escutava o herdeiro que se despia das roupas úmidas.
— Está bem frio. — O herdeiro exclamou enquanto tirava a última peça. — Depois de levar as roupas para a lavanderia, pode tirar o dia de folga. — A criaturinha, que sumia sob as roupas molhadas, ergueu um polegar em concordância e agradecimento. No frio, tirar um dia de folga não faria mal algum.
Naquele dia, qualquer um que tivesse a coragem de pôr os pés para fora de casa, era um louco. A neve caía ha dois dias, mas aparentava que a cidade estava há meses sob suas garras. Ela espiralava calmante impedindo as escolas de terem aula, os escritórios de abrirem e aumentando as paredes de neve que as pessoas desistiam de tentar escavar para longe de suas casas. As lojas estavam anunciando que funcionariam por um curto período e que as compras deveriam ser programadas naquele horário, pois o dia estaria mais quente e o frio menos insuportável.
Mas Charlie tinha acordado atrasado e esqueceu-se de olhar os noticiários, sendo recompensado com os portões, da faculdade, lacrados. Tinha, então, somente perdido alguns minutos sob as cobertas quentinhas e macias para ganhar um passeio sob o frio cortante. A fábrica, para a alegria de todos, estava quentinha e acolhedora. Charlie deu uma espiadela pela janela e sorriu abobalhado, lembrando que se fosse há alguns anos, ele estaria quase congelando enquanto permanecia aninhado com os pais e os avós no meio da sala para aproveitarem o calor humano que emanava da cama onde os avos estavam sempre deitados.
— Onde está Willy? — O herdeiro questionou ao Umpa Lumpa carregado de roupas, que estava partindo.
A criaturinha parou e apontou para a sala de recepção. O herdeiro agradeceu e caminhou até uma portinha simples que havia na parede. Ele tinha entrado pela saída de emergência que ficava na lateral frontal da fábrica. Tinha que conhecer aquela passagem para se conseguir tocar a campainha e entrar por lá, pois a portinhola só abria por dentro e era tão fundida à parede da fábrica, que os donos quase não conseguiam vê-la. A campainha mais parecia uma mancha do que uma campainha, ajudando a evitar que as crianças a apertassem e saíssem correndo (algo que, segundo Willy, aconteceu diversas vezes. Antes de mais parecer uma mancha, a campainha era um W lustrado e brilhante, capaz de cegar qualquer um).
O herdeiro abriu a porta adjacente a ala da recepção.
Ϣ.Ϣ.
— Não sei do que você está falando, minha querida. — Willy precisou controlar o nervosismo.
Contra Amanda, não bastava pensar rápido, mas sim saber mesclar a verdade com a mentira. Willy sabia, sim, do que ela estava falando e, sim, ele sabia que ela não deixaria barato a artimanha que ele tinha usado para vencer uma competição que tinha ocorrido há anos, mas agarrou-se a possibilidade dela estar em busca de alguma outra coisa. Um chapéu de cozinheiro, talvez?, que Willy tinha pego por engano (todos, em sua defesa, eram brancos e sem nome. Qualquer um se enganaria).
— Meu livro de receitas, William! — Os olhos prateados brilharam enfurecidos.
— Que eu saiba – O chocolateiro quase gaguejou – eu não tenho nenhum livro de receitas que não fora escrito por estes dedinhos.
Ele movimentou os dedos da mão direita ao ar e arrependeu-se no mesmo instante, pois Amanda Funk lhe sorria com sadismo. O mesmo sadismo que ele, Willy Wonka, usaria com um inimigo declarado.
— Willy!
Charlie travou. Ele entrou na recepção com tanto entusiasmo, que quase caiu ao sentir as pernas travarem e o cérebro gritar “espera! Quem é esta aí?”. Ainda com o sorriso travado nos lábios, com a alegria de não ter aula espirrando pelas orelhas, o herdeiro percebeu que não devia ter entrado sem bater e muito menos entrar já berrando pelo tutor.
Os olhos do tutor e da visitante estavam caídos sobre ele como se fossem dois dançarinos revoltados que acabaram de ter o ensaio interrompido por uma criança barulhenta e desastrada. O herdeiro ofegou quando tentou formular uma nova fala, depois soltou um gemido e finalmente conseguiu quebrar o silêncio:
— Q... — Quem é ela? Pensou. — Não sabia que teríamos visitas hoje. — Mas decidiu por mudar a frase e usar algo mais formal e educado.
— Não íamos ter. — Willy rosnou.
Charlie sacou que o tutor estava querendo se livrar daquela mulher, mas que não conseguia fazê-lo. O que era estranho, já que Willy Wonka, naquela fábrica, podia fazer tudo.
— Seja mais educado, querido. — A mulher repreendeu o chocolateiro utilizando um tom de voz maternal.
Para o espanto de Charlie, Willy apenas contorceu o rosto em uma carranca de desgosto. Willy Wonka nunca deixaria um visitante falar assim com ele sem, ao menos, expelir um xingo como resposta. O chocolateiro era educado e sabia vestir a máscara de um bom anfitrião, mas exigia ser tratado com o mesmo respeito que um duque ou, dependendo de onde estivesse, como um rei.
— Não nos conhecemos ainda, pequeno. — A visitante tinha a voz amigável, mas usava aquele tom irritante que os adultos usam quando vão falar com crianças. — Pelo menos, acho que meu querido William ainda não achou um tempo livre para contar-lhe sobre mim, não é?
Enquanto a mulher falava, o herdeiro olhou para Wonka, tentando capturar qualquer resquício de um plano. Willy estava em pânico. Visivelmente em pânico, parecia, até, que tinha captado algo a mais naquela simples fala.
Mas a verdade é que, ele não só tinha entendido os planos da mulher, como Willy ainda tinha correntes demais para conseguir barrar aquela mulher de continuar a falar suas asneiras e sabia que ela tentaria, agora que tinha visto seu herdeiro, jogar Charlie como moeda de troca. Como Willy queria ter sido mal-educado, como ele queria enfiar a bengala goela abaixo naquela mulher, como ele queria ser menos preso a ela! Dever menos gratidão a ela.
Mas não era.
Não era capaz de quebrar a educação que tinha adquirido quando mais novo, não era capaz de deixar sua gratidão de lado e nem mesmo o medo do que aquela mulher poderia fazer. Afinal, se ele era sádico, se ele sabia, tão bem, usar os pontos fracos dos outros contra eles mesmo, então Amanda Funk saberia fazer tudo aquilo em dobro.
Afinal...
— Prazer, Charlie. — Ela saudou. — Eu sou aquela que ensinou William Wonka, a ser um chocolateiro fantástico.
Um tutor não ensina tudo o que sabe, a não ser que confie no pupilo com todas as forças. Amanda Funk, definitivamente, não confiava por inteiro em ninguém.
Alguma coisa em Amanda Funk não fazia bem para Charlie. Talvez fosse algo nos olhos pálidos, de um azul que beirava a cor prata, ou fosse nos fios loiros escorridos como macarrão espaguete que estavam caídos sobre o ombro esquerdo. O herdeiro também pensou que poderia ser culpa do tom infantil que ela usou contra ele, como se alegasse que fosse inocente demais para participar de alguma conversa mais séria.
— Desculpe a pergunta, mas o que te traz até a fábrica? — O herdeiro questionou com certa petulância.
O rosto de seu tutor estava mais pálido do que o normal e ele não conseguia suportar isto. Não conseguia suportar a ideia de ver Wonka tão incomodado, tão pequeno. Principalmente quando acontecia sob o telhado do universo que o chocolateiro tinha criado.
— Bom, uma particularidade que tenho com o meu querido William.
— Ele odeia que o chamem assim. — Rebateu o mais novo que, sob o olhar frio da mulher, ainda adicionou com ousadia e uma pitada de ironia:
— Só para pontuar.
— Para pontuar? — Ela riu com sarcasmo.
O herdeiro não perdeu a postura. Se aquela mulher estava pronta para arrumar uma briga, se Willy estava travado demais para rebater aquela que tinha lhe ensinado a arte de criar chocolates, então o herdeiro teria que lutar pela fábrica. Era, pensava ele, a sua obrigação como segundo, ou melhor, como futuro dono.
— Você quer brincar de pontuar, garoto? — Agora, Amanda não sorria e muito menos ria. — Sei mais coisas sobre William Wonka do que você!
— Não vou brincar de pontuar nada. — Charlie rebateu. — Mas não somos chegados a receber visitas sem um aviso prévio, independente de quem esteja nos visitando.
— Garoto... — Ela rosnou.
— Se Willy é educado demais para lhe expulsar do mundo dele, então eu, como herdeiro, terei a honra de fazer isto. — Cortou-a. — É a primeira e única vez que vou lhe dizer isto, então, acredito que seja bom seguir minhas palavras. Saia daqui por bem, pois eu adoraria te tirar daqui por mal.
Se Charlie tivesse desviado os olhos de Amanda, ele veria o quão admirado Willy estava. Naquele momento, o chocolateiro sentiu que era uma criança abandonada sendo protegida por um anjo. Ele estava admirado com a força que o herdeiro ocultava sob a fachada de garoto mirrado e educado. Mas o Bucket não desviou os olhos de Amanda, lhe sobrando apenas o vislumbre dela estreitando os olhos e depois amaciando a face com um sorriso de admiração. Ele sabia que não podia deixar a confusão dominar seu rosto, então concentrou-se, apenas, na vontade de enxotar a mulher e em buscar uma forma bruta de arrancá-la daquela fábrica, caso ela não desejasse sair.
— Senhor Bucket, é o seu sobrenome real, não é? Percebo que Willian, digo, Willy, e a fábrica estão em boas mãos. Só não sei dizer se você também está.
Amanda Funk partiu em seguida, deixando ainda um rastro confusão e dúvidas, que Charlie não deixaria de jogar sobre Willy.
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