O manto de Hécate
18 Carruagem voadora sobre o Brooklyn
Notas iniciais
A viagem foi até rápida, cerca de 30 minutos, mas o que mais incomodava era a escuridão, ninguém podia ver nada e nem poderiam acender uma lanterna, poderia ser perigoso, afinal eles estavam viajando pelas sombras. Uma luz não ajudaria muito. Hannya se perguntava como Nico acostumara com aquilo, ele havia dito que já tinha viajado por vários países pelas sombras... Será que ele não sentia solidão ao passar tantas vezes por essa enorme escuridão.
--- Nico? --- Chamou Hannya.
A voz um do outro era tudo o que podiam ouvir.
--- Sim? --- Respondeu ele.
--- Apenas converse comigo... --- Disse Hannya um pouco deprimida. --- É que a escuridão me faz sentir... --- Ela fez uma pausa. --- Desconfortável.
--- Talvez queira dizer solitária. --- Corrigiu Nico.
Nico riu tristemente.
---No momento você tem uma cachorra gigante, uma amiga desmaiada... E a mim.
Hannya havia se sentado ao lado de Nico, ter alguém ao lado nessa viagem pelo vazio escuro era mais confortante, então deitou sua cabeça sobre o ombro dele e segurou a sua mão, desde a primeira vez que ela tinha pego na mão de Nico — quando ele a resgatou – sentiu-se um pouco surpresa, apesar de ser o filho do senhor dos mortos, e parecer um pouco obscuro, ele não tinha a pele gelada como esperado, era surpreendente quente. Nico era muito difícil de ser decifrado, saber que ele pensava, sentia, mas ali na escuridão, sem poder ver um ao outro... Hannya havia conseguido entender mais sobre ele.
--- Como era sua rotina? --- Nico perguntou quebrando o silêncio.
--- Hãn? --- Hannya respondeu sem entender.
--- Antes de toda essa reviravolta na sua vida acontecer, semideusa...
Ele evitou falar “morte da sua mãe”, mas ela havia compreendido.
--- Eu tinha uma vida normal. --- Respondeu. --- Na verdade, nem tanto... Eu não frequentava a escola, minha mãe me ensinava em casa. Ela só tinha a mim, bom... Ela nunca me falou sobre seus parentes ou algo do tipo, sempre fomos apenas nós duas. Nunca me incomodei com isso, algumas vezes, quando via pessoas com uniformes escolares, eu ficava curiosa em como devia ser, mas... Minha mãe só tinha a mim, eu apreciava os momentos em que ficávamos juntas.
Nico analisava o que tinha ocorrido com Hannya, a mesma coisa com ele: Os dois haviam perdido sua família.
--- Eu nem me lembro da minha mãe... --- Disse Ele. --- Mas sempre imagino ela com a personalidade parecida com minha irmã, talvez seja porque foi ela quem cuidou de mim depois que minha mãe se foi... E por esse motivo ela entrou pra caçada, ela precisava de um espaço, de tirar essa responsabilidade de “mãe/irmã”, na época eu não entendia, fiquei chateado, mas quando penso nisso hoje... Percebo que eu era muito infantil e imaturo.
Hannya lembrou-se então do que Lucy havia falado no acampamento, que quando Nico chegou lá ele era alegre, e perguntava demais (o que chegava as vezes a irritar Percy), ela riu e Nico perguntou o porque.
--- Ouvi histórias sobre você quando chegou no acampamento. Apaixonado por mitomagia... huh...
Nico também riu.
--- Eu ainda tenho meu jogo de mitomagia! --- Falou Nico protestando. --- Qualquer dia desses vamos jogar, e eu vou encher sua paciência com isso.
--- Claro, e então vou perder feio para um expert que joga desde criança.
Os dois riram juntos.
--- Sabe... --- Disse Hannya. --- Você foi meu primeiro amigo...
Nico ficou sem reação, ele não tinha pensado nisso, mas na verdade, era meio lógico já que ela não frequentava a escola.
--- E por isso que não quero perder Lucy também --- Continuou ela. --- Ela tem seu jeito mágico de resolver as coisas. E, além disso, quem mais vai nos separar se começarmos a discutir?
--- Ou quem vai puxar suas orelhas quando errar algum feitiço. --- Disse Nico
Os dois ficaram em silêncio.
--- Vai demorar? --- Perguntou Hannya.
Nico pensou um pouco.
--- Acho que dentro de uns 20 minutos nós devemos chegar.
--- Você devia descansar um pouco, tire um cochilo. Eu sei que não é apenas a Sra. O'Leary que está usando sua força aqui, você está ajudando ela não está?
Ele foi pego de surpresa, Hannya pode sentir a pressão nos dedos de Nico, ela havia acertado, ele estava ajudando a Sra. O'Leary a se manter na sombras, embora ela realmente não precisasse.
--- Acho que nossa amiguinha aqui consegue nos levar até lá, por favor. Descanse. --- Insistiu Hannya.
Nico suspirou e falou em tom irônico.
--- Ok, mamãe. Me avise quando chegar.
Nico deitou sua cabeça sobre a de Hannya que ainda estava encostada em seu ombro e então adormeceu. Hannya acabou dormindo também
A luz da cidade acabou acordando os dois amigos, ambos começaram a se espreguiçar.
--- Onde nós estamos exatamente? --- Perguntou Hannya
Nico observou o lugar.
--- Ao que parece, em um beco no brooklyn...
Sra. O'Leary se esticou também cansada, Hannya afagou seu pescoço (na verdade uma pequena parte dele, nem se ela abrisse os braços conseguiria abraçar o pescoço da cadela gigante), não parecia que ela iria querer voltar pras sombras, estava mais preocupada em dormir.
--- Não tem problema ela ficar aqui... Dormindo? --- Perguntou Hannya.
--- Provavelmente não. --- Respondeu Nico sem se importar com o fato. --- Com a névoa os mortais devem ver só...umaenorme pilha de sacos de lixo pretos.
Hannya abriu o mapa novamente, o azul no mapa indicando o ponto mostrado ficava mais forte, isso era bom, indicava que eles estavam perto do local certo.
--- Tem como ampliar mais? --- Perguntou Nico. --- Porque creio que não podemos perguntar aos moradores: “Por acaso tem algum Grifo nessa vizinhança?”
Hannya foi na sorte, ela “ampliou” o mapa assim como se amplia imagens em tablets e em alguns celulares, usando os dedos. Felizmente funcionou. Ela podia ver as ruas do brooklyn e também onde a luz indicava, Hannya ampliou mais e pode ver claramente que casa era, era quase na outra ponta do Brooklyn, uma casa de cinco andares, na verdade era uma mansão.
--- Uou, uma mansão. --- Disse Hannya. --- E parece estar um pouquinho longe, mas nada tão difícil pra quem viajou pra Itália de barco e voltou em uma cachorra gigante.
--- Temos um probleminha... --- Interrompeu Nico.
Ele apontou para a Sra. O'Leary, não exatamente indicando a cadela, mas sim para cima dela, onde estava Lucy.
--- Como vamos leva-la? --- Perguntou ele.
Hannya ficou pensativa... Viajar pelas sombras estava ficando cada vez mais cansativo para Nico e a Sra. O'Leary já estava cansada (babava enquanto dormia, mas não era uma “simples baba”, havia uma POÇA de baba no chão.) Ela então lembrou do que Percy havia dito a ela pouco antes dela sair do acampamento.
--- Pégaso! --- Falou ela estalando os dedos (como quando alguém acaba de ter uma ideia)
--- Mas como vamos levar Lucy em um Pégaso? Ela está desmaiada. --- Disse Nico.
Hannya olhou para onde Lucy estava, lembrou de que Nico havia materializado aquele lugar para eles viajarem mais confortáveis.
--- Vamos fazer uma espécie de trenó. --- Respondeu ela. --- Movido a Pégasos!
Nico achou a ideia maluca, mas afinal onde eles iriam arranjar pégasos tão rápido? Ele então percebeu que Hannya havia se afastado um pouco, e fechado os olhos, ela parecia bastante concentrada e cruzava os dedos esperando que seja lá o que ela estivesse fazendo, desse certo. Foi aí que ele percebeu o que ela realmente estava fazendo, estava rezando para seu pai, pedindo por uma ajudinha. De repente ela abriu os olhos.
--- Vamos aguardar um pouco... E esperar que Poseidon nos ajudar. --- Disse ela.
Eles aguardaram cerca de quinze minutos, o que pareceu uma eternidade.
--- Nós devemos tipo... Bater na porta quando chegarmos lá? --- Perguntou Hannya intrigada.
--- Eu acho que sim, se invadirmos pode ser pior.
--- Mas e se negarem?
--- Aí então nós invadimos. --- Falou Nico rindo.
A conversa foi interrompida por dois pégasos voando na direção do beco. Hannya se levantou apressada, Poseidon havia lhe escutado. Os pegasos se aproximavam, um era bege, e o outro preto, possuíam belas asas imensas, Hannya não sabia se ficava feliz ou com medo de montar aqueles cavalos alados. “Foi aqui que pediram uma ajudinha?!” a voz na cabeça de Hannya apareceu, ela ficou assustada, o que era aquilo?? Ela estava falando com um cavalo?? Ela olhou para Nico, esperando que ele também tivesse ouvido aquilo, mas ele apenas olhou para ela sem entender.
--- Eles... Estão falando com a gente?.... ---Perguntou ela ainda meio assustada.
Nico não pode evitar sorrir.
--- Bom, pra mim eles estão apenas relinchando. --- Respondeu ele. (Os cavalos olharam para ele com uma expressão não muito agradável) --- Oh, me desculpem... O que eu quero dizer. --- Ele voltou sua atenção á Hannya. --- É que você pode entender o que eles falam, eu não.
Ok, de todos os poderes que ela pudesse ter, nunca se passou pela cabeça de Hannya de que se comunicar com Pégaso era um deles.
--- Poseidon criou os cavalos, e o Pégaso, portanto os filhos dele têm esse dom. --- Explicou Nico.
As coisas pareciam mais claras agora.
“E então, qual de vcs vai montar em cada um de nós??” perguntou o preto. “Ah, a propósito meu nome é BlackJack, e esse é meu irmão, Julian”. “Qual seu nome??” Julian perguntou.
--- Meu nome é Hannya, Filha de Poseidon.
BlackJack deu um enorme relincho. “Quer dizer que você é irmã do Chefe??!! Poxa que legal!” Hannya riu, ele só podia estar se referindo ao Percy.
--- E esse é meu amigo Nico. --- Concluiu ela.
Os cavalos olharam para Nico, eles não se sentiram muito confortáveis, mas relincharam uma espécie de “olá” para Nico.
“Aonde pretendem ir? Querem montar logo?” perguntou Julian animado.
--- Na verdade, nós não vamos “montar” em vocês... --- Disse Hannya.
Os pégasos se entreolharam sem entender. Hannya lhe explicou o que havia acontecido com Lucy para que eles pudessem compreender o que ela estava planejando, e depois contou a ideia do trenó.
“Bom... Nunca fizemos algo do tipo, será que vai funcionar?”. Perguntou Julian.
--- Mas vocês não vão fazer tudo sozinhos, eu vou usar uma magia de levitação, assim vocês serão mais os “guias”. E aí, o que acham?? --- Perguntou Hannya esperançosa.
Os pégasos pensaram um pouco, “Topamos.” Disseram os dois, “Mas queremos torrões de açúcar depois!” falou BlackJack.
--- Sem problemas. Nico, você pode fazer o trenó solidificando as sombras?
--- Claro.
Nico foi para o maior foco de sombra, se concentrou, esticou seu braço e abriu sua mão, as sombras começaram a se mover, foram virando líquido, derretendo pela parede e se juntando no chão, então depois parecia uma enorme poça de líquido negro, que começou a jorrar como uma fonte, mas aos poucos foi virando um trenó, com espaço para cerca e quatro pessoas, na lateral havia uma pequena porteira e a parte da frente espécie de “cordas” negras de sombra ficavam soltas no chão. Ele abriu os olhos e então deu um enorme suspiro.
--- Talvez não seja a melhor, mas deve dar para nos levar.
--- Ficou ótimo. --- Disse Hannya e deu um beijo na bochecha de Nico. --- Vamos, temos que pegar Lucy.
Nico ficou sem reação, então depois de um estalo de cerca de 3 segundos ele voltou á realidade.
--- Er.. Lucy.. Ok.
Hannya subiu na Sra. O'Leary e tirou as mochilas e pegou sua lança, Nico pegou Lucy no colo, ela parecia um pouco mais quente, e ainda dormindo profundamente, sem nenhuma reação. Eles viraram o trenó para o lado que sairiam do beco, Nico deitou Lucy no trenó e ficou em pé ao lado de Hannya, Julian e BlackJack se posicionaram e Nico os envolveu com as cordas, tomando cuidado para não apertá-los.
--- Pronto, agora só falta um detalhe... --- Hannya segurou os dois lados do trenó, se concentrou o máximo que podia, ela precisava estar calma, relaxada, devia pensar nas coisas boas, sua infância com sua mãe... Seu novo lar, em sua vontade de salvar sua amiga... Inspirou fundo e falou apenas uma palavra. --- Baou.
O trenó começou a levitar.
--- Isso! --- Comemorou Hannya. --- BlackJack, Julian, podem ir!
Os dois pégasos abriram suas enormes asas, e então levantaram voo, houve um “baque” inicial, Hannya segurou Lucy e Nico se segurou na lateral do trenó, mas depois disso tudo se estabilizou. Hannya pegou o mapa novamente e o abriu, ela deu as direções para os dois cavalos alados e eles obedeciam. Ela e Nico olhavam atentamente o caminho, estavam á uma enorme altura, não queriam correr o risco de topar em casas mais altas, postes, ou seja lá o que mais fosse alto o bastante para alcançarem eles.
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