O legado da lua
3 II — Partida
Notas iniciais

Rin acordou bem disposta, estava ansiosa para sair em viagem com Sesshoumaru, logo se arrumou e preparou uma bolsa para a longa viajem, na qual continha boa parte de suas economias — que não eram pouca coisa — e alguns amuletos sagrados.
— Você está certa de que quer ir nesta viajem, Rin? — a velha Kaede perguntou, chamando a atenção da sacerdotisa que terminava de se vestir.
— Mais certa impossível. — ela falou convicta enquanto pegava a bolsa no chão.
— É uma viagem arriscada. O mundo dos youkais é sangrento Rin, por certo você verá muitas coisas, até mesmo de Sesshoumaru. — concluiu seriamente.
— Eu sei que é Kaede, e eu não sou boba; sei que há muito sangue nas mãos de Sesshoumaru-sama, assim como deve haver nas de Mizura-san e há nas minhas. — ela falou enquanto checava a bolsa. — Sei que verei muitas coisas, mas há muito em risco. Preciso ajuda-los, sinto que tenho que ir nessa missão. — concluiu a menina, olhando para a mais velha, que suspirou.
— Tudo bem, faça o que achar correto. — ela concluiu, a menina sorriu. Logo ouviram alguém chamar Rin, era Kohaku. Eles haviam combinado de irem juntos ao ponto de encontro, ao leste do vilarejo.
— Não sabia que Hao e Hacchi viriam conosco. — comentou Rin aproximando-se do rapaz enquanto observava os dois pequenos youkais de três caudas que o seguiam.
— Minha irmã propôs. Eles podem nos ajudar muito, não é mesmo? — ele perguntou para os pequenos, que emitiram um som em concordância. Rin sorriu, eles certamente seriam de muita ajuda, principalmente quando precisassem se mover pelo céu.
— Vamos, eles devem estar esperando. — a velha Kaede falou caminhando em direção ao ponto de encontro, sendo seguida pelos mais jovens. Já próximos à saída do vilarejo avistaram Sango e Miroku, que os aguardavam para despedir-se. Mais a frente era possível notar os dois dai youkais, acompanhados de seus pequenos servos, estes conversavam sobre algo, mas não expressavam nada.
— Seja cuidadosa. — a velha Kaede lhe falou pela centésima vez, a jovem sacerdotisa sorriu assentindo.
— Eu vou ficar bem. — afirmou Rin, fazendo a mais velha assentir enquanto olhava de canto para os dois dai-youkais que aguardavam na saída do vilarejo. Sesshoumaru não parecia muito contente com a companhia de Rin em sua missão, o que ela compreendia muito bem.
— Eu sei que vai. — falou dando um pequeno sorriso antes de desviar os olhos do youkai, sabia que Sesshoumaru estava preocupado e que com certeza ele protegeria Rin. Além de que Kohaku também estaria lá, e claro, Rin não era fraca. — Trate de tomar conta dela. — direcionou a palavra ao jovem caçador, que estava há alguns metros conversando com a irmã. Ele sorriu enquanto confirmava com a cabeça, a moça revirou os olhos.
— Estou indo para ajudar, não para ser protegida. — falou a sacerdotisa balançando a cabeça negativamente, mostrando seu descontentamento; a mais velha riu.
— Mas você sabe que eles estarão tomando conta de você. — concluiu Kaede, fazendo a outra bufar. Sim, ela sabia que Kohaku só estava indo por isso, assim como Sesshoumaru só não queria sua presença por se preocupar com ela, ele certamente estaria tomando conta dela sem deixa-la perceber.
— Acho melhor vocês irem, eles estão esperando. — falou Sango, fazendo a mais nova olhar na direção dos youkais que olhavam para ela, logo Sesshoumaru se virou tomando o caminho pela floresta e Mizura lhe fez um sinal com a mão antes de seguir o príncipe. Ela colocou a pequena bolsa nas costas enquanto olhava para Kohaku, que apenas assentiu sorrindo.
— Hao, Hacchi. — chamou olhando para os pequenos gatos de três caudas que estavam parados próximos a ele, e logo a gata negra e o gato de pelo mais claro já ocupavam seus ombros. Miroku entregou alguns amuletos sagrados para a sacerdotisa e logo eles partiram, seguindo os youkais que já desapareciam na floresta.
O Sol estava prestes a surgir no horizonte quando eles deixaram o vilarejo. O youkai albino caminhava a frente do grupo, não muito feliz com a presença dos humanos; apesar de sua expressão indiferente como sempre, Rin conseguia perceber sua frustração e Kohaku sentia a aura de “sumam daqui” que ele emanava. A dai youkai andava alguns passos atrás do mesmo tranquilamente, enquanto a sacerdotisa e o caçador caminhavam lado a lado alguns passos atrás dos youkais, ambos quietos. Nenhum dos youkais havia se dado ao trabalho de explicar aos mais novos seu destino, muito menos seu objetivo, mas ainda assim os humanos optaram por segui-los em silêncio — de alguma forma a situação era bastante desconfortável.
A viagem prosseguiu silenciosa e tudo o que Rin sabia é que eles estavam seguindo para o Leste; o destino ainda era um mistério. Eles apenas seguiam os youkais, que pareciam saber muito bem aonde iam. Rin se sentia nostálgica; andar com Sesshoumaru daquela maneira lhe lembrava de sua infância, quando vagava pelo mundo com ele... as brigas com Jakén. Mas agora era diferente, eles estavam em uma missão e muitas vidas estavam em jogo. Ela estava ali para ajuda-lo. Ajudá-lo. Quantas vezes ela não quis poder fazer isso? E agora ela podia, ela tinha poder para fazê-lo. Podia viajar com Sesshoumaru sem ser um peso, uma criança a ser protegida. Ela estava ajudando-o em sua missão, mesmo que ele não quisesse. Ela nunca soube muito sobre o clã de Sesshoumaru, tanto que sequer sabia da existência de outros clãs de youkais Inu, como o de Mizura. Princesa Mizura… ela parecia ser tão diferente de Sesshoumaru, mesmo tendo tantas coisas em comum. A sacerdotisa ainda se perguntava o que realmente havia por trás daqueles misteriosos olhos azuis. Absorta em seus pensamentos ela mal notou quando o Sol começou a se pôr. Eles pararam próximos a um rio, no início de uma floresta. A área era bem abaixo de um precipício, de maneira que eles não poderiam ser vistos de cima e as árvores bloqueavam a visão do outro lado do rio.
— Acho que aqui é um bom local para ficarmos. — constatou a mulher olhando ao redor, fazendo Rin e Kohaku se entreolharem confusos. — Vamos esperar até a madrugada. — ela falou direcionando o olhar ao albino, que ponderava encarando o topo do precipício.
— Vamos sair em tempo o suficiente para resolver tudo até o nascer do Sol. — o albino concluiu olhando para a mulher, que assentiu. Ele caminhou até uma árvore próxima e sentou-se, recostando-se nela, sendo seguido por Jaken que parou a certa distância do mestre. A mulher sentou-se sobre uma pedra a beira do rio e os mais jovens sentaram-se recostados a pedra maior ao lado da que Mizura estava sentada. Rin sentia-se aliviada por finalmente parar, não havia nem um dia desde sua partida, mas sentia-se extremamente cansada; ela precisava se adaptar logo a isso. Kohaku não parecia tão afetado pela caminhada, estava mais acostumado a sair em missões do que ela, além de seu trabalho exigir mais de seu físico. Por longos minutos a única coisa que se ouvia era o barulho do rio, mas logo o silêncio entre eles foi cortado.
— Qual nosso destino? — Kohaku finalmente perguntou, sem direcionar seu olhar para ninguém. Rin olhou para Sesshoumaru, esse tinha os olhos fechados, apesar de ela ter certeza de que ele ainda estava acordado. Não houve surpresa quando a resposta veio do lado oposto.
— O vilarejo no topo. — Mizura apontou para cima, indicando o precipício — Precisamos da informação que um youkai tem. — ela concluiu, os mais novos continuaram a observando, fazendo-a notar que esperavam mais respostas — Queremos descobrir onde o tesouro do Clã do Sol estava escondido e quem tinha acesso a essa informação, para diminuirmos a lista de suspeitos e começar uma busca mais específica. — ela concluiu, fazendo o rapaz assentir e a moça soltar um pequeno “ah” em compreensão. Sabendo em que tipo de lugar e quais pessoas teriam acesso a este, seria mais fácil determinar os possíveis suspeitos e assim não perder tempo com buscas inúteis. — Vamos aproveitar esse tempo para descansar e nos preparar para um possível conflito. — concluiu a youkai jogando-se para trás, deitando-se despreocupadamente. Os humanos se entreolharam e logo se acomodaram melhor, a fim de realmente aproveitarem o tempo para descansar. A sacerdotisa olhou ao redor, observando seus companheiros. Sesshoumaru mantinha os olhos fechados, e por mais que pudesse estar dormindo, ela tinha certeza de que ele estava alerta; Jakén permanecia ao lado de seu mestre, sentado em uma posição em que parecia meditar, mas na verdade estava apenas dormindo mesmo. A moça sorriu, não imaginava que voltaria a seguir Sesshoumaru novamente e estava se sentindo estranhamente feliz com isto. Direcionou seus olhos para o topo da pedra a seu lado, observando a youkai deitada com os olhos fechados, ela parecia incrivelmente despreocupada, mas provavelmente estava alerta assim como o albino. A pequena Miki dormia tranquilamente ao lado de sua mestra, como se não houvesse nenhum motivo para preocupação em todo mundo. Ela direcionou seus olhos para o caçador ao seu lado, este parecia absorto em pensamentos enquanto brincava com a gata negra em seu colo enquanto o outro youkai dormia a seu lado.
— No que está pensando? — ela perguntou num sussurro, para que apenas o rapaz a ouvisse. Ele olhou para ela, sorrindo antes de responder.
— Nada demais. — respondeu o caçador no mesmo tom, voltando sua atenção para o youkai em seu colo — Apenas pensando no rumo desta missão, é de longe algo muito maior do que qualquer trabalho que eu já fiz. — concluiu, fazendo a moça assentir.
— Eu também estou um pouco preocupada. — admitiu a moça, apoiando os braços sobre os joelhos que estavam frente ao corpo — Mas ao mesmo tempo estou segura, sei que nós podemos resolver isso. — concluiu olhando para o caçador, que sorriu.
— Sim. — ele confirmou antes de apoiar a cabeça na pedra, fechando os olhos a fim de descansar um pouco. Era aproximadamente uma hora da manhã quando a youkai de cabelos negros se levantou, acordando a pequena raposa e chamando a atenção do albino que despertou imediatamente. Ela desceu da pedra, estalando o pescoço antes de observar o precipício acima. O caçador despertou com a movimentação, acordando a sacerdotisa e sinalizando a mulher com a cabeça.
— Acho que já podemos ir. — falou para o albino, que assentiu. Os humanos se levantaram e se prepararam para partir, observando o precipício acima. O dai youkai tomou um pequeno impulso em direção ao topo, fazendo com que Jakén corresse para se agarrar a seu manto.
— Vamos. — a de cabelos negros falou olhando para os humanos, logo Miki pulou em seu colo e ela seguiu o outro. Kohaku fez um pequeno gesto para a gata negra, que assumiu sua forma youkai e se posicionou para que os humanos subissem em suas costas. Não demorou para que todos estivessem a beira do precipício, onde era possível enxergar o vilarejo distante. A youkai fechou os olhos e respirou fundo, pareceu ponderar por um tempo antes de pronunciar-se.
— São dezessete youkais na vila, nove deles estão imóveis, ou são guardas ou estão dormindo. Os outros oito estão caminhando pela vila, todos os humanos estão em suas casas. — ela falou, fazendo o caçador olhá-la um pouco espantado. Ele sabia que os youkais inu possuíam um faro assustador, mas não sabia que podiam dar informações tão precisas. Rin não pareceu se espantar muito, apesar dele ele nunca falar como Mizura o fez agora, Sesshoumaru sempre localizava os youkais apenas com seu faro. — Nunca sequer me aproximei de Izukamori, então não posso identifica-lo. — ela concluiu olhando para o albino, que tomou a dianteira em direção à entrada da vila.
— Izukamori? — a sacerdotisa perguntou, chamando a atenção da mulher.
— É o youkai que tem a informação que buscamos. — esclareceu, fazendo a mais nova assentir como sinal de compreensão. O caçador ponderou por um tempo enquanto encarava o vilarejo, mas logo direcionou o olhar aos youkais.
— Não é estranho ter tantos youkais dentro de um vilarejo sem serem percebidos? — perguntou, a mulher parecia preparar-se para responder, mas não fora sua voz que esclarecera a dúvida do rapaz.
— Não porque ele é um verme que gosta de fingir ser um humano para se sentir superior. Eu não duvido que ele seja o líder da vila, ou algo muito próximo a isso. — Sesshoumaru respondeu sério, sem desviar seus olhos do vilarejo. — Façam silêncio. — falou por fim, caminhando em direção à vila.
As ruas estavam escuras e vazias, a única coisa que as iluminava era a luz da lua e das estrelas, a névoa deixava o ar mais pesado, porém não interferia tanto na visibilidade. Rin estava atenta, mal respirava. Kohaku também mantinha a guarda alta, sabia que estavam desviando da rota dos youkais — afinal lutas ali serviriam apenas para chamar a atenção dos aldeões e criar distrações — mas a qualquer momento um inimigo poderia aparecer. Logo Sesshoumaru indicou a direita com a mão, Mizura assentiu antes de saltar e desaparecer na escuridão, fazendo Rin e Kohaku se encararem confusos, porém antes que um deles dissesse algo o youkai se pronunciou em voz baixa.
— Vocês esperam aqui. — ele falou virando a direita, deixando Rin e Kohaku na esquina. O caçador trocou um olhar com Rin antes de subir no telhado para observar melhor, havia um homem branco de cabelos esverdeados de pé no final da rua, cerca de quatro passos atrás dele havia oito youkais, posicionados quatro em cada lado.
Sesshoumaru mantinha sua expressão inflexível enquanto conversava com o youkai, que estava sério. O caçador tinha sua foice em mãos e observava cuidadosamente, preparado para atacar a qualquer instante. Rin tinha uma flecha pronta e observava da esquina, de um modo que era escondida pela sombra, e Mizura... Não havia sinal dela.
— Há quanto tempo, príncipe Sesshoumaru. — ele falou com um sorriso de canto — A que devo sua visita? — perguntou olhando fixamente para o albino o olhou enojado.
— Não se faça de tolo. Dê-me a informação que eu quero e não terá problemas. — ele falou simplesmente, fazendo o outro grunhir.
— Terei problemas se lhe der a informação; estarei feliz em atender a qualquer pedido menos arriscado. — falou o youkai, o albino mostrou-se frustrado com a resposta.
— Acha que está mais seguro contra mim do que contra a pessoa que lhe deu essa ordem? — perguntou em voz ameaçadora, o outro youkai engoliu seco.
— Não acho que estarei seguro de maneira nenhuma, mas é uma questão de palavra. — ele concluiu, o dai youkai estreitou os olhos antes de se pronunciar.
— Então serei obrigado a arrancar a informação da sua boca.
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