Na pior das hipóteses, se não houver céu, inferno, Bonnie e nem nada de vida após a morte, descansaria desse sofrimento cruel. Não conseguiria viver sem ela, de qualquer jeito.

Manobrou o carro, de forma que ficasse de frente para o lago. Com o veículo ligado, atravessado na pista, prendeu o cinto de segurança, abaixou a cabeça no volante e fechou os olhos por um instante. Engatou a primeira marcha e acelerou o máximo que pode. Acelerava e segurava o freio manual com toda força. Quando liberou aquela âncora mecânica, o carro saiu como um foguete em direção ao nada. Saltou da pedra em alta velocidade e instantes depois mergulhou no lago, de frente. Os vidros estavam abertos. O carro inclinou-se para frente e começou a afundar rapidamente. Steve ficara meio grogue com a pancada na água, mas não se machucara e nem perdera a consciência. Segurou o volante com ambas as mãos. A água rapidamente começou a entrar e o carro seguiu seu rumo em direção ao fundo do lago. Logo o veículo seria tomado pela morte líquida. Steve soltou o cinto de segurança e destrancou a porta. Inspirou oxigênio pela última vez e foi coberto pela água. O carro descia rapidamente e Steve sentiu os efeitos da pressão nos ouvidos. Assim que o automóvel tocou o fundo do lago, ele saiu e deixou o corpo solto. Gravidade quase nula. Olhou para cima e viu como eram lindos os raios do sol turvando-se, tentando vencer a água. Tudo parecia tão tranqüilo ali embaixo. Uma paz percorreu seus mais íntimos sentidos e então ele começou a soltar o ar dos pulmões, lentamente. Pensava em Bonnie. Iria encontrá-la em breve? Se não houver nada do lado de lá, pensou, nunca mais sentiria essa dor.

A paz fora interrompida por uma ardência que aumentava no seu interior. Seu corpo começava a pedir ar para respirar e sua negativa era como um duelo de titãs. Arregalou os olhos em pura expressão de impotência ante o terror da água lhe invadindo. Sentiu uma dor como se alguém lhe enfiasse uma espada pela garganta adentro, mas logo ele e a água fundiram-se. Os sentidos foram adormecendo e tudo ao redor ficava escuro. Não sentia mais necessidade de respirar ou viver. O frio se fora e uma sensação agradável o tomava pelas mãos, como se sua falecida namorada o estivesse guiando. Seus olhos se fecharam e sentiu mesmo uma mão lhe puxando. ‘A morte’, pensou.

Seu corpo sugou oxigênio como se tivesse acabado de sair do útero da morte. ‘Oh, meu Deus, que dor!’ A água entra e causa uma dor terrível. O ar entra e parece que o corpo irá explodir. Será que nunca estamos satisfeitos?

A luz forte que o cegava impedia-o de abrir dos olhos de imediato, mas seus sentidos começavam a retornar, de forma que percebeu que estava sendo arrastado pelos braços. Tossia e água saía da sua boca. Algo se pôs entre ele e o sol, de modo que conseguiu abrir um pouco os olhos e percebeu que havia uma pessoa ajoelhada sobre ele. Foi abraçado e ouviu uma voz familiar. Chorando, mas mesmo assim ele a conhecia. Era Bonnie! Ela o apertava e chorava. Devido ao trânsito infernal de água e ar, entrando e saindo de seu corpo, não conseguiu falar de imediato. Ela o colocou sentado e o abraçou de novo. Percebeu que agora, além do choro havia riso. Ao ter o rosto colocado no ombro da jovem, viu algo atrás dela que lhe chamou a atenção. Seu carro amarelo estava estacionado na pequena praia atrás deles. Já ouvira falar de céu e inferno, para onde vão os bons e os maus. Até mesmo de céu dos cães, já ouvira, mas sobre céu dos carros... Surreal. ‘O lugar onde os bons Clássicos ‘muscle cars’ americanos se encontravam e festejavam’, esboçou um sorriso enquanto imaginava a cena de carros clássicos de pé, dançando como pessoas, dando os pneus uns aos outros como se fossem mãos. ‘Espere um momento – Pensou – Era Bonnie que o estava abraçando? Então aqui era o céu mesmo? Tudo dera certo! Eu passei para o outro lado?!’

Ela o soltou, olhou em seus olhos, segurando seu rosto e disse com cara de aliviada, mas ainda inquieta:

– Meu Deus Steve, eu pensei que estivesse morto!

– Eu também pensei que você estivesse morta...

– Você sabe que eu nado melhor que você, gatinho – falou, tentando retomar a calma.

– Nada sim. Só acho um desperdício você não saber voar – Disse tossindo forte ainda.

– O que houve com você? Quando olhei para trás você não estava, e eu achando que me seguia! Graças a Deus voltei a tempo.

– Do que você está falando? Você morreu...

– Steve, você não está bem, vamos levante-se. Vamos ao hospital, você precisa de cuidados.

Ele não resistiu e seguiu com ela, por mais que achasse estranho que no céu alguém precisasse de hospital. Ele ainda estava atordoado com tudo que acontecera e resolveu não dizer uma palavra. Depois de alguns exames e de silêncio sobre tudo que houvera, Steve começou a achar estranho que seu pai e sogros estivessem de pé, ao lado do seu leito, afinal, com certeza eles não haviam morrido. Então o que acontecera? Porque seu carro não estava no fundo do lago? Para dizer a verdade o carro estava no mesmo lugar que ele... Não podia ser verdade... O carro estava no mesmo lugar em que estacionara meses antes, no dia em que quase se afogou no lago e fora salvo por Bonnie. A confusão mental lhe causou uma dor de cabeça terrível, de modo que resolveu deixar a questão para depois, já que estava em paz, pois ela estava ali novamente com ele. Sabia que se fosse em outra circunstância, não conseguiria conter-se de felicidade e não largaria a moça, mas da forma como estava acontecendo era bizarro demais. Seria um sonho? Seria a morte um sonho eterno? Morrer significaria sonhar o sonho mais gostoso que tivéssemos, como se aquilo que mais almejamos em vida tornar-se-ia em realidade eternamente?

Dois dias passaram-se e Steve não falara mais sobre o que aconteceu. Apenas refletia em silêncio, tentando entender. Estavam os dois, o casal, sentados na varanda ao entardecer. Ele ficava com o olhar fixo na estrada.

– Daria um dólar para saber o que você está pensando – disse ela.

– Quer mesmo saber? Você não iria acreditar em mim.

– Tente.

– Você já havia me salvado de me afogar no lado antes... É isso.

– O quê?

– Você já havia me salvado do lago antes. E já havia seguido em sua viagem...

– Steve, que conversa é essa? Você não fala sério, não é?

– Falo Bonnie. E falo muito sério. Eu disse que você não acreditaria.

– Vou ligar para o médico. Amanhã você vai fazer uma...

– Não vou fazer consulta nenhuma, Bonnie! – Berrou, segurando a cabeça com ambas as mãos e fazendo uma expressão de dor aguda.

– Calma Steve... Vai ficar tudo bem.

– Não vai ficar tudo bem, Bonnie! Você não sabe de nada!

– Então me diga, meu amor. Deixe eu te ajudar...

– Você não iria acreditar... Eu também não acreditaria...

– Já lhe disse para tentar. Prometo que vou ouvir.

– Você morreu! É isso, você simplesmente morreu e eu fiquei sozinho. O avião em que você embarcou caiu, Bonnie!

– Que avião Steve? Você está me assustando... Eu nunca peguei um vôo para lugar algum.

– O avião que você vai embarcar daqui a alguns dias, Bonnie! Ele caiu, eu sofri por meses e me matei para te encontrar de novo, mas algo saiu diferente do que eu pensei e acabei voltando de alguma forma ao dia em que você me salvou... Eu acho que fiz uma viagem no tempo de volta ao passado, ou algo do tipo...

Ela ficou com cara de atônita. Os olhos arregalados fitando-o. Não disse uma palavra.

– Eu disse que você não ia acreditar – Disse, olhando para o chão. Ninguém vai acreditar.

– Eu acredito que você passou por maus bocados, mas tudo vai ficar bem...

– As coisas só vão ficar bem, porque eu não vou permitir que embarque naquele vôo! – Gritou, assustando a jovem.

Carl estava na cozinha e ouviu a gritaria, saindo em seguida pela porta da varanda e encarando seu filho. Steve conhecia aquele olhar de reprovação. Acho melhor você ir para casa, querida, Steve está precisado deitar-se.

Ela segurou o rosto do seu namorado, preocupada, mas ainda com ternura. Beijou-lhe e disse que tudo ficaria bem e que ele poderia ligar se quisesse. Levantou-se e seguiu pela calçada de pedras. O pai sentou-se ao lado do filho e ambos ficaram em silêncio, esperando que ela tomasse distância para que conversassem sem que ela os ouvisse.

– O que está havendo, filho?

– Eu não sei explicar, pai. Estou confuso...

– Bonnie é uma boa menina. Não grite mais assim com ela. Ela não é desse tipo de mulher, movida a gritaria. Sabe que eu nunca levantei a voz para sua mãe, não sabe? Não faça esse tipo de coisa. Ela o ama, é fato. Não manche o seu coração. Steve apenas ouvia de cabeça baixa. Logo uma lágrima desceu pelo seu rosto e ele não teve mais como conter o choro. Era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e ele não conseguia assimilar bem.

– Vá deitar e descanse – disse Carl – vou fazer um chá e levo na cama.

Bonnie estava realmente preocupada com Steve e a história que havia contado. Gostaria mesmo de acreditar, mas não conseguia. No fundo achava que isso tudo era devido ao choque da experiência de quase morte. Poderia ter lhe afetado psicologicamente de alguma forma.

Enquanto estava deitada na cama, pensando a respeito, o telefone tocou. Era o Sr. Owen, diretor geral da Tv. Disse que conseguira um estágio remunerado, muito bem remunerado, diga-se de passagem, em uma emissora de Tv, na capital, porém iriam em dois dias. Já haviam fretado o jato, reservado sua vaga e cancelado o curso na sede. ‘Temos que aprender a valorizar os nossos bons funcionários, e não medirei esforços em fazer o melhor você, Bonnie’ – disse o Sr. Owen – ‘está tudo bem de sua parte? Podemos contar com você?

No dia seguinte pela manhã, Bonnie estava na entrada da casa de Steve. Andava pela calçada, mas sentia um calafrio ao olhar para a grande casa branca, de madeira, e imaginar qual seria a reação do seu amado quando lhe contasse a respeito do telefonema que recebera.

Encontrou ele e seu pai, sentados à mesa, tomando o café da manhã.

– Sente-se, minha querida, coma algo conosco.

– Obrigado Sr. Ambrose, eu já comi.

– Por favor, sem formalidades. Chame-me de Carl – disse, com o grande bigode se alargando num grande sorriso.

Beijou Steve e sentou-se ao seu lado, segurando sua mão. Ela não o olhava diretamente nos olhos, e Steve notou, porém deu de ombros e fez-se de desentendido. Agora não era a melhor hora para discutirem. A manhã estava agradável e Carl alegre com a presença dos dois jovens. Não estragaria tudo de novo, mas morria de curiosidade para saber o que havia acontecido. Após alguns minutos ele a convidou para darem um passeio pela margem do rio. Seguiram de mãos dadas, abraçados em alguns momentos e quando avistaram a sombra de uma enorme árvore centenária, sentaram na grama e ela colocou Steve deitado com a cabeça em suas pernas.

– Vamos continuar fingindo que nada aconteceu ou você vai me contar de uma vez? – disse ele.

– Como assim?

– Eu a conheço bem o suficiente para saber que algo a está incomodando. Você não consegue disfarçar o desconforto. Pode falar, prometo que não vou gritar.

– Você sabe que o amo, não sabe?

– Sei sim. Diga...

– É a respeito da viagem – disse baixando a cabeça para o lado, evitando encará-lo. Não se moveu nem quando ele se ajeitou rapidamente, sentando ao seu lado e a olhando firmemente – Meu chefe me ligou ontem – continuou – Disse ter conseguido um estágio em uma Tv da capital, e que serei muito bem remunerada e...

– Bonnie, pelo amor de Deus! Já havíamos conversado sobre isso.

– Não conversamos, Steve. Você gritou e eu fui embora, foi só isso.

– Mas você sabe do acidente, da queda e... E do lago... E eu voltei – Steve começava a gaguejar e não conseguia organizar as idéias, tamanho o desespero que o tomou.

– Eu não sei de nada, Steve! Nada! Por favor, escute a si mesmo falando! Isso é loucura! Eu não posso viver minha vida baseada num sonho, alucinação, ou seja lá o que for isso! Eu tenho que ir! Já dei minha resposta a ele... Eu vou.

ficaram se olhando seriamente por alguns segundos. Steve calou-se. Sabia que não seria possível convencê-la com os argumentos de sempre. Sinceramente, ele mesmo não sabia afirmar cem por cento se não estava tendo alucinações. Ele a olhou nos olhos e viu que começava a chorar, então a abraçou e pediu desculpas.

– Isso é coisa da minha cabeça mesmo, me perdoe. Passei por maus bocados e não lidei bem com tudo isso, você tem razão. Vá, faça seu estágio e eu estarei te esperando quando voltar – disse sem soltá-la do abraço.

– Você está falando sério, Steve?

– Claro, meu anjo. Pode ir. Não farei outra cena. Eu entendo que você queira caminhar com suas pernas – Fez alguns instantes de silêncio, afastou-a do seu abraço, e perguntou olhando nos olhos – Você deseja que eu lhe espere?

– É óbvio que sim, meu amor. Serão só algumas semanas e isso me deixará em condições de melhorar profissionalmente e conseguir um cargo melhor quando voltar. Eu amo você e não vou te deixar – Abraçaram-se fortemente de jeito que ela não conseguiu perceber o olhar de Steve assumir uma suspeita paz. Algo sinistro brilhava escondido lá dentro..

– Eu também não vou te deixar, meu amor – disse Steve, com um sorriso nefasto – Eu também não.