O lado oculto da Lua
9 Capítulo 9: Alianças e novas pistas
Notas iniciais
North não sabia ao certo o que foi dito naquela negociação com Eros, mas pelo semblante de Toothiana, as coisas pareciam ter saído como o esperado.
—Como foi lá dentro?- O guardião não conseguiu segurar sua ansiedade para saber todos os detalhes da conversa assim que viu a sua colega voltando para o trenó.
— Ele não quis aceitar, mas eu sei que vai acabar cedendo.- Tooth parecia estar muito confiante da sua resposta, muito diferente de North, que ainda tentava entender o que ouviu.
— Bem…Mas ele deu algum prazo, ou algo assim? Temos que preparar todo o cronograma pra ele nas próximas missões e…
— Pode ficar tranquilo, North.Eu conheço a figura, eu só preciso mostrar que não precisamos dele, e então ele vem correndo.
— Mas isso não faz sentido nenhum!
— Eu sei.- A guardiã riu enquanto se ajeitava no assento de madeira.- Mas quando o ego dele fica ferido, ele faz de tudo pra provar que precisamos muito dele.
North não sabia o que dizer, mesmo que tivesse sido aquele que sugeriu que Fada tomasse as rédeas da conversa com o sub guardião, ainda tinha medo de não dar certo.
Se precisavam de todo aquele jogo de cintura para lidar com o ego do sub guardião, estariam prestes a iniciar uma missão à parte todas as vezes que precisassem de qualquer coisa dele. Não seria uma tarefa fácil, e North chegou a se questionar se o homem da lua estava em sua sã consciência quando tomou aquela decisão.
—Eu só espero que a gente não precise mais voltar aqui pra conversar com ele.
—Nem precisa se preocupar com isso, North, ele vai vir atrás da gente.- Ela realmente acreditava no que estava falando e North não seria louco de discordar, muito menos de questionar como a guardiã poderia conhecer o Cupido tão bem a ponto de prever seus próximos passos, já que pelo pouco que sabia, já se conheciam muito antes de Fada se tornar uma guardiã.
Tanto que poucas horas depois, ela provou que estava certa.
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—NÃO SABE BATER A PORTA, NÃO?!- O Grito de Amélia ecoou pela casa de madeira assim que North e Toothiana adentraram no local.
—Me desculpe, Amélia…Já tava aberta quando a gente chegou.- Fada tentou ao máximo acalmar os ânimos assim que escutou os passos pesados da sub guardião descendo as escadas.
—Que ódio desses muleques, saíram daqui na pressa e nem se deram o trabalho de fechar a porta!
—Sairam?- Os dois guardiões se entreolharam, tentando lembrar se aquela " saída" estava combinada entre eles.
— É…O orelhudo lá, falou que tinha que resolver umas coisas, o Sandman e o Frost saíram logo depois.
— Espero que não tenha sido uma emergência…
— Se fosse, eles teriam saído juntos, provavelmente.
— E vocês dois? Aonde se meteram? Não sabia que trabalhavam em duplas que nem no Scooby doo.
— Fomos falar com o Eros, na verdade, a Tooth foi…eu só acompanhei.- A expressão de Amélia mudou rapidamente, um tanto incrédula com a segunda tentativa.
— Mas se não deu certo a primeira vez, porque estão insistindo na segunda? Esse rapaz é insuportável.- Amélia deu as costas para os dois colegas enquanto carregava os últimos panos ensanguentados até a lavanderia.
— A gente não teve muita escolha, se o homem da lua pediu é uma ordem.- Fada tentou justificar, mas no fundo concordava com a subguardiã.
— Impressionante, North…você não dá uma dentro, ein?! Hahahahahhaha!- Amélia começou a rir descontroladamente enquanto deixava os panos de molho em um balde cheio de desinfetante.- Quando insistiram no Frost já deram uma derrapada, depois foi só ladeira abaixo.
— Ei!- Toothiana iria defender o amigo, mas North a impediu rapidamente.
— Não vale a pena discutir com ela, Fada…Ela reclama até de mim, e olha que eu já fiz muita coisa boa nessa vida.
Sorte dos dois que Amélia estava longe para escutar aquilo, ou senão já seriam seus próximos alvos.
—Mas e os meninos? Não falaram o que iam fazer?- North começou a mudar de assunto antes que Amélia desconfiasse do que tinham acabado de falar dela.
— E eu sou mãe deles, por acaso?!
— Talvez pudesse ser algo importante, não sei…
— Se fosse eles teriam me falado. Do jeito que pareciam ansiosos, principalmente o Jack…tava contando as horas pra sair daqui.
— Até posso imaginar pra onde…- Antes que um flashback da história de Jack Frost com Burguess passasse em sua cabeça, uma buzina estridente ecoou do lado de fora da casa.
— …E eu até posso imaginar quem seja.- Fada deu uma piscadela para o colega antes de abrir a porta e dar de cara com seu mais novo colega de missão.
— É sério que esse é o esconderijo de vocês? Dá pra achar até no GPS.- Eros se apresentou do seu jeito mais arrogante possível, só pra não ter que dizer que voltou atrás em sua decisão.- Já foi o tempo em que eram mais cuidadosos, ein.
— Oiê pra você também, Eros.- Toothiana não conseguia esconder sua satisfação em vê-lo dar o braço a torcer.- Esqueceu de alguma coisa pra ter vindo nos procurar assim tão rápido?
O sub guardião deu um sorriso amarelo ao perceber a provocação de sua colega, mas não se deixou vencer.
—Ah sim, você me disse que eu estava sem criatividade para o Cupido…Então voltei aqui pra não te deixar passando vontade.- O subguardião apertou a bochecha de Toothiana antes de entrar no recinto.- North!! A quanto tempo, meu amigo!- Eros mudou de humor completamente, muito semelhante a um político comendo pastel na feira.
— Finalmente conseguiu um espaço na sua agenda pra nos dar a honra da sua visita?- A energia passiva agressiva daquela conversa chegava a ser sufocante.
—Mas é claro, North! Como eu não abriria uma exceção pra vocês? — Eros respondeu com um abraço meio desengonçado no guardião.
— Tudo em nome dos velhos tempos, não é?- North tentou ser amigável dando tapinhas nas costas do seu colega, mas acabou colocando um pouquinho de força na hora.- Ho ho me desculpe, garoto…força da raiva, quero dizer, força do hábito.
— Imagina, tá tudo certo aqui…- O cupido se contorcia com um sorriso no rosto, enquanto sentia suas costas arderem.-...E então, por onde eu começo?
— Primeiro temos que encontrar com o restante do pessoal em Burguess, e tentar encontrar alguma pistas sobre o paradeiro das crianças…fazer levantamento de quantas desapareceram e de quantas restaram, além de procurar testemunhas que possam nos explicar como tudo aconteceu na hora.- North só faltou abrir um papiro ao listar todas as coisas que teriam que fazer naquele dia.
—Meu Zeus! Não sabia que tinham virado o FBI! Infelizmente, não sou formado em criminologia.- O cupido respondeu com ironia, tentando disfarçar o seu medo de não conseguir fazer tudo aquilo.- E como eu me encaixo nessa investigação aí?
— Boa pergunta…- O guardião esfregou a barba, tentando lembrar de algum tópico importante que o homem da lua poderia ter falado na hora de convocar o sub guardião , mas não tinha nada em mente.
— Você é apresentador de tv, não é? Vai saber conversar com as testemunhas.- Fada deu a ideia rapidamente antes que a cabeça de North explodisse.
— Não é tão simples assim, eu preciso conversar com o meu empresário e o meu assessor de imprensa, não posso ficar me expondo desse jeito!
— Aí, já começou de novo com essa história…- Os olhos de North reviraram enquanto ele se controlava ao máximo para não dar uns sopapos naquele rapaz.
— Vocês tem noção do quão complexo é ser uma pessoa famosa?! Eu não posso ser cancelado tão cedo, preciso manter contato com várias marcas que me patrocinam.Imagina se eu começo a me meter com essas coisas e…
—"cancelado"? O que é isso?- Eros apenas bufou impaciente ao ver que aquela conversa não chegaria a lugar nenhum quando seus dois colegas de trabalho não tinham ideia do que aquela palavra significava.
— É algo muito complexo, eu demoraria horas e horas explicando.
— Legal! Vamos ter bastante tempo pra ouvir sobre isso a caminho de Burguess, não é, North?
—Ehr…Claro, Tooth! Eu estou MUITO INTERESSADO em saber mais sobre esse treco aí.
Amélia apenas se despediu com um sorriso no rosto, feliz da vida que não teria que acompanhá-los e ser obrigada a ouvir as explicações de Eros pelo caminho.Pelo menos, não por enquanto.
—Ehr, então…a gente pode ir com meu carro se quiserem. Ele é um conversível, 800 cv, acentos acolchoados e pneus antiderrapantes, modéstia a parte um dos melhores carros que eu já tive ( e raríssimo no mercado hoje em dia).
—hum…Tem como levar rena aqui na frente?- O Papai Noel começou a olhar o capô daquele carro sem demonstrar nenhum tipo de admiração.
—Eu sinto muito, North, mas não estamos na idade média…Esse carro tem algo que se chama " motor" e não é qualquer um, um dos mais potentes do mercado.
— AH! Eu sinto muito, só vamos pra Burguess com o meu trenó.- O guardião bateu com força na lataria do carro, enquanto Eros tentava não enlouquecer com seu carro favorito sendo quase destruído.
— É sério isso?! E ainda acham que vão conseguir encontrar o paradeiro das crianças com esses equipamentos ultrapassados?
— Seu carro voa?
— Ehr…não.
— Então fim de papo, garoto.- Tooth segurou a risada quando viu o Cupido entrar no trenó enquanto guardava a chave do seu conversível no bolso da calça. Ela não era uma especialista em automóveis, mas sabia que mesmo o carro mais potente do mundo não conseguiria chegar mais rápido que o trenó do Papai Noel que se teletransporte a partir de uma bola de cristal quebrada.
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Sophie saiu às pressas do hospital assim que entrou no intervalo do seu turno de trabalho, não era muito tempo, mas tempo o suficiente para averiguar se estava tudo bem com a sua sobrinha e o seu irmão mais velho.
Jamie não tinha ligado e nem mandado outra mensagem nas últimas horas, o que a fazia se questionar se tudo estava indo bem ou se algo pior tinha acontecido naquele meio tempo. Se nada de errado tivesse lhe acontecido, com certeza ele seria uma minoria perto do resto da cidade que lotava as delegacias e prontos-socorros.
E a intuição de Sophie lhe avisava, que talvez seu irmão não teve essa sorte naquela madrugada caótica.
Ela até pensou em chamar um táxi para chegar mais rápido até a casa do irmão, mas o trânsito estava um caos e ela perderia o horário do seu intervalo no primeiro semáforo que encontrasse. Por isso, optou em pegar sua bicicleta e pedalar o mais rápido possível a tempo de encontrar Jamie no meio do trajeto.
Mas a única pessoa que encontrou no caminho foi aquele seu colega de trabalho, Nathan, que lhe pediu horas antes para substituí-lo no turno.
—Sophie!- Assim que a reconheceu, o rapaz a abordou, fazendo-o parar a sua pedalada.- Deu tudo certo? Como estão as coisas lá no hospital?
—Ehr…Daquele jeito, né? Encaminhamos muita gente pra outros hospitais e…- Era impossível se manter concentrada no assunto enquanto sua ansiedade a fazia olhar cada minuto que se passava pelo relógio do seu celular.- Me desculpe, Nathan…Eu tô no meu intervalo, preciso encontrar o meu irmão lá em casa e…
—Não precisa se desculpar, imagino que com tudo o que aconteceu na cidade, com certeza afetou seu irmão também…Eu sei que está com pressa, mas eu só queria te avisar que eu tô voltando pro meu turno agora, muito obrigado por ter quebrado esse galho pra mim.
— Mas e o seu pai? Como ele está?
— Graças a Deus não se machucou, quando eu cheguei lá já tinha uma equipe atendendo ele…só teve alguns arranhões, levei ele pra casa depois e passei um tempo com ele pra ver se estava tudo bem.
Sophie sentiu um peso sair de suas coisas quando escutou que seu turno tinha acabado naquele momento, uma dor de cabeça a menos para um dia que estava longe de terminar.
—Eu que agradeço, Nathan, você não tem noção do quanto me ajudou agora!- O rapaz deu um sorriso, satisfeito com o que ouviu da colega, mas sem querer ocupar muito seu tempo, se despediu rapidamente de Sophie.
Ao dar as costas ao amigo e continuar seu trajeto, Sophie acabara de lembrar que não tinha comentado sobre o estranho ocorrido com o Sr.Duncan. Mesmo que pudesse ser um delírio de sua cabeça ou algum tipo de milagre, era algo que não poderia passar despercebido, mas agora colega estava longe demais para que ela desse meia volta para lhe contar sobre isso, provavelmente alguém faria isso por ela assim que ele chegasse no hospital.
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Sophie mal podia sentir suas pernas de tão rápido que pedalou até chegar ao subúrbio onde seu irmão morava, todas as casas pareciam ser idênticas as outras com as aquelas decorações de halloween rasgadas ou jogadas no meio das ruas. Cestas cheias de doces deixadas pra trás marcando o asfalto com trilhas incompletas dos mais variados tipos de guloseimas.
Portas fechadas e um silêncio tão assustador quanto qualquer filme de terror, além de uma certa melancolia que a neblina da manhã trazia ao bairro.
O que quer que tivesse acontecido naquela noite, com certeza não foi apenas uma tempestade forte que derrubou a luz da cidade ou uma chuva intensa. Pois não havia cheiro de terra molhada ou poças da água, apenas uma atmosfera perturbadora no ar.
A poucos metros da casa do seu irmão, Sophie se assustou com o som de folhas secas sendo amassadas, até perceber que não estava sozinha naquele pedaço da rua.
— Jamie?- A voz da garota parecia ser o único som daquela rua, já que não recebeu nenhuma resposta.- Emma?- Sophie tentou mais uma vez, com um pingo de esperança que fosse sua sobrinha escondida em algum lugar, esperando o momento certo pra sair. Mas infelizmente, também não obteve nenhuma resposta.
Mesmo sem resposta, ela tinha certeza que não estava sozinha alí. O som que ouviu vinha a poucos metros de distância de onde estava. Provavelmente, poderia ser algum animal silvestre assustado se escondendo em um pequeno bosque que dividia duas casas um pouco mais a frente.
— Para de ser tão paranoica, menina! Não é nada demais!- A garota tentou fingir que nada aconteceu e voltou a pedalar até a casa do irmão mais velho.
Sandman fez um sinal para que Frost se aproximasse dele. Os dois estavam fazendo buscas naquele bosque quando viram Sophie chegar nas proximidades e tiveram que se esconder por trás de algumas árvores para que ela não os visse.
—Ela já foi?- Jack cochichou para o colega, enquanto pisava nas folhas secas cuidadosamente.
Os olhos de Sandman reviraram, ele não sabia porquê teriam que se esconder, se em teoria adultos não poderiam vê-los. Sentia que era uma perda de tempo para as buscas por conta de qualquer pessoa que passasse alí perto.
— Me desculpe…é só pra garantir.- O guardião notou a impaciência do amigo, mas assim que viu Sophie se aproximando, sentiu quase um instinto de que deveria se esconder. Ou talvez fosse a sua esperança de que alguém da família de Jamie ainda acreditasse em sua existência. Seus olhos azuis deslizaram sobre as folhas secas, as mesmas que viu quando estava com Emma naquela noite, a última lembrança da única que ainda queria acreditar. Um triste lembrete do seu fracasso em protegê-la.
De pensar que Jamie escolheu não acreditar mais depois da morte de sua primogênita, agora Frost se perguntava se Sophie escolheu o mesmo caminho. Pelo menos ele teria uma chance de se desculpar pessoalmente, mas aquilo já estava fora da realidade, talvez pudesse ser efeito de estar na presença do guardião dos sonhos.
E falando em Sandman, o pequeno guardião acordou Jack de seus devaneios para lhe mostrar algo que não deveria estar naquele bosque.
Um chapéu de bruxa fincado com um prego em uma árvore a poucos metros de distância dos guardiões, um objeto que era muito familiar para Frost.
—Não pode ser…- Incrédulo com o que estava vendo, Jack correu desesperadamente até aquele árvore para ter certeza.
A cena se repetiu em sua mente de forma tão vívida que é como se estivesse revivendo aquele momento em que colocava esse mesmo chapéu sobre os cabelos bagunçados de Emma. Um aperto em seu peito se intensificou, como se aquele prego estivesse sendo martelado diversas vezes em seu peito. A cada toque naquele chapéu, a textura da angústia que tocava a ponta dos seus dedos lhe lembraram mais uma vez da sua responsabilidade e ao mesmo tempo do adeus.
Sandman flutuou ao lado do amigo e tocou no seu ombro gentilmente para consolá-lo de alguma forma, mas o olhar do guardião estava imerso na própria culpa enquanto as lágrimas ameaçavam sair dos seus olhos, sua mãos geladas seguravam a ultima lembrança de Emma.
— Sandy…Ela voltou pra cá quando aquele monstro invadiu a cidade, ela correu para esse bosque achando que eu iria estar aqui…E eu não estava.- Os soluços intercalavam suas palavras, mesmo que não tivesse certeza se essa cena realmente tivesse acontecido, com aquele chapéu dentro do bosque tudo indicava que sua teoria poderia estar certa. A não ser por um pequeno detalhe que Sandman fez questão de mostrar.
O chapéu não estava pendurado em um prego, foi fixado naquele tronco por alguém muito mais alto que uma garotinha de sete anos. O que só poderia significar uma coisa, alguém colocou aquele chapéu lá. Alguém que queria dar algum tipo de recado.
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