O lado oculto da Lua
6 Capítulo 6: Novos conflitos, velhos conhecidos
Notas iniciais
— Eu me recuso a trabalhar com ele de novo.- North queria arrancar a própria barba quando ouviu aquilo da última subguardiã.- Eu realmente agradeço o convite, mas se quiser saber o porquê é só perguntar pro orelhudo aí.
— Não olha pra mim, eu não fiz nada.- Coelho fingiu se “ render “ enquanto North o encarava com um olhar mortal. Já era o segundo subguardião que tinha problemas com Bunny.
— Tem certeza que não fez?- A mulher negra de cabelos curtos com um pouco mais de 1,80 de altura deu a volta na sala sem tirar os olhos de Bunny. O guardião detestava admitir, mas de todos os subguardiões com quem já trabalhou, Brigitte era aquela da qual ele mais temia, por sua perspicácia e inteligência, o que fazia o ego de Bunny ficar abaixo do chão. Ele a enxergava como uma ameaça, alguém que tinha todas as qualidades para se tornar um guardião e até mesmo para substituí-lo.- Não tenho condições de trabalhar na mesma missão que alguém simplesmente não me deixa fazer o meu trabalho!
— Pode ter certeza que isso não vai se repetir de novo, Brigitte. Não estamos numa situação favorável pra negar ajuda.- North respondeu enquanto cerrava os dentes, ele sabia muito bem como Bunny agia quando se sentia ameaçado e estava ciente do quando tentava sabotar a subguardiã em missões passadas para tirá-la da “ competição”. Mesmo que fizesse parte da equipe, Coelho sempre gostou mais de trabalhar sozinho, mas isso não justificava suas ações.- A cidade de Burguess foi atacada por uma criatura que até agora não identificamos o que é, as únicas informações que temos é que muitas crianças desapareceram na hora do ataque.
— Conseguiram colher qualquer amostra de algum tecido dessa criatura?
— Infelizmente, não…Quando entramos em um confronto direto, não vimos nada além de uma fumaça com uma textura gelada.
— Ao menos conseguiram ter um contato físico com ela?
— Sim, mas o estado físico parecia alternar um pouco.
— Interessante.- Brigitte se sentou em sua mesa enquanto começou a fazer algumas anotações em alguns papéis.- A temperatura nos faz ter a impressão de mudança de estado físico, principalmente quando entra em contato com um objeto ou corpo com uma temperatura diferente. Se caso essa criatura estiver em um estado gasoso na sua forma, ela pode usar como forma de proteção essa alteração drástica na temperatura ao se sentir ameaçada, até como uma forma de enganar os “ predadores”. Claro que é apenas uma hipótese, preciso analisar um pouco mais a fundo.- Assim que terminou as anotações, a subguardiã se dirigiu até a estante de livros do seu escritório e começou a tatear alguns livros, enquanto os dois guardiões a esperavam voltar para a mesa com a expectativa de conseguir mais respostas.- Vou te emprestar alguns livros que tenho que explicam mais a fundo como essas reações químicas e físicas acontecem, pra entender com quem estão lutando precisam estudar a fundo a natureza dessa criatura, assim vão evitar mais ataques.
— Uma pena que o North esqueceu de mencionar o outro ataque que aconteceu…- Coelho se aproveitou do momento para dar uma alfinetada no colega.
— O que houve?- A subguardiã perguntou diretamente para North, evitando contato visual com Bunny.
— A fada foi a primeira a entrar em contato com o monstro durante o ataque e…
— Aquela águia gigante, sei lá o que era aquilo, arrancou as asas dela com o bico.
— Vou precisar conversar com a fada sobre isso pra colher mais informações, mas de qualquer forma não deixe de estudar esses livros.- Brigitte entregou uma pilha com 3 livros nas mãos de North.- Porque se ele não me deixar trabalhar de novo, pelo menos não vão depender só de mim.- A mesma encarou Bunny, impaciente.
— Muito obrigado pela ajuda, Brit.Tenho certeza que sua presença vai ser ESSENCIAL para a missão.- North deu uma última encarada no colega, que disfarçava a sua vergonha enquanto fingir revirar os olhos.- E peço que já prepare as suas malas, nessa semana mesmo vamos precisar de você em Burguess.
— Como quiser, North. Me avisem se precisarem de mais alguma coisa.
— Pode deixar.
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— Eu avisei que não ia dar certo.- North revirou os olhos ao ouvir aquela afirmação pela décima vez naquele mesmo dia. Ele não lembrava como trabalhar com Bunny poderia ser tão estressante, agora ele sabia o porquê.
— Eu já entendi que você não vai com a cara de nenhum deles, não precisa repetir.
— Mas é claro que precisa! Pra ver se uma hora você esquece dessa ideia maluca e procura pessoas mais qualificadas.
— Não era você que tinha mudado de ideia?
— Mas eu me arrependi.- Antes que North continuasse o seu interrogatório para saber se o arrepedimento de Bunny vinha de Brigitte ou dos demais, seu humor mudou totalmente quando viu Amélia os esperando na porta.
— Então, como ela está?
— Melhor do que antes.
— Com certeza está melhor do que eu.- Bunny deu de ombros enquanto North tentava ignorar a birra do seu colega de trabalho.
— Muito obrigado mesmo por ter ajudado, Amélia…Eu vou te recompensar de alguma forma, não se preocupe.- O guardião respirou aliviado, agradecendo pela boa notícia. Por mais que Amélia fosse durona e pudesse assustar a maioria dos seus colegas, era indicutivel que ela era muito boa no que fazia.
— Eu iria ADORAR ganhar um coelhinho pra fazer um ensopado!-Bunny ficou pálido quando viu a subguardiã gargalhando como se aquilo fosse muito engraçado.
— Que coincidência! Eu trouxe um fresquinho pra você!- North entrou na brincadeira enquanto o guardião os encara assustado. Com as orelhas em pé, literalmente.
— Por favor, me poupem desse péssimo humor.
— Acho que esse ensopado vai ficar com um gosto amargo, ein.- North deu uma piscadela para Amélia enquanto ela intensificava ainda mais a risada.
Coelho apenas revirou os olhos ao perceber que eles não iriam parar tão cedo.- Olha, eu adoraria ficar pra ouvir mais piadas, mas eu tenho coisas mais importantes pra fazer…Pode me dizer onde a Fada está?
— No segundo andar…Na ultima porta, no final do corredor.
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Se não bastasse as piadas e humor duvidoso que acabou de ouvir, Bunny ainda se deparou com uma série de baldes de madeira espalhados pelo corredor do 2° andar. Mesmo que fosse iluminado por algumas lamparinas, ainda parecia ser um pouco sombrio, sem contar no cheiro forte de sangue que se instalava em suas narinas.
Agora ele poderia entender porque North estava tão preocupado em relação ao estado de saúde de Tooth. O que fez Bunny se questionar por um momento se na verdade, não foi Amélia que arrancou as asas da guardiã em um acesso de raiva.
Se não estivesse em Burguess no momento do ataque, com certeza acreditaria nessa hipótese.
E começou a criar ainda mais hipóteses quando criou coragem o suficiente pra abrir a porta daquele quarto.
—Coelho? A Amélia te mandou aqui?- Frost parecia surpreso com a visita do colega, e Bunny mais surpreso ainda de ver o estado de Jack. Ele estava sentado em uma poltrona de couro velha em frente a cama onde a guardiã repousava.
Com a pouca luz que entrava por uma pequena fresta de uma janela emperrada, dava pra ver que metade da vestimenta do guardião estava coberta por sangue seco. Suas mãos estavam levemente trêmulas e sua expressão cansada.
—É, ela me mandou verificar se vocês estavam vivos. — Bunny tentou fazer uma piada, mas rapidamente voltou a falar sério quando viu que Frost não estava muito bem pra rir.- O que aconteceu aqui? Achei que iria com a gente resolver as coisas em Burguess.
— A Amélia me pediu pra ficar aqui cuidando da Fada.- Frost tinha sido até bondoso quando se referiu as ameaças de Amélia como um " pedido ", mas Bunny sabia muito bem o que significava, principalmente, se tratando da subguardiã.
— E como ela está agora?- O guardião direcionou um olhar preocupado para Toothiana enquanto ela repousava.
— Não sei dizer…A Amélia disse que ela já estava melhor, mas eu acho difícil…
— Está se referindo aqueles baldes espalhados no corredor ou ao cheiro de sangue?
— Aquilo só foi o começo. Tivemos que conter a hemorragia e cicatrizar as feri…- Quando Tooth se mexeu um pouco na cama, Frost parou de falar no mesmo instante. Ele não queria arriscar que ela ouvisse que perdeu as asas.- Alarme falso…- O guardião respirou aliviado e se dirigiu até a cama para verificar se Tooth não estava febril ou se a hemorragia tinha voltado.
— Precisa de ajuda?- Bunny se aproximou dos dois, ainda um pouco hesitante.
— Por enquanto não, ela está bem…- Jack puxou um banquinho de madeira para perto da cama e fez um sinal para que Coelho se aproximasse também.-...Como estavam as coisas em Burguess?
— Um caos. Pelo que eu vi um apagão tomou conta da cidade no ataque, mas acho que ninguém viu o que a gente viu.
— Muitas pessoas se machucaram?
— Acho que sim…- Os olhos azuis de Jack se arregalaram, como um filme de tragédias estivesse passando diante dos seus olhos.
— E as crianças? Alguma notícia delas?
Bunny engoliu seco e pensou mil vezes antes de responder, pois a única coisa que se lembrava era o desespero das famílias atrás de seus filhos. Um verdadeiro pesadelo.
—Bunny?...
— Ah sim! As crianças…ehr…bem…Não sei dizer exatamente, Frost. Sabe como é eu passei lá muito rápido não consegui ver muitos detalhes.
— Não precisa mentir pra mim. O que você viu?
— O que você acha?- Antes mesmo que o guardião pudesse responder, North adentrou no cômodo, fazendo mais perguntas sobre o estado de saúde de guardiã.
— Aos poucos ela está se recuperando, mas ainda não é uma certeza…As vezes ela acorda assustada e com muita dor.- Frost respondeu o guardião, ainda pensando no que Bunny estava prestes a lhe dizer sobre as crianças.
— Amélia também me falou que você ajudou a conter a hemorragia, não foi? Ela me disse que você ajudou bastante.
Jack ficou surpreso em ouvir aquele elogio indireto da subguardiã, pelo menos foi uma notícia que o fez se sentir menos culpado de não ter ido a Burguess.
—Nunca fiz esse tipo de coisa antes, mas fiz o meu melhor.
—Garoto, não sei se o Bunny já contou as boas novas…
— E ficar responsável por dar a má notícia? Deixei pra você, North.
— Quanta gentileza da sua parte.- North o encarou com um sorriso amarelo para o colega.- Mas vou esperar pra contar quando a Fada acordar, assim não vou precisar gastar saliva mais de uma vez.
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As palavras do Sr.Duncan ainda ecoavam em sua cabeça, quase como um mantra um tanto perturbador. Mesmo que aquela frase fosse inofensiva, algo não parecia encaixar no que poderia ser mais um delírio aleatório.
Logo esses ecos em sua mente foram ganhando força, fazendo Sophie acelerar ainda mais o passo para pegar aqueles lençóis de uma vez.
—Soube que ficou com o Sr.Duncan, ele fez muito escândalo?- Uma das funcionárias que trabalhava na área do estoque perguntou assim que Sophie lhe pediu roupas de cama para o quarto 306.
—Não, foi tranquilo até.
— Sério? Então você teve sorte, porque ele costuma a ficar bem agitado com qualquer um que entra naquele quarto.
— Ele resmungou um pouquinho no começo, mas depois conversou bastante comigo e até perguntou porque tanta gente entrava no " escritório " dele perguntando se ele precisava de ajuda…Ele foi bem simpático comigo até.
O rosto da enfermeira empalideceu enquanto ouvia Sophie falar.
—Espera…você tem certeza que não tá falando de outro paciente não?
— Foi o último que eu atendi agora, quem mais poderia ser?
— Mas ele não fala...
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