O preço da verdade (III)

Eu não conseguia tirar da cabeça a minha imagem refletida no espelho — espelho esse que ficou em mil pedacinhos quando o lancei sobre uma rocha. Conseguia ouvir cada som na floresta ao meu redor, ouvi todas as vezes em que os Quileutes tentaram se aproximaram e se afastaram ao ouvirem meus rosnados de alerta.

Também não conseguia tirar da memória a expressão aterrorizada de Charlie ao me ver assim, e ele nem tinha visto a transformação completa. E nunca veria no que dependesse de mim.

Eu ouvi quando Liz tentou se aproximar e foi contida pelos familiares. Me lembro vagamente de ter avançado sobre o monte de músculos denominado Emmett.

Fiquei perdida em pensamentos até que percebi Jacob ali, me chamando de volta a realidade. Havia tomado uma decisão e iria colocar em prática assim que vencesse mais uma lua cheia.

— Nem mesmo um exército de filhos da lua me deixariam longe de você agora. – foi o que ele disse quando o mandei ir embora, eu queria ficar sozinha, era fato. Mas, eu também não queria arriscar perder o controle com ele. Eu conseguia sentir tudo, conseguia ouvir cada som ao meu redor ou a quilômetros de distância, eu sentia cada cheiro ao meu redor ou a quilômetros de distância e podia distinguir cada um deles. Era loucura demais para minha cabeça.

Só que ele nunca me deixaria ali sozinha, eu deveria saber disso.

Meu Jake estava disposto a arriscar a própria vida por mim. Deitei minha cabeça em seu peito, me concentrando no carinho que ele fazia em meus cabelos e em sua respiração e nas batidas de seu coração. Ao poucos, conseguia me acalmar e visualizei minhas mãos retornando apenas a forma humana.

Eu sou o imprinting dele.

Jacob Black é meu equilíbrio.

Depois de desabafar um pouco, depois de ouvir suas palavras de conforto, depois de dormir aconchegada em seu peito quente e macio eu havia recuperado o pouco da coragem que tinha para enfrentar Charlie. Olhar dentro dos olhos do meu tio e dizer “Eu sou um lobisomem, Charlie e por isso estou indo morar com Jacob”.

Meu tio estava em sua casa, pegamos carona com Brady – que coincidentemente ou não estava passando pela rodovia — já que a essa altura eu não fazia ideia de onde estava a minha picape e o Austin de Jacob estava com a Claire na reserva.

Quando estacionamos em frente a casa branca de primeiro andar eu pude sentir o cheiro de vampiro no ar. Brady olhou sugestivamente para Jacob, que apenas movimentou a cabeça positivamente em um comando silencioso de “ fique por perto”. Jake podia até tentar me proteger e me manter de fora dos seus planos com a matilha, mas eu estava aprendendo a observar as ações dele e estava ficando cada vez mais fácil interpretar.

Jake entrelaçou sua mão na minha, levando a mão livre até minha nuca, seus dedos embrenhando no meu cabelo solto, beijou minha testa.

— Estou com você, meu amor. Sempre estarei.

Levei minha mão até a maçaneta da protagonista, a girando e quando a mesma se abriu revelou três pares de olhos imortais em nossa direção, o único que eu realmente queria ver estava escondido nas mãos que ele levava ao rosto. Charlie se quer conseguia olhar para a nova versão da filha.

— Charlie – Jacob falou primeiro, Charlie afastou as mãos do rosto e se virou para nos ver entrar. Paralise ali mesmo, logo abaixo do arco que dividia o Hall de entrada com a sala de televisão. Charlie tinha hematomas no rosto, assim como nos braços.

Senti quando as mãos de Jacob agarraram a minha cintura e ele foi me impulsionando para a frente.

— Tio, eu sinto muito. Isso é culpa minha. – falei, já ameaçando chorar novamente. Me ajoelhei aos pés dele. – Por favor, Charlie, me desculpa. Eles nunca mais chegaram perto de você ou da Sue, eu vou embora. Por favor, me desculpa.

Deitei minha cabeça próximo aos seus joelhos. As mãos dele foram ao meu cabelo e rosto, me o Riga do a olhar novamente para ele.

— Nessie, isso não é sua culpa. Você não tem culpa de ter nascido assim. Foi você e seu pai, mas podia ter sido eu e a Bella. – falou com a voz trêmula, alguém já devia ter explicado tudo a ele.

Sue saia da cozinha, com uma xícara de chá nas mãos. Pelo cheiro era camomila.

— Charlie, beba um pouco. – ela indicou, oferecendo a xícara.

— O senhor quase morreu porque sentiram meu cheiro e vieram até aqui – lamentei – É culpa minha sim.

— Charlie não está com raiva de você- disse o leitor de mentes em resposta aos meus pensamentos cheios de culpa e medo.

— Você é meu sangue, Renesmee. Assim como Bella e Liz, os segredos de vocês me assustam é claro, mas se esse é o preço para manter vocês por perto eu aceito pagar. Não quero que vá embora, não quero que nenhuma de vocês vá embora.- Charlie continuou a falar.

Eu não aguentei, me levantei um pouco e o abracei. Abraço esse que ele demorou a retribuir, mas quando o fez foi com gosto. Embora fosse com uma mão só já que a outra estava ocupada pela xícara de chá.

— Qual o seu papel nisso tudo? – Charlie pergunta a Jacob. – Não vai me dizer que é o caçador, igual na história da chapeuzinho vermelho? – ele tentava deixar o clima mais leve. Jake bufou.

— Sou um lobo, diferente da sua neta é claro, mas sou um lobo também.

— Está mais para transfigurador – corrigiu Edward. – O animal escolhido pelo seu povo foi o lobo, mas poderia ter sido qualquer um que não seria diferente.

— Quem pediu sua opinião?! – Jake rosnou.

— Parem com isso! – eu e Bella gritamos ao mesmo tempo ao perceber que eles iam se desentender. – Charlie, eu amo o senhor, mas estou avisando que irei sair de casa. Agora que já entende a verdade, pode entender que não é seguro pra mim e nem pra vocês que eu fique aqui.

— Onde você vai? – ele questionou. Jacob já demonstrava preocupação em sua expressão.

— Pensei em ir morar com o Jacob em Seattle. – falei, e o vi sorrir aliviado ao mesmo tempo em que vi Charlie se irritar.

— Isso está fora de cogitação – ralhou ele. –

— Concordo com ela, Charlie. Lamento por dizer isso, mas concordo. Ter Nessie aqui significa colocar você e Harry em perigo – comentou Sue.- Com o Jake ela estará mais segura e nós também.

Charlie levou uma das mãos a cabeça novamente, depois coçou a barba.

— Vocês combinaram isso? – direcionou a pergunta a Jacob novamente

— Não, mas concordo. Eu queria levar ela pra morar comigo antes mas não falei pois tinha medo de estar agindo rápido demais. Eu quero que minha Nessie vá morar comigo.

— Ok, mas ela só sai dessa casa ,casada. – Resmungou. Jacob sorriu torto.

— Tudo bem, podemos providenciar o casamento para depois dessa lua cheia.

Eu iria sair da casa de Charlie por questões de segurança, mas eu não me sentia mais livre com isso. Ao contrário, eu me sentia mais presa. A verdade tinha um preço, e pra mim estava sendo alto.

Notas finais
Eu não ia postar hoje, mas vou passar uns dias fora e resolvi postar esse hoje. Me contem o que estão achando, me animem e volto na segunda com novo capítulo.