O lado B
1 O Anjo sem a Liberdade
Para nunca mais esquecer!
Estou caindo. O céu rodopia comigo, não somos mais um só, agora sou apenas um monstro com asas arrancadas e negras. Minha pele, minha alma... minhas asas queimam com o fogo divino inextinguível. O choque com a atmosfera somente faz que meu corpo queime ainda mais.
Não sou mais celestial. Não sabia que era tão doloroso.
Isso dói, tudo dói. Meu coração está em pedaços, não é assim que os humanos dizem? Ah! Não sabem quanto um coração suporta. Meu coração sangra, eu sinto, sou mortal?
Esse gosto não foi dado por Ele, não sou mortal e nem imortal. Condenado a viver eternamente com a culpa da morte dela sobre minhas costas até que um mortal mate — me. Enquanto estou caindo penso no suicídio, mas Ele foi mais esperto, em caso de suicídio eu volto imediatamente para o céu e caio novamente e novamente.
Fecho os olhos e me encolho, o impacto formou uma cratera. Não consigo me levantar por breves instantes. Suspiro, retirando toda poeira do meu corpo, felizmente estou vestido com uma roupa. Uma roupa mundana não fica bem em um anjo, acredite.
Saio da cratera, ainda cheio de terra. De relance vejo a vila em que apaixonei — me por ela, as lembranças enchem minha mente, mas, ainda por causa do castigo divino, não posso lembrar — me dela. Começo a tossir descontroladamente, o sangue escorre por minha boca, sou obrigado a tirar todas as lembranças da minha cabeça.
Caminho para a pequena vila, sentindo o doce cheiro de docinhos que as donas de casa colocam em suas janelas para esfriar, algumas sorriem alegremente para mim enquanto passo, outras olham — me com reprovação. Não posso culpá — las.
Ando mais um pouco, até chegar a casa. Abri a porta chamuscada pelo fogo e entrei, subi as escadas quebradas sem medo. No final do corredor estava o quarto dela, mais lembranças invadiram minha mente.
"Querido, o que acha dessa cor?" perguntava enquanto pintava a parede de azul, estava alegre com seu vestido esfarrapado e sujo, parte do seu rosto estava sujo de azul.
Era linda, seu sorriso e seu rosto pareciam combinar perfeitamente com seus olhos. Não posso mais pronunciar o seu nome, mas lembro que era por demais belo. O seu rosto está enevoando em minha mente, consequência do castigo divino, mas ainda consigo lembrar de grande parte da sua beleza.
Cuspo todo o sangue no chão, voltando à realidade. A parede não é mais azul, é negra e o chão está quebrando junto com o resto da casa. Soube que será demolida daqui a uma semana, seus pais não aguentam a dor da perda de uma filha.
Entro em seu quarto, por algum motivo ainda sinto seu cheiro , por algum motivo ainda sinto seu cheiro.
“Tem certeza que não vai dormir pendurado na minha janela de novo?” falava, deitada em sua cama, rindo do modo que fiquei em sua janela.
O meu nariz queima, mas ainda é maravilhoso mais para não sentir. Ouço passos e me viro.
— Anjo, o que tu fazes aqui? — perguntou um anjo do céu, tinha a forma de uma mulher e eu conhecia — a muito bem. Erika era uma das mais responsáveis do Reino Celestial.
— Dando adeus. — respondi, sem paciência. Não queria olhá — la, não queria lembrar — me de nada.
— Adeus ao quê? Ao pó? — perguntou, aproximando — se. Vi sua cara de pena encarando — me, todos estava assim. Sabia o quanto minha asa tinha enegrecido, o quanto estavam esfoladas e minha pele, vi todos os machucados e sentia — os.
— A Liberdade — falei com dificuldade, colhendo as memórias. Liberdade era linda, a mais bela mundana vista nesse mundo, infelizmente também jovem. Enquanto vivi seiscentos anos, ela ainda tinha dezesseis. Poderia facilmente ter tornado — se um anjo.
— Liberdade morreu e é sua culpa. — acusou — me como se eu não soubesse.
Era minha culpa, nunca contestei. Não deveria tê -la levado para conhecer o mundo, não deveria ter mostrado — lhe como era a vida e nem que era maravilhoso ser um anjo. Aos poucos ela foi enlouquecendo, a sua essência mortal foi degradando — se e seu calor mundano esfriando, em pouco tempo começou a tornar — se imortal. O seu corpo humano não aguentou. Tentei salvá -la, tentei fugir de seus braços diversas vezes, quantas vezes não magoei — a para não matá -la com seu amor?
"Sempre soube que você nunca tinha feito por mal." sorria dolorosamente "Apenas me esqueça”.
Infelizmente nunca consegui, agora estava aqui, em sua casa olhando suas paredes queimadas. Desejava avidamente pelo poder de voltar no passado.
— Eu sei — concordei, fuzilando — lhe com os olhos.
— Não há mais nada que fazer aqui. – continuou, tentando sorrir, todavia por não ter ligação com mundanos não sabia bem como fazer isso. O seu sorriso era uma linha reta. – Liberdade renasceu, mas não é mais Liberdade.
Não respondi. Aos poucos a anjo foi distanciando – se, até não conseguir mais escutar seus passos. No entanto, eu sabia q ela estaria por perto. Sempre estava. Lágrimas percorreram minha face, não aguentaria muito mais tempo, todavia a imortalidade impedia – me de tudo.
Queria encontrá –la, no entanto aquela anjo não dera nenhuma dica. Pensei por alguns instantes, se Liberdade não poderia mais dar jus ao seu nome, então eu poderia encontrá –la no continente asiático. Precisava agradecer a anjo, ela deu – me uma pequena ajuda.
Andei até a janela, apoiei – me para pular. Foi rápido e bem fácil, minhas asas esfoladas recuperaram – se rapidamente, mas agora estavam transformadas em outro tipo de asas. Agora não tenho mais penas, mas uma pele fina e boa o suficiente para voar.
A Liberdade renasceu e eu também.
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