O juiz de vidas

5 Quarta Alma: Jerome Del Varra


Notas iniciais
Bom, vamos lá, eu não atualizo essa história há mais de um ano (na verdade quase dois), mas não foi porque eu desisti, o problema foi que eu fiquei enrolando para aonde a história iria, mas comecei a mudar, ai tive problemas na vida, então desandou tudo. Bom, espero que gostem da volta :3

Elizabeth terminava seu conhaque fazendo uma ligação, nós três saímos de lá, não era mais do nosso interesse o que ia acontecer, Kin estava triste, para variar, Leonard nos acompanhava, mas nem isso a animou, até que nos separamos, voltamos para o hotel, Lúcia e Rashid ainda não tinham voltado, caímos no sono rapidamente.

Acordei quando o sol bateu na minha cara, havia esquecido de fechar a janela do quarto. Comecei a andar pelo apartamento, Lúcia estava deitada em sua cama, com um sono pesado, o mesmo era para Kin, mas não encontrava Rashid em nenhum lugar, até que senti o cheiro de café vindo do corredor.

Rashid entrou no quarto do hotel segurando dois copos cafés, o cheiro era forte, e me lembrava que não tinha comido nada ou bebido um gole de café a horas...

— Rashid, bom dia. — Falei. — Nossa que cheiro bom desse café.

— Realmente, — Rashid estendeu um dos seus braços, me oferecendo um dos copos.

— Pera, este café não é da Lúcia?

— Ela não irá acordar pelas próximas horas, tivemos um dia difícil...

Aceitei o café, nós nos sentamos no pequeno sofá que estava lá somente para tentar imitar uma sala.

— O que foi que vocês fizeram ontem? — Perguntei meio sem jeito.

— Estávamos procurando uma casa por um preço barato... — Respondeu Rashid enquanto tomava um gole de seu café.

— Uma casa?! — Fiquei surpreso. — Nós podemos ter casas?

— Os juízes podem fazer o que quiserem, só não podemos revelar nossa existência, entretanto, se acharmos que somos humanos, podemos até ter uma vida normal.

— Espera, então podemos parar de julgar e viver uma vida normalmente? — Eu mal conseguia beber meu café, talvez no fim das contas Kin não precisasse ficar nessa maldição, voltar a ter uma vida normal.

— Não é bem assim, — Nunca é do jeito que parece. — Julgar almas é nossa função primária, se não fazemos, começamos a nos sentir indispostos, ficamos sem energia para fazer coisas simples, chegando ao ponto de até nem levantar de manhã.

— Isso quer dizer que isso é praticamente uma maldição...

— Uma maldição não há premiação, diferentemente de julgar almas.

— Mas é uma premiação muito distante de nós... — Comecei a me sentir triste.

— Não pense assim, — Rashid deu o último gole no seu café. — O que fazemos é para o bem de toda a vida, para ela continuar a existir, decidindo quais são os merecedores de continuar a serem humanos e quais devem ter sua alma purificada em uma vida como um ser mais primitivo, sentir os sentimentos que eles sentem, se conectar com a natureza...

— É, acho que você está certo... — Eu não conseguia parar de pensar na Kin, ela não foi feita para ser uma juíza.

— Você está pensando na Kin, certo? — Comecei a achar que o Rashid conseguia ler minha mente.

— Sim, ela não consegue ver uma cena de assassinato sem passar mal, a profissão dela é literalmente ver uma pessoa morrer e decidir seu futuro...

— Por acaso ela já julgou alguém?

— Ainda não...

— Então é isso, deixe ela perder a virgindade que logo mais ela se acostuma.

— Como é que ela vai se acostumar com uma cena de crime?

— Olhe para você Ben, você já se acostumou. — Rashid falava a verdade, eu já havia me acostumado com corpos mortos. — Mas não pense que você é um psicopata por isso.

— Como assim? — Questionei.

— Quando um juiz julga uma alma, como recompensa, ele tem uma sensação de prazer que dura alguns minutos, isso faz você se acostumar com as cenas com corpos e sangue no chão.

— Espera, aquela velha nos droga?!

— Bom, pode-se dizer que sim, mas não pense assim, podemos dizer que se sentir bem é uma premiação por julgar, — Rashid parou de falar por um momento. — Mas bem que vários juízes se viciam com essa sensação.

Eu olhava para Rashid atentamente enquanto terminava meu café, ele estava pensativo e, de certa forma, triste.

— A quanto tempo vocês são juízes? — Perguntei.

— A tempo suficiente para querer parar de sermos andarilhos e nos fixarmos em um lugar... — Rashid sorriu para mim. — Mas por agora vamos, temos uma coisa importante para fazer.

— Devo acordar Kin e Lúcia?

— Não, deixe-as dormindo, isso é um assunto entre eu e você. — Rashid se levantou.

Nós rapidamente saímos do hotel e pegamos um ônibus, depois de meia hora no transporte público, vi nuvens de fuligem no céu, nós estávamos na parte industrial da cidade, Rashid puxava conversa com o motorista, ele conseguiu puxar papo com ele a ponto de fazer ele desviar um pouco da rota só para nós.

— É aqui que nós descemos, — Rashid falou para o motorista. — Obrigado Mike.

— De nada cara! — Respondeu o motorista com um sorriso.

Fora do ônibus pude ver uma fábrica enorme desativada.

— O que nós fazemos aqui? — Perguntei.

— Uma pessoa irá morrer aqui, eu quero que você a julgue...

— Por que?

— Essa é uma pessoa que você tem que ver a história... — Rashid olhava para o céu cinza, o sol estava encoberto pelas cinzas das fábricas. — Quero que você julgue a pobre alma.

Entramos na fábrica, havia várias pessoas dormindo lá, a maioria com esferas azuis em seu peito, mas Rashid ignorava todas elas e andava lentamente até uma escada, após subir ela, encontramos um velho senhor dormindo, com poucos fios de cabelo na cabeça e um tecido o cobrindo, a esfera azul em seu peito estava gigante, exalando um cheiro adocicado muito forte, pronta para se tornar laranja.

— Este homem morrerá em alguns minutos, você sabe o que fazer. — Rashid falou seriamente, eu assenti com a cabeça.

Começamos a esperar, Rashid não trocava nenhuma palavra comigo, mal me contava quem era aquele homem e porque estávamos julgando ele, em meio aos meus pensamentos a esfera havia se tornado laranja, tirei minha espada e perfurei seu corpo com ela, tudo ficou escuro.

Logo comecei a ver o interior de uma casa, não, uma mansão, enorme, com vários quartos e portas que pareciam não ter fim, de uma delas, ouvi um barulho alto, logo de lá saíram duas crianças e dois homens engravatados, um dos homens engravatados era careca e tinha uma grande marca no rosto.

— Rashid... — Deixei escapar, era Rashid, mas, muito mais novo, o outro homem engravatado era cabeludo.

— Daniel! Rashid! Façam o truque de novo! — Uma das crianças, um menino, por volta de cinco anos, com cachos ruivos gritava histericamente. — De novo, de novo!

— Vão lá pai! Sr. Maul! — A outra criança, uma menina morena, com a mesma idade que o menino, olhava para Rashid fixamente, eu não podia acreditar na semelhança dela com Rashid, a única diferença era o cabelo e a fofura.

— Está bem, — O homem cabeludo, Daniel, olhou para Rashid. — Vamos fazer a alegria deles.

— Vamos lá! — A voz de Rashid me assustou, era literalmente a mesma, só que mais animada e... viva.

Os dois sinalizaram para as crianças se afastarem e pegaram distância e, quase que em um instante começaram a dar mortais enquanto de suas mãos saiam purpurinas, usaram as paredes para pegar impulso e pular ainda mais alto, piruetas e purpurina brilhavam em meio a luz que parecia cada vez mais forte, dava até para ouvir uma música circense tocando...

— Meus parabéns vocês dois! — Ouviu-se palmas vindas do das costas deles, eles se viraram e viram um senhor por volta dos quarenta anos, com uma careca encoberta por alguns fios de cabelo, um bigode de dar respeito e dois seguranças em suas costas.

— Senhor Del Varra! — Rashid e Daniel gritaram assustados. — Desculpe pelo nosso comportamento!

— Não precisam se desculpar... — Senhor Del Varra se aproximou do menino dos cachos ruivos. — Vocês não só são pagos para proteger meu tesouro aqui, mas também para animá-lo, se eu não quisesse isso eu teria contratado um pequeno exército de homens que nem sorriem, — Senhor Del Varra virou para a filha de Rashid. — A quando tempo não nos vemos pequena Zarita.

— Realmente, a escola tá puxando muito meu tempo... — Zarita ria enquanto falava, sua voz era doce e delicada.

— Tem tirado notas boas? — Senhor Del Varra falava sorrindo.

— Sim! — Respondeu gritando.

— Então podem se divertir! — Senhor Del Varra sinalizou com a mão para Rashid e Daniel voltarem com as piruetas.

Tudo sumiu em um mortal de costas, a escuridão aparecera novamente, mas logo foi preenchida com senhor Del Varra no telefone, a careca dele aparecia bem mais, sobrando só uns fios de cabelo em cima de sua cabeça.

— Já disse para parar de sair em campo querida! Seu trabalho é perigoso demais para sair andando por aí! — Ele gritava no telefone. — Como assim salvou um garoto sem-teto?! Pare de ajudar mendigos!

— Pai... — Um adolescente entrou na sala, tinha um cabelo ruivo que chegava ao ombro, eu o reconhecia, era o garoto de antes, mas estava cheio de olheiras marcas de corte, atrás dele estava Rashid e Daniel.

— Filho! — Senhor Del Varra gritou. — Querida depois eu te ligo, — Ele desligou o telefone e foi direto ao seu filho. — O que aconteceu com você meu filho?!

— Não foi nada pai... — O adolescente estava se apoiando na porta, estava ofegando.

— O que aconteceu?! — Senhor Del Varra gritou com Rashid e Daniel.

— Pelo o que soubemos ele se meteu em uma briga na escola — Respondeu Rashid.

— Por que não fizeram nada?! — Uma veia na testa do Senhor Del Varra estava prestes a estourar.

— Nós não ficamos dentro da escola senhor, — Respondeu Daniel. — A presença de seguranças particulares é contra a regulamentação da escola.

— Alguém me dê uma resposta do que aconteceu! — Após o grito, uma jovem morena chegou perto da porta, era Zarita, entretanto em um corpo bem mais, bem... como posso dizer isso... mais evoluído do que antes.

— Você está bem?! — Zarita chegou falando com o ruivo, que nada respondeu.

— O que aconteceu Zarita?! — Perguntou o senhor Del Varra.

— Não sei ao certo, mais ouvi dizer que uns garotos da escola o fizeram ele sair pelo portão dos fundos, então corri direto para cá! — Respondeu Zarita.

— O que aconteceu filho? — Senhor Del Varra se aproximou lentamente de seu filho, e logo tudo ficou preto.

As coisas voltaram a aparecer lentamente, estava em um quarto totalmente escuro, com somente uma janela iluminando a cama, lá estava o adolescente ruivo, mas seu cabelo estava muito mais curto e os machucados já tinham cicatrizado.

— Abra a porta! — Alguém estava batendo na porta, era Rashid, gritando.

— Me deixe em paz Rashid! — Gritou o ruivo.

Rashid continuou a bater na porta.

— Você não me deixa escolha! — Rashid arrebentou a porta.

— Que porra você está fazendo?! — Gritou o ruivo assustado.

— Não temos tempo para explicações! — Rashid pegou o ruivo pela cintura e o colocou encima de seus ombros.

— Me solta! — Gritou o ruivo enquanto era carregado para o corredor.

— Pare Rashid! — Rashid parou pela voz de Daniel, que aparecera em sua frente, com uma arma apontada para sua refém, Zarita.

— O que está acontecendo? — O filho do senhor Del Varra estava abismado com a cena.

— Daniel... — Rashid colocou o garoto que levava no ombro no chão.

— Parece que conseguimos uma garotinha aqui... — Daniel apontava a arma para Zarita enquanto ouvia-se gritos vindo de outro quarto. — Traga-o para fora!

Senhor Del Varra saiu a chutes de um quarto, seu próprio segurança apontava uma arma para ele.

— Rashid, Daniel, o que está acontecendo? — Senhor Del Varra suava e gritava com raiva.

— Eu fui buscar minha filha na escola, — Rashid começou a falar. — Quando cheguei aqui, vi uma empregada e vários seguranças no chão, mandei minha filha ficar no carro e fui buscar seu filho.

— Eu comecei um ataque com alguns dos seus seguranças, — Daniel começou a falar. — E agora temos todos vocês como reféns!

— Traidores! — Gritou senhor Del Varra. — Eu sempre os paguei bem, sempre confiei em vocês, e o que vocês fazem comigo? Me traem para me extorquir!

— Não vá tirando conclusões precipitadas, — Daniel se aproximou do senhor Del Varra. — Não estamos aqui pelo seu dinheiro, estamos aqui porque fomos contratos.

Daniel pegou o telefone e discou um número, esperou alguns segundos e ouviu uma voz feminina.

— Alô? — A voz me era familiar.

— A quanto tempo senhora Del Varra, já vai fazer mais de um mês que você não volta para casa... — Daniel falou calmamente.

— Querida, querida, socorro! — Senhor Del Varra gritou para a sua mulher ouvir ele.

— O que está acontecendo aí? — Senhora Del Varra perguntou seriamente.

— Tenho uma pergunta para a senhora — Daniel tirou Zarita de sua mira e apontou a arma para o senhor Del Varra. — Devo começar pelo seu filho ou seu marido?

— O que você quer Daniel? — Senhora Del Varra falava firmemente.

— Ainda bem que perguntou, — Daniel sorria. — Algumas pessoas estão incomodadas com você, ou melhor, aonde você está, a preferida para assumir a posição de líder da empresa...

— Então é isso... — Ouviu-se uma risada fanha saindo do telefone. — Sabia que você não seria o cabeça de um plano assim...

— Ora sua! — Gritou Daniel. — Você nem imagina que...

— Diga isso à aquela garota, — Daniel se calou quando Senhora Del Varra começou a falar. — Diga... — Ela suspirou. — Diga a ela que eu não vou aceitar o cargo, ela venceu...

— Espera? — Daniel voltou a falar. — Você vai aceitar tão facilmente?

— Sim, ela conseguiu tocar na minha família, mas eu particularmente já não estava interessada nesta vaga, — Senhora Del Varra ficou quieta por um instante. — Algo mais?

— Pare de me enganar! — Daniel havia perdido sua cabeça. – — deve estar planejando algo! Quando eu abaixar a guarda eu vou morrer por um tiro de sniper?! Ou talvez um bando de ajudantes invada a casa?! Ou talve-

— Eu não tenho motivos para fazer isso, — Senhora Del Varra falava calmamente. — Mesmo que você morra, outros apareceriam no seu lugar.

— Ahh! — Daniel apontou a arma para o adolescente ruivo. — Pelo menos vou levar seu filho!

Três tiros foram disparados em direção ao adolescente, os três pegaram no lado direito do peito de Rashid.

— Rashid! — Gritou o ruivo e seu pai, não pude acreditar que mesmo levando três tiros sua cara mal demonstrava dor, mas o seu sangue fluía tanto que começou a sujar o chão.

— Rashid se- — Daniel tentou terminar de falar, mas antes disso levou uma facada de Zarita. — O que?!

Tudo ficou preto, parei de ver qualquer coisa, estava no vazio, demorou mais de um minuto para eu poder começar a ver a próxima coisa, era uma mesa, com vários homens sentados envolta, um deles, ruivo e com uma careca começando a surgir gritava e resmungava palavras que eu não conseguia ouvir.

— Isso é um absurdo! — Gritou o ruivo. — Como assim não podemos mais vender lá?!

— É uma nova lei municipal senhor, — Outro homem começou a falar. — Parece que as crianças começaram a engordar muito...

— Não é culpa nossa que as mães desses gordinhos não conseguem segurar seus filhos! — O ruivo saiu de perto da mesa. — Era nossa maior loja, sem ela, não sei o que vai acontecer...

— Se acalme senhor, a cidade vizinha fica apenas a três quilômetros da loja, rapidamente nos mudamos para lá! — Um dos homens passou alguns papéis, o ruivo olhava atentamente aos papéis.

— Esta foi a primeira loja que meu pai abriu, — O ruivo jogou os papéis na mesa e começou a andar envolta dela. — Com uma pequena loja, criou uma empresa de doces que atualmente exporta para todo o continente! — O ruivo bateu na mesa, todos focaram em sua mão. — Talvez seja a hora de eu sair de tudo isso, me aposentar... — Ele parou por um momento, respirou, começou a olhar para todos naquela sala e então se focou para um homem alto e com um curto cabelo loiro crescendo. — Caim!

— Sim senhor! — Caim se levantou.

— Caim, você está nessa empresa a quantos anos? — O ruivo chegou mais perto de Caim.

— Estou a sete anos senhor! — Caim respondeu enquanto o ruivo se aproximava dele, dava para perceber como Caim era bem mais alto.

— Então eu tenho só uma pergunta... — O ruivo colocou sua mão no ombro de Caim. — Qual o sabor do nosso doce?

— Ah? — Caim estranhou.

— Qual, o, sabor, do, nosso, doce?

— Nossos doces têm vários sabores senhor, podemos falar sobre a composição do doce mais vendido, o chocolate su- — Caim parou de falar quando sentiu um aperto forte no seu ombro.

— Eu não quero saber que raios leva no chocolate! — O ruivo largou o ombro dele. — Eu quero saber, qual o sabor que uma criança sente a comer uma bala da nossa empresa, até o sabor que uma senhora aposentada sente ao tomar nosso chá adocicado!

— Senhor, não estou conseguindo entender essa pergunta direito... — Caim se sentou.

— Este é o problema! — A mão dele bateu tão forte na mesa que fez com que os copos em cima da mesa caíssem. — Algum de vocês podem me responder essa simples pergunta?! Qual o sabor do nosso doce?!

Todos ficaram em silêncio.

— É por isso que não posso me aposentar, — O ruivo disse isso tanto para as pessoas daquela sala quanto para ele. — Vocês não sentem o esforço e suor de todos os nossos contribuidores que viram em um único sabor, satisfação!

— Satisfação? — Deixei sair da minha boca, estava esperando que ele dissesse felicidade ou algo parecido.

— Satisfação! — Ele continuou. — A satisfação de depois de um dia de trabalho duro em uma fábrica, com seu dinheiro suado, possa entrar na nossa loja e comprar um doce para sua pequena filha em casa, só para ver o sorriso dela!

Todos ficaram calados.

— Não posso me aposentar até achar alguém que possa assumir meu lugar, sentir o que eu e meu pai criamos aqui... — O ruivo começou a lagrimejar. — Me desculpe pai, garantirei que sua empresa vá para as mãos certas...

Todos ficaram em silêncio e logo começaram a desaparecer, mas, por algum motivo, o cenário não desapareceu, fiquei totalmente sozinho na sala.

— Você acha que está sozinho... — Ouvi uma voz atrás de mim, me virei e vi uma mulher loira, com olhos azuis e um corpo esbelto, coberto por um vestido que mostrava mais pele que cobria.

— Hum... — Eu fiquei encarando ela, possivelmente uma nova cena estava para começar.

— Pare de me encarar, seu estranho! — Ela me respondeu, como?!

— Voc- vo- voc-ê est- está falando o comi- go? — Mal conseguia falar.

— Com quem mais poderia? — Ela se sentou em uma das cadeiras. — As memórias desse cara até que são legais, mas não posso deixar que você veja mais do que isso...

— Por que não? — Perguntei enquanto conseguia manter meu tom.

— É simples, porque eu já vi, e acredite, é algo que um novato não ia conseguir aguentar... — Ela falava lentamente comigo.

— Quem é você? — Perguntei.

— Eu, haha, sou só mais uma juíza, — Ela colocou as mãos na mesa. — Mas não como você ou Kin, sou mais como o Rashid.

— Você conhece a Kin? — Perguntei. — E como assim mais como Rashid.

— É sério que você ainda não tinha me notado? Eu venho seguindo você, bem, na verdade eu venho seguindo o Rashid, mas aí eu perdi ele e tive que seguir vocês, — Ela sorria enquanto falava comigo. — Mas agora não temos tempo para isso, como você vai julgar ele?

— Eu ainda não vi tudo, não posso julgar — Eu comecei a falar mais firmemente.

— Com o que tem agora, como você o julga? — Seu sorriso preenchia a cara inteira.

— Bom, deu para notar que mesmo em família rica, ele sofreu bastantes traumas e não o vi cometendo nenhuma coisa muito ruim.

— Tem certeza? Me diga, sobre o trauma dos amiguinhos da escola levando-o para um canto escuro, o que você acha que aconteceu?

— Ele pode ter sido agredido ou talvez até violado.

— Violado? Que palavra mais peculiar. Mas se isso aconteceu, por que não vimos o ato dele sendo agredido ou violado, ao invés de ver só ele chegando em casa?

— Como assim?

— Não ia ser bem mais marcante e importante para as memórias que estamos vendo o ato? — Ela estava certa.

— Você está errada! — Eu já sabia em que ponto ela queria chegar. — Foi algo tão traumatizante que ele nem quer lembrar.

— Não é ele que controla o que você vê aqui! — Ela se levantou da cadeira. — Você já sabe que ponto quero levar, ele mesmo que se alto mutilou!

— Por que ele faria isso?! — Eu já estava gritando.

— Simples! — Ela pulou para cima da mesa. — Ele precisa voltar a ser aquela criança que tinha até seus empregados de circo, por isso só precisava de uns cortes na cara, umas bancadas e um tempo no quarto, que toda a atenção se voltaria para ele!

— Zarita viu ele sendo levado para fora da escola! — Retruquei.

— Nana nina não, lembre-se das palavras dela, foram especificamente “Não sei ao certo, mais ouvi dizer que uns garotos da escola o fizeram ele sair pelo portão dos fundos”, isso significa que ela não viu nada!

— Então está me dizendo que ele só queria amor?!

— Ele só queria ser mimado! Não confunda as duas coisas! — Ela começou a rir. — Admita! Eu estou certa!

— Só porque ele queria atenção ele não merece ser julgado como mal!

— Hahaha! — Ela ria alucinadamente. — Agora chegou a hora do meu truque final, o último trauma dele, o assassinato de Rashid bem na sua frente.

— O que tem? Ele não tinha nada a ver com isso... — Fiquei calado por um momento.

— Acha mesmo?! — Ela deu uma pirueta no ar, então, parte da sala desapareceu, e, como numa tela uma memória começou a ser reproduzida, era Zarita e o ruivo adolescente.

— O que é isso? — Estranhei.

— É uma memória que eu consegui quando julguei uma doce velhinha, mas com um peso gigante na consciência.

— O que é isso? — Zarita começou a falar.

— Isto é segurança, — O adolescente ruivo deu uma faca na mão de Zarita. — Quando você for levada para minha casa, estará havendo uma revolta na minha casa, o Daniel vai nos trair.

— O que?! — Ela gritou.

— Eu quero que você seja pega, e quando ele terminar as negociações, esfaqueie ele! — O adolescente segurava a mão de Zarita com a faca.

— Eu... eu não posso fazer isso! — Gritou Zarita.

— Pela segurança de todos, você tem que fazer isso!

— Então porque não mato ele antes das negociações?! — Ela já estava gritando.

— Haverá outros junto a ele, se você o matar antes, os outros continuarão a negociação, e não sei se terão o mesmo afeto que tem pela minha família como Daniel...

— Por que então não falamos com seu pai e resolvemos tudo?!

— As negociações vão... — Ele tomou um momento antes de continuar. — Vão tirar minha mãe do emprego dela...

— Pera, nós vamos nos arriscar só por isso?! — Zarita se revoltou. — Está louco?

— Zarita! Você sabe como nunca tive um tempo com ela, — Ele começou a lacrimejar. — O emprego dela faz com que ela fique meses fora de casa!

— O emprego dela é difícil! — Retrucou Zarita.

— Eu... eu só quero ter uma mãe, é pedir demais Zarita? — A memória sumiu, deixando um rombo preto na sala.

— E então... — A loira ria baixo. — O que você me diz?

— Ele, ele... — Ela estava certa, eu já sabia como ia julgar ele. — Não posso acreditar nisso...

— Agora só tem mais uma coisa para você fazer! — A loira gargalhava enquanto pulava pela mesa, fazendo o cenário desaparecer lentamente.

— Eu já sei.

— Uma última coisa, — Faltava um pulo para o cenário se acabar. — O nome dele é...

Me vi retirando a espada do peito do ruivo, agora sem cabelo, a tirei, comecei a deixa-la estática em minha mão, Rashid logo notou que eu estava fazendo, ele pulou para cima de meu braço, tentando me fazer mexer, mas fiquei imóvel, mesmo com a força enorme de Rashid, eu aquentei até a luz laranja sair totalmente da minha lâmina.

— Jerome Del Varra, julgado.

Notas finais
Espero que eu não demore mais um ano para publicar o próximo capítulo!