O juiz de vidas

2 Primeira Alma: Issabelly Henry


Notas iniciais
Meu primeiro capítulo, praticamente mostrando como o livro é

Gritei quase que por um minuto seguido, mas fiquei sem fôlego, comecei a sentir meu coração palpitar, senti que estava tendo um infarto.

— Ben... Você está bem?! – Kin perguntou se mostrando um pouco preocupada.

— Como... – comecei a falar lentamente, tentado recobrar a respiração – Isso... É possível?

— Se acalme. – Kin suavizou sua voz para me acalmar. – É normal ficar assustado, mas não pode ficar gritando para sempre.

Acalmei-me. Comecei a olhar onde eu estava, era uma selva, com árvores enormes, alguns pássaros e outros animais olharam para trás e vi uma casa um pouco humilde, tinha paredes brancas e um pouco rachadas, uma porta de madeira e um telhado de tijolos.

— Quem mora ali? – Perguntei.

A Kin até abriu a boca para responder, mas não foi necessário, vi a velha saindo da casa, com um celular flip, falando com alguém, melhor, gritando com alguém:

— Como assim não pode vir?! – A velha estava com a testa franzida, exalando raiva, gritando, com o celular. – Diga para eles pegarem um ônibus! Como assim em dez minutos? Ahhh...

A velha fechou o celular com muita raiva, olhou para mim e para Kin, se acalmou um pouco e perguntou:

— O que foi aquele grito?

— Era só o Ben praticando Bungee Jump. – Respondeu Kin para ela.

— Por acaso você não explicou nada para ele, não é?

— Só falei nosso trabalho...

— Explicou o motivo?

— Não...

A velha olhou para mim, deu uma respirada, sentou-se no chão sem se importar com a grama, e começou a me explicar:

— Seu trabalho é pegar as almas das pessoas, julgá-las e assim serão levadas para a reencarnação, pessoas que foram boas renascem novamente como pessoas, e as que foram ruins renascem como animais, para depois terem uma chance de se tornar humanos novamente.

A velha deu uma pausa, até poderia estar assustado, mas tanto eu quando a Kin estávamos intrigados, a velha sentou no chão sem mais nem menos, pelo menos poderíamos entrar na casa, então Kin tomou coragem e perguntou:

— Ei velha... Por que não entramos em casa, você está sentada no chão, já tem insetos em você...

— Melhor não. – Disse a velha sem hesitar. – Não tenho tempo suficiente para convidá-lo para entrar, nem para oferecer nada... Logo “ele” irá chegar.

Senti que Kin ia perguntar quem era “ele”, mas por algum motivo, ficou calada para a velha voltar a falar e sentou no chão junto a nós.

— Ahh... – Comecei a falar ainda meio tímido. – Eu estou com uma dúvida, por quê? Por que estou aqui? Por que eu?

— Não se ache especial – Falou a velha. – Na verdade deve ter sido azar... Você simplesmente não teve sua alma julgada, então não sabia como te reencarnar. Se isso acontece, você vira um juiz das almas.

— Melhor dizendo um ceifador de almas. – Comentou Kin.

— E o que ganho com isso? – Perguntei já me habituando com a situação. – Tipo, isso vai ser para sempre, vai ser um castigo para mim por eu não ser julgado?

— Não. – A velha começou a me responder sem mudar o tom de voz. – Com o tempo, e um número certo de almas julgadas, você poderá ir para a próxima fase da existência, popularmente chamado de paraíso.

Comecei a ficar calmo e até ter um pouco de felicidade em mim, ir para o paraíso, quem nunca sonhou ir para lá, até que Kin decidiu acabar com minha felicidade:

— Agora conte a ele. – Indagou Kin. – Quantas almas são necessárias para que você vá para o “paraíso”?

— Bom... O número varia... – A velha ficou meio sem jeito. – Pode ser de algumas centenas, até algumas centenas de milhares...

— Centenas de milhares? – Exclamei, pensando quando tempo isso levaria para ser feito e perdendo a alegria que nascera em mim.

— Se acalme. – a velha voltou a falar ainda sem jeito. – Você não vai envelhecer nem morrer, então para que ter pressa?

A velha notou que tanto eu quando Kin ficamos quietos e melancólicos, pensando no que seria de nós daqui a cem ou duzentos anos, ela torceu para que algo quebrasse aquela bolsa de depressão que ali havia.

— Olá a todos! – Ouviu-se uma voz masculina vindo da casa.

Logo se viu um homem alto, de pele morena e com cabelo raspado, usava uma camisa de turista em Miami, parecendo àqueles tios chatos que ficam de enchendo a paciência nas festas de fim de ano.

— Ah! – Exclamou a velha levantando-se do chão. – Fabizinho! Você chegou na hora certa!

Logo ela correu até ele e deu um abraço, então perguntei para Kin quem era ele.

— Também não sei. – Respondeu. – Estou aqui há uma semana e nunca tinha visto esse cara.

— Esse é o novo grupo? – Perguntou aquele homem.

— Exato. – Falou a velha. – A mulher se chama Kin e o homem Benjamim.

Logo ele se aproximou de nós, e se apresentou:

— Olá, me chamo Fabio e eu serei o seu guia!

— Guia? – Tanto eu quando a Kin exclamamos ao mesmo tempo, com dúvida.

— Sim. – Falou Fabio com um tom de animação. – Vou mostrar como ser um juiz!

— Ele irá ensinar da forma prática de como julgar almas. – A velha cortou o Fabio e começou a explicar. – Tudo que eu disse foi nada além da teoria, entretanto só em campo vocês podem aprender como julgar almas.

— Estou animada para fazer isso. – Exclamou Kin. – Já estava esperando isso há umas duas semanas.

— Duas semanas? – Perguntei.

— Acha que é todo o dia que chega pessoas aqui? – A velha se intrometeu. – Os juízes fazem um bom trabalho!

Logo a velha parou de falar e notou o tempo que já tínhamos perdido.

— Oh não! – Exclamou olhando para Fabio. – Já está tarde – Ela virou para nós e continuou – Vão logo e aprendam como julgar uma alma.

— Ok. – Falou Fabio. – Vamos lá.

Fabio apontou para a casa, significando que era para nós entrar. Quando entramos para a casa era bem humilde, tinha uma pequena cozinha, uma geladeira e um sofá, tudo junto.

— Bom é naquela porta. – Fabio apontou para uma porta feita de madeira que não me parecia nada especial.

— Odeio quando você faz isso aqui. – Exclamou a velha com um tom de raiva, depois ela se virou para nós. – Bom está na hora de vocês irem, acho que essa pode ser a última vez que vamos nos ver por um bom tempo, adeus Kin e Benjamim.

— Adeus. – Disse.

— Ainda não entendi muito bem o que está acontecendo, mas o que faz sentido aqui? Adeus velhota. – falou Kin com seu tom de voz normal, mas o modo que ela falava dava para sentir que ela estava, no fundo, triste por deixar à velha.

— Bom – Fabio falou olhando para nós. – Vou mostrar o que posso fazer para vocês, apresento-lhes o expresso 451-208.

Logo ele abriu a porta e mostrou uma sala totalmente diferente do esperado, parecia uma cabine de trem, só que sem janelas.

— Vamos, não se acanhem, entrem. – Fabio começou a nos pedir para entrar, como se estivesse dizendo “não temos tempo a perder”.

Entramos na cabine junto a Fabio, a velha estava ainda nos olhando do lado de fora do cômodo, quase como se estivesse dizendo um adeus visual.

Fabio fechou a porta e sentimos que o vagão começara a se locomover, parecia algo tão irreal, pois aquilo deveria ser uma sala, mas era possível sentir ela se mover.

— Ei Benjamim. – Ele apontou para mim. – Pegue isso. – Ele pegou uma camiseta branca que estava jogada por lá.

— Ah, obrigado. – Coloquei a camiseta, já tinha me esquecido que estava sem camisa.

— Logo chegaremos. – Disse Fabio. – Então explicarei para vocês como é julgar uma alma na prática. – Ele olhou para nós, depois se virou para um baú, foi até ele e abriu. – Aqui estão! – Ele tirou algumas armas de lâmina, era uma adaga com uns dez centímetros e uma espada de uns trinta e cinco centímetros. – Aqui estão as suas armas, vocês as usarão para julgar.

— Como assim julgar? – Perguntou Kin estranhando.

— Vocês tem que pegar a alma de algum jeito. – Ele me deu a espada e para Kin deu a adaga. Sentimos o vagão parar. – Vocês irão ver.

Logo ele abriu a porta e nos vimos, estávamos num quarto escuro com uma janela iluminando uma pequena parte dele, tinha uma mulher por volta de seus vinte anos, morena que estava num canto, com uma maquiagem totalmente borrada, que tinha levado uma facada no braço.

— O que está acontecendo? – Exaltei-me.

— Chegamos perto do fim. – Fabio apontou para o peito esquerdo dela. – Estão vendo, bem ali no coração. – Olhando para onde o coração fica víamos uma bola azul lá. – Quando uma pessoa está com essa bola azul significa que ela está perto de morrer.

— E assim podemos julgá-la? – Perguntou Kin.

— Bom, temos que esperar que a alma fique laranja, nessa hora nós ceifamos. – Então ele apontou para a bola azul. – Quando mais perto da morte a pessoa estiver mais forte emitirá um cheiro que nos ajudará, a saber, o momento exato da morte.

Dava para sentir um cheiro forte adocicado, parecia que estava na frente de um pote de mel.

— Ela já parece morta. – Exclamou Kin olhando para a mulher que estava a sangrar até a morte.

— Bom, está quase lá. – Respondeu Fabio.

Logo ouvimos um bater na porta, eu e Kin ficamos assustados pensando que era a polícia, e que seria impossível explicar aquilo.

— Se acalmem. – Fabio disse. – Ninguém pode nos ver a menos que direcionemos a palavra a eles, se não falarmos com eles, nós seremos praticamente invisíveis.

Tanto eu quando Kin estranhamos aquilo, mas já estávamos nos acostumando com coisas estranhas.

Um homem estranho entrou pela porta, parecia desesperado, olhou em volta e viu aquela mulher, então falou com um tom de felicidade.

— Te achei querida!

Quando ouviu isso a mulher abriu os olhos com uma expressão de medo, gritou e se levantou com muita dificuldade.

— Por favor, Kenny! Deixe-me em paz!

Ele agiu como se não tivesse ouvido, então começou a se aproximar dela, ele tinha seu olhar fixado nela, ela estava tremendo e parecia sem forças, entretanto ela conseguiu pegar impulso e se jogar pela janela, quebrando o vidro e ficando com cortes feios.

— ISSABELLY! – Gritou Kenny, logo ele foi para a janela e pulou também.

— Vamos. – Disse Fabio. – Quando a alma dela ficar laranja só teremos alguns segundos.

— Que? Vamos ter que seguir eles? – Reclamou Kin.

— Sim, vamos logo.

Nós seguimos Fabio pela janela e vimos que tanto Kenny quanto Issabelly estavam correndo bem rápido, logo começamos a correr também, tentando compensar a diferença.

— Ótimo, agora vou ter que correr. – Comentou Kin com sua cara enjoada de sempre.

Logo chegamos onde os dois estavam, Issabelly estava caída no chão tinha levado uma facada no peito, e Kenny estava perto dela sorrindo.

— Rápido! – Exclamou Fabio apontando para a bola azul no peito dela, que em um instante depois ficou laranja.

Fabio correu para o corpo dela e com uma pequena faca acertou a bola laranja.

— Bom, é assim que se julga uma alma. – Fabio levantou sua faca e apontou para nós – Vocês julgam vendo o passado da pessoa, assim definindo por suas ações o que ela deverá ser na próxima vida.

Do nada vi Kin cair, estranhei, mas depois comecei a sentir uma forte dor de cabeça e também cai no chão, por alguns segundos tudo ficou escuro, e então comecei a ver coisas.

Primeiro vi uma jovem garota, num cômodo com paredes rachadas, tinha uma mesa de madeira velha e algumas cadeiras velhas, estava ela em pé olhando para um homem que parecia cansado sentado escrevendo num papel.

— Papai, papai! – Falou a garotinha. – Como é que se escreve serviço?

Logo o homem olhou para o papel e começou a escrever.

— Assim filha. – Falou o homem. – S-E-R-V-I-S-S-O. – Estava errado, achava que ele sabia que estava errado, mas não sabia o que.

Logo uma mulher entrou com uma panela grande.

— Chegou o jantar. – Falou a mulher com um tom de tristeza, mas forçava para parecer alegre.

— Mamãe! Mamãe! O papai está me ensinando a escrever. – A garota pegou a folha e mostrou para a mãe.

— Ora Issabelly, serviço está escrito errado... – A mãe provavelmente não se importava com isso.

“Issabelly”? A menina era realmente parecida com aquela mulher a beira da morte, mas não poderia ser ela, entretanto olhei para as poucas e desgastadas decorações da casa, não era algo da atualidade, provavelmente era enfeites dos anos oitenta ou noventa, antes que eu pudesse achar uma explicação, eles voltaram a falar quando a mãe colocou a comida.

— De novo sopa de ervilha? – Reclamou a filha. – Já é a segunda semana...

— Ah filha, você tem que entender que em épocas como essa não podemos gastar muito. – Respondeu a mãe segurando o choro.

— Eu quero comida de verdade! – Gritou Issabelly batendo na mesa.

— Filha se acalme! – O pai e a mãe dela tentaram acalmá-la.

— Eu quero comida! Eu quero comida! Eu quero comi – Ela continuou a gritar até que o pai dela deu-lhe um tapa na cara.

Issabelly ficou algum tempo imóvel, então veio olhar ao pai e começou a chorar, não como uma criança qualquer que chora alto, as lágrimas escorreram por seu rosto, deu-se para ouvir um pequenos granidos vindo da boca dela, então ela disse:

— Por quê? Por que eu não nasci em uma família rica?

Logo tudo ficou escuro novamente, então vi uma adolescente, que pelo rosto sabia que era Issabelly, ela estava saindo da mesma casa do que na ultima, eu estava na rua, pude ver que era um lugar bem miserável, consegui ouvi-la dizer um “tchau” para alguém dentro da casa, provavelmente seus pais.

— Vou para uma festa com algumas amigas. – Issabelly olhou para dentro como se fosse quase um pedido de ajuda.

Ela saiu de casa, correu para o outro lado da rua onde havia um carro, a porta se abriu e deu pra ver algumas garotas.

— Entra logo, estamos perdendo tempo Issa! – Falou uma das garotas dentro carro.

— Ok. – Respondeu Issabelly com um tom meio desanimado.

Dentro do carro, estava Issabelly e mais três garotas uma no banco de trás com Issabelly, na frente estava outras duas garotas, uma delas tinha cabelos loiros lindos que brilhavam por causa da luz da rua.

— Issa... – Começou a falar a garota ao lado dela. – Por que você mora por aqui? É um lugar muito perigoso da cidade, sempre temos medo quando estamos vindo para cá de buscar.

— Pare de falar isso Sara, é falta de educação. – A loira do banco da frente olhou para trás e deu uma bronca para Sara.

— Qual é? Se a família dela tivesse mais dinheiro pode... – Antes de Sara terminar, notará o clima que tinha criado, então parou de falar para não marcar aquela noite com um papo tão triste.

— Bom. – Issabelly tomou a palavra. – Minha família trabalha muito, mas ainda é pouco, por isso acho que não é vergonha alguma morar aqui.

— Ninguém disse que era vergonhoso morar aqui. – Sara olhou para Issabelly de modo preocupado. – E já que sua família não tem dinheiro que tal você ajudar eles trabalhando?

— Eu já tentei trabalhar antes. – Issabelly sentiu-se pressionada entre as amigas, que já estavam no carro há alguns minutos e ele nem começara a se mover, como se o tempo estivesse sufocando ela. – Mas sempre nos empregos preferem pessoas experientes e com diplomas, e eu ainda estou cursando o terceiro ano do ensino médio numa escola pública.

— Bom, talvez a Rosa possa de arranjar um bico. – Todas olharam para a loira que olhou para Issabelly.

— Uh... – Rosa estava pensando sobre isso. – Bom, eu conheço um cara, Kenny, que pode te ajudar...

Logo tudo ficou preto novamente, mas dessa vez foi bem mais rápido, quando vi já estava numa boate, demorei um pouco para localizar a Issabelly, mas lá estava ela, num canto, com a rosa e um cara com um rosto até familiar. Tinha várias pessoas na boate e por causa do barulho não consegui ouvir o que eles estavam falando, tentei alcançá-los, mas Issabelly e o homem misterioso entraram numa porta perto do canto onde eles estavam.

Não consegui entender muito bem, mas logo, me vi novamente na imensidão preta, por um tempo ficou assim, até que literalmente cai num restaurante, mais especificamente numa mesa de lá, tinha feito muito barulho, mas ninguém mal olhou para mim.

Então a encontrei, Issabelly estava lá, só que muito diferente do que antes, estava com uma maquiagem exuberante, fazendo que sua beleza fosse respaldada, bem mais magra e com uma roupa mais formal, percebi que ela estava com um cara, ele tinha uma cara de gente boa, cabelos cacheados e um pouco gordo, quase como uma barriga de shop. Tentei ouvir o que eles estavam conversando, mas não consegui, então decidi me arriscar e chegar mais perto, fui para a mesa ao lado da deles, no qual estava vazia.

— Então você é médico? – Consegui ouvir Issabelly falar.

— Bom, dentista, não é bem medicina. – Aquele homem respondeu com um olhar descontraído.

Dava para sentir o clima no ar, ele estava apaixonado pela Issabelly, e poderia dizer o mesmo de Issabelly, aquilo era um encontro romântico perfeito, aquele restaurante mesmo com alguns pratos meios caros, parecia que tudo lá era perfeito, os garçons eram respeitosos, tinha música clássica ao vivo, várias decorações românticas e casais felizes namorando.

Logo achei que tudo estava perfeito, até que o olhar de Issabelly mudou e fixou-se numa janela do restaurante, logo ela pegou o guardanapo e limpou sua boca, pediu licença para o companheiro e se dirigiu para fora do restaurante, eu a segui. Lá fora estava aquele mesmo homem que na boate, parecia um pouco mais acabado e furioso.

— O que está fazendo aqui?! – Gritou Issabelly se aproximando daquele homem. – Eu já disse, não vou mais trabalhar para você!

— Issabelly preciso de você! – Aquele homem estava desesperado por ela, ofegando como se tivesse corrido uma maratona. – Você não sabe como eu passei esses últimos dias sem você, por favor, volte para mim... Eu te pago o dobro... Não! O triplo!

— Saia daqui seu tarado! – Ele tentou chegar mais perto dela, entretanto ela recuou e gritou. – Não serei mais sua garota de programa! Agora encontrei alguém que eu amo! Ele é educado, rico, lindo, uma boa pessoa e alguém de valores! E você? Você é só riquinho de merda tarado!

— Por favor, pare de dizer isso! – O homem estava chorando como uma criança que acabou de derrubar seu sorvete no chão. – Nós nos amamos...

— Não, você me ama, eu só amava o dinheiro, era necessário para minha família, mas agora que meu novo namorado é rico finalmente posso parar de transar com você.

— Nós nos amamos... – Aquele cara enfiou a mão no bolso e tirou uma faca. – Nós nos amamos!

— Ei! Kenny largue essa faca! Por favor! – Ela estremeceu e começou a recuar.

— Amor! – Ele gritou e avançou para ela, com a faca apontada para o peito dela, mas antes que ele pudesse acertá-la ela deu um chute no joelho dele, que a vez cair, então aproveitou a chance e correu de volta para a o restaurante, antes que pudesse entrar e pedir ajuda, saiu de lá o homem que ela estava acompanhada, ele a segurou pelos ombros e perguntou.

— Querida, o que está acontecen... – Antes que ele pudesse terminar a frase, sentiu algo nas suas costas, começou a balbuciar e caiu no chão, com suas costas cheias de sangue e seu terno fino estragado. Atrás dele estava Kenny, com sangue fresco na faca.

— Ahhh! – Issabelly gritou e saiu correndo pela rua, não sabendo aonde ir, correu para frente por uns dez minutos, então parou numa esquina já em outro bairro, olhou para traz e viu Kenny correndo em direção dela com a faca. – Pare com isso! – Então ela voltou a correr, estava perto da casa de seus pais então decidiu ir para lá.

Com muita dificuldade chegou à rua da casa em poucos minutos, estava cansada e mal conseguia correr, gritará socorro enquanto corria, mas ninguém a ajudará, ela parou num muro e se encostou nele, por um segundo pensou que estava segura, mas surpreendida tomou uma facada no braço esquerdo, levou um choque de adrenalina com isso e saiu correndo como nunca correrá antes, já estava escuro e aquela rua não tinha iluminação, por isso conseguiu entrar na casa sem ser vista por ele.

Pensará que estava segura com seus pais, mas na casa não havia ninguém, não sabia o motivo, pois seus pais não eram acostumados a sair. Assim em desespero e cansada de correr, decidiu descansar ali mesmo e desistir, não conseguiu nem chegar ao sofá de tão fraca que estava, tinha perdido muito sangue, então decidiu ficar perto da porta, num canto da sala.

— Ah! – Disse. – Então é isso, nesse momento que nós chegamos. – Estava revendo tudo, praticamente como um flashback, então alguns momentos depois estava lá, Kenny entrou gritando como da ultima vez, também pularam pela janela novamente correram para o local onde Issabelly levaria a facada, e assim aconteceu, eu estava lá de novo a olhar para o corpo de Issabelly no chão, então tive outra dor de cabeça, mais intensa que as outras, cai no chão e fechei os olhos de tanta dor, até cheguei a gritar, mas logo passou.

Abri os olhos e vi Kin e Fabio, Kin estava jogada no chão igual a mim, chorando lentamente, se remoendo por dentro.

— Bom. – Começou a falar Fabio. – É assim que se julga, você vê os momentos mais importantes e mais marcantes da pessoa, então baseado na ética humana deverá ver se essa pessoa foi uma boa pessoa ou não. – Então ele mostrou a sua faca, ela estava alaranjada. – Aqui fica a alma da pessoa, aquela bola laranja, quando ela estivar aqui você deverá decidir, se ela foi uma boa pessoa você deverá chacoalhar sua arma, mas se ela for uma má pessoa você deverá esperar alguns segundos imóveis, assim se a alma for julgada como boa você terá mais chance de se reencarnar em um humano, mas caso sua alma ser julgada como má ela terá menos chances de reencarnar como um humano.

— O quê? – Perguntei para o Fabio, isso era muito real, senti uma pena dela, ver o corpo dela ali caído, e aquele maníaco olhando para ele. Mas tanto eu quando Kin no fundo entendemos, fora isso que perdemos na morte, nossa humanidade, de vivermos em sociedade, de ter problemas como os dela, de temer a morte.

— De agora em diante vocês terão que fazer isso. – Fabio estava apressado, pois aquilo já tinha durado tempo demais, olhou para a faca dele, e deixou parada para por alguns segundos até o alaranjado sumir, lentamente. – Issabelly Henry, julgada.

Notas finais
Espero que tenham gostado :3