O jogo do deus
3 E destruímos o Refeitório
Notas iniciais
Quem negasse que o dragão tinha sido ideia de Dionísio estaria absolutamente errado.
Os filhos de Hefesto haviam dado conta de pelo menos um pouco das tochas apagadas, deixando o cenário ainda mais fantasmagórico que antes. Claro, o que seria mais impressionante e divertido do que um grupo de adolescentes com pele roxa e metades de armaduras vestidas lutando contra um dragão no meio da noite? Talvez nem cookies pudessem superar isso, certo?
O dragão pisoteava qualquer um que aparecesse, dispersando os campistas de um lado ao outro. Poucas foram as vezes em que ele cuspiu fogo para tentar atingi-los. O ar agora se tornava abafado, e a adrenalina de tantas pessoas juntas num só lugar piorava clima.
As coisas só pioraram mais ainda quando o gigante entrou realmente no refeitório. As lajotas de pedra polida se espatifaram 4 vezes com a pisada de suas imensas garras, e os campistas conseguiram finalmente ver com quem estavam se enfrentando.
A criatura parecia infinita. Suas garras dava o tamanho de um semideus acima do outro, e eram afiadíssimas. Sua pelagem era um vermelho doentio, e as escamas tinham uma mistura de preto e verde, que pareciam mais grossas e extensas do que eles nunca haviam visto. Duas ocultas asas estavam interligadas entre as escamas, apenas esperando para serem abertas. Seu olhar vermelho e maldoso era ainda oculto pelas sombras, mas os campistas realmente davam por entender que não era uma boa ideia olhar para os tais.
– Isso não é um Draken. – murmurou Mellanie. – Pelo menos eu acho, eles não tem esse tipo de pele. – ela engoliu em seco e preparou sua espada. – Mas podemos tentar alguma coisa.
– É claro que podemos. – riu-se Katherine. Então ela deu uma olhada para Louyse como se já tivessem um plano armado para aquilo.
– Atacar! – gritou a pequena filha de Ares com armas a postos, e não só o grupo como todos os campistas espalhados pelo refeitório avançaram contra a criatura, praticamente a encurralando.
–-------------------------- X -----------------------
Eles já estavam a ponto de desistir. A quanto tempo as tentativas de acertar o monstro já ocorriam? As espadas batiam inofensivamente em cada escama, assim como as flechas ricocheteavam na criatura e caiam duramente no chão, mais tarde as mesmas eram pisoteadas pelo dragão... e tudo voltava ao começo.
O problema é que quem sofria as consequências não eram os campistas... e sim o refeitório. Uma das mesas estava partida ao meio, e as outras haviam sido lançadas para longe, assim como o piso estava sendo massacrado de pouco a pouco.
Alguns campistas estavam feridos, sendo cuidados pelos filhos de Apolo, que tiveram a brilhante ideia de agrupar as mesas distantes para um pequeno forte de primeiros-socorros. Uma garota havia sido lançada pelos ares e agora estava desacordada, com um imenso ferimento nas costas. O número de machucados só vinha aumentando aos outros. Eles não tinham como vencer um dragão daquele tipo desconhecido com essas armas, precisavam arranjar um plano, e rápido.
Então a cabeça de Andrew se iluminou.
– Galera! – ele gritou, balançando os braços. – Recuem! Apenas os que ainda estão ilesos, continuem distraindo o grandão! – então correu na direção oposta do dragão, chamando os outros para se aproximarem. – Vocês não veem? É a primeira prova do Sr.D. Temos que trabalhar juntos e escutar uns aos outros para vencer o dragão, assim como não podemos deixar a coisa destruir o acampamento. – ele bagunçou seus cabelos.
– Ok. – concordou Ralf. – E você pelo menos tem alguma ideia?
Andrew ficou pensativo como todos os outros na pequena aglomeração.
– Eu acho que sei. – disse uma voz recém-chegada no grupo. Era uma garota baixa e que tinha um sorriso enérgico no rosto. Alice, uma filha de Hermes tão persistente quanto sua irmã Katherine.
– Então diga, oras. – murmura Mellanie, apressada. – Não temos o dia todo.
Alice tossiu. – Bem, é claro que não vamos conseguir matá-lo com espadas ou flechas, já entendemos isso... – ela suspirou. – Ele tem proteção por fora. Mas será que tem por dentro? – então deu um sorriso travesso.
Andrew riu.
– Genial! – diz ele, trocando um soquinho amigável com Alice. – Ok, filhas... e filhos de Hermes, vocês vão ter uma grande responsabilidade agora. Façam o que sabem de melhor para humilhar o dragão.
Alice e Katherine trocaram olhares confusos, mas então pareceram ter a mesma ideia no mesmo segundo.
– Certo! – Katherine se levantou, assobiando para que seus irmãos a seguissem. O grupo de seis seguiu na direção da floresta e desapareceu nas sombras.
– Quanto a nós. – Andrew encarou Ralf. – Vamos dar uma passadinha rápida nas forjas e pegar um presente especial para o dragão. – ele respirou fundo e encarou os outros. — Pressionem ele. Tentem levar para a floresta, qualquer coisa... mas afastem ele do refeitório. – Então seguiu na direção da trilha dos chalés com Ralf.
Mellanie ajeitou seus cachos castanhos, tomou fôlego e começou a correr na direção do imenso dragão. Ela ergueu sua espada e fez uma prece silenciosa para sua mãe, Íris, desejando que nada desse errado. Um intenso brilho atingiu a espada e cintilou nas sete cores do arco-íris. Ela apontou a espada para a criatura enquanto mandava os outros se dispersassem em vários lados.
O brilho chamou a atenção do dragão, claro, e ele ficou encarando Mellanie maldosamente.
– Sabe o que eu acho, Sr. Dragão? – ela encarava apenas sua lâmina, não a criatura. — Sua mãe deve ser tão feia que as suas escamas tentaram fugir daquele corpo bizarro dela! – a garota debochou do monstro, que rosnou. Ele teria mesmo entendido a ofensa?
O peito do dragão inflou e pareceu chamuscar. Uma rajada de chamas foi disparada freneticamente na direção de Mellanie. Felizmente ela já estava bem longe do ponto em que o fogo acertou. Na verdade se encontrava atrás do dragão, rindo. – Vejo como você é ágil, grandão! Mas não tão rápido pra mim. Por favor, você parece uma lesma.
Ele se preparava para virar até a garota novamente, mas então outra voz ecoou, dessa vez masculina.
– Seu cheiro é tão ruim que o refeitório começou a desmoronar sozinho só pra você não pisar nele com esse chulé, cara!. – disse Fred, de braços cruzados. Ele sorriu, brincalhão. Seus fios brancos eram desafiadores na brisa gelada. Ele tomou impulso com os braços e saiu do chão. Planou abertamente na direção da cara do dragão, acertando-lhe com a espada no focinho. O dragão urrou de dor, e tentou abocanhá-lo, o que quase teria funcionado se Fred não tivesse controlado mais rajadas de ar na direção da criatura, afastando-os um do outro.
O monstro cambaleou para trás, na direção... de Mellanie. Ela correu pela extensão do corpo do dragão antes que ele pudesse esmagá-la com seu peso, e aproveitou para tentar causar ainda mais dor. Aprofundou rapidamente sua espada entre as brechas de escamas do dragão. A criatura voltou a rugir, e então disparou mais fogo para os céus, o que talvez tenha sido quem querer.
Fred voltou ao chão. – Aquilo foi pra ele aprender a não rosnar para um filho de Éolo...
– Você é tão genial quando Alice! – disse Kaya, que estivera sumida todo esse tempo por alguma razão. – O focinho dele é o mais sensível, então... – os olhos dela brilharam com a ideia. – Mellanie, chame o melhor arqueiro do chalé 7, e mande ele pegar as flechas especiais, e depois...
– Eu conduzo o pégaso e ele atira? – a filha de Íris piscou para Kaya, entendendo perfeitamente o plano. – Lembre-se, continue levando o grandão para a floresta! – Kaya concordou, mandando-a continuar o caminho até os garotos de Apolo.
–----------------------- X -------------------
Andrew e Ralf estavam retornando a floresta quando de repente veem algumas filhas de Deméter e de Afrodite correndo na direção oposta, indo para o acampamento.
– Ei! o que vocês estão fazendo? Precisamos de ajuda – diz Ralf, incrédulo com a covardia das garotas.
– Não dá! Ele é muito forte e somos poucos pra tudo aquilo! – diz uma delas, que usava um laço nos fios claros e delicados.
– Ah lindinha, não vamos mais precisar de quantidade pra conseguir vencer ele. – Andrew dá uma piscada para ela. – Não tendo isso em mãos. – Ele enfia a palma no bolso, então retira um pequeno frasco, com um líquido esverdeado e brilhoso adentre.
As garotas ficam confusas. – Você quer matar ele com perfume? – pergunta bobamente uma de Afrodite.
Andrew começa a rir descontroladamente, e Ralf dá um empurrão no amigo. – Vamos cara, não podemos perder tempo com elas. Foco, foco!
– Certo, certo. – Andrew respira fundo. – Fred, onde está Fred? Preciso dele.
Eles caminham pela multidão de semideuses até encontrar o garoto pálido. Ele ajeita seu busto da armadura e encara a chegada dos dois. – Ahm... posso ajudar?
– Ok, eu sei que vai parece ridículo. – Andrew murmura, segurando o frasco delicadamente. – Mas preciso que você tente empurrar o dragão controlando o ar.
Fred encara-o fixamente por um tempo. – Cara, ele é um monstro gigante, e com asas. Como acha que meus ventos podem afugentar ele?
Ralf parece perder a esperança também, e Andrew está preparado para responder quando Alice entra na conversa.
– Porque, meu caro ‘avatar’ – ela brinca com os poderes de Fred, os comparando aos do personagem. – Se vocês tem pelo menos um pingo de confiança nos filhos de Hermes, saibam que nossas surpresinhas para o dragão já estão armadas e a postos.
Katherine também se aproxima com passadas largas, então fica pensativa no assunto.
– Ok, olhe. – Ela fica ao lado de Fred e o vira na direção do dragão. Segura seu queixo delicadamente e direciona o olhar do garoto para a floresta oculta pelas sombras, além da criatura. – Só precisa fazer ele cambalear como antes... até aquele canto. – Katherine sorri. – Já está tudo preparado. Você consegue não é?
Fred fica calado por um segundo, então gagueja. – C-claro, claro.
– Então todos já sabem o que devem faz.... – Ralf é interrompido pela tossida de Louyse.
– Queria saber como raios vocês pensam em fazer o dragão engolir o frasco. – ela suspirou.
Andrew engoliu em seco.
– Bem, quanto a isso... – ele bagunçou os cabelos, desconfortável.
– É... você não me contou o que iria fazer, cara. – Ralf notou, então encarou o amigo. – O que vai acontecer?
Ele se preparava para responder, quando um disparar brilhante zuniu dos céus e acertou o dragão furiosamente, explodindo bem no meio de seu focinho. A flecha soltou algum tipo de fumaça brilhante e clara. O dragão grunhiu, surpreso, e no momento completamente cego.
Os campistas olharam para os céus, onde um grande pégaso mesclado planava. Ele era conduzido pelo pontinho colorido que eram as roupas de Mellanie, e logo atrás dela estava um garoto loiro, musculoso e alto, que já preparava outra flecha.
– É a sua deixa! – Andrew disse apressadamente e então deu um empurrão em Fred. – Você vai conseguir, cara. – ele sorriu, o incentivando.
Fred respirou e inspirou profundamente. – Ok, mas quem não for o encarregado das armadilhas, sugiro ficar um pouco longe. – o lábio inferior dele tremeu, e então se encaminhou até perto do dragão confuso, que balançava a cabeça de um lado ao outro, rugindo desesperado.
E então ele fez. Abriu os braços, como se chamasse alguém até ele. Seus olhos foram ficando intensamente azuis, e ele levantou poucos centímetros no ar. As árvores começaram a balançar pelo seu comando. O ar parava em todo lugar, apenas obedecendo a ele, que os convocava para unirem-se em um grande furacão. Todos os campistas se afastaram a medida em que esse furacão se intensificava. Por fim Fred estava flutuando na mesma altura que o dragão minimamente cego. Ele fechou os braços, e tudo explodiu em um mísero segundo.
A criatura imensa rugiu quando tropeçou e foi levado para trás pelo vento. Aquilo o assustou, pois não conseguia chegar, e ele tombou bobamente de lado na direção da floresta. Outro um rugido depois disso, ainda mais intenso. Sangue negro começou a jorrar da criatura, em dois pontos. Um rombo havia sido aberto em sua cauda grossa, e outro corte em uma de suas imensas patas. Tudo aquilo sendo obra das armadilhas perigosas dos filhos de Hermes.
– Agradeço os filhos de Hefesto pelo ferro da armadilha depois. – riu-se Alice para Andrew, que assentiu, ainda desconfortável.
Fred tocou o chão, ficando parado por um segundo. Depois despencou desacordado no solo. Katherine correu até ele e o levantou, apoiando-o em um dos braços. – Foi incrível. – disse ela sorridente, o arrastando na direção dos filhos de Apolo curandeiros.
Então foi a vez de Andrew entrar no plano. Ele deu um passo a frente, quando Mellanie aterrissou com o pégaso a sua frente. Sua ideia antiga desapareceu e ele teve uma nova.
Andrew tocou o pescoço do pégaso, então observou o filho de Apolo descendo do animal e voltando até seus irmãos. O filho de Hefesto encarou a de Íris. – Pode me dar uma carona? – ele perguntou.
– Depende pra onde – ela deu de ombros, ajeitando seus cachos castanhos. Andrew encarou o dragão que já havia se levantado, e então Mellanie arregalou os olhos. – Ah não, você não vai querer que eu te leve até...
– Estou confiando totalmente nas suas habilidades com a equitação. TOTALMENTE. A única coisa que precisa fazer... é que quando ver que o frasco desaparecer de minhas mãos, tem que... tentar me pegar no pégaso e nos levar para longe.
– Eu iria estar me arriscando perigosamente assim. – murmurou ela. – Mas é um jeito bom de acabar com um dragão. – ela estendeu a mão para que ele montasse.
–------------- X ------------
– Vão, vão, vão! — ordenava a conselheira do chalé de Ares, Alicia. – Posição! Atacar! – todos eles avançaram na pata ferida do dragão, deixando-o ainda mais irritado.
– Alicia, veja! – aponta Louyse para o céu, onde o pégaso sobrevoava a cabeça do dragão. – Ele vai jogar o frasco na boca do dragão. Precisamos sair.
Alicia retirou sua lança da pata do dragão e recuou, encarando Louyse. – Acho que tem razão. – jogou seus fios ruivos para trás. – Retirar, irmãos! – e todos eles se afastaram da criatura.
– Um... dois... – Mellanie contou, fazendo o pégaso se aproximar em uma descida perigosa na direção do dragão.
– Três! – Andrew disse enquanto descia em queda livre e aterrissava no pescoço do dragão. Agarrou-se a suas grossas escamas, e escalou de pouco a pouco.
– Ei, grandão! – chamou Mellanie lá do alto, tendo a atenção do dragão. – Aqui! Não consegue nos acertar! – e então voou em círculos pela cabeça da criatura. Sua garganta inflou como antes, preparado para soltar fogo.
Todo o corpo do dragão tremeu quando o fogo foi disparado pela primeira vez, acertando apenas o ar. Andrew quase perdeu o equilíbrio. Então voltou a escalar, com mais vontade ainda. E pronto, ele estava na cabeça do dragão, segurando suas escamas.
– Lagarta lerda! – zombou Mellanie. A segunda parede de chamas foi disparada, sem acertar o alvo.
Então Andrew ficou de pé entre as escamas. Destampou o frasco do fogo grego com cuidado... quando o dragão se virou para seguir Mellanie. Andrew sentiu o frasco escapando de suas mãos. Se aquilo caísse ali, nada restaria dele além de poeira. Então ele deu um peteleco no ar. O frasco mudou seu rumo, não mais caindo, e sim passando diretamente entre os dentes do dragão. A terceira disparada de chamas estava prestes a sair quando o fogo do frasco se chocou contra ela.
Andrew voou, e tudo explodiu numa fusão negra, esverdeada e avermelhada.
Fale com o autor