O jogo
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu estava no lugar errado e na hora errada. Era o dia de excursão na escola. Eu não queria ir, mas minha mãe praticamente me obrigou a participar.
E lá estava eu entrando no ônibus de viagem. Eu nem sabia para onde iríamos e, pra falar a verdade, nem estava afim de saber. Subi no ônibus de dois andares e sentei perto da janela, não muito no fundo, mas nem tanto na frente. Vi os outros alunos entrarem depois de mim. Todas as turmas da manhã do segundo ano do Ensino Médio estavam no mesmo ônibus e as turmas da tarde ficaram em outro.
Quando o onibus já estava quase cheio, uma garota de cabelos curtos e pretos se sentou ao meu lado. Eu não a conhecia. O ônibus entrou em movimento logo em seguida. Encostei a cabeça na janela, tedioso.
Era oito da manhã de um domingo. O que eu não faria para estar em casa... Um professor ficou de pé no corredor e pronunciou alguns avisos que eu não me dei o trabalho de ouvir. Depois de meia hora eu já estava quase dormindo. E teria dormindo se a garota do meu lado não tivesse dado um grito enlouquecido.
-UEAUHHH!!!!!
Foi o que eu ouvi, só não soube o porquê da euforia. Algumas outras garotas e garotos se amontoaram ao redor do assento da garota de cabelo curto. Eu não me importaria com isso se eu não estivesse sentado perdo da bagunça.
O grupinho começou uma conversa sobre um tal de Jordan. Eu sabia quem era Jordan, era da minha turma. As meninas diziam que ele era bonito e gostoso (eu não achava), e os garotos falavam que ele era um idiota.
Passei as três horas de viagem ouvindo conversas fúteis dos adolescentes do meu lado. A menina de cabelos curtos parecia estar surtando a cada segundo. Tinha momentos em que ela gargalhava de forma demoníaca.
— E aí, garoto — ela falou comigo em um dos seus momentos de euforia generalizada. — Qual o seu nome?
— É... — Me senti acanhado.- Jorge Lucas.
Ela deu outra gargalhada.
— Parece nome de cantor sertanejo. Por que você não se enturma?
Porque tem um bando de loucos idiotas do meu lado?, esclareci para mim mesmo.
— Meus amigos estão no outro ônibus.
De fato, a maioria das pessoas que eu conhecia estavam no ônibus dos alunos da tarde. Eu estudava a tarde, mas passei esse ano para a manhã e ainda não tinha me enturmado tanto.
Virei o rosto para o outro lado para evitar qualquer tipo de comunicação com as pessoas que me rodeavam.
Quando eu pensei que a situação não poderia piorar, alguém colocou para tocar em último volume uma música que eu odiava. Já fazia horas que o professor havia dito que estávamos chegando, mas ainda não tínhamos chegado a lugar nenhum!
Tirei o olhar da janela e voltei minha atenção para o outro lado. Tentei evitar focalizar o olhar naquele bando de jovens loucos e enxerguei uma garota sentada sozinha no outro lado do corredor também na direção da janela. Segurava um celular no qual mexia nervosamente; em seus ouvidos pendia os fones de ouvido.
Eu não a conhecia, mas daria de tudo para estar sentado ao seu lado em vez de estar aqui no meio desses desmiolados.
Seu rosto se escondia sob um chapéu amarelo. Seus cabelos caíam em ondas sobre seus ombros, eram de um castanho bem escuro. Era bonito.
Parei de observá-la quando a garota do meu lado deu um outro grito. Suspirei para manter a calma. Olhei uma última vez para a a menina serena do outro lado. Ela me olhou no mesmo instante, mas logo voltou os olhos para seu celular. Tinha uma expressão misteriosa que me despertou interesse. Seu olhar foi tão rápido que nem consegui perceber a cor dos seus olhos.
Estava sendo divertido observar a menina do outro lado, mas o professor interrompeu minha observação anunciando que havíamos chegado a uma fazenda.
Ah, era para uma fazenda que iríamos.
A turma do barulho logo desceu e me permiti ficar mais alguns segundos recostado no assento do ônibus e desfrutar de uma breve paz.
No outro lado a garota misteriosa pareceu ter tido a mesma ideia que a minha. Em menos de um minuto, por fim, ela tirou os fones, guardou o celular e saiu. Eu também saí em seguida, mas não lhe pronunciei a palavra.
Quando desci, os alunos da tarde estavam chegando. Esperei até meus colegas do outro turno descerem para podermos nos instalar em um quarto.
***
Todos os meus amigos já haviam almoçado e estavam insistindo para eu ir comer também. Mas eu me neguei a ir até o refeitório. É claro que eu estava com fome, mas também estava revoltado. Eu não queria estsr nessa viagem então resolvi rejeitar todas as atividades propostas, até as refeições.
Saí do quarto e me sentei em um banco próximo. A maioria dos alunos estava envolvida em alguma atividade; fosse na arena de esportes, na piscina ou em grupinhos de conversas.
Varri a área da fazenda que meus olhos alcançavam, procurando-a. E a encontrei entrando no refeitório. Me levantei e a segui.
Quando adentrei a cozinha, o cheiro da comida me dominou. Meu estômago roncou alto. Resolvi comer. Peguei um prato, mas, antes de me servir, me atentei a garota que observara no ônibus. Ela se serviu de uma porção de arroz, um pedaço de carne e recheou seu prato de diversas saladas.
Coloquei em meu prato um pouco de tudo que tinha, eu estava morrendo de fome. Fiquei tentado a me sentar à mesma mesa que a garota agora que o refeitório estava quase vazio , mas acabei sentando em uma mesa próxima.
Não desgrudei os olhos dela enquando ela amarrava seu cabelo em um coque alto. Antes dela dar sua primeira colherada, seus olhos me focalizaram. Não desviei o olhar, pelo contrario, me afundei naqueles olhos verde esmeralda. Eram lindos como duas pedras preciosas.
Ela rapidamente desviou o olhar e seu rosto ruborizou de um modo fofo. Dei um sorriso para meu prato e comecei a comer.
Não desgrudei nem por um instantes os olhos da comida e, quando acabei de comer, não encontrei mais a garota de olhos esmeralda sentada à mesa. Droga! A perdi de vista!
Saí do refeitório e voltei para o quarto. Entrei no banheiro e me olhei no espelho. Meus cabelos loiros estavam partidos para o lado errado; encarei meus próprios olhos azuis lembrando dos verdes olhos da menina bonita. Saí do banheiro e fui informado que deveria formar um grupo para uma atividade ou fazê-la de forma individual. Como estava junto dos meus amigos, me juntei a eles para fazer o trabalho.
Alguns professores nos guiaram para uma área mais ampla de grama baixa e algumas árvores espalhadas. Deixei que meus amigos fizessem as anotações. Estava ocupado demais procurando uma certa pessoa para ouvir explicações do professor.
Em meio ao amontoado de alunos, a enxerguei quieta em um canto fazendo seu trabalho sozinha. Ela era tímida! Agora que a achava mais interessante ainda.
Minha participação no trabalho foi apenas escrever meu nome. Não estava interessado nessa excursão.
Minhas horas seguintes foram dedicadas a caçar a menina de chapéu amarelo com olhos atraentes.
Quando foi anunciado que deveríamos voltar para o ônibus para ir embora, subi logo atrás dela e tive a sorte de sentar ao seu lado. Dessa vez sentei próximo ao corredor e ela se encostou na janela.
Lhe lancei alguns olhares furtivos. Ela abriu um livro que não consegui ler o título. Voltou a colocar os fones e pareceu se distanciar do mundo.
Dez. Vinte. Meia hora se passou e eu nem perguntei o nome da garota. Tomei uma iniciativa ousada: lhe cutuquei e ela me olhou nos olhos. Tremi, mas consegui dizer:
— V-você pode dividir os fones comigo?
Ela piscou seria e respondeu:
— Claro.
Sua voz era suave e firme. Estremeci. Ela era realmente interessante. Peguei um dos fones e o acomodei no ouvido. Ela escutava uma musica que eu já havia escutado em algum lugar. Era um pouco agitada, mas com uma melodia bonita. Resolvi não lhe perguntar o nome da música.
A assisti fechar o livro e ligar o celular. Ela continuou lendo pelo celular e depois conectou um jogo que eu não conhecia. O objetivo era deslisar para os lados indicados. Seus dedos compridos e delicados eram ágeis e ela passava de fase com uma velocidade incrível. Era habilidosa em um jogo que eu tinha certeza que eu não conseguiria nem começar.
Seu jogo foi interrompido pelo toque do celular.
— Com licença — Ela me tirou o fone de forma educada. Ela tinha uma bela voz.
Me deleitei em suas palavras bem ditas com o pai ao telefone. Falava de forma discreta e profunda como se tivesse narrando uma história.
Ao fim da ligação, ela me devolveu os fones e continuou seu jogo. Ela o jogava com uma facilidade admirável.
— Você é muito boa nisso — comentei.
Ela me encarou e tirou o fone. Fiz o mesmo.
— Obrigada — ela agradeceu com a voz baixa.
Fiquei hipnotizado com aquele verde de seus olhos. Pisquei e desviei o olhar, ela parecia constrangida.
— Qual é seu nome? — perguntei, por fim.
— Paula. E o seu?
Ela me deu um sorriso tão lindo que até esqueci meu nome.
— É-é Jorge Lucas.
— Nome bonito. — Ela sorriu outra vez.
— Obrigado.
Paula desligou o celular e o guardou. Agora parecia interessada em conversar.
Ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha e me perguntou:
— Qual sua turma?
— 23A.
— Nunca lhe vi pela escola. Sou da 20A.
— Eu também nunca lhe enxerguei por lá. Eu estudava de tarde ano passado. Passei para manhã esse ano. Ainda não me acostumei.
— Compreendo.
Ela olhou para a janela e e contemplou a paisagem lá fora. Nossa conversa havia se encerrado.
***
Quando o ônibus parou na frente da escola, deixei Paula passar a minha frente. Levantei logo atrás dela e os alunos ficaram engatados na porta de saída. Fiquei com o corpo quase colado ao de Paula o que me deu o privilégio de sentir seu cheiro. Era suave como a flor de larangeira. Fechei os olhos, estasiado.
Descemos e Paula me deu um aceno.
— Tchau, Lucas. — Ela sorriu antes de entrar em um carro que estava parado próximo à escola.
Também não demorei muito para ir embora.
E, a noite, não conseguia tirar a menina de olhos verde esmeralda da cabeça.
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