O jardim secreto de Beatrice Lilac
1 Capítulo 1 - Aniversário
As vezes,só se aprende a amar as coisas quando elas se perdem. Logo eu que sempre achei tão cliché romantizar a perda,perdi.
Perdi a realidade como quem perde o primeiro dente de leite ou o primeiro ônibus pra escola,como se perde moedas no casaco de inverno ou até a lembrança remota do último sonho,assim do nada,ganhei o irreal e foi a melhor realidade que eu já tive.
Era maio,ano de 1971 eu June e meu irmão abarrotados no velho fusca laranja de nossa tia Beatrice rumo a sua casa em Dundee na Escócia,ela é conhecida como feiticeira,mas prefere o termo wicca,é muito famosa na cidade,mas chegaremos a isso depois. Apesar de estar sempre com uma alegria inabalável ,isso foi tirado dela a alguns dias atrás quando ela assim como nós,perdeu.
Sabe,a uma semana atrás foi nosso 16° aniversário,meu e de meu irmão James, era uma manhã de domingo em Bristol,Inglaterra. E como na maioria de nossos aniversários James pega as velhas panelas na cozinha e uma colher de metal e vai direto para meu quarto...bem,você já pode imaginar a minha alegria.
— Levanta, você é velha mas não tá morta,sai da cama — Disse James gritando tão alto quanto o barulho da panela.
Alcanço o relógio na cômoda ao lado da cama e lanço em direção a ele,naturalmente erro e enterro novamente meu rosto no travesseiro,ele sai rindo e bate a minha porta com força,hora de levantar.
É curioso como a vida prega peças na gente,e muitas vezes soa como aquelas piadas sem graça que só ela mesma ri,foi isso que aconteceu.
Eu saio do quarto e ouço James gritar por nossos pais pela casa,ele está ofegante e com os olhos arregaçados,quando chego a sala ele me segura pelos ombros e diz que nossos pais haviam sumido. De início eu achei que era mais uma de suas pegadinhas, mas enfim, não era. O carro ainda estava na garagem,suas roupas no armário,bolsa,carteiras,tudo, haviam desaparecido em pleno ar,evaporado de repente,nós perdemos.
A polícia não pode achá-los e muito menos explicar seu desaparecimento,
"Não tenho palavras para descrever tamanha desventura"
Foi descrito até,pelo chefe de polícia eventualmente,foi parar nos jornais do país como uma curiosidade de 3ª página, ironicamente as que eu adorava ler todas as manhãs. A vida prega peças.
Eu sempre fui uma amante do curioso,do inexplicável, e quando ele veio invadiu minha realidade violentamente pra tirar uma parte de mim. Minha mãe sempre dizia que eu a lembrava da nossa tia Beatrice,sim, a wicca do começo da história,ela é a nossa parente mais próxima e naturalmente vamos morar com ela enquanto investigam o desaparecimento de nossos pais, e como eu ela é uma amante do irreal,nossa tia já teve partes arrancadas dela muitas vezes,mas quando nossa mãe — irmã dela -desapareceu,foi como se tirassem seu mundo todo.
E aqui estamos nós em seu velho fusca,indo para sua casa que apenas visitamos uma ou duas vezes quando eramos pequenos,mas eu com certeza me lembro do jardim,o lendário jardim da bruxa de Dumdee,era conhecido — assim como ela — por toda a região.
Tia Beatrice é uma mulher forte,relativamente jovem,cabelos ruivos e olhos verdes, ao contrário de minha mãe que assim como eu e James temos cabelos e olhos castanhos. Sempre com um sorriso no rosto,viajou o mundo todo e conheceu todo o tipo de gente,minha mãe sempre diz que ela era mais radiante ainda quando o Tio George ainda estava vivo,eu nunca realmente soube o que aconteceu,muito menos cheguei a conhece-lo realmente,ele morreu quando tínhamos apenas 2 anos,e desde que ele se foi ela não saia muito de casa,nem ligava para nós como fazia todos os fins de semana,foi como se o mundo só valesse a pena ser visto com ele.
As vezes,só se aprende a amar as coisas quando elas se perdem. E não era nosso caso, e felizmente nunca seria,pois apesar das tamanhas desventuras que estariam por vir,sempre amamos intensamente,e mesmo naquele carro apertado na primavera gelada da escócia,sem sorrisos em nossos rostos eu e James sabíamos que assim como as perdas inusitadas vão,os ganhos inusitados vem.
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