O jardim das flores enfeitiçadas
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Mal a campainha toca, a garotada fica num frisson para sair da sala de aula.
Violeta, a mocinha de olhar destemido, cabelos castanho-claro e encaracolados, e sua amiga Nina, a ruiva rechonchuda, também organizam seus pertences em suas mochilas com pressa.
No exterior da escola, seguem o caminho juntas, pois moram perto uma da outra.
− Violeta, você vai pra mansão assombrada hoje? – O olhar perscrutador de Nina se volta à amiga.
− Sim, como toda quarta-feira, mas eu já te falei que a mansão onde Hortência vive com a tia dela, a senhora Esmena, não é assombrada. – revira os olhos, meio enfadada.
Hortência é outra vizinha e, uns meses atrás, fez amizade com Violeta.
− Ah, ela é assombrada, sim! – Súbito, a voz de Yago, igualmente amigo e vizinho, surge no meio da conversa. O loiro vem trazendo consigo o seu cachorrinho de pelo dourado, Bartho, que logo faz festa com a meninas, cheirando-as e se agitando ao seu redor.
− Não me diga que você também acredita nestes boatos sem sentido, Yago? – questiona Violeta, em tom repreensivo, enquanto segue afagando Bartho.
− Bom, acho que todo boato tem um fundo de verdade e o que dizem é que naquela mansão estão presas as almas de umas pessoas que foram enfeitiçadas pela bruxa malvada que fica escondida lá dentro, para que ninguém a veja.
− Nossa! Quanta tolice! – solta, incrédula e irônica.
De repente, todos avistam um gato preto que vem se aproximando.
− É Garrith, o gato da Hortência. – explica Violeta. − O que faz aqui, gatinho? Você está só? Onde está sua dona?
Garrith enrosca-se às pernas dela miando, irrequieto, para depois afastar-se uns metros.
− Parece que ele está chamando para acompanhá-lo. – Yago anuncia.
Assim, eles seguem Garrith e acabam parando à frente de uma grande construção residencial.
− A mansão da Bruxa!!! – Nina e Yago falam em uníssono.
− Credo, gente, deixem de medo bobo, fiquem comigo que vou provar que essa história de bruxa é mentira. – afirma Violeta, enquanto pega Garrith nos braços. – Também vou entregar esse gatinho fujão para a dona dele e, como o prometido, vou ajudá-la a cuidar das flores do jardim.
Dito isto, ela toca a sineta e aguarda. Os outros, por medo ou curiosidade, não movem um pé.
A porta é aberta por uma mulher de uma beleza extraordinária. Os cabelos negros, longos e brilhantes ressaltam os olhos esverdeados, a boca é carnuda e vermelha, a pele é clara, parecendo mais clara em contraste com o vestido preto que se cola ao seu corpo esguio.
− Olá, senhora Esmena. – Violeta cumprimenta-a educadamente.
− Violeta! Que bom vê-la, querida! Percebo que você é mesmo uma boa amiga, pois nunca deixa de honrar o acordo que fez com minha sobrinha. – Esmena sorri, receptiva.
− Para mim é um prazer, eu venho porque gosto e hoje trouxe comigo o Garrith, que encontrei perambulando na rua, e meus amigos que também estão dispostos a ajudar.
− A-Amigos?! – Esmena mostra alguma surpresa, pois só agora se dá conta da presença dos outros jovens às costas de Violeta.
Subitamente, o gato preto salta dos braços da garota para o chão e invade pela porta aberta, mas a menina apenas sorri da sua travessura e volta a encarar a bonita mulher.
− Sim, eles são tão bons ajudantes quanto eu, isso eu garanto. – atesta, confiante, piscando um olho para Nina e Yago, que sorriem amarelo, enquanto Bartho desanda a latir para Esmena.
A bela senhora abre mais a porta e cede passagem para todos.
E algo espantoso acontece, a porta fecha-se com um som igual ao de muitos trovões e as suas frestas reluzem como raios caindo de um céu chuvoso.
Abruptamente, um feixe luminoso atinge Yago, Nina e Bartho, que têm seus movimentos paralisados no ato.
Os raios e feixes de luz saem da ponta de um cajado que, como do nada, veio parar nas mãos de Esmena, que não esconde mais a sua irritação.
O olhar impiedoso se crava em Garrith.
— Gato, você é mesmo um idiota, eu disse para buscar apenas Violeta!
− Não tenho culpa se os outros também vieram, mas eu não ligo, você sabe que eu só cumpro as suas ordens perversas porque sou obrigado. – Para maior assombro dos jovens, o felino responde.
Violeta, aterrorizada, tenta fugir, mas Esmena puxa-a pelos cabelos.
− Ora vejam! A minha florzinha quer escapar. – A bruxa sorri diabolicamente, vendo-a com os olhos saltados de pavor. Com requinte de crueldade e sendo escoltada por Garrit, arrasta-a a um jardim florido, onde encontram Hortência, a jovenzinha pálida, de cabelos castanhos, que também está sob efeito paralisante, e mesmo sem poder mexer-se, exibe olhar um triste e surpreso.
− Hortência! – aos prantos, Violeta, abraça a amiga.
− Pronto, agora tenho as duas florzinhas que restam para concluir o ciclo da poderosa magia que me fará eternamente bela e jovem. – ergue o cajado e começa a pronunciar umas palavras estranhas que mais parecem sons demoníacos e guturais.
A uma distância segura, Garrit olha diretamente para Violeta.
− Você não está paralisada, Violeta, lute com ela e me entregue o cajado... Me entregue o cajado!!! – sussurra o comando, atentando-se em não ser ouvido por Esmena.
Por impulso, a garota investe sobre a bruxa que, sendo pega desprevenida, deixa cair seu cajado que voa sobrenaturalmente até Garrit. Ele o agarra com suas patas e se transforma numa bola de fogo. Segundos depois, lança sobre a bruxa má uma chama flamejante e a torna em pó.
Assim, Garrit, o gato preto, que é na verdade um gato da linhagem dos bruxos benignos, salva a todos, menos as meninas que já foram enfeitiçadas e transformadas em flores, pois uma magia feita, nunca poderá ser desfeita.
... Fim ...
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