Barulhos de passos despreocupados, descendo as escadas uma por uma. Era tão escuro que não conseguia ver o chão. Eu estava nadando, completamente, em uma escuridão infinita. Já perdi as contas de quantas vezes fiquei parada, apenas com os olhos fechados, tentando dar um nome para o ambiente escuro.

Essa era a melhor sensação do mundo. Tudo o que devia fazer era apenas correr e entrar naquela porta e, pronto, estaria no porão. Um refúgio, uma prisão, algo totalmente parecido com o Inferno. Sentada em qualquer canto, largada como uma menina sem abrigo, encarava a escuridão e pensava nas possíveis criaturas que podiam sair de lá. Era o terror, algo que alimentava minha mente, algo que me livrava de todos os problemas reais. A melhor sensação do mundo.

Havia uma boneca ao lado da porta, ela sorria para mim. Eu não conseguia ver o seu sorriso, mas eu sempre imaginava. Do que ela estaria rindo? Isso soa como uma humilhação. O que eu fiz de errado? Ah, certo. Eu também quero saber das coisas que eu não fiz e que jamais vou fazer, ou, das coisas que jamais vou desejar.

Estava totalmente em pânico, essa dor que nunca sairá do meu peito. Pelo menos, alguma hora, essas lágrimas vão parar de cair. Respirando um ar desconhecido, possivelmente infectado, consigo relaxar. Sempre olhando para a escuridão, imaginando que meu corpo está sendo totalmente cortado, aberto, retorcido. Imaginando que todas essas impurezas, as dores e os suplícios estão indo embora, perdendo-se nessa escuridão. Se eu tivesse o privilégio de desejar alguma coisa, possivelmente pediria para que me escondessem nesse lugar.

A verdade é que eu tenho medo do escuro, mas não tenho medo de morrer. É estranho estar enfrentando algo que você tem medo, não? Mas, quando o medo invade sua mente, você não consegue pensar em mais nada. É o que acontece aqui, tudo some, todos os sentimentos evaporam. A culpa é da escuridão.

Quando eu me aproximo da janela de madeira, quase caindo aos pedaços, tenho vontade de abri-la com força, ou de simplesmente quebra-la. Iria gritar por socorro, implorar por alguma companhia. Se eu pedisse para alguém, será que essa pessoa aceitaria se perder na escuridão? Ouvir as confissões de alguém que ora todo dia para que os problemas sumissem iria ser divertido. Parece que não estou sozinha.

De qualquer jeito, vou apenas ignorar. Nesse porão e nessa escuridão, construo um muro em minha mente. Um muro grande o suficiente que bloqueia as luzes do mundo que me deixariam cega. A grande divisão que nunca iria cair, para me separar de toda a dor. Algo tão espesso, para conservar todos esses corações partidos.

Não preciso estar nesse local, especificamente. Estou falando sobre a escuridão, então, por que simplesmente não fecho os olhos? Eu poderia dormir... Para sempre.

Como sempre, me esqueci de comentar sobre uma boneca que havia ao lado da janela. Ela sorria para mim, ela sempre sorria para mim. Eu sinto que estou ficando insana... Desde quando comecei a imaginar coisas? No início eu aceitei isso, agora é apenas tão triste.

Calculei no além do meu coração quando é que tudo começou a quebrar-se. Paro e penso, e suspiro, e choro, e me escondo. Nos dias fechados, qual é o meu refúgio? Não toca mais em meu peito a vida. Tocava-me como uma folha de papel, uma história sobre promessas e sonhos ávidos por ilusões.

Apenas imagine um final feliz. Você é insano.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!