Notas iniciais
o que me espera depois do beco?

Era uma noite chuvosa, o frio alfinetava a pele de Luan. Apesar de ser verão, a temperatura no quarto era gelada de um jeito incomum. Luan tivera mais um sonho, terrível dessa vez, com riqueza de detalhes, era quase como fazer parte de um assassinato.

Um homem alto, por volta de um metro e noventa de altura, vestia um sobretudo, calça social e um enigmático chapéu marrom. Luan nunca vira o homem de frente, por isso não sabia como era seu rosto, apenas que o cabelo era castanho e que estava para fazer. De longe parecia mais um investigador. Nunca suspeitariam que fosse na verdade um assassino brutal. Para Luan, se tivesse que compará-lo a alguém, seria ao Sherlock Holmes.

Luan tinha em seus sonhos a escolha de seguir a pessoa suspeita ou simplesmente acordar, o que era de costume, porém, esse pesadelo era diferente, e ele sentiu a necessidade de seguir aquele homem, precisava enfrentar seus medos... Ansiava para saber o que aquela figura faria depois... Mas depois do que? Luan não lembrava, só não estava disposto a ceder para o medo.

A paisagem ia se formando enquanto acompanhava o homem com cautela. O que antes era apenas um universo branco, com a figura de um homem andando para o além, agora era uma grande cidade. Luan não pode deixar de notar o ar antigo que pairava a sua volta e aos poucos foi reconhecendo o lugar. Era o Rio de Janeiro na década de setenta, estavam na Lagoa, zona sul da cidade, prédios e mais prédios se erguiam a sua volta. O olhar do Cristo Redentor era quase palpável, imponente e sedutor. Carros antigos parados no meio fio. Alguns, Luan identificava sendo da sua coleção de carinhos. Trabant -1957-, Renault 4L – 1961-, o clássico fusquinha, Opala, entre outros modelos da época.

Luan enxergava tudo em preto e branco, sentia-se em um filme antigo de Hollywood, a única coisa que tinha cor no cenário era o chapéu do homem, marrom discreto com uma faixa que circulava a aba em preto.

O clima parecia anunciar o que estava para acontecer, os ventos choravam nos ouvidos, ao longe, clarões acompanhados de enormes estouros faziam o coração de Luan andar descompassado, como um embriagado no centro da cidade.

O homem entrou em um beco, não sem antes conferir se tinha alguém o seguindo. Luan não estava muito longe dele e tinha plena certeza de que era um sonho, então porque se sentia tão aflito?

“se até agora ele não me viu, não teria a falta de sorte de...” O pensamento foi interrompido quando percebeu que o homem olhava diretamente para ele, encarando-o.

Seu corpo estremeceu, um calafrio percorreu toda a espinha, arrepiado como um gato acuado, Luan estava horrorizado ante a ideia de que tinha sido notado e observado. Mas não deixou de sustentar o olhar. Se havia um jeito de descobrir o rosto da pessoa que perturbava suas noites, ai estava o momento...

Ao examinar a face do homem ficou pasmo, não conseguia enxergá-lo, tudo que via era uma sombra com olhos. Olhos verdes e intensos, maus, frios e calculistas que remetiam a crueldade.

Luan sempre escutara que os olhos eram a janela da alma, mas se o homem tinha alma, era exatamente o reflexo daquelas duas esmeraldas que o encarava.

A troca de olhares não durou nem cinco segundos até o homem adentrar o beco. Uma onda de alívio percorreu Luan, que soltou um suspiro alto. Olhando-se através do reflexo do vidro de um carro, reparou que estava horrível. Seu rosto era uma replica idêntica do quadro o grito. Pálido igual papel, os lábios brancos retomando a cor, as pernas pareciam querer sapatear. Porém agora tinha certeza, não podia ser visto pelo homem.

Uns segundos se passaram até Luan recuperar a coragem. “Anda... reage... ele não pode te ver... isso é um sonho, apenas um sonho, nada de ruim vai te acontecer!” e foi com esse pensamento que juntou adrenalina e coragem para ir atrás do homem sem face.

Mesmo que fosse dia e a rua estivesse movimentada, o que não era o caso, já se passava de uma hora da manhã e ao contrário dos tempos de hoje em que a zona sul não para, nos anos setenta a essa hora não havia ninguém na rua. Luan não passaria por aquele exato beco nem de dia.

Notas finais
se gostarem dessa pequena prévia, façam comentários, isso vai me ajudar a escrever mais. Obrigado!!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.