O homem que queria ser enganado
1 Capítulo Único — Desenganado.
George nunca havia sido enganado na vida. Seus instintos sempre lhe alertavam sobre qualquer pessoa que tentasse tirar proveito dele, o enganando. Nunca foi lhe tirado um centavo por engano, e nada havia ganhado com os erros dos bancos. Seus ouvidos nunca o fizeram achar que havia sido chamado sem que realmente fosse. Não havia tido uma só vez que chamou um amigo por outro nome, ou vice-versa. Ele sempre acertava os nomes dos gêmeos que conhecia. Nunca tinha tido uma conclusão precipitada que não estivesse certa. Em sua vida, não havia se enganado nem em cálculos, nem em datas e nem em nomes. Era invejado por todos ao seu redor.
Porém, um dia, ele desejou ser enganado. Gastou horas em frente à televisão, vendo propagandas de inúmeros produtos com preços enganosos. Não foi enganado.
Tentou comprar coisas na internet, pelo Mercado Livre. Coisas totalmente nada a ver, que tinha certeza que não existia. Não foi enganado, e as recebeu horas depois.
Foi atrás de pessoas falsas. Conversou com elas, se tornou amigo delas. Infelizmente, elas o acharam tão legal que não o enganaram.
Entrou na política. Conheceu as piores raças de políticos que existiam, e algumas vezes deixava que seu dinheiro fosse exposto para tentar atraí-los para enganá-lo, mas eles o acharam nobre demais para sofrer tal ato.
Procurou as mais peçonhentas mulheres. Elas o amaram rapidamente com a sua maneira falsa, que logo se converteu em uma verdadeira. George agora tinha um monte de mulheres peçonhentas à sua disposição, mas nada de engano.
Até que procurou o lugar que as pessoas disseram onde havia engano: igrejas. Porém, nem mesmo nas mais hipócritas que conhecia, ele era enganado. Converteu-se e numa vez orou, pedindo:
"Vossa Onipotência, poderia fazer com que eu fosse enganado?"
Os anjos que estavam ao lado de Deus enquanto ele ouvia a oração mexeram as asas, estranhando a natureza do pedido. Ele respondeu à George:
"Por que desejas algo tão indecoroso?"
"Nunca fui enganado em toda a minha vida. Todos ao meu redor são enganados quase o tempo inteiro, e eu não posso lhes aconselhar pois nunca passei por algo semelhante."
"Sua empatia me comove. Porém, é algo que não me convém fazer. Se quer ser enganado, procure o Diabo."
George seguiu a indicação divina e foi até o Diabo. Como ainda não estava morto, o encontrou com a ajuda de uma bruxa.
"Quero ser enganado."
As palavras fizeram Satanás olhar para George com uma expressão confusa.
"É o que, homem?"
"Quero ser enganado, já disse."
"Você está tentando me dar ordens?"
"Não. Eu só quero ser enganado."
"Hum. Pensarei no seu caso."
Sumiu em fumaça. George pagou à bruxa o que devia e se foi. O tempo passou como o vento, e George conheceu uma adorável moça. Ela frequentava os mesmos lugares que ele, mas o mesmo nunca a havia notado. Foram bons tempos em que ele passou com ela. Sempre via os olhos doces dela brilhando, quando olhavam os dele. Era fofo. Era adorável. E os instintos de George não diziam nada. Ao fim de um ano, ele deu o tal "passo importante". Porém, quando foi até ela, não viu o mesmo brilho. Ao tentar falar, percebeu que ela começou a rasgar a própria pele, revelando ser, na verdade, um monstro. Descobriu que o brilho que achava que vinha dela era apenas o reflexo do seu.
George correu. Passou por televisões, lojas que vendiam artigos piratas, pessoas falsas, políticos, mulheres peçonhentas, igrejas e por fim a bruxa que o havia feito falar com o demônio. Ele amaldiçoou a última, com certo ódio.
Ele chegou em um beco sem saída, por engano. Desesperado, tentou voltar mas o monstro já havia chegado lá. Gritou de pavor, e encostou na parede, com os olhos fixos no seu perseguidor.
"Ei." disse o monstro.
"Que?"
"Não seja enganado de novo."
Ao dizer essas palavras, atacou George e ... ele acordou.
George olhou assustado para seu quarto. O sonho havia sido muito real. Passado o medo, ele deitou-se novamente e puxou o lençol para si. Sentiu uma vibração quando ia voltar a dormir, e então percebeu que alguém lhe mandava mensagens. Ao desbloquear a tela do celular, percebeu que era a mesma moça do sonho.
"Ei, a gente vai se encontrar quando mesmo?"
O rapaz olhou por um longo minuto para a mensagem. Levantou os ombros e escreveu.
"Nunca."
Por fim, acrescentou um rosto feliz. Colocou o celular no silencioso e o pôs no criado mudo. Aproveitando que ainda era bem cedo da manhã, ajeitou-se nas cobertas e voltou a dormir.
"De nada." respondeu o "monstro", fechando a porta do quarto de George, e o deixando dormir tranquilamente.
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