O guerreiro cachorro
1 único
Era verão e as crianças brincavam de bola na rua, às vezes paravam para um carro passar e às vezes uma senhora rabugenta pedia silêncio. Shinonome estava sentado num banco com sua avó, ele se lembrou que quando acordou nesse dia, sua mãe recebeu um aviso do condomínio dizendo para que fizessem mais silêncio. Isso era por conta dos gritos que Shinonome berrava em seus surtos fora de controle.
Ele olhou para o lado e viu sua avó observando as crianças com um olhar afetuoso. De repente ela não seria tão ruim assim, e sua casa cada vez mais o fazia se sentir bem-vindo. Era gostoso ouvir a molecada brincando e era gostoso tomar suco de manga da fruta, quando Angela preparava para ele tomar. Shinonome amava Angela e às vezes pensava que ela cuidava da sua avó mais que os próprios filhos. O mais assustador era que Angela também era avó e tinha seus netos, mas ninguém cuidava dela, não quando trabalhava tanto e sua família dependia de seu dinheiro.
Não sabia se era justo. Também não sabia por que se importava, talvez fosse grilado demais.
Tentou deixar tais pensamentos, exatamente como os seus parentes faziam, e olhou para sua avó novamente, dessa vez pensando se ela o amava. Era tão desconfortável estar ao lado dela, sentia que não era bom o bastante. Sabia que ela não o amava.
— Há uma coisa depois daquele portão que te interessa.
Ela disse de repente, Shinonome franziu as sobrancelhas e mirou os olhos para onde ela apontava. — Ali?
Ela não respondeu, Shinonome se levantou do banco e atravessou a rua com as crianças. O portão estava semiaberto e ele pensava desde quando havia um ali, ele nunca havia reparado antes. Também pensava se não estava invadindo uma propriedade, mas suas pernas pareciam mexer mais depressa do que sua lógica. De repente, tudo ficou sem lógica alguma, as crianças desapareceram junto de sua avó e estava no quintal de uma casa em que viveu num momento de sua vida. Nela, estava ali, seu cachorro.
Shinonome chorou e foi ao seu encontro, abraçou-o e pediu perdão por estar vivendo sozinho ali.
No entanto, aquele cachorro estava morto e nos seus 14 anos de vida, ele viveu até a morte junto de Shinonome, ele nunca o havia dado para outra família.
— Me perdoe!! Me perdoe!! Eu não posso tirá-lo daqui!!
Chorava na cama em que despertou, se lembrou do dia que levou seu cachorro para ser sacrificado. Shinonome sempre achou que foi um péssimo dono por não ter cuidado de um animal tão precioso da maneira certa. Ele se recompôs tirando o dorso de seu corpo do colchão e enxugava suas lágrimas que não paravam de descer, percebeu que tudo fora um pesadelo e que ele sonhou exatamente com as coisas que o faziam se perturbar de vez em quando, coisas como não conseguir ser amado o suficiente e nem conseguir amar o suficiente.
Seu irmão costumava lhe dizer que estava doente, por isso não pôde cuidar direito de seu cachorro. Assim como também, a doença o fazia pensar que sua avó não o amava. Que merda, quando superaria tais pensamentos, ele não sabia. Enxugava as lágrimas com o seu antebraço e ficou mais calmo.
Lá fora fazia o frio de julho.
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