O grande confronto
2 Nova escola, novos amigos e novos inimigos
Notas iniciais
Depois de um tempo, viro motivo de chacota por ser colega de Amanda, e sinceramente, prefiro ser amiga dela do que dos outros, afinal, qual é o problema de ter uma doença?
Quando haviamos terminado de tomar café, eu e Amanda fomos falar com Gabriel para ver quais eram nossas salas de literatura, química, biologia, etc.
—Clear, você fica na sala 203, com Amanda. Porém, eu não vou poder continuar com vocês. Lamento. E a primeira aula de vocês é literatura.
Ah, esqueci de comentar que minhas aulas preferidas eram filosofia e redação.
Nossa professora tinha cabelo castanho curto, olhos castanhos claros e aparência jovial.
Sua primeira atividade foi…
—Quero que vocês façam um poema com no mínimo 10 e no máximo 25 linhas e, como temos alguns alunos novos, deixarei que façam sobre o que vocês quiserem. Mas antes, Clear, venha aqui a frente.
Droga. Por que, no meio de tantos nomes, foi chamar logo o meu?
—Meu nome é Clear Bads, _alguns babacas do fundo começaram a rir do meu nome e do meu cabelo _ tenho quinze anos e minha vida é um saco. E eu também não queria ficar nesse colégio que aparenta ser idiota e que aparenta ter pessoas idiota e, se vocês acham meu nome engraçado, que se dane, pois já não gosto de vocês! E se vocês tentarem zoar meu cabelo, não irei ligar pois já ouvi de tudo! Nada mais a declarar.
Amanda gostou do final rebelde e riu um pouco. Voltei ao meu lugar enquanto a sala tentava absorver as minhas palavras.
—Bem, ela é sincera. Mia, pode vir aqui.
A professora falou depois de alguns minutos. Eu mal ouvi o que a tal de Mia falou, mas depois de mais ou menos uma hora, ela chamou um garoto pelo nome Bruno para ler sua redação. E por acaso ele era o garoto do atletismo. Ele ajeitou os óculos e começou:
—Além das névoas e do carvalho, onde o corvo canta, no labirinto de pesadelos, algo obscuro se forma. Nas ruínas antigas de batalha, a espada de brilho reluzente brilhará na escuridão das profundezas do abismo de sonhos perdidos, e matará o pesadelo denso.
“O portador do pesadelo lutará com o mesmo para que as ruínas virem fortaleza ou simplesmente, transformar mais ruínas e lendas.”
“Enquanto andamos pelos nossos labirintos de medos, vamos nos intimidando por tudo ao nosso redor.”
“Nossas almas vão sucumbindo as trevas até que não haja nada além que escuridão eterna e um buraco negro no meio de um vácuo desacreditado.”
“Nossos olhos viram orbitas vazias, secas e opacas, que suga o resquício de energia que resta na esperança.”
Enquanto ele recitava, os olhos da Amanda mudaram de cor, como na hora em que estavamos no armário dos zeladores, só que as cores foram diferentes. As cores foram: prata com brilho vermelho, verde-musgo e no fundo a cor cinza.
Ela abaixou a cabeça nas mãos e começou a sacudi-la. O sinal do intervalo bateu enquanto ela fazia isso, ela olhou para o autofalante como se ela quisesse fuzilá-lo.
—Muito... humm... bom. Um pouco macabro mas, bom!
A professora disse para animá-lo.
Fui até a mesa de Amanda e indaguei:
—O que houve?
Ela olhou para mim e sussurrou:
—Seu pesadelo vai ocorrer no labirinto.
Embora isso tenha sido MUITO estranho, não era uma frase sem pé nem cabeça. Mas se isso realmente for verdade, guardo um pensamento que pode me ser úitil: Ótimo, agora até sei onde vou morrer. Legal, não é?!
Perguntei para Amanda qual era a próxima aula, ela me respondeu que era Inglês.
Enquanto esta aula não acontecia, eu fui até a lista do carômetro (a lista com a foto e o nome das pessoas) da classe, e vi o nome das duas meninas que usavam óculos no atletismo, Robecca e Emily. Havia duas meninas que aparentemente eram gêmeas, pois tinham o mesmo sobrenome Boushortd, e pareciam a mesma pessoa, pois as duas tinham cabelos de cor branca, encaracolados e olhos azuis. O primeiro nome delas eram Isabela e Isabele. Havia uma menina chamada Elena Baty e uma chamada Megan Jordan.
Também havia meninos como, Henry, Bruno, David, Felipe, Alan, João, Lucas e também tinha outros nomes que fiquei com preguiça de ler.
Como essa aula havia sido em dupla, eu Amanda fizemos o pedido.
Esta e as outras aulas foram normais até a hora do almoço.
Eu me sentei junto à Amanda e Gabriel e eles me falaram sobre as pessoas que eu acabara de conhecer.
A Patrícia tinha repetido o segundo ano uma vez, e seu namorado que se chamava Henry repetiu duas vezes o primeiro e uma vez o segundo ano, ele jogava futebol e basquete. Ela tem distúrbios alimentares e, ele, déficit de atenção.
—Por isso que ele já repetiu de ano duas vezes? _Perguntei para eles.
—Por isso e por ser um burro que não corre atrás de nada. _Amanda me respondeu rindo.
Maria Eduarda é bem atlética. Ela era a número um em todos os esportes, menos nos jogos de inverno, pois, como esses jogos só acontecem de cinco em cinco anos, ela ainda não havia participado em nenhum. Ela tem a minha idade, é bipolar e tem dificuldades para perder.
A minha professora de redação se chamava Carla, ela tinha 27 anos, não tinha namorado e cuidava de gatos.
Gabriel era mais velho que eu um tempo, pois ele faz dezoito anos em 23 de dezembro e eu dezesseis faço em 21 de outubro. Amanda era mais velha que nós dois, pois ela entrou um ano depois na pré-escola e fazia aniversário no dia dez de junho, o que quer dizer que ela já tem dezoito.
—Então... seu signo é de libra. _Amanda falou para mim.
—Olha, eu não acredito muito em signos e nessas coisas. Enfim, eu não sou nada parecida com esse signo! Segundo minha mãe, sou mais parecida com Áries.
Ela ficou quieta por um momento e falou:
—Sabe, eu sou de gêmeos e acho que esse signo tem tudo haver comigo.
—Beleza!, vocês duas parem com isso!
Gabriel falou tomando as rédeas da situação.
—Ok. Isso é super interessante, mas... isso é uma escola para adolescentes problemáticos. Então, se vocês tem problemas, quais são?
—Alucinações. _Disse Amanda dando um gole em seu copo de refrigerante. Imitando uma arma com seus dedos e apontando-os para sua cabeça, completou:_E também escuto vozes na minha cabeça. Mas não se preocupem, não me corto.
Ela terminou e mostrando seus pulsos lisos.
—Amigos imaginários? _Perguntei com dúvidas.
—Basicamente, sim.
Assim que ela disse isso, mostrei minha mão para fazermos um “toca aqui” e disse:
—Somos duas então. _Terminei falando.
—Eu não tenho problemas _Disse Gabriel com naturalidade.
—Obviamente, você tem outros problemas além de “amigos imaginários”, então, vai falando. _Amanda falou se referindo a mim.
—Tá bom. Eu tenho... _Antes de respoder, o sinal que indicava a próxima atividade. _...que ir para a sala recreativa.
Nós fomos para a sala de jogos. Lá havia instrumentos de batalhas e de guerra nas paredes, o que deu uma aparencia meio medieval ao lugar.
Lá tinha pebolim, ping-pong e outros jogos legais. E lá estava ela, Maria Eduarda, como sempre,_pelo menos desconfio _ vencendo de todos. Ela olhou para mim, como na vez que ela disse “Espere a próxima aula de educação física, você já era”
Eu fui naquela direção e ela simplesmente parou tudo e gritou:
—Eu te desafio, Clear.
Quando ela fez isso, todos pararam o que estavam fazendo.
Eu não queria ter mais um motivo para ser chacota, pois eu sabia que ia perder feio.
—Aceito o desafio.
Quando minha consciência voltou em si, não acreditei que tinha aceitado isso:
—É de dez pontos.
Havia resmungado para mim.
Todos estavam em nossa volta, e olhavam para mim com pena, como se aquela fosse a última coisa que eu iria fazer.
Ela começou com a bola, ela deu uma tacada muito rápida acertando o meu gol, então “gruniu” para mim:
—Esse foi só o primeiro de muitos, tá!
Eu tinha certeza que ia perder, mas eu escutei uma voz familiar, uma voz parecida com a de... AMANDA.
Ela não mexia a boca, mas coseguia ouvi-la.
—Você pode vencer, ela vai tentar fazer gol pela esquerda.
Eu não tinha ideia do que tinha acontecido, mas mesmo assim fiz o que a voz mandou.
Eu coloquei alguns jogadores na defesa da esquerda que estava vulnerável, e como “Amanda” disse, Maria Eduarda tentou atacar na esquerda, mas como eu defendi, a bola bateu no meu jogador e a bola foi no gol dela. Eu considerava aquilo impossível, e com certeza não era única que achava isso, mas por incrível que pareça, fiz um gol nela.
Depois disso eu joguei bem melhor, o que resultou outro gol. E mais outro, e outro, e outro, mais um, até fazer dez gols.
Não pude acreditar no que acabara de acontecer. Nem Maria Eduarda e nem as cinquenta e poucas pessoas que acabaram de testemunhar isto.
Quando isso aconteceu, as pessoas que assistiram este acontecimento ficaram paralisadas, Maria Eduarda ficou imóvel, confesso que eu também. Só que, infelizmente, todos tiveram que voltar para as aulas, por que eu queria muito provocá-la.
Quando saímos para nossa aula de Biologia no segundo turno, Gabriel veio ao meu encontro.
—E então... gostou da minha vitória épica?
Eu sorri e me vangloriei pelo meu pequeno feito, porém, ele estava sério.
—Clear, aquilo foi só um jogo. Ela não vai descansar até dar o troco.
—Tudo bem. Aceito uma revanche.
Eu disse ainda sorrindo.
—Não é disso que estou falando.
Demorou um pouco até cair a ficha e, quando caiu, parei de sorrir.
—Que razão mais equívoca para ficar com raiva de alguém! Afinal, quem conhece uma pessoa e, de repente fica com ódio dela?
—Maria Eduarda.
—Mas ela nem me conhece direito!
—Você está chamando muita atenção para si mesma e, ela não gosta disso.
Como assim? Eu não chamo atenção para mim mesma, mas antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ele tapou minha boca e falou:
—Não precisa argumentar nada, nós dois sabemos que no momento que você se inscreveu nos jogos, começou a chamar atenção.
Queria discordar, mas todas as vezes que tentava abrir a boca, ele falava “shhhiiiiiii”, que começou a ficar muito irritante, que me fez rosnar para ele.
Enquanto nós íamos para a aula de Biologia, um garoto grande e que aparentava estar no terceiro ano de ensino médio passou por nós.
—Oi, Amanda.
—Oi.
Eu franzi as sobrancelhas e perguntei junto com Gabriel:
—Quem é ele?
Amanda deu um pequeno sorriso e falou.
—Meu cumplice.
Acho que isso não foi uma explição muito boa.
—Você matou alguém?
Eu perguntei, fazendo ela rir.
—Ano passado, a partir do meio do ano, fiquei conhecida como rainha das pegadinhas.
—Por que?
Ela olhou para cima e começou a falar.
—Nós tinhamos combinado uma semana antes do grande trote para dar tudo certo. Depois, na minha aula de geografia, ele havia pedido, na sala dele, para ir ao banheiro. Tinhamos combinado até os minutos para não dar errado. Ele estava com um isqueiro e, no momento que ele botou o fogo perto do detector de fumaça, eu subi em minha carteira e falei “Que comece a chuva! “, e foi no exato momento que a água jorrava do teto! E, assim, eu concegui minha sétima detenção.
Nossa! Como Amanda conseguia ser incrivelmente louca?!
—Queria ter visto.
—Eu sei. Todos querem!
Nós duas ficamos rindo como duas loucas no meio do corredor.
Gabriel, certinho como é, já se menifesta:
—Então, você sabe que tem que se entregar para a diretoria, certo?
—Talvez eu devesse, _ela segurou o rosto dele com as duas mãos e continuou _mas eu não vou. _Ela deu um sorrisinho cara-de-pau e o soltou.
Ele suspirou e espreguiçou seus braços no ar (mesmo que eu não goste de admitir isso, ele é forte).
—Sabe, eu poderia e entregar agora mesmo por ser coordenador.
Ela começou a andar de costas para poder encará-lo.
—Mas não vai. _Afirmou convicta disso.
—Como pode ter certeza disso, eu posso ser um cafajeste e você pode não saber disso.
Essa discussão estava tão interessante que eu nem piscava.
—Eu sei que você é um cafajeste, eu conheço sua fama, mas não neste sentido e, a propósito, _ele parou por um instante e parou-o segurando seus ombros _eu sou uma telepata. _Como é que é? Espere... qual é a fama do Gabriel?
Eles começaram a rir, mas, como sou meio lerda, só fui entender o significado um pouco depois deles.
—Acredite, se você usasse sua mente brilhante para estudar, já estaria em uma faculdade renomada.
—Uma pena por ser uma gênia incompreendida.
Nós rimos (quer dizer, eu e Amanda rimos e Gabriel apenas revirou os olhos) e entramos na sala.
Escureceu e fomos para seus respectivos dormitórios, que mais parecia O caminho de tijolos que saia do prédio dividia os dormitórios femininos dos masculinos (femininos no lado esquerdo do caminho e masculinos no lado direito) e em cada um havia duas pessoas e, eu estou torcendo para que Amanda seja minha colega de quarto, mas, para falar a verdade, parecia mais um mini chalé do que um quarto.
Cada dormitório parecia uma cazinha (fiquei encantada, pois isso é muito fofo), com uma varandinha coberta e seus números. Quando encontrei meu chalé (vou chamá-los assim a partir de agora), entrei com todas as malas no lugar e vi uma cama com bichinhos de pelúcias e algumas malinhas, então fui para a parte do quarto com cama não usada.
Minha cama estava encostada na parede esquerda e, onde ela terminava, começava um armário branco vazio e, entre minha cama e a outra, tinha uma mesinha com alguns livros e um abajur aceso e, bem em cima da tal mesinha, havia uma linda janela de madeira e de vidro (a parte de madeira abria para fora e a de vidro subia) com uma bela cortina branca. Perto da porta eu conseguia ver um aquecedor, um espelho grande e uma janela (o mesmo tipo de janela que a outra). Até que o lugar era grande.
Depois da cama usada, vi uma porta com uma plaquinha escrita “Bata antes de entrar”, provavelmente, aquele era o banheiro.
Arrumei minhas coisas e fui tomar um banho quente. Depois, botei meu pijama de ovelha e saí do banheiro.
Vi uma garota sentada na cama da bichinhos com um livro de física e um caderno aberto sobre o leito da menina, mas sua visão se encontrava desfocada, em seu rosto se encontrava uma careta e, seu olhar, parecia um pouco perdido. A garota possuía cabelos platinados naturalmente e olhos demasiadamente azuis e, além disso, também tinha um corpo de causar inveja.
Parei na frente da porta e iniciei a conversa.
—Oi! Você é minha colega de quarto? _Embora eu tenha adotada o termo “chalé”, “colega de chalé” é algo meio estranho de se falar. Ela levantou os olhos quase brancos de tão azuis de uma vez só, como se tivesse levado um susto, mas, outro fato que também indicou isso foi sua feição de extrema surpresa e que, depois, começou a respirar pesadamente, como se tivesse acabado de levar um choque. Quando se acalmou, me olhou de cima a baixo, analisando-me.
—Oi, também _ela deu uma risadinha e continuou: _e, sim, sou sua colega de quarto. E, você... deve ser a Clear, certo?
Caramba! Ou todos da escola são MARAVILHOSOS em palpites ou todo combinaram o seguinte: o diretor pegou uma foto minha, colocou no auditório, fez uma chamada obrigatória para todos os alunos e falou “Escutem! Todos os alunos devem saber o nome dessa garota, se não, serão expulsos.”.
Agora eu não duvido de mais nada, nem dessa teoria.
—Como você sabe meu nome? _Falei exatamente o que estava pensando.
—Bom, as líderes de torcida não falam de outra coisa a não ser da garota ruiva que nos generalizou e, nesta escola, você é a única garota ruiva. _Ai, meu Deus!, eu fiz isso mesmo! Assim que ele falou isso, senti meu rosto queimando de vergonha, pois eu realmente generalizei elas pra caramba.
—Nossa, me desculpa, mas eu havia falado isso apenas para generalizar Patrícia, porque ela havia xingado minha amiga. _Normalmente, não me explico para ninguém, apenas para minha mãe, mas ela parecia ser uma garota legal e, eu, queria rebaixá-la no mesmo nível que Patrícia.
—Fique tranquila, _embora eu estivesse tranquila, não a contrariei _Mas, se me permite, irei te dar uma dica: nessa escola, nunca julgue ninguém, pois todos aqui possuem uma história e, sinceramente, acho que é um pouco errado batermos o martelo de juiz se não conhecemos os dois lados da moeda.
Graças a seu jeito de falar, era impossível qualquer pessoa ficar nervosa com ela, até mesmo para uma pessoa... difícil como eu.
—Mas ela humilhou minha amiga!
—Eu sei e descordo totalmente disso, mas Patrícia tem um passado complicado. Eu não estou explicando seus atos, mas peço que nos conheça antes de conclusões precipitadas, como, por exemplo, antigamente, Patrícia por conta de seu peso alarmante. Ela sofria muito bulling e, por isso, não se dedicava muito nos estudos, o que já era ruim por conta de seu déficit de atenção. _Com todo aquele discurso, de uma pessoa que eu mal conhecia, passou a ser aluém que eu admirava. Ela sempre tentava ver o melhor nas pessoas e ver o mundo como elas, não como eu fiz. A partir de agora, prometi a mim mesmo que tentaria enxergar os outros como ela, ver o conto po trás de tudo._ Mas você foi legal por defender sua amiga. Conheço pessoas que não fariam isso. Ah, e, a propósito, se ela falar com você “representando” _ela fez aspas com os dedos no ar _as líderes de torcida, ignore, até porque ele é uma reserva, eu sou a capitã e, se você quiser fazer parte também, não tem problema, não guardamos rancor.
—Ah, pode deixar, isso não é pra mim. Prefiro esgrima, boxe, futebol americano, entre outros.
Ela abriu um sorriso assim que mencionei “futebol americano”.
—Eu também sou razoável no futebol americano.
Eu correspondi seu sorriso e comentei:
—Então vamos competir para ver quem é melhor.
Rimos um pouco e de repente ela arregalou os olhos, como se tivesse esquecido alguma coisa, fechou seu livro e caderno, se inclinou para frente e esticou sua mão para eu comprimentá-la.
—Sou Isabela, prazer em conhecê-la. _Seu gesto foi recíproco e argumentei:
—Igualmente, Isabela. Eu iria falar meu nome, mas parece que você já sabe.
Rimos um pouco e continuamos a conversar enquanto me ajudava a desfazer as malas. Ela ia me dando as roupas e, eu, guardava-as no meu armário.
—O que seria isso? _Ela perguntou seurando minha bolsinha para remédios. Mas nem precisei respondê-la. Ela arregalou seus olhos e me encarou. _Você realmente tem que tomar tudo isso? _Concordei com a cabeça. _Nossa! _Então ela se sentou e começou a olhar um por um.
—Todos estão aqui por algum motivo e, bem, eu estou aqui por vários. _Eu peguei a bolsa de sua mão fui colocando-os na minha cabeceira.
—Fique calma, eu também tomo os meus. Você pode pelo menos me falar para o que eles servem?
—Apenas se matar minha curiosidade e me contar porque está aqui. _Ela concordou com meus termos, então, a medida que eu os mostrava, falava seus nome.
—Benzodiazepínicos, para melhorar amnésia dissociativa. Olanzapina, para conter minhas alucinações. Ansiopax, para evitar ataques de raiva, Triazolam, para evitar ataques epiléticos e tem Fenobarbita, que seria para minha insônia crônica...
—Esse já conheço. Eu tive que tomá-lo por um tempo.
—Agora que já te mostrei o quanto tenho problemas, quero saber o que há de errado com você, afinal, você parece tão normal!
—Vou te contar um segredo. _Ela se inclinou para frente, colocou os cotovelos nos joelhos para apoiar a cabeça com as mãos e falou com voz de sussurro. _Eu nunca prendo o meu cabelo.
Franzi as sobrancelhas, posicionei meu tronco para frente e também murmurei.
—E porque isso é um segredo?
Ela voltou a sua posição inicial, se virou para o lado direito e, com a mão esquerda em sua cabeça, levantou seus cabelos platinados, me mostrando uma enorme cicatriz sem cabelo, mas que não era perceptível por conta de suas outras madeixas que a cobriam. Agora percebi o porque do seu segredo, pois, se prendesse sua cabeleira, daria para ver a marca e isso deixaria de ser secreto.
—Tenho TEPT. Transtorno de estresse pós-traumático. No fim do ano passado, minha família foi para a Tailândia para passar a férias, mas tiveram os tsunamis e... fiquei presa nos escombros durante dois dias, minha irmã estava na praia com minha mãe. Minha irmã sobreviveu. Ficou com muitas sequelas, tanto físicas quanto psicológicas, mas minha mãe não teve tanta sorte, pois não encontramos nem seu corpo para enterrar. Meu pai ainda dormia no hotel e, por pura sorte, nosso quarto ficava no penultimo andar do prédio. Ah propósito, peço que não fique com pena de mim por conta das cicatrizes e que nem fique impressionada com elas, pois de Natal atrasado, ganhei muitas dessas de presente._Depois, ela apontou para os dois frasquinhos sobre cabeceira e me informou. _ Sertralina, para me recuperar e Diazepam, para me ajudar a dormir.
—Acredite, não ficaria impressionada pois também tenho as minhas, _assim que disse isso, senti minha cicatriz na perna doer e a ficar mais quente que o normal, o eu acontece sempre que me lembro dela _nem ficaria com pena, porque sei o quanto é chato e hipócrita. A pessoa fala “eu sinto muito” sendo que, na maioria da vezes, elas não sentem nada.
Ela me direcionou um sorriso e agredeceu com o olhar.
Era até irônico, na verdade, possuir uma aparência tão calma, mas, por dentro ter um furacão, ou melhor, um tsunami em sua alma e, por conta do seu jeito pacifico, eu jamais poderia imaginar isso, mas, como já li em algum lugar, ”as águas mais calmas costumam ser as mais profundas”. Acho que isso, definitivamente, não se aplica a mim, porque sou tudo, menos calma. Terminado a arrumação, conversamos sobre coisas insignificantes até cairmos no sono e, devo confessar, Isabela era muito mais do que aparentava ser.
—Por que você sabe pelo quê os outros passaram? _Eu questionei, claramente confusa como ela poderia estar ciente de tudo e todos?
Por um momento, nem ela pareceu ter a resposta, até que, de pé e de costas para mim, jogou a cabeça para trás, encarando o teto e respirou fundo.
—Não sei. Acho que entender sua tragetória torna mais fácil entender sua dor.
Aquela frase me levou fundo em minha mente, fazendo-me lembrar de minha mais recente inimiga e, por isso, fiquei perguntando-me o que poderia ter acontecido com ela até que tomei coragem e dei voz aos meus pensamentos:
—E Maria Eduarda? Digo, qual é a história dela? _Isabela me olhou curiosa, como se tivesse notado uma mudança boa em mim, suspirou com um olhar triste e começou:
—Enquanto Maria Eduarda ainda morava no Brasil com sua mãe e seu pai biológico, sofria abusos dele. Quando sua mãe descobriu isso, ele foi preso e as duas se mudaram para cá, já que ela era professora de línguas. Maria Eduarda logo ganhou um lutador como padrasto e ele a ensinou como se defender, mas ele não aceitava suas derrotas. Para ele, a menina tinha que ser a melhor em tudo, por isso ela é tão perturbada.
No momento que escutei aquilo, notei o quão parecidas eramos, já que nós duas sempre podemos contar com nossas mães e que coisas terríves aconteceram no passado de ambas, coisas que nos fizeram mudar drasticamente. Mas ela não causou aquilo, diferente de mim.
Isso me torna pior que ela?
Quando adormeci, mesmo com tudo que me ocorreu, tive o mesmo pesadelo.
Mas ao invés da figura estar com a cabeça baixa e escondida no capuz, ela a levantou, mas só deu para ver seus olhos azuis na escuridão da noite chuvosa.
A figura encapuzada sussurrou com uma voz feminina:
—Você insiste não é? Por que não desiste?! Será mais fácil!
Eu tento gritar mas não posso, eu tento correr mas não consigo. E quando ela quase acertou minha barriga, eu desviei a espada, jogando-a para longe.
A garota acompanhou com os olhos onde a espada foi parar, quando ela fincou no chão, ela voltou seu olhar furioso para mim, com isso, resmungou:
—Seu tempo acabou.
Eu acordei depois disso.
O sol estava brilhando na minha cama e Isabella estava me sacudindo de leve, falando meu nome e que era para eu acordar.
—Você não pode me deixar dormir mais um pouco?
—Não e, menina!, você tem um sono pesado, hein!
Ri um pouco e, finalmente, encontrei forças para levantar. Tomei a dosagem certa para cada remédio e começamos a nos arrumar
Eu estava usando um macacão de calça jeans (não sei ao certo o nome disso) e uma blusa branca simples, já ela, estava usando uma blusa colorida, uma jaqueta jeans curta e um short, coisa que eu não usava mais..
Assim que saímos do chalé, uma garota idêntica a Isabela (provavelmente sua gêmea) andou até nós e cameçamos a conversar. Descobri que aquela garota era muito legal, mas ainda seria muito precipitado julgá-la por poucos minutos, até que chegamos em um bifurcamento de caminho, pois enquanto eu ia para a esquerda, as duas iam para o lado oposto. Ela falou que poderia me apresentar suas amigas, mas eu recusei educadamente (pelo menos para meus padrões eu fui educada) e falei que tinha que me encontrar com Amanda e Gabriel, então nos despedimos uma da outra e cada uma foi para seu canto.
Eu, Amanda, que estava usando uma blusa gigante com um cinto (de modo que parecia uma vestido) nos sentamos em uma mesa relativamente legal (por que ficava na sombra de uma árvore igualmente legal) e ficamos por lá. Notando a ausência de Gabriel, perguntei por onde ele estaria. Amanda só revirou os olhos e balançou os ombros.
—Deve estar fazendo algo mais divertido que se sentar embaixo de uma árvore e não fazer absolutamente nada.
—Infelizmente, não estou. _Disse gabriel, chegando por trás de nós duas e, quando nos viramos, ele ficou me olhando nos olhos, o que foi de certo modo, desconfortável. _E o que nós iremos comer? _Gabriel fez a pergunta que eu estava prestes a fazer. Ele estava com uma blusa branca também e uma jaqueta quadriculada com as cores vermelho e branco e uma calça jeans normal.
—Nem sei porque viemos para cá e não fomos para o refeitório. _Amanda alegou revirando os olhos.
—Porque aqui é legal. _Falei com minha melhor resposta.
—Espera, carneirinha, me deixe pensar. _Carneirinha? Por que diabos carneirinha? Não poderia ser simplesmente Clear? Quando eu ia perguntar o porque de “carneirinha”, Amanda olhou para Gabriel com um olhar pedinte e inocente e disse e uma voz fofinha: _Pode pegar comida para nós, por favor?
—Vai você mesma, sua preguiço... _nesse tempo, Amanda encarou Gabriel, e ficou parecendo por um segundo que ele havia sofrido uma lavagem cerebral _tudo bem! _Ele alternou o olhar entre nós duas e completou com um sorriso: _Eu trago comida para nós três.
Amanda sorriu e argumentou:
—Bom garoto! _Gabriel não pareceu se abalar com a frase de cachorro que foi usada para se referir a ele. Achei a cena estranha, mas talvez possa ter sido apenas impressão e, além disso, eu não o conheço tão bem (ou pode haver algo entre eles e eu não saiba). Assim que ele foi embora, Amanda se virou para mim e perguntou _Quem era a menina do seu sonho?
—Ainda não sei mas... como você sabe alguma coisa sobre ela?
Perguntei a ela e, outra vez, seus olhos mudaram de cor para vermelho vivo, verde folha e branco.
—Consigo ver o futuro e ler mentes.
Ela me disse séria.
—Tá, Amanda. E eu sou uma estrela e pego fogo. _Falei sendo irônica. _Você não me engana! Se você for uma telepata, então eu sou o Batman! _Dei uma risadinha no final.
—É sério, eu não estou brincando
Ela rebateu um pouco ofendida.
—Então tá. Digamos que eu acredite, porque você me contaria? Se lembra que eu ainda sou uma desconhecida?!
Disse com um tom cético.
—Acredito que seremos grandes amigas. Agora, preciso que você acredite.
Ela pronunciou a palavra “acredito” mais como “eu sei”. Isso foi muito estranho e, quando eu digo estranho, quero dizer MUITO ESTRANHO MESMO.
Pode não ser verdade, mas no mundo há muitas coisas que podem não ser verdade e que as pessoas decidem acreditar. Então eu decidi acreditar e, isso não é uma opção da humanidade?!
—Legal.
Ela estranhou um pouco com a minha reação.
—E sabe os meus papos de louca? Tudo que falei é verdade ou vai acontecer.
Talvez, agora posso usar meu pensamento.
“Ótimo. Até sei onde vou morrer, legal não é?!”. Sinceramente, mesmo com ela me dizendo tudo aquilo, me recusava a acreditar, afinal, como poderia uma prova de um jogo, cujo o objetivo seja confraternização pode matar alguém?
—Então, você é o Batman? _Amanda fez uma brincadeirinha comigo, mas eu apenas fiz uma careta para ela e esperamos Gabriel chegar com a comida, mas, um pouco antes dele voltar, perguntei o que estava me incomodando (na verdade, eram duas coisas).
—Você já leu minha mente? O que você fez com Gabriel também tem a ver com isso?
—Primeiramente, sim, eu já li sua mente e, a resposta para a outra pergunta também é sim. Descobri a pouco tempo que posso induzir as outras pessoas a fazerem o que eu quero se me concentrar.
Já comentei o quanto isso INCRÍVEL?! Meu Pai do céu, que loucura! Espera... será que ela já fez isso comigo? Pensei olhando para baixo.
—Não, pode ficar tranquila, nunca fiz isso contigo e, agora, pare de falar. Gabriel está vindo. E, antes que você pergunte isso ou pense isso, só vou falar para ele depois.
—Espere, eu tenho mais uma pergunta, por que você me chamou de carneirinha?
—Porque carneiros são inocênte e você é um tanto assim. _Fiquei indignada com esse apelido, mas antes de poder argumentar contra, Gabriel se sentou e nos deu nossa comida e, sendo sincera, comer é muito melhor que ficar discutindo com Amanda.
Minha primeira aula foi de História. O professor nos deu um trabalho para nós fazermos e, para piorar as coisas, tinhamos que apresentar os trabalhos daqui, mais ou menios, um mês. Ele deu um tema para cada aluno e, para mim, foi sobre a Revolução Francesa. Como a aula inteira foi para fazer o discurso, comecei e terminei em 20 minutos (no que era para apresentar daqui um mês), até porque eu tinha aprendido isso no oitavo ano. Amanda ficou com o período Mesolitico (Era dos metais) e, depois, Gabriel falou que a dele era “Tomada da Constantinopla pelos Turcos Otomanos”, que já havia feito _e ele ainda achou fácil!
Por mais estranho que pareça, temos aulas de sobrevivencia na selva _será que eles também tem aulas de sobrevivencia nas montanhas?
Primeiro era aula em sala, para entendermos como encontrarmos comidas não venenosas, fazer arapucas, conseguir água potável, fazermos fogueiras e nos orientarmos. Mas eu pouco prestei atenção na aula pois estava discutindo com Amanda, nas cadeiras de trás, sobre seu poder sobrenatural . Sinceramente, essa conversa se resumia em milhares perguntas minhas respondidas por ela. Ela me disse que não usa seus dons para se dar bem nas provas e nem para passar cola. Depois _continuando a falar sobre a aula _, nós nos separávamos na floresta para por em prática o que aprendíamos nas salas.
Antes de entrarmos na floresta, tinhamos que esvaziar nossas mochilas e escolher com o que enche-las. Em cima de uma mesa, havia sacos plasticos, cadarços, cordas, facas, etc. Eu peguei um de cada desses materiais.
—Se vocês ouvirem um sino, é para voltarem.
O professor havia dito.
Como era minha primeira aula, eu não sabia como tudo funcionava, então perguntei como era para Amanda.
—Algumas vezes isso dura dias até que todos os alunos saiam da floresta, porém e, nem sempre todos voltam.
Aquilo não me animou tanto mas.... aula é aula.
Fiquei por aí, andando sem rumo até o sol se pôr, então eu pus em prática o que aprendi.
Peguei um saco plastico na mochila, coloquei uma pedra dentro do saco e esperei anoitecer para beber minha água.
Anoiteceu, eu bebi minha água e esperei, procurando meu “jantar”, pois ainda não havia escutado o sino.
Felizmente, para não morrer de fome, vi uma arbusto se mechendo e um coelho saiu de lá.
Fui correndo atrás dele e tentei pular em cima de tal, mas acabou que uma outra coisa pulou em cima de mim.
De repente, eu me via sendo estrangulada por Maria Eduarda.
Eu socava suas costas, mas sem oxigênio, estava fraca.
Fazia caretas enquanto ela me sufocava e meus olhos se aregalavam como se fossem sair do meu rosto.
—Nossa, você não parece tão corajosa assim agora.
Ela estava sorrindo com seus olhos macabros me olhando e brilhando.
Eu estava comçando a ficar inconsiente e, ela, rindo histéricamente.
Depois de um tempo, fiquei vendo bolinhas pretas em todos o lugares e sem forças até para levantar os braços, então, eu só ficava batendo minha mão na grama.
Ainda sendo estrangulada, ouvi o sino bater.
—Bom... parece que vou me atrasar um pouco.
Nossa, como eu odeio essa garota!
Ela pegou uma faca atrás das costas, foi quando eu percebi que ela estava com um cinto, e pressionou-a contra minha garganta, não me deixando melhor que antes. Mesmo sem ar, emiti um gritinho estridente e, ela, não querendo que tivéssemos covidados _pelo menos foi isso que eu presumi _, tampou minha boca com sua mão livre, ou seja, a mão que não estava segurando a faca.
—Fique quietinha enquanto faço meu trabalho. _Ela não parava de sorrir.
Assim que fez isso, vi uma oportunidade de ficar viva.
Mordi sua mão, ela se distraiu um pouco e afrouxou meu pescoço, me dando a chance perfeita de tirar suas mãos imundas do meu pescocinho.
Sendo assim, pude respirar normalmente. Confesso que foi um pouco estranho e que me deu um pouco de dor de cabeça. É normal o mundo ficar girando?
Embora ela seja muito rápida, demorou a reagir a tudo.
Primeiramente, lhe dei um soco no maxilar por ter me enforcado e por tentar me matar, o que a derrubou, jogando sua faca longe , pois usei muita força nele _e foi proposital _, e falei:
—Você não devia ter me provocado e, agora que estou prevenida, quero ver se consegue me ganhar.
Ela ajeitou seu queixo e ficou de maneira ameaçadora.
—Vamos cameçar a lutar, então, querida.
Ela correu até mim, segurou meus ombros e deu uma joelhada na minha barriga, talvez tivesse revirado alguns órgãos internos, mas nada de mais. Eu me curvei de dor, mas rapidamente passou e, aproveitando que eu já estava naquela posição, investi contra ela e a joguei longe (não tão longe, afinal, eu queria continuar lutando).
Andei até ela, ela puxou meu pé com tudo e eu caí de costas (obviamente). Ela pulou em cima de mim de novo e tentou me enforcar _de novo (essa garota não sabe fazer mais nada?), porém, dessa vez, eu não deixei ela fazer isso. Primeiro, eu cuspi em sua cara e, segundo, eu rolei para o meu lado esquerdo, de modo que ela fosse junto. Fomos rolando até chegar perto da faca que ela havia arremeçado e, como eu tinha parado em cima, segurei firmemente seu pescoço, peguei a faca e a coloquei bem perto de sua pele, ameaçando matá-la (mas eu não sou louca a ponto de fazer isso).
Ele ficou com uma cara assustada e, o meu semblante assassino logo se desfez e saí de cima dela.
Ela tossiu e falou, tentando se sentar:
—Somos mais parecidas do que pensa, sabia?!
—Sabia, mas também sei qual é a diferença entre nós, e você?_Aleguei, já de pé, brincando com a lâmina e encarando-a
—Eu sou mais bonita? _Ela questionou-me, querendo saber a resposta da minha pergunta.
—Não está nem perto disso _Dei uma risadinha. _Acontece que eu não sou covarde. _Fui em sua direção, o que a fez recuar (mas não o suficiente), me abaixei ao seu lado e sussurrei. _E eu também não sou fraca.
Terminei de falar e finquei a navalha até o cabo no chão de terra, perto de sua perna, o que a assustou.
—Não me irrite novamente senão a próxima será na sua perna.
Dei um pequeno sorriso satisfeito e fui andando naturalmente até sair da floresta.
Finalmente, sai da floresta e ainda estava morrendo de fome.
Me sentei em um tronco, afinal, acabei de ter um surto psicótio (que, na verdade, é apena um surto de raiva), fui estrangulada, levei alguns tapas, dei alguns tapas (que na veradade foram bem mais do que apenas alguns tapas) e, acredite, isso cansa.
Amanda saiu um pouco depois de mim. Percebi que ela saiu meio assustada, mas não importa o que ela passou, tenho quase certeza de que não chega nem perto do que eu passei.
Depois, ela sentou ao meu lado, olhou para mim e disse:
—Que vaca!
Em dias normais, eu me ofenderia, mas, agora, mesmo sem dialogos antes, acho que era sobre a vaca da Maria Eduarda, pois era meio evidente que Amanda lera minha mente.
—Não é?! E você? Por que você chegou tão abismada?
Ela abaixou os olhos antes de falar.
—Nada. É só um bobo medo de ficar perdida no colégio de noite. _Dava para ver em seu olhar que tinha algo que ia muito além disso, mas não queria forçá-la a falar algo que a deixe desconfortável (mesmo que acho isso ligeiramente injusto, já que ela poderia ter o relatório completo da minha mentre apenas se quisesse). Encarando-a, lembrei o que Isabele comentara comigo, que seria mais fácil entender a dor de alguém se soubesse sua tragetória, mas temo que seja uma pergunta muitoi precoce para nossa tão recente amizade.
Quando ela chegou, estava com o rosto sujo e com uma grande linha de sangue escorrendo pela boca e com uma das mãos ajeitando seu maxilar.
BOA!
—Pelos céus, Maria Eduarda, o que aconteceu?
O professor perguntou preocupado.
—Eu... eu estava correndo atrás do meu jantar quando bati minha bochecha num tronco caido, e foi nesse tronco em que minha comida entrou. _Ela é ótima mentirosa.
Ela contou toda essa história olhando para mim e, eu, fiquei apenas sorrindo
Depois, comi algo decente, tomei um bom banho e fui para meu chalé.
Quando cheguei lá, vi Isabella pegando suas últimas malas e quase saindo do chalé.
—Espera. O que está acontecendo? _Perguntei para ela.
—Eu vou mudar de quarto, _chalé, querida, fale certo (a corrigi mentalmente) _agora eu vou ficar com minha irmã.
—Mas... porque? _Perguntei ainda confusa.
—Olha, minha irmã tem sonâmbulismo e você sabe o porque disso, por isso eu tenho dormir com ela, entendeu? _Assenti com a cabeça. _Okay, mas não se preocupe, você não vai ficar sozinha. Outra garota vai vir aqui. Tchau! _Ela acenou para mim e deixou o recinto.
Sentei na cama por uns dois minutos até a tal garota chegar.
—Carneirinha! _Chegou Amanda jogando suas malas no chão e gritando.
—Amanda, pare de me chamar disso, sua louca! _Essa foi minha vez de histérica, mas não gosto muito de ser espalhafatosa, por isso não fiz muito alvoroço. _Mas, você era colega de quarto da irmã da Isabella?
—Então, não é bem assim. Usei um pouquinho do meu lindo charme irresitível e consegui parar aqui. _Eu abracei aquela garota maluca e começamos a arrumar suas coisas (não paramos de conversar um minuto sequer).
Quando pudemos finalmente dormir, tive o mesmo pesadelo e a mesma pergunta de manhã.
—Você ainda não sabe que é ela?
E a mesma resposta.
—Não.
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