Estava sentada em minha sacada, ia para frente e para trás na cadeira de balanço que viera de herança de minha avó. Era uma quarta feira e a rua estava vazia, apenas o som dos meus pensamentos acompanhados de alguns mosquitos que rodeavam a única lâmpada que piscava na rua, a lâmpada da casa dos Tompson. Lá morava uma única pessoa, Simon Tompson. Garoto alto, magro, pele branca feito marshmallow, mas as bochechas se mantinham rosadas. Seu cabelo era preto e despenteado, seu nariz era fino e possuía uma voltinha no final. Sua boa era bem definida e sempre estava vermelha. Realmente era um garoto de extrema beleza. A única coisa que não me agradava, eram seus olhos, naturalmente sombreados, profundos, pareciam estar prestando atenção em tudo o tempo inteiro. Gozavam um sentimento que eu não compreendia e aquilo realmente me incomodava.

Seus pais, Agnes e Silas, eram pessoas um tanto anormais. Agnes apesar de simpática e sorridente tinha surtos inesperados e era viciada em empalhar gatos. Já Silas, era um bêbado viciado em cigarros e miniaturas de carros dos anos 80. Ele também batia em Simon quando chegava bêbado (eu conseguia ouvir os gritos durante a noite, o que não era nada agradável). Quando Simon fez dezoito anos, ambos sumiram. Sempre achei que fugiram só para não ter que aguentar o filho, que para eles era um fardo. Desde então, como eu, Simon vivia sozinho (mas meus pais haviam morrido em um acidente de carro há dois anos atrás).

Conheço Simon desde os meus quatorze anos e ele sempre foi uma pessoa solitária, seu único amigo era seu balanço, no qual passava horas e horas. As pessoas tinham medo dele na escola devido a boatos de que seus pais gostavam de carne humana. Por isso, ficava sozinho o tempo inteiro. E agora, com dezenove anos não mudou muita coisa, ele quase não sai e ninguém visita a casa dele... em minha opinião, ele era apenas uma pessoa mal compreendida.

Ainda estava viajando em meu mar de memórias e pensamentos quando vi Simon virando a esquina. Logo peguei o primeiro livro que vi (não me lembro qual era), só para disfarçar e poder continuar observando sem parecer uma maníaca. Ele estava diferente, normalmente andava apressado e tenso, hoje não, estava relaxado, aproveitava cada passo, cada suspiro. Também estava mais bonito, seus olhos continuavam com aquele mesmo sentimento, mas tinham menos tensão, menos dor. Fiquei hipnotizada e acabei deixando o livro cair. Não sei o porque, mas quando você não pode fazer barulho e deixa algo cair, vai fazer mais barulho que o normal. Nisso, ele já estava na frente de casa e mesmo assim ouviu. Quando ele me olhou, levantei rapidamente. Me encarou por alguns minutos, sorriu e entrou. E aquele, foi sem dúvida, o sorriso mais bonito que já vi. Por fim, entrei e dormi.

para há dois ano
para há dois ano

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.