O garoto

1 Capítulo Único


Notas iniciais
O filme que eles assistem é esse aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Kid

- Você não pode estar falando sério, papai.

- Seríssimo, Catarina! E vá se arrumar! Daqui a pouco o Petruchio vem te buscar.

- Mas nem pensar que eu vou ao cinema com aquele grosseirão! E de carroça!

- Ah, você vai sim! De carroça, a pé, no lombo daquele rapaz. Mas você vai!

- Você não pode me obrigar.

- Eu não, mas ele pode. Seu noivo é bem forte, Catarina, e já deixou bem claro que não vai desistir de você, então acho menos embaraçoso não resistir ou vai acabar indo carregada. Além do mais, minha filha, ele nunca foi ao cinema e quando eu sugeri que vocês fossem os olhos dele brilharam de felicidade. Você sempre reclama que ele não tem cultura e tudo o mais, então porque não o ajuda a evoluir?

- Nisso você tem razão. Reclamar da vida nunca levou ninguém a lugar nenhum. Eu vou. Quem sabe não consigo levar um pouco de luz à cabeça oca do noivo que me arranjou. Mas vou apenas por isso, papai, não pense nem por um segundo que estou aceitando essa sua ideia maluca!

O senhor Batista, em um de seus poucos momento sábios, resolve ficar calado e apenas concordar com a cabeça. O receio de ver a filha mudar de ideia sobrepondo-se à vontade de afirmar, mais uma vez, que ela ia sim se casar com Julião Petruchio gostando ou não.

Duas horas mais tarde ele chegava, vestindo o que parecia ser o seu melhor terno — embora não desse para ter certeza, pois mesmo este sendo melhor do que os outros ainda era um terno horrível, como Catarina fez questão de salientar à Mimosa, ainda que tivesse mencionado também que ele ao menos mostrava intenção de melhorar, já que até banho tinha tomado e o cabelo estava penteado. Trazia um pequeno buquê de flores silvestres na mão. Ele as havia escolhido pensando nela. As flores eram coloridas, cheias de vida e, por terem sido colhidas há pouco e modestamente amarradas com um barbante, ainda tinha aquele ar selvagem que tanto combinava com a pessoa à quem eram destinadas. Era um buquê diferente das clássicas — e impessoais, segundo opinião de Catarina – rosas, e ela não conseguiu se impedir de pensar que as flores, de fato, combinavam com a personalidade dela.

- As flores são lindas, Petruchio. Não posso dizer o mesmo de você, mas obrigada mesmo assim.

- Eu vou ignorar o que que ocê disse de mim, favo de mel. Que bom que ocê gostou das flor, colhi elas foi pensando em você mesmo. Agora vamos? O cavalo já tá é impaciente lá fora.

- Mas quem disse que eu vou de carroça? Nem pensar! Vamos de carro. E eu dirijo!

- Mas nem pensar que eu vou deixar é você dirigir. E não tem nada de errado com a carroça, viu! A gente vai é com ela e acabou.

- Acabou coisa nenhuma! Eu não subo naquela coisa de jeito nenhum.

- De jeito nenhum é? Você vai é ver de que jeito que ocê vai subir na carroça se não for por vontade própria.

- Porque vocês não vão andando mesmo? — Bianca interrompeu, fazendo com que todos olhassem para ela — A noite está linda e o cinema é aqui perto. Assim vocês param de brigar, não perdem a sessão e ainda é romântico. Depois Petruchio pode levar Catarina para tomar um sorvete, trás ela para casa e vai embora de carroça.

- Ótimo ideia, filha. — disse Batista, ansioso para por um ponto final na discussão — Mas vão logo, antes que percam a sessão ou não encontrem lugar nenhum na sala do cinema. Não vejo muita graça nesse Chaplin, mas as pessoas parecem gostar dele.

- Está me tocando de casa, papai?

- Não. Estou tentando fazer você não perder o encontro com seu noivo. Agora vai.

- Mas...

- Vai, Catarina!

- É, vamo logo, favinho. Eu quero ver o que é que é que falam tanto desse tal de cinema e quem é que é esse Chaplin.

- Tudo bem, grosseirão, já que minha própria família praticamente me expulsa de casa eu vou. Além do mais também quero ver esse filme, ouvi falar muito bem dele. Vamos.

Os dois caminharam por cerca de vinte minutos. A princípio Petruchio realmente tentou conversar com Catarina, mas suas perguntas eram sempre respondidas de forma curta e grossa. Sendo assim, ele começou a falar sem parar sobre a fazenda. Se ela não queria falar com ele então ele falaria com ela e pronto.

Quando finalmente chegaram ao cinema, ela não aguentava mais ouvir falar em galinhas, vacas, cabras e como se fazia o queijo. O alívio ao ver que faltavam apenas cinco minutos para o filme começar era enorme. Entraram e foram logo para o fundo do cinema com Catarina afirmando que era o melhor lugar e dizendo: "Não, Petruchio. Na frente é que a gente não vê nada e ainda fica com torcicolo". Ele até pensou em debater, mas ao ver que ela o estava puxando pela mão sem ao menos perceber, decidiu ficar quieto. De qualquer forma era ela quem conhecia o espaço e não ele. Foi com desapontamento que ele viu suas mãos se soltarem ao chegarem no lugar onde ela queria ficar.

O filme se chamava “O garoto” e, embora os esquemas que o vagabundo e o menino tramavam fossem bem engraçados, algumas cenas eram comoventes. Ao final do filme Catarina estava pensativa e calada, o que despertou intensamente a curiosidade de Petruchio.

- O que é que é que foi, hein Catarina? Tá é muito da quieta, nem parece a minha onça brava de sempre.

- Em primeiro lugar : Não sou sua coisa nenhuma. Em segundo lugar: Você reclama quando eu falo e reclama quando eu fico quieta. Quer o quê?! E em terceiro lugar: Não me interessa o que você quer, eu falo quando quero e não falo quando bem entendo!

- Arriégua, que só fiquei foi preocupado! Mas pelo menos você voltou ao normal, é a minha onça brava de sempre. — Ele respondeu com um sorriso, feliz por vê-la sem o olha triste no rosto e aproveitando para provocá-la um pouco mais.

- Se disser de novo que sou sua, vou arrancar todos os seus dentes, Julião Petruchio!

- Ah, mas eu quero é ver tentar! Com essa mão pequena que ocê tem, duvido que consiga arrancar um dentinho aqui da minha boca. Muito menos todos...

- Ah, quer ver eu tentar é seu...

- Olha! Chegamos na sorveteria! Vamo, favo de mel, vou te comprar um sorvete — Ele a interrompeu e dessa vez foi ele quem a puxou pela mão, quase a arrastando para a sorveteria e pedindo duas casquinhas de baunilha antes que ela tivesse a chance de reagir.

- Não gosto de baunilha, quero chocolate.

- Arriégua! Agora já foi. O moço até fez o sorvete já. Para de frescura e toma esse sorvete logo.

- Você que pediu sem me perguntar. Não vou tomar sorvete nenhum e pronto.

- Ah, você vai tomar sim!

- Não vou.

- Vai sim!

- Olha o que eu faço com esse sorvete, seu grosseirão!

Num movimento rápido, ela pegou as duas casquinhas que estavam ainda na mão do sorveteiro e as lançou contra o peito do noivo. Por cerca de dez segundos eles apenas ficaram ali parados. Ela encarando-o com satisfação e ele com incredulidade. Então, muito calmamente, Petruchio pegou os sorvetes e os esmagou nos ombros dela, limpando as mãos em seus braços. Agora era ela quem estava incrédula e ele satisfeito. O silêncio dela, porém, durou apenas dois segundos.

- Julião Petruchioooooooo! Eu vou matar você! — Ela então se lançou para ele. As mãos fechadas, dando-lhe socos no peito que somente ela acreditava que o machucariam.

- Não, ninguém vai matar ninguém aqui, meu favo de mel. Isso tudo é teatro seu porque ocê sabe que eu adoro te ver braba feito uma onça assim. Mas eu sei o que é que é que ocê quer. — Ao dizer isso ele a segurou firmemente pelos braços e a beijou. Quanto mais ela tentava se soltar, mais ele a puxava contra si.

- Você é um grosseirão mesmo! — Foi a primeira coisa que ela falou, assim que ele finalmente a soltou, logo antes de lhe dar um tapa no rosto e sair correndo para a rua.

Quando ele saiu da sorveteria ela não estava a vista, o que o obrigou a sair procurando-a, com um misto de raiva, vontade de dizer umas poucas e boas e preocupação com o que poderia acontecer com ela sozinha na rua a essa hora da noite. Claro que ela poderia ter ido para casa, mas por algum motivo ele duvidava disso. Não sabia explicar, mas havia algo no olhar dela além de vontade de arrancar a sua cabeça no momento do tapa. Cerca de meia hora depois, ele resolveu dar uma ultima olhada na praça em frente ao cinema antes de desistir e ir até a casa do pai dela ver se ela, afinal, tinha ido para lá. A essa altura já tinha esfriado a cabeça e estava mais preocupado do que qualquer outra coisa. Mas porque ela tinha que ser tão teimosa?

Petruchio a encontrou escondida atrás de uma árvore. O casaquinho leve que vestia e que tinha ficado todo sujo de sorvete, estava jogado em um canto no chão. Ele se sentiu culpado pelo que havia feito ao ver que ela estava com frio. Porém a culpa passou ao perceber que seu terno também estava sujo e por isso não poderia oferecê-lo a ela. E a raiva tornou a invadí-lo. Ainda mais vendo que ela estava bem e ele tinha sido feito de bobo por ter ficado a procurando por todo esse tempo. Já ia começar a brigar quando ela começou a falar em uma voz tão tímida e baixa quem parecia a sua Catarina:

- A minha mãe. O filme me lembrou da minha mãe. Na verdade, de como foi ser criada sem ela e da falta que ela fez. Por isso eu estava quieta daquele jeito quando saímos do cinema. E então na sorveteria tudo aconteceu tão depressa... E você não devia ter pedido o sorvete sem nem me perguntar se eu queria e de que sabor. Já estão me obrigando a me casar com você, me obrigaram a vir nesse encontro e agora nem o sabor do sorvete você me pergunta? Estão tirando todas as escolhas de mim, Petruchio. Por isso eu brigo tanto, eu quero fazer as minhas próprias escolhas e não me deixam. Não é porque sou mulher que não sou capaz de escolher por mim mesma, seja sobre casamento, encontros ou o sabor de um maldito sorvete! Você ia gostar se fizessem isso com você?

Ele percebeu a mudança no assunto de propósito. Ela devia ter se arrependido de ter falado da mãe com ele e agora queria arrumar uma briga. Essa Catarina, tão diferente das outras mulheres que ele tinha conhecido ao longo da vida... Mulheres que usariam as lágrimas para conseguir o que queriam. Mas não ela. Catarina exigia as coisas, e aos berros, o completo inverso. Nunca queria se mostrar fraca. Como era possível que a mesma coisa que o irritava tanto e causava tantas brigas entre os dois fosse bem o que o fazia se apaixonar aos poucos por essa mulher? Como ela conseguia?

- Não, não ia gostar não. Mas também não precisava ter começado a gritar. Arriégua, era só ter falado que nem gente! Ocê diz que odeia receber ordens das pessoas, mas só o que faz é exigir as coisa e dar ordem em todo mundo! Não precisa ser 8 ou 80!

- Olha quem fala!

- É, olha quem fala mesmo. Eu sei que sou cabeça quente, que me irrito fácil e tudo o mais, mas eu estou tentando. Só que só eu tentar não resolve nada, ocê tem que colaborar também. Porque que é que a gente não faz uma trégua e vê no que dá?

- Desde quando você sabe o que significa “trégua”?

- Catarina!

- Tudo bem, tudo bem, desculpa. Eu entendi o que você quis dizer.

- Aí, a gente consegue se entender quando quer.

- Eu sei que você também está nesse noivado por escolha de outros, Petruchio. Sei que não sou a mulher que você escolheria para se casar. Concordo com a sua trégua, não vou mais jogar coisas em você ou te estapear enquanto isso durar.

- E eu prometo não tomar mais decisões procê.

- Combinado. – Dizendo isso, ela estendeu a mão e ele prontamente a aceitou, ainda que surpreso com o gesto. Suas mãos estavam se tocando muito naquela noite. Então ele a puxou para perto, seus rostos quase se encostando, de forma que ele conseguisse sussurrar em seu ouvido.

- E só para você saber, a gente combina mais do que você pensa.

Notas finais
Espero q tenham gostado :D

Por favor comenteeeeeeeeeeeeeem!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!