Ignorando o sol e a temperatura perto dos 24 graus, Giovana vestiu seu moletom masculino antes de sair de casa, simplesmente para não ter que vestir uma blusa agarrada qualquer de seu armário. Pelou todos os livros que deveria analisar, as pastas com os esquemas de aulas e sua bolsa. Como de costume, passaria as próximas horas preparando o que lecionaria no dia seguinte na companhia de uma boa xícara de chá num local simpático a duas ruas de distância do pequeno studio em que morava.

Chegando lá, espalhou tudo o que tinha numa espaçosa mesa de madeira e logo começou a anotar todos os tópicos relevantes dos livros de Drummond: teria que simplificar bastante a análise para que os alunos compreendessem a profundidade de tal escrita. A cada minuto que passava, mais cheio ficava aquele café. O barulho era incômodo, e o tumulto também não a agradava. Perdida em versos carregados de sentido, não percebeu quando um jovem rapaz sentou-se na cadeira logo à frente da sua.

— Oi, eu sou o Léo. Quem é você?

Pega de surpresa, respondeu com a voz trêmula:

— Ninguém. Sou uma tragédia. Quer dizer, oi, sou a Gi.

Definitivamente, ela não estava acostumada a falar com estranhos, nem gostava muito dessa situação. Mas, quanto mais a conversa seguia, mais Leonardo gostava se seu jeito, e mais relaxada ela ficava. Ele parecia um cara legal. Falaram sobre o tempo, o tumulto, suas profissões, seus hobbies, de si mesmos. Era fácil conversar, como se se conhecessem há anos.

Ambos estavam de saída, então continuaram caminhando juntos por mais alguns quarteirões, esticando a conversa ao máximo. Pararam na esquina em que ela deveria tomar o metrô até o colégio em que trabalhava.

— Então, o que uma professora de literatura de 25 anos faz numa sexta à noite?

— Nada demais...apenas uma pequena leitura debaixo de cobertores quentinhos enquanto toma chá.

— Venha jantar comigo...podemos assistir à um filme também.

Riu para si mesma...não se lembrava da última vez que a haviam convidado para sair.

— Não posso...sinto muito –respondeu, mostrando para Leonardo seu anel de noivado.

Claramente desapontado, perguntou:

— Bom, onde está o sortudo para te deixar em casa lendo em plena sexta-feira?

— Longe...

O assunto era delicado, o que foi possível de perceber a partir do olhar triste dela. Leonardo não compreendia aquela equação: uma garota talentosa com um noivo ausente. Era evidente que ela gostava dele, então porque ele se mantinha afastado? Se estivesse em seu lugar, não a deixaria nunca, nem sequer por um minuto. Ele não conseguia mais ver-se sem ela.

— Então permita-me ficar perto.

Notas finais
Espero que tenham gostado dessa misteriosa professora de literatura!