O amigo do pai de Zoro pediu para que recebessem seu filho por um tempo. Ele sairia da França e iria para o interior da Inglaterra, onde ficavam as propriedades da família Roronoa. Zoro nem foi contra essa ideia, porque era comum vir visitas no verão, havia até mesmo um quarto separado só pra isso. Verão passado um senhor americano que só andava de sunga ficou um tempo por lá, mas esse ano viria alguém da sua idade. Isso era novidade.

Antes de descer no andar de baixo, deu uma olhada em seu quarto. Parado no batente, pensou que estava cansado de todo aquele luxo de sua família. Zoro apenas queria ser um adolescente ordinário e que vivesse em Londres, trabalhando em alguma fábrica exploradora. Pelo menos, a esgrima lhe dava um suor, se forçasse mais a mente, até se veria coberto de graxa e fuligem.

Com certeza o garoto que viria era só um filhinho de papai.

E era.

Sanji era muito polido. Uma franja loira teimava em cair no seu olho esquerdo, mas o cabelo não era desgrenhado, talvez caísse para um lado por ser sedoso demais — Diferente do seu, que era arrepiado e brutalmente esverdeado — e nem mesmo a sobrancelha enrolada lhe tirava do contexto, era um rapaz bonito.

Parecia um anjo.

Por isso Zoro decidiu ser um demônio. Ainda mais depois dos constantes elogios que seu pai dava para a visita, sempre a comparando com o seu filho. “Zoro, por que você não pode ser como Sanji?” ou “Zoro, por que você não pode tomar banho todos os dias como qualquer mortal?” isso lhe dava uma raiva sem igual e ele percebeu a feição descontente do loiro, era satisfatório no final do dia ver Sanji com seus olhos azuis cravados nele como se estivessem jogando uma praga. Zoro costumava dar a língua, Sanji revirava os olhos em resposta.

— Você é muito infantil.

Disse Sanji uma vez, depois de passearem a cavalo. Zoro havia deixado o instrutor doido por ter saído correndo com o seu, enquanto tentava ficar de pé. Obviamente, queria se mostrar para sua ilustre visita, mostrar o que podia e sabia fazer. Tinha certeza que Sanji não tinha tal coragem.

— Fazendo essas coisas... se acontecer algo contigo, o instrutor perde o emprego. — Disse levando o seu cavalo até o estábulo.

Zoro estreitou os olhos com o que ouviu. — E você se importa?

— Mais do que você. — Respondeu, seco.

Aquilo ficou na mente de Zoro, realmente nunca olhou nesse ponto de vista, mas bufou e se virou de lado na cama para fazer o que tanto amava: dormir.

Naquela manhã, receberia visita de uma garotinha chamada Tama e depois de se perder na sua própria mansão, se encontrou com ela para comer na mesa de jantar. Assim que se aproximava, a viu sorrindo encantadoramente. Correu os olhos nos outros assentos e não viu nem sombra do sobrancelha enrolada.

— Bom dia, Zoro!! — Disse a menina com um enorme sorriso. Tama era da família do lado e passava muitas horas com os Roronoa.

— Bom dia, Tama! — Sentou-se. — Como vai?

A garota comia um bolinho com uma cereja no topo. — Estou chateada.

— Do quê? — Perguntou depois de coçar um dos olhos e resolver pegar algo menos doce possível.

— Você não me disse que o visitante desse verão era o cozinheiro.

Zoro riu, pensou que seria impossível um almofadinha trabalhar na cozinha com os outros criados. Aliás, era impossível que ele apenas trabalhasse. — Do que tá falando?

— Como assim? Sanji me disse que estava de passagem aqui na sua casa.

— Isso é verdade, mas cozinhando?

— Pois bem, ele cozinha.

Pensou se era alguma brincadeira infantil, mas Tama estava séria. — Não está confundindo as coisas?

— Se não dormisse toda manhã, veria que falo a verdade. Até mesmo participaria nos preparos do café como eu faço!

— Quê?! Você fez isso? — Abriu a boca e apontou.

— Com a ajuda de Sanji, sim.

— Deus me livre!

Zoro cuspia o que havia acabado de comer, então aquelas coisas adocicadas demais eram feitas por aquele idiota? Por essa não esperava. No entanto, ouviu barulho de passos e sentiu uma presença. Sanji estava de pé ao lado de uma coluna do arco sobre a mesa.

— Marimo, não desperdice comida.

— Do que me chamou? — Ainda tinha a boca cheia.

— Coma devidamente, esse momento é precioso.

Tama se levantou da mesa e puxou o avental sujo de Sanji. — Venha, Sanji! Senta do meu lado.

O rapaz a observava com um lindo sorriso — que até corou Zoro por instantes —, enquanto se ajeitava na cadeira. — Os bolinhos ficaram do seu agrado?

— Estavam deliciosos!! Vou fazer em casa para os meus pais!!

— Que ótimo.

Desde quando eram amigos? Era o que Zoro pensava, enquanto piscava os olhos incessantemente. Aquele sobrancelhudo era muito bom com crianças. Tama costumava dar um pontapé em sua canela sem nenhum motivo — mas havia sim —, enquanto para aquele idiota apenas sorria? Espirais deviam ser o tipo dela.

— Acordou cedo hoje, marimo.

De novo o chamou daquele nome desgraçado. O que era marimo? — Tama pediu. — Murmurou.

— Sim, ele precisava conhecer sua comida.

Sanji deu um carinho na cabeça dela e voltou o olhar para Zoro. — Que bom que não fez uma dama esperar. Não esperava isso vir de um primata como você.

— E que porra faz na minha cozinha?!

Tampou os ouvidos de Tama com suas mãos. — Marimo, tem criança aqui. Costuma xingar na frente dela?

Zoro bufou. — Ficou muito doce. — Jogou o lenço sobre um prato e se levantou da mesa com desdém. Sanji se limitou a suspirar, enquanto Tama observava tudo confusa ainda com as mãos do loiro em suas orelhas. No entanto, o marimo parou e se virou. — Venha na biblioteca a noite para te mostrar do que gosto de comer.

Ok. Isso soou estranho. — Não como da sua fruta...?

— O que você quer dizer com isso?!

A noite chegou, Zoro se perdeu antes de chegar na biblioteca. Portanto, quando chegou Sanji já estava à sua espera. No entanto, o loiro abriu o olhar quando viu a garrafa de vodca que carregava em seus braços.

— M-Marimo?

— Shí!! Fale mais baixo! Meu pai não tá em casa, mas os criados ainda estão.

— Você bebe? — Sanji parecia nervoso, embora já bebesse vinho com permisão de seu pai.

— Vai amarelar, almofadinha?

Sanji enrugou o cenho, não gostou de nada do que ouviu. Zoro não sabia, mas ele também nutria uma rivalidade naquela relação de cão e gato. — Sua mãe.

Zoro deu um sorriso ladino e os dois caminharam até o estábulo, estavam sobre as palhas e bebiam observando o luar. Era noite de lua cheia. Revezavam o bico da garrafa e bebericavam a bebida que entrava quente em seus corpos. Sanji já estava começando a perder os eixos e Zoro ria de sua cara.

— Como consegue ficar- — Soluço. — Depois de beber tanto?

— Tanto? Sobrancelha enrolada, ainda não chegamos na metade.

— Pretende chegar até o final?

— Você não?

— Se eu ainda tiver- — Soluço. — Vivo, quem sabe...

Zoro riu. — Por que estaria morto, idiota?

— Quem morto? Eu?

Zoro riu ainda mais, percebeu que Sanji estava tontinho e aproveitando que provavelmente não se lembraria de nada, resolveu dizer algo que pensou que nunca diria. — Me desculpe por ter te julgado, sabe, você não é tão ruim assim. — Confessou olhando para a lua, que aparecia no vão entre as vigas do estábulo. Um leve rubor tomou suas bochechas e Sanji acharia que era a bebida.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!