O fim e o amor do Assassino Smile
1 Capítulo único
Notas iniciais
Postado também no Social Spirit.
O mundo não é um lugar seguro. Nunca foi. Sempre houveram predadores atrás de suas presas, é assim que o ciclo da vida funciona. O mais adaptável sobrevive e o mais forte vive... Ou mais ou menos isso.
Certas leis da natureza não se aplicam a humanidade, às vezes os humanos matam por matar, por prazer, vingança ou qualquer sentimento dúbio. O assassinato por si só é horrível. Tirar a vida de um ser vivo dito racional é, pela sociedade, desumano.
A definição de desumano é um “ser racional que age sem raciocínio algum; um conjunto de pessoas que não são humanas, que não gostam de ninguém”. Interessante, porque para assassinar é preciso de um plano, precisa raciocinar entre os benefícios e os contras, precisa ter certeza do que faz. Confesso que a segunda é mais complicada de contestar, como assim não gostar de alguém? Gostar de amar? De se importar?
Peter amava os pais. Todo o Natal e Ação de Graças ele passava com a família. Ele sempre foi um filho amado e inteligente, entende de coisas que não sou capaz de compreender.
Peter, Peter McCartney, filho único de Eve e Adam McCartney, formado com méritos na faculdade de Direito em Yale, seu doutorado e mestrado falavam sobre a natureza do homem e como as leis vão contra ela e sobre a nossa necessidade de um lar seguro. Se formou novamente com méritos na faculdade de Psicologia. A sua compreensão sobre a natureza humana e seus comportamentos, de fato, são melhores que a minha. Entretanto eu sei de suas verdades obscuras, como o Médico e o seu Monstro ou como aquele cara do filme que não me lembro o nome.
O real problema de Peter era ele não ter um alter-ego, ele sabia o que fazia, ele tinha noções dobre os seus crimes. Poderia, até, lhe dizer em quais artigos e secções eles se encontram em todos os estados dos EUA, inclusive o Canadá.
A onda de assassinatos começou aos 17 anos na sua festa de formatura. Peter e sua namorada estavam festejando no carro, se é que você me entende. Dois caras os abordaram, pediram todos os objetos de valor. Eles eram amadores, principiantes e quando mostraram o revólver, o mais alto derrubou-o, deixando-o cair no colo de Peter. Ele não pensou três vezes e matou os dois.
O Estado o liberou por legítima defesa, alguns fatos encobertos e omitidos ajudaram-no também. O que adianta a libertação quando uma bomba na sociedade mundial é solta? Como um fã de Criminal Minds sabe, o assassino sempre vai melhorando com o passar das mortes, e assim se sucedeu.
Depois dos assaltantes, veio uma garota, um senhor de 40 anos e várias outras pessoas sem qualquer vínculo entre si. Ele, no entanto, sempre deixava sua marca, uma imagem de um emoji sorridente. Ele se tornou conhecido como Smile.
No começo, era pensado ser um justiceiro, porém quando ele matou uma garota de 15 anos sem ficha e sem resquícios de algo errado na escola, a situação mudou. Ele havia completado 26 anos, seu mestrado tinha começado e as investigações começaram a ficar mais rígidas.
Peter nunca chegou a ser descoberto, pelo menos não pela polícia. Ele sempre tinha álibi e nunca tinha algo haver com as vítimas, exceto os criminosos, claro. Ele também nunca tinha pensado em ser justiceiro, por incrível que pareça, era apenas pura coincidência.
Eu gostaria de poder dizer que tudo mudou após ele conhecer Tory. Mas não posso. Ele não mudou.
Eles se conheceram no tribunal. Ela estava processando uma empresa por uso de testes de cosmésticos em animais. A firma para qual Peter trabalhava a representava.
Tory Robinson, uma garota 10 anos mais nova que Peter, filha de uma mãe ausente e um pai bêbado anônimo. Formou-se em Medicina Veterinária, um ano depois da conclusão do doutorado de Peter, ele já comemorava seu 100º assassinato. Tory não conseguiu se formar com méritos, ela precisava de seu tempo livre para pagar seu curso e contas. Isso não a impediu de ser boa no que faz, nem de ter paixão.
A média de homicídios por Peter era de 9 mortes por ano. Quando Peter se apaixonou por ela, ele perdeu as contas de corpos e completou 35 anos de vida com seus pais.
Tory também se apaixonou. No começo, tudo era flores. Ele a levava para jantar todos as sextas com os pais dele. Eles planejavam o futuro com filhos e uma casa no lago. Na primeira saída misteriosa, ela não se importou, nas subsequentes pensou estar sendo traída.
Ela não poderia aguentar uma traição, não tendo experimentado uma vida perfeita. Ela não teria forças. Uma pena mesmo foi ela ter desejado ter sido traída quando o questionou diversas vezes com gritos. E ele não confessou de primeira. E ela descobriu em um ataque de raiva.
Conhece a tática do silêncio? Onde seu parceiro tenta um diálogo contigo e você simplesmente ignora? Bem, ela o fez pela milésima vez, sentada no sofá, braços cruzados, atenção parcial a televisão, canal 7. Ele implorava de joelhos no chão o perdão. O jornal recontava os fatos do Assassino Smile e informava novos casos.
Uma senhora de 53 anos fora encontrada no Alaska e um jovem de 27 anos no Texas, todos os dois com a assinatura do assassino em um intervalo de 3 dias. Tory fez as contas rapidamente em sua cabeça, tempo de viagem, hospedagem e comparou com o tempo que Peter passara viajando. Ela respirou fundo e perguntou com uma falsa paciência e calma:
— Foi você, não foi? – Peter parou, estático.
Pensou seriamente em mentir, mas ele nunca mentir para ela antes. Omitir fatos é totalmente diferente. Os minutos de hesitação e pensamentos foram o suficiente para uma confirmação.
— Ai meu Deus, Peter! V-vo-você é-é-é u-um – Peter a parou antes de completar a frase.
— Por favor, meu amor! Por favor, nada mudou, por favor.
Em uma tentativa de tocar a face dela, ela o rejeitou e em gritos e desespero o proibiu de tocá-la. Com perdões e desculpas pela omissão e um desespero em perde-la, assim ele o fez. Tory parou, enxugou suas lágrimas e como uma pessoa que não é só apaixonada, mas que ama ele, pediu severamente para ele lhe contar tudo.
Veja bem, Peter podia ser uma pessoa cruel, mas em relação aos seus amados, ele fazia o possível para vê-los bem. Então, quando a sua esposa exigiu a verdade, ele sabia que não teria escolhas.
Contou-lhe sobre a primeira vez com símbolo do smile. Contou-lhe que teve a ideia com a namorada da formatura, ela sempre o usava para mandar mensagens e naquela noite ela mandara um para eles se encontrarem no carro. Contou-lhe também sobre como ele se livrava das provas. Ela lhe perguntou sobre os sentimentos e ele respondeu. Explicou sobre como sentia toda vez que rasgava uma pessoa, sobre o poder que sentia possuir. Ela pediu mais detalhes sobre as mortes, ele tentou não contar tudo explicitamente, mas ela insistia.
Ela desejava saber do que o homem que ela ama era capaz. Bom, ela se surpreendeu. Ele contou que primeiro cortava a jugular e depois cortava uma parte qualquer do corpo. Às vezes, se a pessoa lutasse, ele a torturava. Falou sobre a vez em que se machucou e necessitou limpar todo o sangue, daquela vez em diante, ele sempre limpava a cena do crime.
— Quantas mortes? – Era uma pergunta simples e uma resposta complicada. Ele não queria dizer, óbvio que não. Ele sabia que com os reais números, ele a perderia. Isso ele não queria, mas também não queria mentir.
— Você precisa saber que desde que te conheci eu diminuí consider...
— Quantas? – Repetiu com a voz mais severa.
— Acho que quase 160, eu perdi as contas.
Espanto e medo expressados no olhar de Tory. Segundo o jornal, tinha sido 53 mortes confirmadas e apenas 5 corpos não encontrados. Pelo visto, as perícias estavam erradas. O FBI estava errado.
Tory levantou do sofá e ao sentir ser seguida, pediu um tempo e saiu de casa. Tory dirigiu sem rumo por mais de mil quilômetros, quando se deu por si, estava passando pela fronteira do Canadá. Ela encostou o carro na estrada e começou a chorar.
Posso te garantir que a decisão que ela tomou não foi a mais ética, mas foi a mais adequada. Os pensamentos, que a levaram decidir o que fazer, eram nebulosos. Todo o seu ser pedia para voltar para ele, pedia para perdoá-lo. Todo o seu coração queria o que eles tinham de volta. A sua razão exigia misericórdia com os mortos e com as famílias dos corpos ainda não encontrados.
Ela voltou para casa, dessa vez mais devagar, atenta a qualquer movimento.
Chegou em casa na hora do jantar, foi recebida por um abraço preocupado dele. Ela o afastou e beijou sua bochecha.
— Eu preciso te perdoar e para isso eu preciso que você escreva uma lista com nome de suas vítimas, — ele tentou interrompê-la, mas ela não deixou – quero que você diga se a vítima já foi encontrada ou o local onde você a deixou. Quero que faça isso com todos.
Ele a observou, percebeu as bolsas de cansaço em seu rosto, os olhos inchados e a pele vermelha. Peter afirmou com a cabeça, beijou-a nos lábios levemente e deixou a casa.
Peter sempre foi organizado, ele já tinha esta lista. Foi em rumo a casa dos pais, se amaldiçoando por ter deixado destruir o amor de sua vida. No porão de sua antiga moradia, no canto esquerdo norte do chão, um pequeno buraco com um pen-drive pequenino.
Tory ficou surpresa com o objeto.
— Você não precisa me perdoar agora, te darei o tempo que precisar.
E a deixou parada na sala, olhando perplexa para o pequeno pen-drive e a senha em um papel ainda menor. Ele deitou na cama e fechou os olhos, não para dormir, apenas para relxar melhor. Peter esperou por ela durante horas. A fome já o alertava pela zilonésima vez.
O caminho para a cozinha com a vista de Tory no computador digitando e chorando ao mesmo tempo. Ele resolveu não a atrapalhar. Ele fez certo. Tory estava escrevendo um e-mail para o FBI, explicando a sua situação e como e quando ela descobriu. Ele pediu para não a contatar e disse que ele estaria esperando eles na casa dela.
Peter comia um macarrão com molho de camarão, Tory estava preparada para apertar o “Enter”. Ela o chamou e ele foi prontamente:
— Eu ainda te amo e acho que posso te perdoar – começou devagar, ele viu o e-mail e imaginou o seu futuro, porém não disse nada, apenas escutou – Eu também acho que você precisa se entregar.
Ele concordou e eles se despediram na cama. Tory ainda estava nua, quando ele lhe entregou o revólver calibre 25., que ficava embaixo da cama.
— Eu só lhe peço duas coisas, aperto o gatilho por mim e o “enter” por você – Tory chorou, lágrimas descendo pelo seu rostos, seios e secando pelo caminho.
Eles fizeram juras de amor, ela implorou para ele apenas se entregar aos federais, ele explicou que a pena dele seria de morte e ele preferia deixar o mundo pelas mãos dela. Ela chorou e o abraçou pedindo por favor. Em lágrimas, ele a implorou, colocou o revólver na mão dela.
Os segundos seguintes foram rápidos demais. Peter destravou a arma e colocou o dedo indicador de Tory no gatilho. Ele sabia que ela não faria por si só, então com um sorriso morto no rosto ele disse seu último “eu te amo” e com o seu polegar apertou o dedo de Tory no gatilho. Ela soltou um grito de desespero ao sentir o sangue em seu rosto.
O banho foi lento e doloroso, imagens de tudo o que eles passaram juntos, todas as alegrias e tristezas, os sonhos de uma família maior e o de uma aposentadoria em um país tropical. Ela organizou o corpo de Peter, o beijou e cobriu sua parte íntima.
Ela foi pro computador, acrescentou alguns detalhes no e-mai. Detalhes como a morte dele e o pedido oficial de desculpas dela. Ela pressionou o “enter” e foi se acomodar na casa dos sogros, onde explicou tudo e foi recebida com dor e como uma fiha.
O FBI chegou no endereço dado em 15 minutos. A imprensa quase na mesma hora. O agente responsável pelo caso discursou sobre como eles tiveram notícias sobre a verdadeira identidade do Assassino Smile. O detetive afirmou que o e-mail foi anônimo e o FBI ao liberar para os cidadãos, ocultou detalhes pessoais de Tory e negou o envolvimento com o assassino.
A polícia federal sabia quem matou Peter, mas decidiram não ir atrás, pelo menos não ainda.
O pen drive continha uma imagem que não tinha haver com o resto do conteúdo, especialistas criptografaram a imagem e foram levados a um link protegido com senha. Após 20 horas, a senha foi decifrada e o link aberto por 5 minutos. Tempo o suficiente para eles colocarem o horário e o dia da morte de Peter e eles verem um vídeo do ocorrido.
Peter era um homem inteligente e esperto. Ele nunca imaginara que Tory poderia descobrir, mas sempre teve mede de algo acontecer a ela durante o seu tempo fora. Assim, instalou câmeras na casa toda, conectou a transmissão via satélite a um site criado por ele na Deep Web. Para o acesso necessitaria da foto de Tory no pen drive e de sena, um combinação de alfanuméricos. Depois de acessado o site teria uma duração de 5 minutos, neste tempo ele teria que escolher o aposento, colocar o horário inicial e o dia planejados.
Veja bem, o site possuía duas senhas, a primeira só poderia ser colocada manualmente, a segunda um programa de decifração de senha poderia usar. O FBI usou o programa, a senha levava a disponibilização do site, porém a autodestruição seria imediata após fim dos minutos.
Peter McCartney foi um assassino sem sombra de dúvidas, mas ele foi amado e amou. Tory McCartney o amou mutio e com esse amor todo, ela conseguiu viver. Eve e Adam sofreram com as verdades, mas todo Natal e Ação de Graças contavam os melhores momentos de Peter.
Eve e Adam morreram 20 anos depois da morte de seu filho. Tory não se casou de novo, mas adotou alguns cachorros e gatos de rua, coelhos e hamsters. Adotou duas crianças e viver na casa de seus antigos sogros. A morte a levou aos 97 anos, deixando netos e bisnetos.
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