O filho inadequado
1 O filho inadequado
Pois conto que num dia perturbado,
sobre o parapeito debruçado,
de certo estava eu a ouvir
aos sons que custavam a surgir
e às sombras que sob o tão recheado luar
bricavam , sorrateiras, a bailar.
O horror fugia e se percebia
que não havia temor tal qual.
Os que outrora regozijavam alforria,
hoje almejam o dia sepulcral.
Mas vêde que, por bom senso,
já era hora de enfim encontrar
o tempo em que o choro e o lenço
abster-se-iam de se guardar.
Afinal chegara o momento;
e a ópera deu-se magistral.
Ecoando os hurros ensaiados
pela casa que anseia o imoral.
A morbidez era de tal grandeza
que os passos da estranheza -
demonstrando óbvio esforço ao ousar -
com fracasso evidente a se notar,
competir com a destreza
com que os loucos se divertiam a cantar.
Ora, havia chegado o ponto
onde a platéia se ensandecia;
e o filho inadequado
se enchia de agonia.
Olhou aterrado
para o homem sentado
que, num transe aclamado,
admirava a ópera, estarrecido.
Tornou-se para a criança
e notava-se heresia em sua feição;
ao erguer-se junto com o povo
a imunda atração.
Questionou-se o significado
de um ou outro grito,
mas nada é errado
quando é aprovado pelo plebiscito.
E à esta peça torpe e desprezível
foram dadas as maiores condecorações;
afinal seu sentimento ignóbil
é o mais presente nos corações (que eram imundos).
Pois, vestindo-se de amor e zelo,
a besta devorava o que ousava -
por escarnecível esperança -
vencer a escuridão que fora de bom grado
adotada, em uma sórdida vingança,
ao que se proclamava o próprio pecado.
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