O filho do pirata
15 Capítulo Quinze
Gold entra na loja naquele exato momento, sorri malicioso e estreita os olhos, fitando o jovem diante dele. Olha-o de cima a baixo e mantém o sorriso maldoso nos lábios finos. Belle avança para o marido e aperta-lhe os ombros.
– Onde você esteve? Fiquei sentindo dores e não tinha como comunicar-me para pedir ajuda! Nossa filha estava doente e fui socorrida por este rapaz! Onde você esteve?
Gold dá a volta no balcão e fica de costas por alguns segundos, antes de se voltar para os visitantes. Mostra-se furioso e prestes a atacar alguém, quando percebe que o som estridente da voz de Belle, havia parado. Olha incrédulo a cena de Andreas com o pequenino aconchegado junto ao peito, envolvendo-o com seus braços protegidos pelas mangas fofas daquela camisa antiquada.
– O que fez a ela?
Os olhos grandes e brilhantes de Andreas voltam-se para o dono da loja. Olham-se por algum tempo e Gold estremece ao identificar os olhos de outro alguém naquele rosto jovem. Olhos perversos e cínicos naquela mesma cor.
– Ela queria apenas contato com a pele. Deparou-se com meu peito descoberto e aconchegou-se contra a pele quente. Coisa simples! Ela não quer os tecidos.
– Fico devendo uma a você. – Gold olha para Marlene. – Quem é você?
– Sou Marlene e sou amiga de Andreas. Viemos a este reino para também encontrar o senhor. Conversamos com algumas pessoas e fomos informados de que o acharíamos aqui.
– Você está como um belo animal! Como isso aconteceu? Deve ter irritado alguém.
Marlene balança a cabeça.
– Fui uma menina desobediente e fui punida. Minha mãe não me perdoou pela vergonha que minha família passou ao ter uma filha empunhando uma arma na guerra contra os ogros.
– Eu lutei nessa guerra.
– O senhor é homem e era obrigatório o alistamento. Porém, eu fui por desejo meu. Fiquei travestida de homem e lutei, para depois ser agraciada com esta punição. Viemos na esperança de que o senhor pudesse ajudar-me.
Gold sorri irônico.
– Acha que fazer o bebê parar de chorar é o suficiente como pagamento pelo acordo?
Belle aproxima-se do balcão. Encara o marido.
– Rumple, ele surgiu no momento em que eu havia envenenado minha filha! Ele a limpou e a salvou! Isso era a sua obrigação, mas onde estava no momento em que precisei de sua ajuda? Acha pouco o que ele fez ao salvar minha filha.
Andreas levanta-se e vai entregar a criança para a mãe. Ergue o rosto e exibe um olha sereno desta vez.
– Temos um feijão mágico para negociar, senhor.
Gold ainda olha incrédulo para a calma do bebê. Conseguia encarar com naturalidade a existência de uma égua falante sentada em sua loja, mas não aceitava a empatia de sua filha com aquele desconhecido, quase conhecido.
– O que querem que eu faça em troca do feijão? – o advogado ignora os apelos de sua esposa.
– Devolver-me à minha forma humana. Quero poder fazer tudo o que uma mulher faz.
O homenzinho de aura escura sorri sem exibir os dentes. Levanta as sobrancelhas e aperta os lábios finos. Fica pensativo.
– Certo, então temos um trato. Voltem depois e terei a solução para o que você acredita ser problema. Mas saibam que toda magia tem um preço. Está disposta a pagar?
– Farei a análise e responderei amanhã. – Marlene levanta-se e bate uma das patas dianteiras no soalho da loja.
Gold volta sua atenção para o rapaz de olhar conhecido. Não estava apreciando a familiaridade. Aquele rosto suave tinha traços já vistos em outro rosto e ele não estava disposto a acreditar em suas desconfianças.
– Você tem traços em seu rosto que provocam incômodo em minha alma.
– Apenas posso lamentar. O senhor irá ajudar minha amiga?
Gold passa seus olhos para a égua e depois para o menino ogro, caladinho e comportado, mas com uma expressão feroz de algum animal que espera a ordem para atacar. Fixa sua curiosidade no jovem desconhecido e recebe sobre si, um olhar perverso e risonho. Imediatamente, a memória de Gold evoca as mais profundas lembranças de fatos e rostos. De fato, aquele rosto trazia traços já vistos e odiados em outro rosto. Não tinha como negar tal semelhança e coincidência. Sorri vitorioso.
– Sim.
Na noite daquele mesmo dia...
Mary dá uma última olhada na mesa e move algum objeto que pensa estar fora da posição. Sorri satisfeita.
– Está tudo perfeito, Mary! — Emma dá mais uma olhada no relógio. – É uma pessoa simples como todos nós!
– Eu não senti isso nos poucos segundos que convivi com Andreas. Ele tem postura elegante e é aristocrático demais para ser um simples camponês. E aquela égua? Aquilo é bizarro!
Emma acha graça nas palavras do pai.
– Ela não virá jantar conosco, David. Segundo Killian, virão somente os humanos. Ela concordou em ficar nos estábulos. Contrariada.
– Eu adoraria conhecer o menino ogro! — Mary sorri e leva seus olhinhos para a porta, ouvindo a campainha. — São eles!
Quando ela abre a porta, depara-se com um jovem acompanhando um Killian sorridente. Mary gesticula de forma frenética para que todos entrem em sua casa. Killian cumprimenta a todos os adultos e mantém o sorriso nos lábios, mesmo depois de ser beijado por Emma. Ele aponta para seus acompanhantes.
– Quero que conheçam uma pessoa importante em minha vida passada! E-este jovem é Andreas! Este pequeno é Petrus!
Mary e David se aproximam para saudar os recém-chegados. São retribuídos com extrema elegância pelo rapaz.
– Elisa Verbenas foi uma grande amiga e salvadora de minha vida! É a mãe de Andreas! — Killian envolve Andreas pelos ombros num abraço. O rapaz sorri. – E este jovem é meu... é meu...é o m-meu...meu...
Percebendo a súbita insegurança de Killian e o forte embaraço surgido em seus belos traços, Andreas adianta-se e luta para ocultar sua dor da decepção.
– Sou é um velho amigo do Capitão Jones. Ambos tínhamos uma amiga em comum e ela me incumbiu de encontrar o capitão! — Andreas abaixa os olhos e pisca várias vezes, tentando recuperar-se daquela vergonha pública. Havia sido nitidamente rejeitado pelo pai que mal tinha conhecido. Percebe o constrangimento de Killian quando se afastam do abraço.
O jantar é servido.
– Como conseguiram chegar até aqui? — pergunta Mary.
– Viemos por um portal aberto por um feijão mágico. — Andreas mostra uma serenidade incômoda. Parecia flutuar sobre a cadeira, tamanha atitude altiva de sua parte. – Minha mãe confiou-me uma tarefa com o Capitão.
– Já conheceram a cidade?
Andreas tenta sorrir, mas seus músculos não obedecem.
– Não teremos tempo hábil. Vim em busca de dois objetivos e preciso atingi-los o mais rápido possível. Não posso demorar mais do que já demorei. Minha mãe está esperando minha volta.
– É verdade que você tem um cavalo falante? — Henry se manifesta perguntando para Andreas, percebendo sua timidez.
Os olhos de Andreas se levantam e de forma lenta e pesada fitam o adolescente. A maneira como pisca e levanta o queixo em postura desafiadora, provoca um súbito arrepio no casal real e em Emma.
– Marlene é minha amiga. Não é meu animal. Ela favoreceu a minha fuga quando roubei a vagem com os feijões. Em troca, passamos a viajar juntos, jovem príncipe.
– Mas ela fala?
– Marlene era uma jovem que sofreu um ataque vil. Foi transformada num magnífico animal de porte real. — Andreas não consegue sentir-se à vontade.
– Eu amaria conhecer melhor o menino ogro. Ele consegue falar? — diz Mary levantando-se para encher os copos. Ela gesticula para que Andreas continue sentado. Era a terceira vez que ele fazia alusão a levantar-se quando ela saía de sua cadeira. — Já lhe disse que aqui os costumes são diferentes, Andreas!
Ele apenas levanta uma das sobrancelhas.
– Petrus é muito sagaz. É uma criança híbrida e por isso deve ser protegida. — Andreas fala calmamente. — Isso é o bastante!
Emma não consegue disfarçar seu encanto e curiosidade sobre aquele jovem tão bonito e misterioso. Ela sabia que exalava mentira, mas exatamente onde?
– Há uma mansão abandonada na colina desta cidade. A casa está intacta e vocês poderiam ficar nela. Há espaço para todos, incluindo Marlene. — Emma sorri e aperta a mão de Killian, percebendo que o homem não desviava os olhos da direção do belo moreno de longos cabelos, como se aquela visão o embriagasse.
– O Capitão Jones já nos disse sobre este lugar. Caso fiquemos um tempo maior neste reino, precisaremos de um espaço que não invada a privacidade da Rainha. – o rapaz fala suavemente
Pai e filho se encaram.
– Pensei que fossem estabelecer moradia aqui. – David sorri tentando ser cortês e deixar os visitantes à vontade.
– Eu tenho que retornar, Alteza. Vim apenas em busca de conhecimento que facilite o trabalho de minha mãe. E também para que Marlene seja ajudada. Não temos pretensão de ficar.
– Há lugar para todos em Storybrooke, meu rapaz. — Killian sorri amável e envergonhado.
Andreas exibe um movimento que poderia ser identificado como sorriso. Rapidamente abaixa os olhos numa forte demonstração de desconforto e timidez.
– Eu poderia ver sua égua amanhã? Tenho curiosidade! – pergunta Henry demonstrando ansiedade e curiosidade.
Lentamente, os olhos pesados de Andreas, protegidos pelos cílios escuros e pelas sobrancelhas espessas fixam-se profundamente no rosto risonho do adolescente. O homem não exterioriza, mas estava rotulando a inconveniência de Henry.
– Lamento, jovem príncipe, porém terei de ser rude em minha resposta. Quero que saiba que meus amigos não estão expostos em um circo de aberrações para sanarem a curiosidade de nobres como você. – ele se levanta e empertiga-se. Estende a mão para Petrus e o menino se levanta sem questionar ou lamentar o abandono da refeição. – Agradecemos imensamente à honra de estarmos à mesa desta família real, entretanto precisamos sair.
– Esperem! – David levanta-se e toca o ombro de Andreas, depois olha para Killian pedindo ajuda. Espanta-se ao encontrar o pirata embevecido e hipnotizado pelo visitante. Sorria abobalhado. – Eu acredito que meu neto não teve a intenção de ofender alguém!
Mary suaviza a situação com um sorriso maternal.
– Eu gostaria de ser sábia neste momento e contornar este desconforto. Infelizmente, tudo o que posso fazer é pedir desculpas e implorar o seu perdão.
– Entendo a impulsividade da juventude. – Andreas afasta-se da mesa. – O horário é avançado e todos precisam descansar. Capitão, poderia acompanhar-nos até o casarão?
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