Quando Andreas entra na taverna, a noite já havia caído fazia algum tempo. Seus companheiros estavam aflitos com a demora do rapaz, uma vez que Marlene chegara antes e o deixara para trás. Havia obrigado o homem a andar a pé, como punição pelas palavras machistas, embora Andreas afirmasse que tinha sido a única forma de tirá-la da consumação da tristeza. Sem perdão!

Depois dos abraços de boas vindas, vieram as bofetadas dos pais como nova punição pela desobediência e trapaça. Mas nada iria impedir as piadas diante da situação ridícula criada por ele e por Marlene. Agiam como a um casal típico de humanos.

Enquanto os viajantes estavam alimentando-se, Gold e Killian analisavam o espelho com a ajuda dos companheiros e da dona da taverna. Evocavam informações em seus conhecimentos, para descobrirem como utilizar-se do objeto para a abertura do portal.

– Por que o espelho estaria naquela aldeia? Como ele ocasionou a expulsão dos moradores? – Cosme toca o objeto com a ponta do dedo. – É certo que ele se alimentava das almas tristes.

– Por isso a tristeza tomou tanta força e criou um campo de proteção a quem quisesse pegá-lo. – complementa Killian. – Também é certo que emoções contrárias à tristeza, quebraram essa proteção.

– Então, podemos crer que emoções positivas provocam o funcionamento do espelho, senão alguém não teria a preocupação de evitar que se aproximassem dele. – Gold olha o objeto com sua costumeira e falsa tranquilidade. – Para que essa geringonça funcione, teremos de provocá-la.

– Como produzir alegria? – pergunta Martino. – Seria algo forçado e sem valor!

– Não, se as pessoas que se alegrarem, desconhecerem o nosso objetivo. – opina Killian observando o retorno de Andreas e Marlene. Ele não contém o riso diante da expressão desconfiada do filho. – Fizeram as pazes?

Marlene bufa e tenta abocanhar Andreas. Ele se afasta e pede ajuda aos pais, com aquele olhar desconcertado.

– O que o senhor pensa de fazermos uma pequena festa? – sugere a dona da taverna. – Convidaríamos algumas pessoas animadas, daríamos carne e cerveja, boa música e dança. Isso provocaria alegria!

– E este filhote de aspargo poderia dançar em cima das mesas, bebendo e tirando as roupas. – rosna Marlene olhando Andreas com desdém.

– Filhote de aspargo? – ele se volta para Martino. – O que é aspargo?

O homem grisalho dá de ombros e nega conhecer a resposta.

– Não sei, mas tem uma boa sonoridade!

Horas mais tarde, a taverna é recheada pelo som das vozes e gargalhadas humanas. Música era tocada em instrumentos rústicos e acompanhada por palmas e batidas sobre a madeira das mesas. Exceto por Gold que não conseguia ver significado ou interesse naquela movimentação, os demais companheiros de jornada divertiam-se e esqueciam-se por momentos, da verdadeira função da festa.

Lá pelas tantas, a gritaria aumenta quando Andreas usa uma das mesas como palco para sua dança. Sob o efeito de inúmeras cervejas e incentivado pelas moças ali presentes, ele dança e atiça o imaginário coletivo.

– Eu não sugeri que ele fizesse isso! – rosna Marlene. – Foi apenas uma provocação, Capitão! Faça alguma coisa ou serei realmente o animal irracional!

Killian acha muita graça na demonstração de ciúmes da jovem aprisionada naquele corpo equino. Por ela, teriam de abrir o portal e devolver a felicidade que havia encontrado ao lado de quem amava. Ele gesticula e tenta acalmar a jovem, mas observa movimentos de Gold, acenando para ele.

– Há novidades! Traga Andreas e os outros!

Na adega da taverna, o grupo é reunido em torno do espelho que se movia desde o ápice da animação da festa. A lente do objeto tremia como se algo quisesse ser libertado lá de dentro.

– Quem quer sair daí? – pergunta Andreas alterado pela bebida, mas consciente. Apenas havia perdido parte de seus pudores. – Precisamos que sai e responda nossa pergunta!

Gold o afasta do espelho e o faz sentar-se à força.

– Fique quieto, menino! Já falou e fez besteiras demais num espaço pequeno de tempo!

O advogado volta-se para o objeto e toca sua lente com cuidado.

– Mostre-nos como abrir o portal. – o tom de voz é imperativo, mas gentil.

Imediatamente, um som abafado começa a ser emitido do espelho, com se uma voz estivesse abafada.

– Pode falar e dizer-nos como abrir o portal?

O som era de fato uma voz. Uma voz feminina, que pausadamente fala:

– Apenas três almas passam. Apenas três almas passam.

Em seguida, o espelho começa a aumentar seu diâmetro e em poucos segundos, um imenso buraco oval, brilhante em uma luz amarelada, surge no chão da adega. Ao contrário do portal aberto pelo feijão, não exercia força de atração aos corpos.

Antes de qualquer reação de seus companheiros, Andreas atinge Gold e o empurra para dentro da abertura brilhante. Killian grita e apenas sente um soco ser desferido contra sua têmpora. Despenca dentro do buraco.

Cosme e Martino ficam sem ação, enquanto Marlene e Andreas apenas olham-se.

– Vá, meu amor! Sua presença é mais necessária do que a minha! – Marlene diz com a voz embargada. Cresce o amor dentro dela. – Lá você terá seus pais, terá Gladius e os piratas, além do amor de Petrus. Eles precisam mais de você, do que precisam de mim!

Andreas nega com a cabeça e dá passos para trás.

– Jamais! Eu vim até aqui porque meu coração me trouxe. Não foi minha razão. Ou atravessaremos os dois ou ficaremos os dois!

– Atravessarão os dois. – a voz suave de Martino é ouvida. Recebe os olhares sobre si. – É mais do que certo que vocês dois tiveram uma história juntos do outro lado do portal. Não será justo com nenhum dos dois, separar esta história.

Andreas sente os olhos queimarem pelas lágrimas. Sorri amplamente e pode jurar que vê um sorriso na criatura que abrigava a alma de uma jovem.

Martino continua:

– Eu acredito que vocês viveram um grande amor e certamente transformaram sua carne e sua alma, numa só. Caso eu esteja enganado em minha teoria, o portal devolverá um dos dois e o outro terá de aprender a viver sozinho. Vocês precisam apenas arriscar antes que o portal seja fechado.

Marlene não consegue responder. Não há palavras em seu vocabulário.

– O que estão esperando? Vão!

Andreas abraça Martino rapidamente e depois beija Cosme na testa. Segura as rédeas de Marlene e a conduz para dentro do portal para comprovarem a teoria de Martino.