O filho de Hades
3 Filho dos Mares.
PERCY
Após Nico sair, Percy resolveu ir dormir um pouco.
Em seu sonho, encontrava-se no Mundo Inferior (aquele lugar lhe dava arrepios) , à beira do rio Lete, mas havia algo se mexendo dentro dele... parecia um corpo. Percy resolveu olhar mais perto e chegou à conclusão de que era uma pessoa. Não soube o que fazer, mesmo sabendo que estava em um sonho, não podia pular ali e simplesmente sair intacto; em seus sonhos, os semideuses podem se machucar.
A cena mudou.
Ainda estava no Mundo Inferior, na casa de Hades, em frente à lareira. Ao seu lado viu um menino com cabelos pretos e bagunçados, olhos profundos e roupas escuras: era Nico.
–Pai.
Percy notou a quem ele se referia, o deus dos mortos encontrava-se na sala também, e digamos que não estava de bom humor.
–Sabe, eu esperava mais de você.- disse o deus, rispidamente.- Eu devia ter deixado Bianca sobreviver, aposto que ela não me decepcionaria.- Hades lançou um olhar frio para Nico.
Diante desse nome, Percy notou o pavor de Nico.
–Ent-tão... Qual será meu castigo?
–Seu castigo?- riu Hades.- Eu não diria que isso seja um castigo, mas sim um recomeço.
–Recomeço?- perguntou Nico.
–Vamos dar uma volta. Venha.
A cena mudou. Encontrava-se novamente no Lete, ainda com Nico e seu pai.
–Está vendo este rio?- disse Hades, apontando para um local de águas negras.
–Rio Lete.- afirmou Nico, friamente.
–Sim. Ele serve para...
–"Para fazer você esquecer de todas as suas lembranças e memórias do passado e do presente", eu sei, você vive falando sobre ele.
–Pelo jeito você se lembra. Mas já está na hora de esquecer.
Percy não entendeu. Porém não houve tempo para pensar, Hades já tinha jogado Nico no Lete. Tentou gritar, espernear, mexer os braços, tudo, mas como era um sonho, sua voz não saiu. Acordou em um sobressalto.
–Nico!- quando viu, estava chorando. Não era possível, os deuses, pelo jeito, só querem desgraça para sua vida. Todos que Percy amava foram embora, e quando se apaixonou por Nico, ele também se foi.
Tinha que ir ao Mundo Inferior, quem sabe Nico tinha sobrevivido. Porém, esqueceu de quem era, e provavelmente se esqueceu de Percy. Saiu do quarto e foi correndo para os estábulos, onde havia deixado a Sra. O'Leary.
–Vamos, garota, precisamos ir ao Lete, já!
***
Foi uma longa viajem pelas sombras, porém chegaram. Não havia sinal de Nico, isso significava que ainda estava no Lete. Percy calculou a profundidade do rio, o que deu apenas um metro. E se tentasse puxar Nico? Afinal, tinha que mergulhar por inteiro para perder suas memórias. Então, colocou os braços dentro do rio e puxou Nico de volta. A água havia queimado toda sua pele, o menino estava em carne viva, como se tivesse acabado de chegar do Tártaro.
–Nico.- Percy tentou reanima-lo.- Nico... por favor, responda.
Lentamente, o filho de Hades foi abrindo os olhos, quando viu Percy, sorriu.
–Onde... onde estamos?- disse ele, com a voz rouca.- Eu me lembro de você.- sorriu, e Percy também.
–Estamos no Mundo Inferior, na beira do rio Lete. Seu pai tinha o jogado aqui, para que se esquecesse de tudo e pudesse recomeçar sua vida.
–Que... quem é me-meu pai?- perguntou Nico.- P-por que ele fez isso?
–Seu pai é um deus. Hades, o deus da morte. Assim como eu, você é um semideus, metade humano e metade deus, sou filho de Poseidon, deus dos mares. Vivemos no Acampamento Meio-Sangue, onde semideuses como nós treinam para sobreviver contra monstros ou coisas do tipo.- uma lágrima escorreu pelo rosto de Percy, imaginou como seria se esquecer de tudo, de todos os momentos felizes que passou.- Ele fez isso porque você se apaixonou por mim, e... digamos que ele me odeia, longa história.
Nico havia dito que se lembrava de Percy, mas como? Quando alguém cai no rio Lete, todas suas memórias são apagadas. Ele também tinha sobrevivido, talvez seja porque é filho de Hades e o Mundo Inferior lhe dê forças, Percy não sabia.
–Venha, vamos sair daqui- disse Percy.- Sra. O'Leary, você pode nos levar?- recebeu um "wolf" como resposta, Percy encarou isso como um sim.
–Mas já vão embora? Que tal ficar mais um pouco e... Percy Jackson- os garotos se assustaram ao olhar para trás, pois deram de cara com um rosto familiar, frio e pálido. Sem duvidas, era Hades.- Creio que esteja levando seu amigo para o acampamento.
–O que você quer?- perguntou Percy, lançando-lhe um olhar desconfiador.
–Sendo sincero, quero que você morra. Mas não posso fazer isso, o Olimpo se voltaria contra mim. Você sempre tem que arruinar tudo, não é mesmo, Jackson?- respondeu Hades, olhando-o como se Percy fosse uma espécie estranha de animal- Mas agora seu plano falhou, você não vai embora com meu filho tão rapidamente.- o deus dos mortos pegou sua espada, era parecida com a de Nico, só que maior e mais afiada. Percy sacou Anaklusmos, e o deus atacou, fazendo um corte profundo em sua testa.
Como doía. E como se não bastasse, Hades aproveitou para bater em sua cabeça com o punho da espada, derrubando Percy no chão. Não tinha chances de vencer; afinal, estava no Mundo Inferior, a casa de Hades, e quando um semideus entra no território que não seja de seu pai divino, seus poderes não funcionam.
Percy tinha que fazer algo. Tinha que sair dali, ou pelo menos deixar Nico vivo, não podia perder mais ninguém. Todavia, Hades era forte, e Percy não tinha nenhuma vantagem no local onde se encontravam; não tinha água, nem contato com seres do mar.
Teve uma ideia. Se concentrou o máximo possível e chamou Blackjack.
E aí chefe, precisando de ajuda? perguntou o pégaso, em sua mente.
Venha, rápido, ajuda, Hades, Nico, Mundo Inferior.Percy não conseguia pensar direito, o corte sangrava cada vez mais.
Percy tentou se levantar, ergueu sua espada e atingiu Hades no ombro direito, pois era o braço que segurava sua espada. Ouviu trovões, Blackjack apareceu voando destemidamente pelo céu; chegou mais perto e deu um coice em Hades.
Havia pouco tempo o deus estava sangrando dourado, mas agora estava sem cortes e dores, pronto para a batalha. Pegou sua espada do chão e fez um corte no lugar onde se encontrava o pulmão de Blackjack, fazendo-o cair. Uma lágrima escorreu pelo rosto de Percy, medo e ódio tomavam conta de seu corpo. Brandiu Anaklusmos, e atacou.
Percy saiu correndo até Hades, desviou de um golpe e enfiou a espada em sua testa, fazendo sair icor de sua cabeça. O deus caiu no chão, e ficou imóvel por um tempo. Percy aproveitou para ajudar Blackjack, e, ao ver o cavalo sangrando no chão, mal conseguiu respirar.
–Percy...- disse Nico, com a voz trêmula. Já havia esquecido que o garoto estava ali.- Me desculpe.
–Você não tem pelo quê se desculpar, Nico.- disse Percy, ainda olhando para o pégaso.- Foi tudo culpa minha, não devia ter chamado Blackjack.
Nico o abraçou, e sussurrou: "vai ficar tudo bem". Percy enxugou as lágrimas.
–Vamos voltar antes que ele acorde.- disse Percy, apontando com a cabeça para o deus.- Sra. O'Leary, pronta?
Os dois subiram no cão infernal, Nico atrás de Percy, segurando em sua cintura.
NICO
Foi longa viajem até o acampamento, mas enfim chegaram.
–Quíron! Quíron!- chamou Percy. Nico ficou confuso, quem era esse Quíron?
–Estou aqui.- disse um homem meio humano meio cavalo saindo dos estábulos.
–Quíron, temos um grande problema. Hades empurrou Nico no rio Lete, agora ele não se lembra de nada. E Blackjack...- disse Percy, quase sem ar, contendo o choro.
–Mas por que Hades fez isso? E o que vocês estavam fazendo lá? E o que aconteceu com Blackjack?
Percy contou o que houve, agora Nico entendeu o que estava acontecendo.
–Namorados?- estranhou Quíron- Bem, o papo não é esse. Acho que sei uma solução...
–Sem soluções. Vamos lembrá-lo de quem ele é e o que ele fez por todos esses anos — interrompeu Percy- E não vamos lembrá-lo de suas mágoas e perdas- sussurrou Percy.
***
Após ficar horas ouvindo: você é Nico di Angelo, filho de Hades, fez blá blá blá e aconteceu blá blá blá, Nico já estava cansado, então resolveu deitar um pouco em seu chalé.
Ficou um tempo olhando para o teto, pensando em tudo o que ouviu e aconteceu, até que Percy entrou.
–Se sentindo bem?- perguntou, sentando na sua cama.
–Melhor agora que estou com você -sorriu.
Percy deitou ao seu lado na cama, colocou um dos braços em volta de Nico e o outro segurando sua mão, e assim se beijaram por um longo tempo, mas dessa vez, um beijo de verdade, de língua. Quando o beijo acabou, Percy encostou os lábios em seus ouvidos e disse:
–Te amo mais que comida azul.
Agora Nico sabia por quê não tinha se esquecido de Percy: ele não estava em sua cabeça, e sim em seu coração.
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